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Mui

Entre o Algodão e o Desejo

O ar de Pequim naquela manhã parecia ter sido substituído por agulhas de gelo. O inverno havia chegado sem pedir licença, cobrindo os vidros do Ministério com uma camada de geada que nem mesmo o sistema de aquecimento central parecia capaz de combater totalmente. China, sempre impecável, vestia um suéter de gola alta por baixo do terno de lã escura, mantendo sua postura rígida e profissional enquanto revisava os memorandos matinais.

Ele estava estranhamente inquieto. Seus olhos vermelhos escuros desviavam-se constantemente para a porta, esperando a entrada barulhenta e caótica de seu colega brasileiro. Depois do que acontecera no vestiário e, posteriormente, no banheiro da recepção de gala, o silêncio do escritório parecia pesado, carregado com a memória do toque e do beijo que haviam trocado.

Quando a porta finalmente se abriu, não foi o som de sapatos sociais que China ouviu, mas o arrastar macio de tênis.

Brasil entrou na sala parecendo uma criança perdida em roupas de adulto. Ele não estava usando o terno obrigatório. Em vez disso, vestia um moletom folgado, de um cinza mesclado, que parecia ter três números a mais que o seu tamanho real. O capuz estava caído sobre os ombros e as mangas cobriam metade de suas mãos, deixando apenas as pontas dos dedos à mostra.

— Bom dia, Chininha! — Brasil exclamou, embora sua voz soasse um pouco rouca devido ao frio. Ele carregava uma pilha desajeitada de pastas sob o braço. — Tá um gelo lá fora, né? Senti que se eu colocasse aquele terno apertado, eu ia congelar antes de chegar no metrô.

China levantou-se lentamente, sua expressão alternando entre a irritação habitual e uma curiosidade que ele tentava suprimir.

— Brasil, você sabe que existe um código de vestimenta para este departamento — disse China, caminhando em direção a ele. — Onde está sua camisa? Onde está a gravata que passamos tanto tempo... ajustando ontem?

Brasil deu de ombros, um sorriso travesso surgindo em seu rosto enquanto ele equilibrava as papeladas.

— Tá na mochila, cara. Eu só vim entregar essas papeladas pra galera e depois tô livre. O chefe disse que se eu terminasse a distribuição cedo, podia ir pra casa trabalhar remoto por causa da nevasca que tá vindo.

China parou a poucos centímetros dele. O moletom de Brasil era tão largo que escondia completamente as curvas do corpo magro e atlético que China havia admirado no dia anterior. Aquela visão o incomodava. Ele queria saber o que havia por baixo de tanto algodão.

— Você está sendo negligente — murmurou China, sua voz baixando de tom. — Como posso saber se você está pelo menos usando a vestimenta adequada por baixo disso?

Brasil riu, aproximando-se ainda mais, desafiador.

— Por que você não confere, senhor Inspetor?

China não hesitou. Levado por um impulso que misturava sua necessidade de controle com um desejo latente, ele estendeu a mão e segurou a gola larga do moletom de Brasil. Com um movimento firme, ele puxou o tecido para baixo e para frente, espiando por dentro da abertura do pescoço.

O ar fugiu dos pulmões de China.

Brasil não estava usando nada por baixo. Nada.

A visão do peitoral bronzeado, a pele lisa e o contorno sutil dos músculos que ele havia tocado entre as sombras do banheiro agora estavam ali, parcialmente expostos sob a luz fria do escritório. O contraste entre o cinza opaco do moletom e o calor da pele de Brasil fez o sangue de China ferver.

— Você... — China começou, sua voz falhando. — Você não está vestindo nada.

— Eu disse que estava com pressa — Brasil sussurrou, seu dente de morcego aparecendo enquanto ele mordia o lábio inferior, observando a reação de China. — E aí? Vai me dar uma advertência por escrito ou vai continuar olhando?

China soltou a gola, mas não se afastou. O desejo de beijá-lo novamente, de sentir aquela pele contra a sua sem nenhuma barreira, era quase insuportável. Mas o dever chamava.

— Termine de entregar essas pastas — ordenou China, tentando recuperar a autoridade. — E depois venha ao meu escritório privado para... assinar sua saída.

Brasil piscou um olho, claramente satisfeito com o efeito que causara, e saiu saltitando pelo corredor para terminar suas tarefas.

Cerca de vinte minutos depois, o silêncio do escritório particular de China foi interrompido por três batidas leves na porta. Sem esperar resposta, Brasil entrou, fechando a porta atrás de si com um clique suave. Ele não tinha mais as pastas, apenas um sorriso vitorioso.

— Missão cumprida, capitão — disse Brasil, caminhando até a mesa de China. — Agora, cadê o papel que eu tenho que assinar pra sumir daqui e ir tomar um chocolate quente?

China levantou-se de sua cadeira de couro. Ele não pegou nenhum papel. Em vez disso, contornou a mesa com passos predatórios.

— O único papel que temos que discutir é o seu desrespeito contínuo às normas — disse China, sua voz soando como um trovão baixo.

