Mha
O Peso de Estar Vivo
A luz branca do teto da enfermaria da UA não era como a luz do sol que Izuku vira antes de cair do prédio, dois anos atrás. Aquela luz era quente, final e, de certa forma, acolhedora. Esta luz era fria, estéril e carregada de uma expectativa que ele não sabia se podia carregar.
Izuku Midoriya estava sentado na beira da cama, os pés descalços balançando a poucos centímetros do chão frio. Ele olhou para as próprias mãos. Elas estavam limpas agora, sem o sangue de Iida ou a poeira da batalha no centro da cidade, mas ele ainda sentia o peso do inibidor de individualidade em seu pulso direito. Era uma pulseira de metal fosco que pulsava com uma luz azul fraca, lembrando-o a cada segundo que ele era uma ameaça monitorada.
A porta rangeu. Izuku não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de caramelo queimado e nitroglicerina sempre o precedia.
— Você ainda está com aquela cara de quem viu um fantasma, Deku — disse Bakugo, fechando a porta com um chute descuidado. — O que é irônico, já que o fantasma aqui é você.
Izuku soltou um suspiro curto, uma risada sem humor que terminou em uma pontada de dor no peito.
— Talvez eu ainda seja um. Só esqueci de atravessar a parede.
Bakugo caminhou até a cadeira ao lado da cama e sentou-se de forma agressiva, cruzando os braços. Ele encarou Izuku com uma intensidade que teria feito o antigo Midoriya tremer, mas o atual apenas sustentou o olhar. Os olhos verdes estavam opacos, como uma floresta após um incêndio.
— Por que você não usou? — perguntou Bakugo, a voz subitamente baixa. — Naquela luta... você derrotou metade da turma sem esforço. Mas você não usou o One For All. Nem uma faísca.
Izuku desviou o olhar para a janela, onde as nuvens passavam indiferentes ao drama humano abaixo delas.
— Eu não sinto mais que ele me pertence, Kacchan — respondeu ele. — O poder que o All Might me deu era para salvar pessoas. Para ser um símbolo. Quando eu caí... quando eu fiquei lá no chão e ninguém veio... eu senti o poder se apagando. Como se ele estivesse com vergonha de estar em alguém que desistiu.
— Você não desistiu! — Bakugo levantou-se, as mãos soltando pequenas faíscas involuntárias. — Você sobreviveu! De algum jeito, você saiu daquele asfalto e...
— E fui para os braços do Shigaraki — cortou Izuku, voltando a encará-lo. — Eu não sobrevivi por heroísmo, Kacchan. Eu sobrevivi por rancor. E o One For All não se alimenta de rancor. Ele ficou adormecido. O que eu usei contra vocês foi apenas o que eu aprendi observando. Pontos cegos. Fraquezas. O que acontece quando você para de olhar para o herói e começa a olhar para a falha.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Bakugo queria gritar, queria explodir a cama, queria sacudir Izuku até que aquele brilho de determinação voltasse, mas ele sabia que a culpa também era sua. Ele era a falha original.
— A Uraraka não para de chorar — disse Bakugo, mudando de assunto para não perder o controle. — O Meio-a-Meio está agindo como se estivesse em um funeral. E o resto dos extras está em choque. Você destruiu a cabeça deles, Deku.
— Eu só disse a verdade — murmurou Izuku, passando a mão pelo cabelo bagunçado. — O sistema é falho. Eles ensinam vocês a salvar quem está gritando, mas ninguém ensina o que fazer com quem já parou de gritar porque sabe que não adianta.
— Então é isso? — Bakugo deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Izuku. — Você vai ficar sentado aí, sendo o "resultado" de merda? Vai deixar o Shigaraki usar você como um troféu de como os heróis falharam?
Izuku olhou para o inibidor em seu pulso.
— O Shigaraki me deu um propósito quando o mundo me deu as costas. Ele disse que eu era a prova de que o símbolo da paz era uma mentira. E por um tempo... eu acreditei.
— E agora? — desafiou Bakugo.
— Agora eu estou aqui — disse Izuku, levantando-se com dificuldade. Seus músculos protestaram, uma lembrança física da queda que nunca cicatrizou totalmente em sua mente. — Mas não pense que eu voltei para ser um herói. Eu voltei porque vi o olhar da Uraraka quando eu a derrubei. Não era medo de um vilão. Era o luto por um amigo. E eu percebi que, mesmo que o sistema tenha falhado, as pessoas... algumas delas ainda estavam tentando.
A porta da enfermaria abriu-se novamente, e desta vez foi All Might quem entrou. Ele parecia menor do que Izuku se lembrava, mais frágil. O silêncio que se instalou foi absoluto. Bakugo olhou de um para o outro e, soltando um estalo com a língua, saiu da sala sem dizer mais nada.
All Might caminhou lentamente até a cama. Ele não disse "estou feliz que você está vivo" ou "sinto muito". Ele apenas olhou para o jovem que ele mesmo escolhera e que a sociedade quase destruíra.
— Jovem Midoriya... — começou ele, a voz trêmula.
— Eu não sou mais o seu sucessor, All Might — disse Izuku, a voz firme. — Eu ainda tenho a brasa dentro de mim, mas ela está fria.
— O poder é apenas uma ferramenta, meu jovem — disse All Might, sentando-se onde Bakugo estivera. — O que me dói não é o One For All. É o fato de que eu não vi o peso que você carregava. Eu preguei sobre o sacrifício, mas esqueci de ensinar que ninguém deve se sacrificar sozinho.
