Voltar ao resumo

Mha

O Eco do Sangue e do Silêncio

A chuva começou a cair sobre Musutafu como se o próprio céu estivesse tentando lavar o pecado daquela tarde. O portal de Kurogiri se fechara, mas a Liga não havia retornado para o esconderijo principal. Estavam em um armazém abandonado na zona portuária, um lugar onde o cheiro de salitre e ferrugem mascarava o odor metálico que agora preenchia o ambiente.

Izuku Midoriya estava encostado em uma pilha de caixas de madeira, sua respiração vindo em espasmos curtos e sibilantes. O capuz que antes lhe dava uma aura de mistério estava caído, revelando o rosto pálido e suado. Ele pressionava a mão esquerda contra o flanco direito, mas o sangue insistia em escorrer por entre seus dedos, manchando o tecido escuro de seu uniforme.

A luta contra a 1-A não tinha sido tão limpa quanto ele fizera parecer. No último segundo, antes de Bakugo cair, uma explosão residual — um reflexo puramente instintivo do loiro — havia lançado estilhaços de concreto e metal na direção de Izuku. Um deles, uma barra de reforço retorcida, o atravessara.

— Você está fazendo uma bagunça no meu chão, Izuku — comentou Shigaraki, observando-o de longe. Não havia preocupação na voz do líder da Liga, apenas uma curiosidade mórbida.

— Eu… eu vou ficar bem — Izuku respondeu, embora sua visão estivesse começando a nadar em pontos pretos. — Só preciso de um momento.

— Você não tem um momento — disse uma voz vinda das sombras. Dabi se aproximou, as chamas azuis dançando fracamente em seus dedos. — Os heróis não ficaram parados chorando. O rastro de sangue que você deixou desde o portal é como um mapa para o Endeavor.

Izuku tentou se levantar, mas o mundo girou violentamente. Ele sentiu o gosto ferroso na garganta e tossiu, sujando o queixo de escarlate. Ele sabia que Dabi tinha razão. Ele tinha sido preciso na luta, mas o cansaço acumulado de anos de sobrevivência nas ruas e o trauma físico do impacto estavam finalmente cobrando o preço.

Longe dali, a poucos quilômetros, o som de sirenes não era mais um eco distante. Era um rugido crescente.

— Eles estão vindo — murmurou Toga, colada à janela quebrada do armazém. — Muitos deles. E o passarinho verde não consegue voar.

Shigaraki coçou o pescoço, o som da pele ressecada sendo audível no silêncio do galpão. Ele olhou para Izuku, depois para a porta. Para a Liga, Izuku era uma peça valiosa, o "resultado" perfeito do fracasso da sociedade. Mas Shigaraki não era conhecido por sua lealdade sentimental.

— Kurogiri, abra um portal — ordenou Shigaraki.

— E o Midoriya? — perguntou o vilão de névoa, sua voz profunda ecoando.

Shigaraki deu de ombros, virando as costas.

— Se ele for o que diz ser, ele encontrará uma saída. Se não for… então ele é apenas mais um descarte. Vamos.

Izuku assistiu, com os olhos semiabertos, enquanto a fumaça negra envolvia seus "aliados". Ele não gritou. Não implorou. Ele já tinha aprendido a lição sobre esperar por ajuda dois anos atrás. O vazio que Shigaraki deixou ao desaparecer era familiar. Era o mesmo vazio do topo daquele prédio.

O silêncio que se seguiu durou apenas alguns segundos antes de ser estilhaçado.

A parede norte do armazém explodiu em um milhão de fragmentos. O gelo de Todoroki deslizou pelo chão como uma serpente branca, congelando tudo o que encontrava, enquanto uma figura envolta em faíscas amarelas e pretas atravessava os destroços.

Aizawa Shouto, com as fitas de captura flutuando ao seu redor como serpentes vivas, entrou primeiro. Logo atrás dele, Todoroki e Bakugo, este último com o rosto inchado e os olhos vermelhos de uma mistura de fúria e desespero.

— Não se mova! — gritou Aizawa, embora a ordem fosse quase desnecessária.

Izuku estava caído de lado agora. O sangue formava uma poça considerável sob ele. Ele tentou focar a visão em seu antigo professor. O homem que pregava sobre o potencial lógico de cada aluno.

— Professor… — a voz de Izuku foi um sussurro quebrado.

Todoroki avançou, o lado esquerdo de seu corpo emitindo um calor reconfortante, mas seus olhos estavam fixos no ferimento de Izuku.

— Midoriya! Fica parado, o resgate médico está logo atrás de nós! — Todoroki ajoelhou-se ao lado dele, as mãos tremendo enquanto tentava usar o gelo para cauterizar superficialmente o sangramento ou, ao menos, estancá-lo.

— Sai de perto dele, Meio-a-Meio! — Bakugo rosnou, parando a poucos metros. Ele tremia. Suas mãos, sempre prontas para a explosão, estavam cerradas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. — Olhe para ele… olhe para o que esse idiota fez com ele mesmo!

Izuku soltou uma risada fraca, que terminou em um gemido de dor.

