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Mha

O Último Suspiro do Fantasma

A paz na UA sempre fora uma ilusão frágil, um vidro trincado que todos fingiam estar inteiro. Para Izuku Midoriya, essa fragilidade era palpável. Nos últimos meses, ele havia se tornado uma presença constante, embora silenciosa, nos corredores do curso de heróis. Ele não usava mais o uniforme verde de combate, nem o capuz que escondia seu rosto; vestia roupas civis largas e carregava um inibidor de individualidade no pulso que pulsava com uma luz azul constante, um lembrete de que ele era, ao mesmo tempo, um aluno e um prisioneiro de sua própria história.

A reabilitação era lenta. Seus pulmões, marcados pela queda e pelos químicos da Liga, ainda protestavam em dias frios. Mas havia algo novo: o brilho nos olhos. Não era a esperança cega de dois anos atrás, mas uma aceitação sóbria. Ele passava as tardes na biblioteca com Todoroki ou treinando estratégias de combate com Bakugo — que, apesar de ainda gritar, nunca mais usara uma explosão perto do rosto de Izuku.

Naquela tarde de terça-feira, o céu de Musutafu estava tingido de um laranja doentio. O ar parecia estático, carregado de eletricidade estática que fazia os pelos do braço de Izuku se arrepiarem. Ele estava no pátio central, sentado em um banco de madeira, observando Uraraka e Iida praticarem manobras de evasão.

— Você parece pensativo, Deku-kun — disse Uraraka, aproximando-se enquanto limpava o suor da testa. — Algum problema com a matéria de hoje?

— Não é isso, Ochako — respondeu Izuku, forçando um sorriso que não alcançou os olhos. — É só que... o ar está estranho. Como se algo estivesse prestes a quebrar.

Antes que ela pudesse responder, o alarme de intrusão da UA rugiu, um som gutural que cortou o crepúsculo. O chão tremeu. No centro do pátio, a poucos metros de onde estavam, o ar se rasgou em uma fenda de fumaça negra e arroxeada.

— Atrás de mim! — gritou Iida, ativando seus motores.

Do portal, surgiram figuras que Izuku conhecia bem demais. Shigaraki Tomura liderava o grupo, com as mãos nos bolsos e um sorriso seco que parecia uma ferida aberta. Ao seu lado, Dabi, Toga e um grupo de Nomus de elite que exalavam um cheiro de carne podre e ozônio.

— Sentimos sua falta, Izuku — disse Shigaraki, a voz arranhada ecoando pelo pátio agora deserto de civis, mas cercado por alunos em posição de combate. — A brincadeira de casinha com os heróis já durou tempo demais. O mestre quer o "resultado" de volta.

Aizawa e outros professores surgiram nos telhados, as fitas de captura já flutuando. Bakugo e Todoroki correram para o lado de Izuku, formando um semicírculo de proteção.

— Ele não vai a lugar nenhum com vocês, seus desgraçados! — rugiu Bakugo, as palmas das mãos estalando com fúria contida.

— Izuku, venha — insistiu Shigaraki, ignorando os outros. — Você sabe que não pertence a este lugar. Olhe para eles. Eles te olham com pena. Eles te olham como um experimento que deu errado. Nós te olhamos como o futuro.

Izuku levantou-se lentamente. O inibidor em seu pulso parecia pesar toneladas. Ele olhou para Shigaraki, depois para seus colegas. Ele viu o medo nos olhos de Uraraka, a determinação em Todoroki e a culpa transformada em proteção em Bakugo.

— Eu passei muito tempo sendo o que vocês queriam — disse Izuku, a voz firme, embora seu corpo tremesse. — Eu fui o corpo no chão que ninguém salvou. Eu fui o vilão que vocês moldaram. Mas eu cansei de ser o resultado das escolhas dos outros.

— Você está cometendo um erro — avisou Dabi, as chamas azuis lambendo seus braços.

— O meu erro foi parar de esperar por heróis e começar a acreditar que eu era um monstro — rebateu Izuku. — Eu fico aqui. Com eles.

O silêncio que se seguiu foi o prelúdio do caos. Shigaraki suspirou, um som de decepção profunda.

— Que pena. Se não podemos ter a peça inteira, não deixaremos que ninguém a use.

— AGORA! — gritou Aizawa.

O pátio explodiu em cores e sons. Gelo e fogo cruzaram o ar enquanto Todoroki tentava erguer uma barreira. Bakugo lançou-se contra os Nomus, criando uma cortina de fumaça e detonações. Aizawa tentava anular a individualidade de Shigaraki, mas os vilões estavam preparados. Toga moveu-se como um borrão, suas facas brilhando sob a luz do pôr do sol.

Izuku estava no centro do furacão. Sem poder usar sua individualidade por causa do inibidor, ele usava sua análise tática para orientar os colegas.

