Mha
O Crepúsculo das Frestas e a Carne Cansada
A luz do sol que entrava pelas janelas altas da sala 1-A não era mais a mesma para Izuku Midoriya. Dois meses de isolamento no hospital de custódia haviam transformado sua percepção de claridade; agora, o brilho parecia agressivo, uma tentativa forçada de otimismo que ele não compartilhava.
O silêncio na sala era absoluto enquanto ele caminhava até o fundo, escolhendo a última carteira. Ele não usava o uniforme da UA, mas sim roupas civis simples e um inibidor de individualidade no pulso direito — uma pulseira de metal escuro que pulsava com uma luz azul fraca, lembrando-o a cada segundo de que ele era um prisioneiro sob reabilitação, não um aluno.
Ninguém disse uma palavra. Uraraka segurava a caneta com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Iida mantinha a postura rígida, mas seus olhos seguiam cada movimento de Izuku com uma mistura de culpa e dever. Bakugo, por outro lado, encarava a própria mesa, as mãos escondidas sob o tampo, os ombros tensos como se estivesse pronto para explodir ou desmoronar.
Aizawa entrou na sala, parecendo mais exausto do que o normal. Ele parou atrás do pódio e olhou para a turma, seus olhos parando por um segundo extra na figura solitária no fundo.
— Como todos sabem — começou Aizawa, sua voz monótona cortando a tensão como uma lâmina cega —, o conselho da UA, em conjunto com o Comitê de Segurança Pública, aprovou o programa de reintegração de Izuku Midoriya. Ele participará das aulas teóricas e de algumas atividades práticas monitoradas.
— Ele é um vilão! — A voz de Mineta saiu fina, carregada de um medo que muitos ali sentiam, mas não tinham coragem de verbalizar. — Ele nos atacou! Ele estava com o Shigaraki!
Izuku não se moveu. Ele não olhou para Mineta. Ele apenas observava um pequeno risco na madeira de sua mesa.
— Ele é um resultado, Mineta — disse Aizawa, usando as próprias palavras de Izuku contra o silêncio da sala. — E é responsabilidade desta instituição lidar com os resultados que ela mesma ajudou a criar. Midoriya está aqui sob minha supervisão direta. Qualquer incidente será tratado com severidade máxima.
— Isso é ridículo — rosnou Bakugo, finalmente levantando a cabeça. Seus olhos encontraram os de Izuku, mas não houve faíscas, apenas um vazio abismal. — Você acha que colocar ele numa cadeira de escola vai apagar o que aconteceu? Vai apagar o que ele disse?
Izuku finalmente levantou o olhar.
— Nada apaga o que aconteceu, Kacchan — disse Izuku. Sua voz era calma, desprovida daquela energia nervosa que costumava defini-lo. — Eu não pedi para estar aqui. A Nezu achou que seria "terapêutico". Eu chamo de vigilância de proximidade.
— Midoriya, chega — interrompeu Aizawa. — Abram os livros na página duzentos e doze. Vamos começar.
As horas seguintes foram um exercício de tortura psicológica para todos. Para a 1-A, era como ter um cadáver reanimado sentado entre eles. Para Izuku, era como estar em um sonho lúcido onde ele conhecia todos os diálogos, mas não pertencia mais à peça.
Durante o intervalo, ele não saiu da sala. Ficou sentado, olhando para o nada. Uraraka, reunindo uma coragem que parecia lhe faltar desde o dia do armazém, aproximou-se cautelosamente.
— Deku... quer dizer, Izuku... — ela começou, a voz trêmula. — Eu trouxe um sanduíche extra. Você mal tocou na comida do hospital, disseram os enfermeiros...
Izuku olhou para a mão dela e depois para o rosto dela. Ele viu a piedade. Viu o desejo desesperado de "consertá-lo".
— Guarde para você, Ochako — disse ele, usando o primeiro nome dela sem o sufixo habitual, o que soou estranhamente íntimo e frio ao mesmo tempo. — Meu estômago não está muito bom hoje.
— Você está pálido — ela insistiu, dando um passo à frente. — Mais do que o normal. Suas mãos estão tremendo.
— É o inibidor — mentiu ele, fechando o punho. — Ele interfere no sistema nervoso. É o preço da "segurança" de vocês.
Ela recuou, sentindo a barreira invisível que ele erguera.
Na aula prática da tarde, as coisas pioraram. Eles foram levados ao Ground Beta para um exercício de busca e salvamento. Izuku foi instruído a apenas observar de uma área protegida, mas o calor do sol de Musutafu estava escaldante, e o ar parecia pesado demais para seus pulmões.
