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Meus olhos em voce

O Gosto de Ferro e o Brilho das Estrelas

A luz da manhã em Seul tinha uma tonalidade pálida, quase clínica, que atravessava as cortinas de linho da cobertura. Jungkook acordou com a sensação de que o mundo, por um breve momento, estava em paz. Mia ainda dormia profundamente ao seu lado, o rosto sereno contra o travesseiro de seda, embora a palidez de sua pele parecesse mais acentuada sob a claridade natural. Ele permaneceu imóvel, observando o movimento rítmico e frágil de seu peito, temendo que qualquer movimento brusco pudesse quebrar o feitiço daquela noite perfeita.

A revelação sobre a mãe de Mia ainda ecoava em sua mente. Ele entendia agora que a coragem dela não era apenas um traço de personalidade; era um ato de rebeldia contra um destino que tentara apagá-la antes mesmo do nascimento. Ela era uma sobrevivente, assim como ele.

— Você está me encarando de novo — sussurrou Mia, sem abrir os olhos. Um pequeno sorriso brincou em seus lábios, embora sua voz estivesse mais rouca do que o normal.

— É difícil não encarar quando se tem a vista mais bonita da cidade bem aqui — respondeu Jungkook, inclinando-se para beijar a testa dela.

Mia abriu os olhos lentamente. Havia uma névoa de cansaço neles que ela não conseguia mais esconder. Ela tentou se sentar, mas uma careta de dor cruzou seu rosto, e ela levou a mão ao abdômen instintivamente.

— Tudo bem? — perguntou ele, a preocupação disparando como um alarme em seu peito.

— Sim — mentiu ela, respirando fundo. — Só o meu corpo me lembrando que eu não tenho mais dezoito anos. Vamos levantar. Prometemos ao Jimin que iríamos visitá-lo hoje com o resto do pessoal.

Eles se prepararam devagar. Mia levou quase uma hora para se arrumar, parando diversas vezes para descansar. Jungkook a ajudou com os sapatos, sentindo o quanto os tornozelos dela estavam inchados. Ele queria sugerir que ficassem em casa, que ela descansasse, mas sabia que para Mia, cada encontro com o grupo era uma vitória sobre a doença. Ela não queria ser poupada; ela queria viver.

O encontro foi marcado em um parque próximo à clínica onde Jimin recebia tratamento. O dia estava fresco, com o cheiro de folhas secas e o som distante do tráfego. Namjoon e Jin já estavam lá, montando uma toalha de piquenique sob uma grande árvore de ginkgo. Meilin estava em um cercadinho improvisado na grama, tentando alcançar uma folha amarela que caíra perto dela.

— Olha quem chegou! — exclamou Hoseok, acenando com entusiasmo. Ele parecia mais vibrante, o brilho nos olhos retornando aos poucos, como se a união do grupo estivesse curando sua própria melancolia.

Taehyung e Yoongi chegaram logo depois. Taehyung trazia a irmãzinha pela mão; a menina sorria timidamente, escondendo-se atrás das pernas do irmão. Yoongi trazia uma sacola com lanches, seu semblante mais leve, embora ainda carregasse a seriedade que lhe era característica.

Jimin apareceu acompanhado por uma enfermeira que o deixou a uma distância segura, observando de longe. Ao ver os amigos, o rosto de Jimin se iluminou de uma forma que fez o coração de todos apertar. Ele correu os últimos metros, abraçando Namjoon e depois Mia com uma força surpreendente.

— Eu senti tanta falta de vocês — disse Jimin, a voz embargada. — As paredes lá dentro... elas ficam menores quando vocês não estão.

— Nós estamos aqui agora, Chim — disse Mia, segurando as mãos dele. — E não vamos a lugar nenhum.

A tarde transcorreu como um sonho que eles temiam acordar. Eles comeram, riram das piadas sem graça de Jin e observaram Taehyung ensinar a irmã e Jimin a fazerem coroas de flores. Por algumas horas, eles não eram o "menino quebrado", o "órfão do incêndio" ou a "garota moribunda". Eram apenas jovens aproveitando o sol.