— Eu não fiz nada… Kacchan… a gravidade fez a maior parte do trabalho…

— Cala a boca! — Bakugo deu um passo à frente, a voz falhando. — Por que você não morreu de uma vez? Por que voltou desse jeito? Para nos culpar? Para nos mostrar que falhamos?

Aizawa se aproximou com cautela, sinalizando para que os alunos recuassem um pouco. Ele viu o estado de Izuku. Viu a palidez cadavérica e a forma como a consciência do garoto oscilava.

— Midoriya, você está sob custódia — disse Aizawa, a voz firme, mas com um matiz de tristeza que ele raramente demonstrava. — Mas primeiro, precisamos salvar sua vida.

— Por quê? — Izuku perguntou, os olhos verdes encontrando os de Aizawa. — Para que vocês possam me consertar e depois me trancar em uma cela? Para que o sistema possa se sentir melhor por não ter me deixado morrer no asfalto?

— Porque você ainda é um garoto de dezesseis anos que foi abandonado quando mais precisava — respondeu Aizawa, agachando-se e pressionando o ferimento com as próprias mãos. — E eu não vou deixar que isso aconteça duas vezes. Não sob o meu comando.

Izuku sentiu o toque firme de Aizawa. Era real. Era quente. Era tudo o que ele desejara naquela tarde nublada de dois anos atrás. Mas agora, o toque parecia uma invasão. Uma mentira tardia.

— Tarde demais… — Izuku murmurou, sentindo o frio subir pelos seus pés. — Vocês estão tentando salvar um fantasma.

— Você não é um fantasma, seu Deku de merda! — Bakugo gritou, ajoelhando-se do outro lado de Izuku, ignorando o protocolo de segurança. Ele agarrou o colarinho do uniforme de Izuku. — Fantasmas não sangram! Fantasmas não olham para a gente com esse ódio todo! Você está aqui, e você vai ficar aqui, entendeu?!

As luzes das ambulâncias e das viaturas de polícia iluminaram o interior do armazém, transformando o cenário de sombras em um espetáculo de luzes azuis e vermelhas. Paramédicos entraram correndo com uma maca, acompanhados por heróis profissionais de apoio.

Izuku sentiu as mãos dos paramédicos substituírem as de Aizawa. Ele sentiu a picada de uma agulha, o oxigênio sendo forçado em seus pulmões por uma máscara. O barulho era ensurdecedor. Gritos, ordens médicas, o choro contido de Uraraka que acabara de chegar à entrada do galpão.

Enquanto era erguido na maca, Izuku olhou para cima. Ele viu o teto do armazém, cheio de buracos por onde a chuva entrava.

— Onde eles estão? — perguntou um dos policiais.

— Fugiram — respondeu Aizawa, sem tirar os olhos de Izuku. — Deixaram ele para trás.

Izuku fechou os olhos. A traição da Liga não o machucava. Ele já esperava por isso. O que doía era o fato de que, pela primeira vez em dois anos, ele estava cercado de pessoas que pareciam se importar, e ele não conseguia sentir nada além de um cansaço infinito.

— Izuku! — a voz de Uraraka chamou enquanto a maca passava por ela. — Nós vamos te trazer de volta! Eu prometo!

Ele não respondeu. Não tinha forças.

Dentro da ambulância, o som do monitor cardíaco era o único ritmo em seu mundo. O bipe constante era irritante, uma prova de que seu coração, por mais que ele quisesse o contrário, ainda insistia em bater por uma sociedade que o tinha esquecido.

Ao lado dele, sentado em um banco dobrável, estava Aizawa. O herói não tinha ido com os outros para perseguir a Liga. Ele tinha ficado.

— Você acha que capturou um vilão, professor? — Izuku perguntou sob a máscara de oxigênio, sua voz mal audível.

Aizawa olhou para as próprias mãos, ainda manchadas com o sangue verde-escuro do garoto.

— Não — disse Aizawa suavemente. — Eu acho que finalmente encontramos um aluno que estava perdido.

Izuku desviou o olhar para a janela da ambulância. As luzes da cidade passavam como borrões.

— Estar perdido é uma escolha — disse Izuku, sentindo a sedação começar a fazer efeito. — Ser deixado para trás… é um destino.

— Não hoje — afirmou Aizawa.

Quando a ambulância chegou ao hospital central de Musutafu, a segurança era pesada. Não era apenas um paciente chegando; era o vilão que tinha humilhado a 1-A, o garoto que tinha "ressuscitado" das cinzas de um suicídio aparente.

Izuku foi levado diretamente para o centro cirúrgico. Enquanto as portas duplas se fechavam, separando-o do mundo exterior, ele viu a última imagem antes da anestesia total: Bakugo e Todoroki parados no corredor, cobertos de poeira e sangue, observando-o com expressões que ele não conseguia decifrar.

Não era ódio. Não era vitória. Era algo muito mais difícil de lidar.

Era luto por alguém que ainda estava vivo.