Desde a cirurgia para remover a barra de metal de seu flanco, Izuku sentia que algo dentro dele nunca tinha voltado ao lugar certo. Havia uma pressão constante em seu peito, uma pontada aguda que surgia sempre que ele respirava fundo. Os médicos disseram que era psicossomático, um reflexo do trauma. Izuku sabia que era o seu corpo desistindo.
— Midoriya, você está prestando atenção? — Aizawa perguntou, aproximando-se.
Izuku tentou responder, mas uma onda de náusea o atingiu com a força de um soco. O chão sob seus pés parecia ter se tornado líquido, ondulando como o asfalto quente que ele conhecia tão bem.
— Sim... eu só... — Ele levou a mão à boca. O suor frio escorria por sua têmpora.
— Você está suando frio — notou Aizawa, sua expressão mudando da severidade para a preocupação genuína. Ele estendeu a mão para o ombro de Izuku. — Vamos para a enfermaria. Agora.
— Não precisa... eu estou bem — teimou Izuku, mas ao tentar dar um passo, suas pernas falharam.
Ele caiu de joelhos. O som do impacto foi seco, silenciando os gritos de treinamento de Kirishima e Sato ao longe.
— Izuku! — Uraraka gritou, correndo em sua direção.
Bakugo, que estava terminando de explodir um escombro falso, virou-se a tempo de ver o garoto de cabelos verdes colapsar. Ele correu, o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado.
— Saiam de perto! — Aizawa ordenou, ajoelhando-se ao lado de Izuku. — Midoriya, olhe para mim. Respire.
Izuku tentou, mas o ar não entrava. Era como se ele estivesse de volta ao chão frio do beco, com o sangue escorrendo e o mundo se apagando. Mas, desta vez, não havia Shigaraki para estender a mão. Havia apenas a dor.
Uma dor aguda e lancinante explodiu em seu abdômen, irradiando para o peito. Ele tossiu violentamente, e o que saiu de sua boca não foi apenas saliva. Manchas vermelhas e brilhantes sujaram o asfalto cinza do Ground Beta.
— Ele está sangrando! — gritou Ashido, cobrindo a boca com as mãos.
— Ele está tendo uma hemorragia interna? — Iida perguntou, o pânico subindo em sua voz. — Aizawa-sensei, o que fazemos?!
Izuku tentou se apoiar nos braços, mas seus músculos pareciam feitos de gelatina. Sua visão estava se fechando em um túnel escuro. Ele viu o rosto de Bakugo aparecer acima dele. O loiro parecia aterrorizado.
— Deku! Ei, olha para mim, seu idiota! — Bakugo gritou, segurando os ombros de Izuku. — Não faz isso de novo! Você não vai sumir de novo!
— Kacchan... — Izuku sussurrou, o sangue borbulhando em seus lábios. — Dói...
Foi a primeira vez em dois anos que ele admitiu sentir dor. Não a dor filosófica da sociedade, não o rancor da traição, mas a dor pura e simples de um ser humano quebrado.
— Eu sei que dói, mas você tem que aguentar! — Bakugo estava quase gritando, as mãos trêmulas enquanto tentava estabilizar o amigo. — A Recovery Girl está vindo! Não fecha os olhos!
Aizawa já estava no rádio, sua voz urgente exigindo uma equipe médica de emergência.
Izuku sentiu o calor do corpo de Bakugo, o cheiro de nitroglicerina e suor. Por um segundo, a névoa de ódio e cinismo que o envolvia pareceu se dissipar. Ele sentiu medo. Um medo infantil e avassalador da escuridão que o chamava.
— Eu não quero... ficar sozinho... de novo... — a voz de Izuku falhou, tornando-se um chiado úmido.
— Você não está sozinho! — Uraraka ajoelhou-se do outro lado, pegando a mão dele, ignorando o sangue que sujava seu uniforme. — Nós estamos aqui! Izuku, por favor!
O corpo de Izuku arqueou-se em uma convulsão súbita. Seus olhos reviraram, e a pouca cor que restava em seu rosto desapareceu, deixando-o com um tom acinzentado de mármore. O monitor em seu pulso — o inibidor — começou a apitar freneticamente, detectando o colapso dos sinais vitais.
— Ele parou de respirar! — Aizawa gritou, iniciando imediatamente as manobras de ressuscitação.
