My dear
O Ciúme e o Ritmo do Coração
O sol da manhã entrava pelas janelas altas do corredor do terceiro ano, criando padrões geométricos no chão de linóleo. Para Sua, a escola ainda era um labirinto de estímulos, mas a presença constante de Mizi ao seu lado funcionava como uma âncora. Mizi não apenas a guiava fisicamente; ela era a tradutora de um mundo que Sua ainda estava tentando decifrar.
Naquele dia, o grupo estava reunido perto dos armários antes da primeira aula. Till estava encostado na parede com os fones de ouvido no pescoço, reclamando de alguma nota baixa em matemática, enquanto Hyuna tentava convencê-lo de que a vida era mais do que números. Luka observava tudo com seu sorriso sereno, e Ivan, estranhamente pontual, girava uma moeda entre os dedos com uma destreza irritante.
— Eu só acho que o professor tem algo contra a minha estética — resmungou Till, cruzando os braços. — Ele não consegue aceitar que o rock não segue a lógica das equações.
— Till, você entregou a prova com um desenho de uma caveira no lugar do resultado da hipotenusa — pontuou Luka, calmamente. — A estética não foi o problema.
Mizi riu, dando um tapinha no ombro de Till. Ela estava radiante naquela manhã, usando um prendedor de cabelo que Sua tinha escolhido para ela no dia anterior. Sua observava a cena, sentindo uma pontada de satisfação. Embora não lembrasse de tudo, ela estava começando a se sentir parte daquela engrenagem novamente.
Foi então que a atmosfera mudou.
Uma garota de cabelos castanhos perfeitamente alinhados e um uniforme impecável se aproximou do grupo. Ruby. Sua nunca tinha prestado atenção nela até aquele momento, mas a forma como a garota ignorou todos os outros para focar exclusivamente em Mizi fez seus instintos entrarem em alerta máximo.
— Mizi! — exclamou Ruby, com uma voz que soava doce demais para ser natural. — Eu estava te procurando. Você viu o novo cronograma do comitê de artes? Eu fiz questão de colocar nossas reuniões nos mesmos horários.
Ruby deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Mizi. Ela estendeu a mão e, de forma casual — porém calculada —, ajeitou uma mecha do cabelo rosa de Mizi.
— Você fica tão bem com essas cores, sabia? Realça o brilho dos seus olhos.
Mizi, sempre gente boa e um pouco distraída com as segundas intenções das pessoas, sorriu de volta, embora parecesse um pouco desconfortável com a proximidade súbita.
— Ah, oi Ruby! Obrigada. E valeu por organizar o cronograma, vai ajudar bastante.
— Não foi nada — respondeu Ruby, inclinando o corpo na direção de Mizi, com um sorriso que não chegava aos olhos quando ela lançou um olhar rápido e desdenhoso para Sua. — Sabe como é, eu gosto de passar tempo com quem realmente entende de arte. A gente podia tomar um café depois da aula para discutir o tema da exposição, o que acha?
Sua sentiu o sangue subir para as bochechas. Ela não precisava de memórias para entender o que estava acontecendo ali. Aquela garota estava dando em cima da *sua* mulher. Bem na sua frente. Como se Sua fosse invisível, ou pior, como se ela fosse apenas um móvel quebrado no canto da sala.
Sua apertou o caderno contra o peito. Seus olhos roxos se estreitaram, fixos na mão de Ruby que ainda parecia relutante em se afastar do ombro de Mizi.
Ivan, percebendo a tensão imediata, soltou um risinho baixo.
— Ih, a temperatura baixou uns dez graus aqui de repente — comentou ele, o sorriso provocador voltando ao rosto.
Till olhou de Sua para Ruby e soltou um suspiro pesado.
— Isso vai ser um desastre.
— Ruby, eu não sei se vou poder hoje... — começou Mizi, percebendo finalmente que o clima tinha ficado pesado. — Eu combinei de ajudar a Sua com a língua de sinais e...
— Ah, mas a Sua não se importaria, não é? — Ruby interrompeu, olhando para Sua com uma falsa simpatia que beirava o insulto. — Afinal, ela está sempre tão quietinha. Tenho certeza de que ela entende que você precisa de um tempo para as suas próprias coisas, Mizi.