Mas, conforme a tarde avançava, o clima começou a mudar. Mia, que estivera rindo de uma história de Namjoon, silenciou-se subitamente. Sua mão, que estava entrelaçada na de Jungkook, apertou-a com uma força desesperada.

— Mia? — Jungkook perguntou, virando-se para ela.

Ela não respondeu. Sua pele, que já estava pálida, assumiu um tom acinzentado. Ela tentou respirar, mas o som que saiu de sua garganta foi um arquejo seco e doloroso.

— Mia, fala comigo! — Jungkook se ajoelhou na frente dela, o pânico subindo por sua garganta.

O grupo parou instantaneamente. O riso de Jimin morreu no ar. Jin se levantou rapidamente, entregando Meilin para Sarah, que acabara de chegar com mais bebidas.

— O que está acontecendo? — gritou Taehyung, aproximando-se.

Mia levou a mão à boca, tossindo violentamente. Dessa vez, não foi apenas um pouco de sangue. O lenço que ela puxou do bolso ficou instantaneamente encharcado de um vermelho vivo e assustador. Ela tentou se levantar, mas suas pernas cederam. Jungkook a segurou antes que ela atingisse o chão, sentindo o corpo dela tremer de forma incontrolável.

— Ela não consegue respirar! — gritou Jungkook, as lágrimas já inundando seu rosto. — Mia! Mia, olha para mim!

— O pulso dela está muito rápido — disse Jin, ajoelhando-se ao lado deles e tentando manter a calma profissional que sua vida de responsabilidades lhe forçara a ter. — Namjoon, ligue para a ambulância! Agora!

O caos se instalou. Namjoon gritava ao telefone, tentando dar a localização exata. Yoongi estava paralisado, as mãos tremendo, a visão do sangue de Mia trazendo de volta memórias do incêndio que ele lutava para esquecer. Hoseok abraçava Jimin, que começara a chorar compulsivamente, o trauma da clínica ameaçando retornar com força total.

— Jungkook... — a voz de Mia foi apenas um fio, um sussurro quebrado entre as tosses.

— Eu estou aqui, meu amor. Eu estou aqui. Fica comigo, por favor, fica comigo! — Jungkook a apertava contra o peito, sujando sua própria camiseta de sangue, sem se importar. Ele beijava o topo da cabeça dela, implorando a qualquer deus em que nunca acreditara para não levá-la agora.

— Dói... — ela gemeu, os olhos revirando para trás. — Kookie... dói muito.

— Eu sei, eu sei, a ajuda está vindo. Aguenta firme, Mia. Você é corajosa, lembra? Você é a nossa guerreira.

A ambulância chegou em minutos, mas para Jungkook, cada segundo pareceu uma hora de tortura. Os paramédicos afastaram o grupo com autoridade, colocando Mia em uma maca. Ela estava semiconsciente, a respiração curta e ruidosa.

— Eu vou com ela! — gritou Jungkook, tentando subir na ambulância.

— Só um acompanhante! — disse o paramédico.

— Ele vai! — Jin interveio, empurrando Jungkook para dentro. — Nós vamos logo atrás. Vá, Jungkook! Não solte a mão dela!

As portas se fecharam com um estrondo metálico, e a sirene começou a uivar, cortando o silêncio do parque. Dentro do veículo, Jungkook estava em choque. Ele segurava a mão de Mia, que estava gelada. O paramédico trabalhava freneticamente, colocando uma máscara de oxigênio nela e puncionando uma veia.

— Ela está entrando em choque hipovolêmico por causa da hemorragia — explicou o paramédico para ninguém em particular. — Precisamos estancá-la internamente.

Jungkook não ouvia os termos técnicos. Ele só via Mia. A garota que, na noite anterior, lhe entregara sua alma, agora parecia estar se esvaindo entre seus dedos.

— Você prometeu — ele sussurrou perto do ouvido dela, as lágrimas caindo sobre a mão dela. — Você prometeu que íamos ver o Yoongi tocar. Você prometeu que ia me ensinar a ser visível. Você não pode quebrar essa promessa, Mia. Não agora.

Ao chegarem ao hospital, a maca foi retirada em alta velocidade. Jungkook correu ao lado deles até ser barrado pelas portas duplas da emergência.