— Iida, pela esquerda! Uraraka, mude a gravidade dos escombros para o Todoroki! — ele gritava, sua mente processando o campo de batalha como um tabuleiro de xadrez.

A luta era brutal. A Liga não estava ali para vencer a UA, estava ali por vingança. Shigaraki avançava com uma determinação maníaca, desintegrando tudo o que tocava. Bakugo tentava interceptá-lo, mas um Nomu de alta regeneração o bloqueou, jogando-o contra uma parede de concreto.

— IZUKU! — gritou Uraraka, sendo cercada por clones de Twice que haviam sido deixados para trás em uma emboscada.

No meio da confusão, um portal menor se abriu logo atrás de Izuku. Ele não ouviu o som metálico, nem sentiu a mudança na pressão do ar. Ele só sentiu o frio.

Um frio súbito no peito.

— Se você não vai ser nossa arma — sussurrou a voz de Shigaraki, que havia usado o portal de Kurogiri para uma manobra de flanco imediata —, então você não será nada.

Izuku olhou para baixo. Uma lâmina longa e serrilhada, feita de um metal escuro que parecia absorver a luz, estava cravada em seu esterno. O metal havia atravessado o tecido de sua camisa, a pele, o osso e o músculo, saindo pelas suas costas.

O tempo pareceu parar. O som da batalha tornou-se um eco distante, como se ele estivesse submerso em água gelada.

— Não... — o sussurro veio de Bakugo, que, do outro lado do pátio, viu a cena. O loiro congelou, a expressão de terror absoluto voltando ao seu rosto.

Shigaraki girou a faca. A dor foi um clarão branco que apagou os sentidos de Izuku por um segundo. Ele sentiu o gosto metálico de sangue subindo pela garganta e transbordando pelos lábios.

— Adeus, rascunho — disse Shigaraki, retirando a lâmina com um movimento brusco.

Izuku caiu de joelhos. Suas mãos foram instintivamente para o ferimento, tentando estancar o que era impossível. O sangue era quente, vívido, um contraste cruel com o frio que começava a subir por suas pernas.

— IZUKU! — O grito de Uraraka foi um lamento que cortou a alma de todos os presentes.

Aizawa saltou do telhado, seus olhos brilhando em um vermelho carmesim, mas Shigaraki e a Liga já estavam recuando para o portal principal.

— Missão cumprida — murmurou Shigaraki antes de desaparecer na névoa negra. — O fantasma finalmente descansou.

Bakugo foi o primeiro a chegar. Ele caiu de joelhos ao lado de Izuku, as mãos trêmulas não sabendo onde tocar. Ele tentou pressionar o peito do amigo, mas o sangue jorrava por entre seus dedos com uma insistência desesperadora.

— Ei... ei, olha para mim! — Bakugo gritava, a voz quebrada de uma forma que ninguém nunca ouvira antes. — Não ouse! Você não vai fazer isso de novo! Deku!

Todoroki chegou logo atrás, o lado esquerdo de seu corpo emitindo um calor desesperado para tentar combater o choque térmico que Izuku estava sofrendo.

— Midoriya, fica comigo! — Todoroki pressionava o ferimento com gelo fino para tentar cauterizar o sangramento por resfriamento. — Respira!

Izuku olhou para cima. O céu laranja estava ficando roxo. Ele viu os rostos de seus amigos — Bakugo, Todoroki, Uraraka, Iida. Eles estavam todos ali. Desta vez, ninguém estava atrasado. Eles estavam bem ao lado dele.

— Eu... eu não... — Izuku tentou falar, mas cada palavra trazia mais sangue. — Eu não fui... com eles...

— Eu sei, seu idiota! — Bakugo estava chorando abertamente agora, as lágrimas caindo sobre o rosto pálido de Izuku. — Você ficou! Você foi incrível! Agora fica vivo, porra!

— Dói... — sussurrou Izuku. Era a mesma palavra de meses atrás, no Ground Beta. Mas agora, havia uma paz estranha nela.

— A ajuda está vindo! A Recovery Girl está a caminho! — gritava Iida, tentando manter a calma enquanto suas próprias mãos tremiam.

Izuku sentiu o inibidor em seu pulso. A luz azul estava piscando. Com um esforço sobre-humano, ele moveu a mão direita e tocou o dispositivo.

— Tira... — ele murmurou.

— O quê? — perguntou Bakugo.

— Tira... o inibidor... — Izuku olhou nos olhos de Bakugo. — Deixa... eu me curar...

Aizawa, que acabara de chegar, entendeu imediatamente.

— Bakugo, quebre o dispositivo! — ordenou o professor. — A individualidade de regeneração dele é a única chance!

Bakugo não hesitou. Ele concentrou uma pequena explosão controlada no fecho do metal. O dispositivo saltou, quebrado.