Sua não esperou. Ela deu um passo à frente, colocando-se exatamente entre Mizi e Ruby. A diferença de altura não a impediu de sustentar um olhar gélido que fez Ruby recuar um milímetro. Sua abriu o caderno com uma rapidez feroz e escreveu apenas três palavras em letras garrafais:
"ELA ESTÁ OCUPADA."
Ruby arqueou uma sobrancelha, fingindo diversão.
— Oh, ela escreveu. Que fofo. Mas Mizi, sobre o café...
Sua não deu chance. Ela pegou a mão de Mizi e a puxou para longe, sem olhar para trás. Ela não precisava escrever mais nada. Seus ombros tensos e o passo apressado diziam tudo.
— Eita — disse Hyuna, observando as duas se afastarem. — A Sua pode ter perdido a memória, mas o ciúme possessivo continua com 100% de bateria.
— É — concordou Ivan, guardando a moeda no bolso. — Algumas coisas são gravadas na alma, não no cérebro. Boa sorte, Mizi. Você vai precisar.
***
Mizi deixou-se ser levada até o jardim dos fundos, o mesmo lugar onde, dias atrás, elas tinham decidido recomeçar. Quando Sua finalmente parou, ela soltou a mão de Mizi e cruzou os braços, bufando silenciosamente. O rosto pálido estava tingido de um vermelho vivo de irritação.
— Sua... — Mizi começou, tentando segurar o riso, mas achando a cena adorável. — Você está brava?
Sua pegou o caderno e escreveu, quase furando o papel:
"QUEM É AQUELA GAROTA E POR QUE ELA ESTAVA TOCANDO EM VOCÊ?"
— É só a Ruby, do comitê — explicou Mizi, aproximando-se. — Ela é meio... insistente. Mas eu não tenho nada com ela, você sabe disso.
Sua escreveu novamente, com movimentos rápidos e irritados:
"EU NÃO SABIA. E ELA ESTAVA AGINDO COMO SE VOCÊ FOSSE DELA. NA MINHA FRENTE."
Mizi suspirou, sentindo uma mistura de culpa e um estranho calor no peito. O ciúme de Sua era uma prova tangível de que, mesmo sem as lembranças do passado, a conexão entre elas estava se reconstruindo de forma poderosa.
— Ela não é nada minha, Sua — disse Mizi, baixando o tom de voz e dando um passo para dentro do espaço pessoal de Sua. — Ninguém é. Só você.
Sua parou de escrever. Ela olhou para Mizi, a respiração ainda um pouco acelerada. A raiva começou a se dissipar, dando lugar a uma vulnerabilidade que a deixava com o coração na mão. Ela sentia que estava em desvantagem; todos sabiam da história delas, menos ela. Ela sentia que precisava marcar seu território, não por posse, mas por medo de perder a única pessoa que fazia o mundo ter sentido novamente.
Sua baixou o caderno. Seus olhos roxos buscaram os dourados de Mizi, pedindo silenciosamente por uma confirmação.
Mizi entendeu. Ela levou as mãos ao rosto de Sua, segurando-o com uma delicadeza infinita.
— Eu sinto muito se eu te deixei insegura — sussurrou Mizi. — Eu nunca quis que você se sentisse assim. Você é a única pessoa que eu vejo, Sua. Sempre foi você.
Sua fechou os olhos, aproveitando o toque. O cheiro de Mizi a acalmava, agindo como um bálsamo para sua irritação. Ela abriu os olhos novamente e, com um movimento hesitante, levou as mãos à cintura de Mizi, puxando-a para mais perto.
O silêncio do jardim era quebrado apenas pelo canto distante de alguns pássaros e pelo som das respirações que se tornavam uma só. Mizi inclinou a cabeça, aproximando seus lábios dos de Sua.
— Posso? — perguntou Mizi, em um sussurro quase inaudível.
Sua não respondeu com o caderno. Ela respondeu fechando a distância final.
O beijo começou como um toque suave, um reconhecimento mútuo de almas que se buscavam através da névoa do esquecimento. Mas, à medida que a tensão do dia se esvaía, o beijo se aprofundou. Foi o primeiro beijo real delas desde que Sua acordara — não um selinho de saudação, mas um beijo carregado de toda a fome e o amor que tinham ficado represados durante os quatro meses de coma.
