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Meus olhos em voce

O Beijo Amargo do Absinto e a Fragilidade do Vidro

A luz branca do Hospital Geral de Seul era uma tortura particular para os olhos de Jungkook. Fazia sete dias que o mundo havia parado no corredor da UTI. Sete dias em que o cheiro de antisséptico se tornou seu perfume habitual e o som dos bipes das máquinas se transformou na trilha sonora de seus pesadelos. Mia não havia melhorado. Pelo contrário, ela parecia estar se tornando parte do lençol, cada vez mais pálida, cada vez mais transparente, como se a vida estivesse sendo drenada por um ralo invisível que ninguém sabia como tapar.

Jungkook não aguentava mais. A sensação de impotência era um ácido que corroía seu estômago. Ele olhava para os outros — Namjoon tentando manter a postura, Jin cuidando de Meilin com os olhos vazios, Yoongi trancado em um silêncio sepulcral — e sentia que ia sufocar. Ele era o "menino quebrado", e os cacos estavam começando a cortar sua própria pele novamente.

Naquela noite, ele fugiu. Não para um prédio alto, mas para os becos escuros que conhecia tão bem. Ele precisava apagar o brilho das luzes do hospital. Precisava silenciar os bipes.

A primeira dose de soju desceu queimando, seguida por uma mistura perigosa de comprimidos que ele comprou de um velho conhecido em uma esquina suja. O efeito foi quase imediato. O mundo parou de girar de forma tão agressiva. A dor no peito, aquela pressão constante de ver Mia morrendo, tornou-se um eco distante. Ele bebeu até que seus pés não sentissem mais o chão, até que a invisibilidade que tanto temia se tornasse seu único refúgio seguro.

Na manhã seguinte, com a cabeça latejando e o gosto amargo de bile e álcool na boca, ele voltou para o hospital. Ele cambaleava levemente, mas o desespero o guiava. Ao chegar ao andar da UTI, percebeu uma movimentação diferente. As enfermeiras entravam e saíam do quarto de Mia com pressa.

— Ela acordou — sussurrou Jimin, que estava sentado no chão do corredor, com o rosto inchado de tanto chorar. — Mas ela está sofrendo, Jungkook.

Jungkook não esperou. Ele empurrou a porta de vidro, ignorando os protestos de uma enfermeira que tentava higienizar as mãos.

Lá estava ela. Mia estava sentada, apoiada por vários travesseiros. Ela não tinha a máscara de oxigênio agora, apenas cânulas nasais. Seus olhos, antes tão cheios de vida e aventura, estavam nublados por uma névoa de agonia pura.

— Mia... — a voz de Jungkook saiu arrastada, densa pelo álcool que ainda circulava em seu sangue.

Ela virou o rosto devagar. Ao vê-lo, um lampejo de alívio cruzou suas feições, mas foi rapidamente substituído por algo mais cortante. Ela sentiu o cheiro. O cheiro de álcool barato, de suor frio e daquele odor químico característico de quem buscou refúgio em substâncias perigosas.

— Jungkook — ela disse, e sua voz era um estalo de galho seco. — O que você fez?

Ele se aproximou da cama, tentando focar a visão.

— Eu não conseguia... eu não conseguia ver você daquele jeito. Eu só precisava parar de sentir por um segundo, estrela.

Mia fechou os olhos com força, uma lágrima solitária escorrendo e desaparecendo na dobra do lençol.

— Dói demais, Jungkook — ela gemeu, e não era apenas da doença que ela falava. — Dói o meu corpo, parece que tem vidro moído nas minhas entranhas. Mas dói mais ver você se destruindo enquanto eu luto para ficar aqui mais um minuto.

— Eu estou aqui agora! — ele exclamou, aumentando o tom de voz sem perceber, o que fez a enfermeira entrar no quarto com um olhar de advertência.

— Você está aqui? — Mia abriu os olhos, e neles havia uma fúria que Jungkook nunca vira. — Você está bêbado! Você está drogado! Você cheira a derrota, Jeon Jungkook! Eu passei sete dias em um limbo, tentando voltar para você, e você volta para o lixo?

— Você não entende! — ele gritou, os braços gesticulando de forma errática. — Eu sou um lixo! Eu sempre fui! Você é a única coisa boa que eu tive, e você está me deixando! Como você quer que eu fique sóbrio assistindo o meu mundo acabar?

— Eu não estou te deixando, eu estou sendo arrancada! — Mia tentou se inclinar para frente, mas a dor a atingiu como um soco físico. Ela soltou um grito curto e agudo, levando as mãos ao abdômen. — Ai, meu Deus... dói demais...

Jungkook entrou em pânico. O álcool em seu cérebro transformava a preocupação em uma histeria confusa.

— Mia! Calma, não se mexe! Você não pode passar raiva desse jeito! Os médicos disseram que você tem que ficar calma, droga!