No instante em que o inibidor caiu, o corpo de Izuku reagiu. Mas não foi como das outras vezes. A regeneração, que antes era uma força bruta e caótica, agora parecia exausta. O brilho verde que costumava percorrer sua pele estava fraco, como uma lâmpada prestes a queimar.

— Vamos, Izuku! — incentivou Uraraka, segurando a mão dele. — Luta!

Eles viram o tecido do coração e dos pulmões tentando se fechar. As células se multiplicavam, mas a faca de Shigaraki fora banhada em algum tipo de supressor químico de longa duração. A cura e o veneno lutavam dentro dele em uma batalha invisível.

Izuku arqueou o corpo, um gemido de agonia escapando de seus lábios. Ele fechou os olhos com força.

— Eu não quero... ir para o escuro... — ele sussurrou.

— Você não vai! — Bakugo segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a manter o contato visual. — Olha para mim, Izuku! Você prometeu que a gente ia ser heróis juntos! Você não pode quebrar a porra da promessa agora!

O brilho verde em Izuku pulsou uma última vez, mais forte. O sangramento diminuiu, mas não parou. A cor não voltou às suas bochechas. Ele estava em um limbo, equilibrado na ponta de uma lâmina entre a vida e o nada.

A Recovery Girl chegou com uma equipe médica de emergência, empurrando os alunos para o lado.

— Ele entrou em parada! — gritou um dos paramédicos. — Iniciando massagem!

— Não! — Bakugo tentou avançar, mas foi segurado por Shoji e Kirishima. — Ele está tentando se curar! Deixem ele!

— O sistema dele está entrando em colapso! — rebateu a médica. — Levem-no para a cirurgia de emergência agora!

Izuku foi erguido na maca. Enquanto era levado, sua mão escorregou da borda e pendia frouxa. Uraraka pegou a mão dele e a colocou de volta, beijando os nós de seus dedos.

— Volta para nós — ela sussurrou.

O pátio da UA ficou em silêncio novamente, mas era um silêncio diferente. Não era o silêncio do luto, era o silêncio de uma promessa de guerra. Os alunos da 1-A estavam parados, cobertos de poeira e do sangue de seu amigo.

Bakugo olhou para as próprias mãos, ensanguentadas. Ele sentiu uma fúria que nunca conhecera, uma determinação que transcendia o desejo de ser o número um.

— Eles tentaram tirar ele de nós de novo — disse Bakugo, a voz baixa e perigosa.

— Eles falharam — respondeu Todoroki, seu lado esquerdo queimando com uma intensidade que derretia o asfalto sob seus pés.

— Ele lutou para ficar — disse Iida, limpando os óculos. — Agora é nossa vez de lutar por ele.

No hospital, a batalha pela vida de Izuku Midoriya durou dezessete horas. Três vezes o monitor cardíaco emitiu o som longo e contínuo da morte, e três vezes a teimosia biológica de Izuku, alimentada pelo desejo de não deixar seus amigos sozinhos, o trouxe de volta.

Quando ele finalmente estabilizou, ele estava em um coma profundo. O ferimento no peito havia cicatrizado, deixando uma marca feia, em forma de estrela, bem sobre o coração.

Uma semana depois, Izuku abriu os olhos.

O quarto estava cheio de flores, cadernos de anotações e fotos da turma. Bakugo estava sentado na poltrona ao lado, dormindo com um livro de estratégias aberto no colo.

Izuku tentou respirar fundo. Ainda doía. Mas era uma dor que provava que ele estava ali.

Ele olhou para o próprio peito, por baixo da camisola do hospital. Ele tocou a cicatriz. Shigaraki tentara transformá-lo em um fantasma novamente, mas desta vez, a âncora era forte demais.

— Deku? — a voz de Bakugo era um sussurro incerto.

Izuku virou o rosto. Seus olhos verdes estavam cansados, mas límpidos.

— Eu... eu ainda estou aqui, Katsuki.

Bakugo soltou um suspiro que parecia ter guardado por anos. Ele não gritou. Não fez piadas. Apenas inclinou a cabeça para frente até que sua testa tocasse a mão de Izuku sobre o lençol.

— É bom você estar mesmo — murmurou Bakugo. — Porque se você tentasse sumir de novo, eu iria até o inferno só para te buscar e te bater.

Izuku sorriu. O fantasma finalmente tinha ido embora. O que restava era um garoto que tinha caído de um prédio, sobrevivido à vilania e abraçado a morte, apenas para descobrir que o chão não era o fim do caminho.

Era apenas o lugar de onde ele começaria a subir, desta vez, acompanhado por mãos que nunca mais o deixariam cair. Porque Izuku Midoriya não era mais o resultado do fracasso do mundo.

Ele era o herói que o mundo quase perdeu, e que agora, ninguém ousaria esquecer.