— Você não pode passar daqui, senhor! — uma enfermeira o segurou.

— Ela é tudo o que eu tenho! — Jungkook gritou, tentando lutar contra os braços que o prendiam. — Mia!

Ele desabou no chão do corredor, os nós dos dedos esfolados batendo contra o piso frio. Suas roupas estavam manchadas com o sangue dela, o cheiro metálico impregnando seus sentidos. Ele se sentia pequeno novamente. O menino invisível, o menino quebrado, o menino que o mundo parecia odiar.

Pouco tempo depois, o resto do grupo chegou. Eles entraram na sala de espera como um exército de almas feridas. Namjoon liderava o caminho, com Jin logo atrás carregando Meilin. Taehyung, Yoongi, Hoseok e Jimin vinham em seguida, todos com rostos que refletiam a mesma agonia. Sarah vinha por último, as mãos cobrindo a boca em um choro silencioso.

Ninguém disse nada. Não havia palavras para aquele momento. Jin caminhou até Jungkook e colocou a mão em seu ombro. Jungkook levantou o rosto, e a expressão de desespero absoluto em seus olhos fez Jin recuar um passo.

— Ela vai ficar bem, Jungkook — disse Jin, embora sua própria voz estivesse instável. — A Mia é forte.

— Ela estava morrendo nos meus braços, Jin — Jungkook disse, a voz vazia. — O sangue dela... eu podia sentir a vida dela saindo. Por que o mundo faz isso? Por que a gente finalmente se encontra e o destino decide nos destruir de novo?

— O destino não manda na gente — disse Yoongi, aproximando-se. Ele se sentou no chão ao lado de Jungkook, ignorando o luxo do hospital. — A Mia nos ensinou isso. Ela lutou desde antes de nascer. Ela não vai parar de lutar agora.

As horas passaram como se o tempo estivesse submerso em óleo. Cada vez que a porta da emergência se abria, o grupo se levantava em uníssono, apenas para ver um médico passar por eles sem olhar. O pai de Mia chegou duas horas depois, vindo direto do aeroporto. Ele estava pálido, o terno caro amassado, a máscara de homem de negócios completamente destruída.

Ele olhou para o grupo de rapazes maltrapilhos e, pela primeira vez, não viu estranhos ou "más influências". Ele viu as pessoas que sua filha amava. Ele caminhou até Jungkook.

— Você é o rapaz de quem ela fala nas cartas? — perguntou o Sr. Lencov, a voz trêmula.

Jungkook levantou-se devagar, encarando o homem que Mia tanto temia e, ao mesmo tempo, amava.

— Eu sou o Jungkook.

O homem assentiu, as lágrimas finalmente caindo.

— Obrigado por estar com ela. Eu... eu não soube ser o pai que ela precisava. Eu achei que o dinheiro a manteria segura.

— Ela não precisava de dinheiro — disse Jungkook, sem agressividade, apenas com a honestidade de quem não tinha mais nada a perder. — Ela precisava de tempo. E de amor.

O médico finalmente apareceu. Ele retirava a máscara cirúrgica, o rosto marcado pelo cansaço de uma batalha longa.

— Familiares de Mia Lencov?

Todos se aproximaram, formando um semicírculo ao redor do médico. O Sr. Lencov deu um passo à frente, mas sua mão buscou o ombro de Jungkook, um pedido silencioso de apoio.

— Ela teve uma hemorragia digestiva grave devido à pressão do tumor nos vasos sanguíneos — explicou o médico. — Foi um episódio crítico. Tivemos que fazer uma cirurgia de emergência para cauterizar a área e estabilizá-la.

— Ela... ela está viva? — perguntou Jungkook, o coração parando por um segundo.

— Ela está viva — respondeu o médico, e um suspiro coletivo de alívio ecoou pela sala. — Mas ela está muito fraca. Ela foi transferida para a UTI. O quadro é estável, mas ainda muito delicado. As próximas quarenta e oito horas serão decisivas.

— Podemos vê-la? — perguntou o pai.

— Um de cada vez, por apenas cinco minutos. Ela está sedada.

O Sr. Lencov olhou para Jungkook. Em um gesto que ninguém esperava, ele se afastou.