— Então saia! — ela gritou de volta, a voz falhando. — Saia daqui se você vai ser esse covarde! Eu não quero que a última imagem que eu tenha de você seja essa... esse menino que se esconde em garrafas porque não aguenta a realidade.

— Eu não sou covarde! — ele rebateu, as lágrimas agora escorrendo livremente, misturando-se ao suor de sua ressaca. — Eu só amo você demais e eu sou quebrado, Mia! Você sabia disso quando me escolheu!

— Eu te escolhi porque achei que você era forte o suficiente para carregar a minha memória! — Mia tossiu, e um rastro de sangue fresco apareceu no canto de sua boca. — Mas se você vai se matar porque eu estou morrendo, então todo o meu esforço foi em vão. Todo o grupo... o Namjoon, o Yoongi... todos estão tentando ser melhores por causa da nossa união. E você está jogando tudo fora.

Jungkook recuou, batendo as costas na parede fria do quarto. O impacto pareceu trazer uma clareza dolorosa. Ele olhou para as próprias mãos, que tremiam violentamente. Ele olhou para Mia, o amor de sua vida, que estava sofrendo fisicamente e agora sofria emocionalmente por causa dele.

— Eu só queria que a dor parasse — ele sussurrou, a voz quebrada, o efeito das drogas começando a dar lugar a uma depressão profunda e paralisante.

— A dor não para, Jungkook. A gente aprende a carregar — Mia disse, sua respiração tornando-se curta novamente. Ela estendeu a mão pálida, os dedos tremendo. — Vem aqui.

Ele caminhou até ela, sentindo-se a menor criatura da Terra. Ele caiu de joelhos ao lado da cama, escondendo o rosto nos lençóis, chorando como a criança que fora abandonada pelo pai e agredida pelo padrasto.

— Me desculpa — ele soluçava. — Me desculpa, Mia. Eu sou um lixo. Eu sou um erro.

Mia passou a mão pelos cabelos bagunçados dele. Apesar da raiva, o amor dela era uma força inabalável.

— Você não é um erro. Mas você está fazendo escolhas erradas. Se você quer ficar comigo até o fim, eu preciso que você esteja aqui de verdade. Não um fantasma bêbado. Eu preciso do meu Jungkook. O garoto que me levou para correr no Rio Han.

— Eu vou ficar limpo — ele prometeu, olhando para ela com os olhos vermelhos e desesperados. — Eu juro. Eu vou jogar tudo fora. Eu vou ser o homem que você quer que eu seja. Só não me odeia. Por favor, não morra me odiando.

Mia sorriu, um sorriso fraco e carregado de uma tristeza infinita.

— Eu nunca conseguiria te odiar. Mas você está me machucando mais do que o câncer agora.

A porta se abriu e Namjoon entrou, seguido por Jin. Eles sentiram o cheiro no quarto imediatamente. O olhar de Namjoon para Jungkook foi de uma decepção tão profunda que doeu mais do que um soco.

— Jungkook, saia — disse Namjoon, a voz baixa e autoritária.

— Não, eu... — Jungkook tentou protestar.

— Saia agora — Jin interveio, colocando-se entre ele e a cama. — Você não tem o direito de trazer isso para dentro do quarto dela. Olha o estado em que ela está.

Jungkook olhou para Mia uma última vez. Ela havia fechado os olhos, exausta pela discussão e pela dor que não passava. As máquinas ao redor dela pareciam apitar mais rápido, refletindo o estresse de seu corpo.

Ele se levantou, cambaleando para fora do quarto. No corredor, ele encontrou os outros. Taehyung desviou o olhar. Yoongi apenas balançou a cabeça. Ele era o pária novamente. O menino quebrado que, ao tentar colar seus pedaços, acabou ferindo quem mais amava.

Ele correu para o banheiro do hospital. Trancou-se em uma cabine e enfiou os dedos na garganta, forçando-se a colocar para fora tudo o que havia ingerido. Ele vomitou até que não sobrasse nada além de bile e lágrimas. Depois, ele lavou o rosto com água gelada, encarando o reflexo no espelho.

— Você vai conseguir — ele disse para si mesmo, a voz saindo como um rosnado. — Você vai ser o que ela precisa.

Ele saiu do banheiro e, em vez de fugir do hospital, ele foi para a capela da instituição. Ele não sabia rezar, nunca tivera fé em nada além da própria dor. Mas ele se sentou no último banco e ficou lá, no escuro, deixando a ressaca passar, deixando a abstinência começar a tremer seus membros.

Horas se passaram. O sol começou a se pôr, tingindo as janelas da capela de um laranja sangrento.

— Eu sabia que você estaria aqui.

Era Yoongi. Ele se sentou ao lado de Jungkook, mantendo uma distância silenciosa.

— Ela está dormindo — disse Yoongi. — Deram mais morfina para ela. A dor estava insuportável.

— Eu sou um idiota, Yoongi — Jungkook disse, sem olhar para ele.