Izuku sentiu um nó na garganta que tentou ignorar.
— Por que me trouxeram para a UA? Por que não estou em Tártaros?
— Porque o Diretor Nezu e o Professor Aizawa acreditam que você é uma vítima de negligência sistêmica tanto quanto um cúmplice da Liga — explicou All Might. — E porque seus colegas... eles se recusaram a deixar que você fosse levado para uma cela. Eles montaram guarda no corredor até que o governo cedesse.
Izuku fechou os olhos. Ele conseguia imaginar Iida organizando o turno de guarda, Uraraka recusando-se a sair, Todoroki encarando os oficiais com seu gelo pronto. O pensamento o machucava mais do que qualquer golpe.
— Eles não deveriam — sussurrou Izuku. — Eu os machuquei.
— Eles estão tentando salvar você, Izuku. Do mesmo jeito que você tentava salvar todo mundo antes de cair.
— Eu não posso ser salvo — disse ele, abrindo os olhos. — Eu vi o que está do outro lado, All Might. Eu vi como a Liga funciona. Eu vi como o Shigaraki olha para o mundo. Ele não quer apenas destruir prédios; ele quer destruir o conceito de que alguém vai vir ajudar. E depois do que eu passei... é difícil dizer que ele está errado.
All Might suspirou, uma exalação longa e cansada.
— Talvez o mundo não precise de um Símbolo da Paz agora. Talvez precise de alguém que entenda a escuridão para poder guiar os outros para fora dela.
— Eu não sou um guia — rebateu Izuku. — Eu sou um aviso.
— Então seja um aviso que fala — disse All Might, levantando-se. — A Classe 1-A está esperando por você no pátio. Eles não vão entrar, respeitando seu espaço. Mas eles não vão embora.
Quando All Might saiu, Izuku caminhou até a janela. Lá embaixo, no pátio da UA, ele viu as figuras familiares. Eles estavam em pequenos grupos, conversando em voz baixa. Ele viu Uraraka olhando para a janela da enfermaria, a esperança lutando contra o medo em seu rosto. Ele viu Bakugo chutando uma pedra, afastado dos outros, mas ainda presente.
Izuku tocou a cicatriz em seu abdômen, um lembrete permanente do dia em que o chão o recebeu quando ninguém mais o fez.
Ele sabia que a Liga voltaria. Shigaraki não deixaria seu "símbolo do fracasso" ser retomado tão facilmente. A guerra estava chegando, e Izuku estava exatamente no meio dela — um pé na luz que o abandonara e outro nas sombras que o acolheram.
Ele apertou o inibidor de individualidade.
— Eu ainda ajudo — murmurou ele para o vidro frio, repetindo as palavras que dissera na batalha. — Só não do jeito que vocês querem.
Izuku Midoriya não era mais o herói que sonhava em sorrir para as câmeras. Ele era algo novo, algo forjado na dor e temperado pelo abandono. Ele não sabia se podia perdoar a UA, ou a sociedade, ou a si mesmo. Mas, enquanto observava seus colegas lá embaixo, ele sentiu uma pequena faísca, bem no fundo de seu peito. Não era o One For All. Era algo mais antigo e humano.
Era o desejo de não deixar que mais ninguém tivesse que descobrir o quanto o chão é frio.
Ele se afastou da janela e começou a procurar por seus sapatos. Se ele era o resultado das falhas deles, então ele seria o professor mais severo que aquela escola já vira. Ele mostraria a eles os pontos cegos do mundo, as rachaduras no asfalto onde as pessoas caíam e desapareciam.
— Se vocês querem tanto me salvar — disse ele para o quarto vazio —, então preparem-se para ver o que vocês tentaram ignorar por tanto tempo.
Izuku Midoriya saiu da enfermaria. O corredor estava silencioso, mas conforme ele avançava em direção à saída, o som das vozes de seus colegas ficava mais nítido. Ele não sorriu. Ele não acenou. Ele apenas caminhou, um passo de cada vez, carregando o peso de estar vivo em um mundo que já o tinha declarado morto.
A Classe 1-A parou de falar quando ele apareceu na porta. O silêncio foi absoluto, carregado de uma tensão que poderia ser cortada com uma faca.
— Deku... — começou Uraraka, dando um passo à frente, as mãos trêmulas.
Izuku parou e olhou para todos eles. Ele viu o arrependimento, a determinação e o amor.
— Eu ainda não perdoei vocês — disse ele, sua voz ecoando pelo pátio, desprovida de qualquer hesitação. — E não sei se um dia vou.
Ele fez uma pausa, vendo alguns deles baixarem a cabeça.
— Mas o Shigaraki está vindo. E ele conhece cada uma das fraquezas que vocês tentam esconder. Se vocês querem ser heróis, parem de olhar para mim como se eu fosse um ferido que precisa de consolo. Comecem a olhar para mim como o único que sabe como o inimigo pensa.
Bakugo soltou uma pequena explosão e deu um sorriso de lado, um reflexo do seu antigo eu.
— Finalmente disse algo que preste, seu nerd maldito.
Izuku não retribuiu o sorriso, mas inclinou a cabeça levemente. O caminho para a redenção — ou para a destruição total — estava aberto à frente deles. E, pela primeira vez em dois anos, Izuku Midoriya não estava caindo. Ele estava parado, firme, esperando pelo impacto.