O caos se instalou ao redor deles. Alunos choravam, outros gritavam por ajuda, mas para Bakugo, o mundo tinha ficado silencioso. Ele olhava para o rosto de Izuku, para os olhos verdes que agora estavam fixos e sem vida, e sentiu o mesmo vazio que sentira dois anos atrás no pé daquele prédio.
— Não... — Bakugo sussurrou, as lágrimas finalmente caindo sobre o peito de Izuku. — De novo não... por favor, de novo não...
A equipe médica chegou em segundos, empurrando os alunos para o lado. Eles aplicaram o desfibrilador, injetaram adrenalina, agiram com a precisão mecânica que os heróis deveriam ter.
— Afastem-se! — ordenou o paramédico chefe. — Estamos perdendo o pulso!
Eles o ergueram na maca, o corpo de Izuku balançando frouxamente. Tubos foram inseridos, máquinas começaram a apitar, e em meio ao barulho de sirenes e ordens, a turma 1-A assistiu, paralisada, enquanto o "resultado" de seus erros era levado embora mais uma vez.
Desta vez, porém, não houve desaparecimento misterioso. Houve apenas o rastro de sangue no chão do Ground Beta e o eco do pedido de socorro de um garoto que tinha passado tempo demais fingindo que não precisava de ninguém.
Aizawa ficou parado no centro do local, suas mãos cobertas pelo sangue de seu aluno mais problemático. Ele olhou para os outros alunos, todos eles quebrados de alguma forma pela cena.
— Voltem para os dormitórios — disse Aizawa, sua voz soando como se viesse de dentro de um túmulo.
— Nós queremos ir para o hospital! — protestou Kirishima, soluçando abertamente.
— Vocês não podem fazer nada por ele agora — cortou Aizawa. — O que Midoriya tem... não é algo que uma individualidade possa curar facilmente. É o corpo dele reagindo ao que a mente não consegue mais suportar.
Bakugo não se moveu. Ele ficou olhando para a mancha de sangue no asfalto. Era pequena, mas parecia um oceano para ele.
— Ele disse que não queria ficar sozinho — murmurou Bakugo, tão baixo que apenas Aizawa ouviu.
O professor colocou a mão no ombro do loiro.
— Ele nunca esteve sozinho, Bakugo. Ele só esqueceu como ver as pessoas ao redor dele. E nós esquecemos como nos fazer visíveis.
No hospital da UA, Izuku Midoriya lutava em uma mesa de cirurgia. O diagnóstico era severo: falência múltipla de órgãos decorrente de estresse pós-traumático extremo e complicações da lesão anterior que nunca cicatrizara corretamente sob os cuidados precários da Liga.
Enquanto os médicos trabalhavam, Izuku estava em um lugar escuro. Não era o asfalto de Musutafu, nem o armazém da Liga. Era um vazio morno e silencioso.
Lá, ele não era um vilão. Não era um herói. Não era um "resultado".
Ele era apenas um garoto de cabelos verdes, sentado na beira de um prédio, olhando para o pôr do sol. E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que podia simplesmente descer as escadas em vez de pular.
Mas a porta para as escadas estava trancada por fora, e ele podia ouvir as vozes de seus colegas chamando seu nome, batendo na madeira, tentando entrar.
— Izuku! — a voz de Uraraka ecoava.
— Deku, abre essa porra! — o grito de Bakugo tremia.
Izuku encostou a cabeça na porta fria.
— Eu estou tentando — ele sussurrou para o vazio. — Mas a chave... a chave caiu lá embaixo.
Lá fora, no mundo real, o monitor cardíaco emitiu um bipe longo e contínuo.
— Carreguem em duzentos! — gritou o cirurgião. — Afasta!
O corpo de Izuku saltou na mesa.
O bipe parou. O ritmo voltou, fraco, errático, mas presente.
Ele ainda não estava pronto para abrir a porta. Mas, pela primeira vez, ele não estava mais olhando para o abismo. Ele estava olhando para a maçaneta.
A reabilitação da UA tinha acabado de se tornar algo muito mais profundo do que aulas e exercícios. Tinha se tornado uma corrida contra o tempo para salvar o que restava da alma de um garoto que o mundo tinha tentado destruir, mas que o destino, por alguma razão cruel ou misericordiosa, insistia em manter vivo.
E enquanto a noite caía sobre a escola, a turma 1-A não dormiu. Eles ficaram no pátio, olhando para as luzes do hospital, esperando por um sinal de que o fantasma que eles tinham recuperado não tinha decidido, finalmente, ir embora de verdade.