As horas que se seguiram foram um borrão de luzes brancas e bips metálicos. Quando Izuku finalmente acordou, ele não estava em um quarto de hospital comum. As paredes eram reforçadas com placas de liga anti-individualidade. Suas mãos estavam presas à cama por algemas especiais, e havia um sensor em seu pescoço que suprimiria qualquer ativação súbita de poder.

Ele tentou se mexer, mas a dor em seu flanco o lembrou da gravidade do ferimento. Ele estava vivo. Infelizmente.

— Acordou — disse uma voz vinda do canto escuro do quarto.

Não era Aizawa. Era o Detetive Tsukauchi, sentado com uma pasta de arquivos no colo. Ele parecia ter envelhecido dez anos desde a última vez que Izuku o vira na televisão.

— Onde eu estou? — Izuku perguntou, sua garganta seca como areia.

— Hospital de Custódia da UA — respondeu Tsukauchi. — Você está seguro. E está preso.

Izuku soltou um suspiro seco.

— Segurança e prisão. Para vocês, é a mesma coisa, não é?

— Depende do ponto de vista, Midoriya. Para os seus colegas, que estão acampados no corredor há dez horas, isso se chama "esperança". Para o governo, isso se chama "ameaça de nível A".

Tsukauchi levantou-se e caminhou até a beira da cama.

— Por que você não nos contou? Por que não procurou ninguém depois da queda?

Izuku olhou para o teto. As memórias voltaram em ondas. O impacto. A dor lancinante. O rosto de All For One aparecendo nas sombras enquanto ele morria no beco para onde tinha se arrastado. A oferta de uma vida nova onde a dor seria sua força, não sua fraqueza.

— Eu procurei — disse Izuku, a voz carregada de uma verdade amarga. — Eu olhei para cima enquanto estava no chão. Eu vi os heróis passando por cima de mim para perseguir um vilão que tinha roubado uma bolsa. Eu vi as pessoas filmando meu "salto" para ganhar curtidas. Eu procurei por ajuda em cada rosto que passou por aquele cordão de isolamento.

Ele virou o rosto para o detetive, os olhos verdes brilhando com uma intensidade assustadora.

— Sabe o que eu encontrei, detetive? Indiferença. O mundo não parou porque Izuku Midoriya caiu. O mundo só reclamou que o trânsito estava lento por causa do corpo na pista.

Tsukauchi ficou em silêncio. Ele sabia, através de sua individualidade, que cada palavra que saía da boca do garoto era a mais pura e dolorosa verdade.

— A Liga me deu um propósito — continuou Izuku. — Eles não me pediram para ser um herói. Eles não me pediram para ser especial. Eles só me pediram para ser o que eu já era: o resultado do sistema de vocês.

Nesse momento, a porta do quarto se abriu levemente. Não era um enfermeiro. Era All Might, em sua forma frágil e magra. O homem que um dia fora o ídolo de Izuku parecia pequeno sob a luz fluorescente.

— Jovem Midoriya… — a voz de Toshinori Yagi tremeu.

Izuku sentiu um aperto no peito, mas o sufocou. Ele não podia se dar ao luxo de sentir nada por aquele homem. Não depois de ouvir "Você não pode ser um herói" no topo de um prédio, minutos antes de decidir que não queria mais ser nada.

— Saia — disse Izuku, a voz fria como gelo.

— Izuku, por favor, eu… eu não sabia… eu procurei por você… — All Might deu um passo à frente, as mãos estendidas como se pudesse consertar o tempo.

— Você sabia — rebateu Izuku, as algemas tilintando enquanto ele tentava se sentar, ignorando a dor lancinante. — Você sabia o que acontece com as pessoas sem individualidade neste mundo. Você me deu a resposta naquele telhado. Eu apenas segui o conselho do Símbolo da Paz. Eu aceitei a realidade.

O silêncio que caiu sobre o quarto foi absoluto. All Might parecia ter sido atingido por um golpe físico mais forte do que qualquer um que o All For One já tivesse desferido.

— Eu não sou o garoto que você conheceu — disse Izuku, recostando-se na almofada, o cansaço voltando a dominá-lo. — Aquele garoto morreu no concreto. O que sobrou foi capturado por vocês. Mas não pensem que me salvaram.

Ele fechou os olhos, sinalizando o fim da conversa.

— Vocês só mudaram o local da minha cela.

Do lado de fora, no corredor, a turma 1-A ouvia tudo através da fresta da porta. Uraraka chorava silenciosamente no ombro de Iida. Bakugo estava encostado na parede oposta, socando o metal da estrutura com uma força contida, as lágrimas escorrendo por seu rosto sem que ele fizesse qualquer menção de limpá-las.

Eles o tinham capturado. Tinham o corpo de Izuku Midoriya de volta. Mas, enquanto ouviam as palavras carregadas de veneno e verdade do antigo amigo, todos sentiam a mesma coisa.

A captura não era o fim da batalha. Era apenas o começo de uma guerra muito mais difícil: a guerra para convencer um fantasma de que ele ainda tinha motivos para ser humano.

E, pela primeira vez, os futuros heróis da UA não tinham certeza se conseguiriam vencer.