— Vá você primeiro — disse o homem. — Ela vai querer ouvir a sua voz quando começar a acordar.

Jungkook hesitou, olhando para seus amigos. Namjoon assentiu com a cabeça, incentivando-o. Jimin deu um pequeno sorriso triste.

Jungkook seguiu a enfermeira pelos corredores estéreis da UTI. O som dos bipes das máquinas era ensurdecedor. Quando ele entrou no cubículo de Mia, sentiu o ar sumir de seus pulmões. Ela parecia tão pequena em meio a tantos tubos e fios. Uma máscara de oxigênio cobria metade de seu rosto, e o som rítmico do respirador era a única prova de que ela ainda estava ali.

Ele se aproximou da cama e pegou a mão dela. Estava quente agora, graças às mantas térmicas, mas parecia desprovida de vida.

— Oi, estrela — sussurrou ele, inclinando-se sobre ela. — Eu disse que não ia sair do seu lado, lembra? Eu estou aqui. Todo mundo está aqui. O Yoongi está esperando para tocar a música dele para você. O Jimin está lá fora, e ele está bem, Mia. Você conseguiu.

Ele acariciou o rosto dela, evitando os tubos.

— Você não pode ir agora. A gente ainda tem muita coisa para fazer. Eu ainda não te levei para ver o pôr do sol de cima daquele prédio que você gosta. Eu ainda não te disse 'eu te amo' vezes o suficiente para compensar todos os anos que eu passei sendo invisível.

Uma lágrima de Jungkook caiu sobre o rosto de Mia. Ele a limpou com o polegar.

— Luta por mim, Mia. Luta por nós. O grupo está unido, mas você é o coração. Sem o coração, a gente volta a ser apenas cacos de vidro.

Por um breve segundo, Jungkook sentiu uma leve pressão em sua mão. Foi quase imperceptível, um espasmo, talvez, ou apenas sua imaginação desesperada. Mas ele escolheu acreditar que era ela. Que Mia Lencov, a garota que nascera lutando, estava ouvindo sua voz através da escuridão da sedação.

Ele saiu do quarto cinco minutos depois, sentindo-se exausto, mas com uma fagulha de esperança. Ao voltar para a sala de espera, ele viu o grupo sentado junto. Namjoon estava com o braço ao redor de Taehyung, Yoongi conversava em voz baixa com Jimin, e Jin balançava Meilin, que finalmente dormira.

Eles não eram mais fragmentos dispersos. Eram uma unidade.

— Ela apertou minha mão — disse Jungkook, e o efeito daquelas palavras foi imediato. Os rostos se iluminaram, e a atmosfera pesada da sala de espera pareceu clarear.

A noite caiu sobre Seul, e o hospital tornou-se um refúgio de silêncio. Eles decidiram que não iriam embora. Namjoon e Jin conseguiram algumas mantas, e o grupo se acomodou nas poltronas desconfortáveis da sala de espera, recusando-se a deixar Mia sozinha.

Jungkook encostou a cabeça na parede, fechando os olhos. Ele ainda podia sentir o cheiro de sangue em suas roupas, mas também podia sentir o calor da mão de Mia em sua mente. Ele sabia que o caminho pela frente seria íngreme. O câncer ainda estava lá, a morte ainda rondava, e a vida deles continuaria sendo uma sucessão de batalhas contra a pobreza, o trauma e o abandono.

Mas, enquanto ouvia a respiração pesada de seus amigos ao redor, Jungkook entendeu que a tragédia não os havia separado desta vez. Ela os havia fundido. Eles eram o "menino quebrado", o "menino invisível", o "menino triste", e agora, eram os guardiões de uma garota que lhes ensinara que a beleza reside na coragem de permanecer junto quando tudo desmorona.

— Nós vamos conseguir — sussurrou Jungkook para a escuridão da sala.

E, em algum lugar nas profundezas da UTI, o coração de Mia Lencov continuou a bater, seguindo o ritmo daquela promessa. O sol nasceria em poucas horas, e com ele, uma nova chance de lutar. Porque, para eles, o fim não era uma opção enquanto houvesse um ao outro para segurar a mão.