— Todos nós somos, de vez em quando — Yoongi respondeu, olhando para o altar vazio. — Quando minha mãe morreu, eu passei meses querendo me queimar também. Eu bebi até esquecer meu próprio nome. Mas a Mia... ela não merece isso, Jungkook. Ela está dando tudo o que tem para nos manter juntos.

— Eu sei. Eu vi o sangue no lenço dela. Eu causei aquilo.

— Não, o câncer causou aquilo. Mas você causou a lágrima no olho dela. E isso é o que você pode consertar.

Jungkook respirou fundo, sentindo o tremor em suas mãos aumentar.

— Eu vou ficar limpo, Yoongi. Eu juro por tudo o que é sagrado.

— Então prove. Não para a gente, mas para ela. Ela não tem muito tempo, Jungkook. Não gaste o tempo que resta fazendo ela se preocupar com você. Deixe ela partir sabendo que você vai ficar bem.

As palavras de Yoongi foram como um golpe de misericórdia. Jungkook entendeu o peso de sua responsabilidade. Ele não era apenas um namorado ou um amigo; ele era o legado de Mia.

Naquela noite, Jungkook não saiu do hospital. Ele dormiu no chão da sala de espera, recusando-se a ir para casa onde as tentações o esperavam. Cada vez que seu corpo gritava por uma dose ou por um comprimido, ele fechava os olhos e lembrava do sorriso de Mia no Rio Han. Ele lembrava do toque dela em sua pele na cobertura.

Três dias depois, Jungkook estava pálido, com olheiras profundas e mãos que ainda tremiam levemente, mas seus olhos estavam claros. Ele entrou no quarto de Mia com um copo de água e uma pequena flor silvestre que encontrara no jardim do hospital.

Mia estava acordada. Ela parecia ainda mais frágil, mas quando o viu, o brilho nos olhos dela voltou, mesmo que timidamente.

— Você voltou — ela sussurrou.

— Eu nunca fui embora de verdade — ele disse, sentando-se ao lado dela. — Eu estou limpo, Mia. Três dias. Eu joguei tudo fora. Eu falei com o Namjoon e ele vai me ajudar a entrar em um grupo de apoio depois que... depois.

Mia sorriu, e desta vez o sorriso chegou aos olhos.

— Esse é o meu Jungkook.

— Me perdoa? — ele pediu, segurando a mão dela com uma firmeza que ela não sentia há tempos.

— Eu já te perdoei no momento em que você saiu daquele quarto, seu bobo. Só dói, Kookie... dói muito ver você sofrer.

— Eu vou ser forte por você. Eu prometo.

Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas aproveitando a companhia um do outro. A paz era precária, como um castelo de cartas em meio a um furacão, mas era deles.

— Jungkook? — chamou ela, a voz quase sumindo.

— Oi, estrela.

— Me conte sobre o futuro. Me conte sobre como vai ser quando o Jimin sair da clínica, quando a Meilin crescer, quando o Yoongi lançar o álbum dele.

Jungkook engoliu o nó na garganta. Ele sabia o que ela estava pedindo. Ela queria ouvir sobre o mundo onde ela não estaria mais, mas queria ouvir através da voz dele, para saber que ele estaria lá para ver tudo.

— Vai ser incrível — ele começou, a voz trêmula, mas ganhando força. — O Jimin vai ser um dançarino famoso, ele vai brilhar nos palcos e nunca mais vai ter medo do escuro. O Jin vai ser o melhor pai do mundo, e a Meilin vai ser uma garota corajosa, exatamente como você. O Yoongi... a música dele vai tocar no rádio de todos os carros de Seul, e as pessoas vão chorar e sorrir ao mesmo tempo.

— E você? — ela perguntou, fechando os olhos para visualizar as palavras dele.

— Eu vou ser o guardião de todos eles — disse Jungkook, as lágrimas caindo silenciosamente. — Eu vou cuidar do Namjoon quando ele estiver cansado, vou brincar com a Meilin no parque, e vou sempre, todos os dias, olhar para o pôr do sol e contar para você como foi o meu dia. Eu vou viver, Mia. Eu vou viver por dois.

Mia apertou a mão dele, um gesto fraco, mas carregado de uma gratidão imensa.

— Obrigada — ela sussurrou. — Agora eu posso descansar um pouco.

Jungkook ficou ali, segurando a mão dela enquanto ela caía em um sono induzido pelos remédios. Ele sabia que o fim estava próximo. Ele sentia o cheiro da morte rondando o corredor, mas desta vez, ele não correu para a garrafa. Ele ficou. Ele enfrentou o monstro de frente, de olhos abertos e coração limpo.

O "menino quebrado" finalmente entendi que a cura não vinha do esquecimento, mas da coragem de lembrar. E ele lembraria de Mia Lencov até o seu último suspiro. Ele seria a prova viva de que o amor dela não fora em vão. Sob a luz fria do hospital, Jungkook finalmente tornou-se visível, não para o mundo, mas para si mesmo. E essa era a maior vitória que Mia poderia ter desejado.