As línguas se encontraram em um ritmo calmo e exploratório. Não havia pressa. Era um diálogo sem palavras, onde Mizi dizia "eu senti tanto a sua falta" e Sua respondia "eu estou aqui, eu sou sua". O calor se espalhou pelo corpo de Sua, uma sensação de pertencimento que nenhuma perda de memória poderia apagar. O mundo ao redor desapareceu; não havia escola, não havia Ruby, não havia médicos ou hospitais. Havia apenas o sabor doce de Mizi e a segurança de seus braços.
Mizi soltou um pequeno suspiro contra os lábios de Sua, apertando o abraço. Ela sentia as lágrimas arderem em seus olhos, mas desta vez eram lágrimas de pura felicidade. Sua estava ali. Sua estava retribuindo o seu amor com a mesma intensidade de sempre, mesmo que de um jeito novo.
Quando finalmente se separaram, as testas continuaram encostadas. Ambas estavam levemente ofegantes, os rostos corados e os lábios brilhantes.
Sua pegou o caderno, mas desta vez seus movimentos eram lentos, quase sonhadores. Ela escreveu:
"Eu lembrei de uma coisa."
Mizi arregalou os olhos, o coração disparando.
— O quê? O que você lembrou?
Sua virou o caderno.
"Eu lembrei que eu amo o jeito que você me beija. Meu corpo lembra."
Mizi soltou uma risada soluçada e escondeu o rosto no pescoço de Sua, abraçando-a com força.
— Você vai me matar do coração, garota.
Sua sorriu — um sorriso real, pequeno e discreto, mas cheio de luz. Ela acariciou o cabelo rosa de Mizi, sentindo uma paz que não sentia desde que abrira os olhos naquele quarto de hospital.
***
O resto do dia passou como um borrão. Na hora da saída, o grupo se reuniu novamente no portão. Ruby tentou se aproximar uma última vez, mas ao ver Mizi e Sua caminhando de mãos dadas, com Sua lançando-lhe um olhar de absoluta soberania, a garota apenas deu meia volta e seguiu outro caminho.
— Parece que a fera foi domada — comentou Ivan, encostado em sua bicicleta.
— Ou a fera domou a Mizi — retrucou Till, ajustando a mochila nas costas. — De qualquer forma, é bom ver que as coisas estão voltando ao normal. Ou ao "novo normal".
Hyuna abraçou Luka pelo braço, sorrindo para o casal que se aproximava.
— Ei, a gente vai na sorveteria. Vocês vêm?
Mizi olhou para Sua, perguntando silenciosamente. Sua assentiu. Ela ainda tinha muito o que aprender sobre aqueles amigos, sobre a escola e sobre si mesma. Mas, enquanto sentia o calor da mão de Mizi entrelaçada na sua, ela sabia que não importava o quanto o caminho fosse longo.
Ela não estava mais perdida. Ela tinha encontrado seu norte em um par de olhos dourados e em um silêncio que, finalmente, não parecia mais vazio.
Ao chegarem na sorveteria, Sua sentou-se ao lado de Mizi. Enquanto os outros discutiam sobre sabores e fofocas da escola, ela pegou seu caderno e escreveu uma pequena nota, arrancando a folha e entregando-a para Mizi por baixo da mesa.
Mizi abriu o papel e leu, sentindo seu coração derreter:
"Obrigada por não desistir de mim. Eu vou aprender todos os sinais, mas o sinal de 'eu te amo' eu nunca mais vou esquecer."
Mizi olhou para Sua e, sem se importar com quem estava vendo, beijou a ponta do nariz da namorada.
— Eu nunca desistiria de você, Sua. Nem em mil vidas.
E ali, entre colheres de sorvete e risadas de amigos, o terceiro ano continuava. A memória de Sua poderia ser um mosaico quebrado, mas cada novo pedaço que elas colocavam no lugar era mais brilhante do que o anterior. O silêncio de Sua agora era preenchido por uma música que só elas duas conseguiam ouvir: a música de um amor que sobreviveu ao tempo, ao esquecimento e ao próprio destino.