Antes que Brasil pudesse responder com uma piada, China o segurou pelos ombros e o empurrou contra a porta de madeira pesada do escritório. O impacto não foi doloroso, mas foi firme o suficiente para fazer Brasil soltar um suspiro surpreso.

— Opa... — Brasil murmurou, as mãos subindo instintivamente para o peito de China. — A gente vai começar a reunião agora?

China não disse nada. Ele apenas olhou nos olhos de Brasil, vendo a mistura de excitação e provocação ali. Ele levou as mãos à barra do moletom folgado. Com uma lentidão torturante, China começou a subir o tecido, sentindo a textura do algodão deslizar contra a palma de suas mãos até que seus dedos finalmente encontraram a pele nua da cintura de Brasil.

Brasil estremeceu ao toque das mãos frias de China, mas não recuou. Ele inclinou a cabeça para trás, encostando-a na porta, enquanto China subia o moletom até a altura do peito, revelando completamente o abdômen definido e o tórax do brasileiro.

— Você é um problema, Brasil — sussurrou China, seus olhos vermelhos fixos na pele bronzeada que agora estava arrepiada pelo frio e pelo toque.

— E você adora resolver problemas — rebateu Brasil, a respiração ficando curta.

China se abaixou um pouco, sua cabeça ficando na altura do peito de Brasil. O cheiro de Brasil era mais intenso ali — uma mistura de sabonete, o rastro de um cigarro fumado escondido pela manhã e aquele calor natural que parecia emanar dele.

China roçou o nariz contra o peito de Brasil, sentindo o coração do outro martelar freneticamente. Ele abriu a boca, deixando o hálito quente atingir a pele sensível, antes de usar os dentes para morder levemente o mamilo de Brasil.

— Ah... China! — Brasil exclamou, as mãos enterrando-se nos cabelos escuros do chinês, puxando-o para mais perto. O som foi um misto de surpresa e puro prazer.

China intensificou a pressão, sua língua traçando círculos ao redor da pequena protuberância antes de sugar suavemente. Ele sentiu Brasil perder as forças nas pernas, o corpo do brasileiro escorregando levemente contra a porta enquanto ele buscava apoio em China.

A tensão no escritório era quase sólida. China estava prestes a subir as mãos e tirar aquele moletom de uma vez por todas, querendo sentir cada centímetro de Brasil contra si, quando um som estridente e persistente cortou o ar.

*Trrim! Trrim! Trrim!*

O telefone fixo sobre a mesa de China começou a tocar.

China congelou. Ele tentou ignorar, focando novamente na pele de Brasil, mas o telefone continuou, seguido quase imediatamente pelo som de notificações urgentes em seu celular pessoal no bolso.

— China... o telefone — Brasil murmurou, tentando recuperar o fôlego, um sorriso frustrado no rosto.

China soltou o peito de Brasil e fechou os olhos por um segundo, encostando a testa no ombro do brasileiro. Ele soltou um rosnado de pura frustração.

— Ignorar não vai adiantar — disse China, a voz rouca e carregada de desejo não realizado. — É a linha direta com o Conselho.

Ele se afastou, soltando o moletom de Brasil, que caiu novamente sobre o corpo do brasileiro, escondendo tudo o que China acabara de explorar. O chinês ajeitou o próprio terno e caminhou até a mesa, atendendo o telefone com uma expressão que poderia matar um homem à distância.

— Sim? — a voz de China era gelo puro. — Entendo. Sim, estarei na sala de conferências em cinco minutos.

Ele desligou o aparelho e olhou para Brasil. O brasileiro estava parado junto à porta, ajeitando o moletom, o rosto ainda muito corado e os lábios entreabertos.

— O dever chama, Chininha? — perguntou Brasil, tentando suavizar o clima, embora seus olhos ainda brilhassem com o que acabara de acontecer.

— Uma emergência nas exportações do setor têxtil — explicou China, fechando os punhos sobre a mesa. — Eu preciso ir. Agora.

Brasil caminhou até ele, parando do outro lado da mesa. Ele estendeu a mão e tocou levemente o rosto de China, um gesto surpreendentemente terno.

— Relaxa. Eu ainda vou estar aqui amanhã. E quem sabe... eu venha com um moletom ainda mais fácil de tirar.

China segurou a mão de Brasil por um breve segundo, apertando-a.

— Saia daqui antes que eu decida que o Conselho pode esperar — avisou China.

Brasil soltou uma gargalhada, mandou um beijo no ar e saiu do escritório com sua habitual energia caótica, deixando China sozinho com o silêncio, a frustração e o cheiro cítrico que ainda pairava no ar.

China respirou fundo, ajustou seus óculos e pegou sua pasta. Ele era o epítome da eficiência e do foco, mas, enquanto caminhava para a reunião, a única coisa em que conseguia pensar era que, no dia seguinte, ele mesmo faria questão de conferir o que Brasil estaria vestindo. Ou melhor, o que ele não estaria vestindo.