My dear
O Despertar dos Sentidos
A sorveteria estava barulhenta, um refúgio de ar-condicionado e cheiro de açúcar contra o mormaço da tarde. O grupo ocupava a maior mesa do canto, uma confusão de copos de papel, colheres de plástico e guardanapos usados. Till discutia com Ivan sobre qual sabor de sorvete era "menos ofensivo", enquanto Hyuna tentava equilibrar três bolas de baunilha em uma casquinha sob o olhar analítico e preocupado de Luka.
Mizi, no entanto, só tinha olhos para Sua.
Sentadas lado a lado, o calor do corpo de Sua parecia irradiar uma frequência que Mizi captava com cada poro da sua pele. A atmosfera de reconciliação após o episódio com Ruby ainda pairava entre elas, doce e espessa como a calda de chocolate que escorria pelo copo de Sua.
Mizi sentiu uma onda de afeto tão avassaladora que não conseguiu se conter. Ela se inclinou, ignorando o caos ao redor.
— Sua... — sussurrou Mizi, antes de selar seus lábios aos dela.
O que começou como um beijo suave rapidamente se transformou. Mizi aprofundou o contato, pedindo passagem com a língua, um convite que Sua aceitou com uma urgência silenciosa. Era um beijo calmo, mas carregado de uma intenção profunda, uma tentativa de Mizi de ancorar Sua de volta à realidade delas. Para se equilibrar enquanto se inclinava, Mizi apoiou a mão direita com firmeza na coxa de Sua, apertando levemente o tecido da calça escolar.
No exato momento em que a língua de Mizi roçou a sua e a pressão da mão na coxa se intensificou, o mundo ao redor de Sua simplesmente desapareceu.
Não foi uma lembrança visual comum. Foi uma explosão sensorial.
*Flashback.*
O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua que filtrava pelas cortinas. Sua sentiu as costas contra o colchão. Seus pulsos estavam presos acima da cabeça, mantidos ali pela força firme e possessiva das mãos de Mizi. O beijo de Mizi não era doce; era faminto, desesperado, o gosto de desejo misturado com a respiração ofegante.
Sua sentiu o peso do corpo de Mizi entre suas pernas. Uma mão — a mesma mão que agora estava em sua coxa na sorveteria — subia, deslizando por baixo da sua saia, subindo pela parte interna de suas coxas, provocando arrepios que faziam sua espinha arquear. Ela lembrou da sensação de fricção, do calor úmido, do momento exato em que os dedos de Mizi a encontraram, movendo-se com uma maestria que a fazia perder o fôlego. Ela lembrou do som abafado de seu próprio gemido silencioso na garganta, da forma como Mizi sussurrava seu nome entre beijos vorazes enquanto a levava ao limite.
*Fim do Flashback.*
Sua empurrou Mizi bruscamente, afastando-se do beijo como se tivesse sido queimada. Seus olhos roxos estavam arregalados, as pupilas dilatadas, e seu rosto, antes pálido, agora exibia um tom de vermelho tão intenso que parecia que ela ia entrar em combustão espontânea a qualquer segundo.
O silêncio caiu sobre a mesa como um martelo.
Till, que estava prestes a enfiar uma colher de menta na boca, parou no meio do caminho, fazendo uma careta de nojo.
— Credo, vocês duas não têm quarto, não? — resmungou ele, mas sua voz morreu quando viu a expressão de Sua.
Ivan, que estava pronto para fazer uma piada obscena, franziu o cenho, o sorriso desaparecendo. Luka ajeitou os óculos, a postura ficando rígida de preocupação, enquanto Hyuna largava a colher, os olhos azuis escaneando o rosto de Sua.
— Sua? — Mizi perguntou, a voz trêmula, o coração disparado de susto. — O que houve? Eu... eu te machuquei? Eu fiz algo errado?
Sua não conseguia respirar. Seus pensamentos eram um turbilhão de imagens explícitas e sensações táteis que pareciam reais demais para serem apenas memórias. Ela olhava para Mizi e, em vez da garota doce de cabelos rosa, via a predadora dominante que a prendia contra a cama.
*DE TUDO O QUE EU PODIA LEMBRAR* — Sua gritava em sua própria mente, em puro pânico — *EU LEMBREI LOGO DA GENTE TRANSANDO?! SÉRIO, CÉREBRO? LOGO DISSO?!*
Ela levou as mãos ao rosto, tentando esconder a vermelhidão que agora descia pelo seu pescoço. Ela tremia visivelmente.
— Sua, fala comigo! — Mizi implorou, tentando tocar o ombro dela, mas Sua se encolheu, o caderno esquecido sobre a mesa.
— Gente, o que está rolando? — Hyuna perguntou, inclinando-se para frente. — Ela parece que viu um fantasma. Ou que está tendo um derrame.
— Ela está em choque — observou Luka, a voz baixa e analítica. — Sua, você lembrou de algo? Foi o acidente?
Till se levantou, batendo na mesa.
— Mizi, o que você fez? Você mordeu ela ou algo assim? Ela está parecendo um pimentão!
— Eu não fiz nada! — Mizi estava à beira das lágrimas, o pânico tomando conta. — A gente só estava... beijando! Sua, por favor, escreve. O que você viu? O que aconteceu?
Sua olhou para o caderno. Suas mãos tremiam tanto que ela duvidava que conseguisse segurar a caneta. Ela olhou para Mizi, depois para Ivan, que a observava com uma curiosidade intensa, e depois para Till, que parecia pronto para chamar uma ambulância.
Ela não podia contar. Como ela ia contar para o grupo que, no meio de uma sorveteria pública, ela tinha acabado de ter um flashback vívido de Mizi inserindo os dedos nela enquanto a prendia pelos pulsos?
Sua pegou a caneta com movimentos erráticos. Ela tentou escrever, mas riscou o papel com força. Ela respirou fundo, fechando os olhos para tentar afastar a imagem da Mizi nua sobre ela, mas a memória do toque era persistente.
— Escreve, Sua! — Hyuna incentivou, a voz suave mas firme. — A gente está preocupado. Foi algo ruim?
Sua negou com a cabeça freneticamente. *Não era ruim. Esse era o problema. Era bom demais e muito, muito íntimo.*
Mizi se aproximou novamente, desta vez com mais cautela, pegando a mão trêmula de Sua.
— Seja o que for, a gente lida com isso. Você lembrou de um lugar? De uma pessoa?
Sua olhou para Mizi. A preocupação genuína nos olhos dourados da namorada a fez sentir uma pontada de culpa. Ela não podia deixar Mizi sofrendo daquele jeito, achando que tinha feito algo de errado.
Com um suspiro trêmulo, Sua apoiou o caderno na mesa e começou a escrever. Ela escrevia devagar, as letras saindo trêmulas e desiguais. O grupo se inclinou, todos tentando ler ao mesmo tempo.
"EU LEMBREI."
— Lembrou do quê? — Mizi perguntou, o fôlego suspenso.
Sua hesitou. Ela olhou para os amigos e depois escreveu a frase que mudaria o clima daquela mesa para sempre:
"LEMBREI DA GENTE NO QUARTO. VOCÊ PRENDENDO MEUS BRAÇOS."
Houve um segundo de silêncio absoluto.
Till franziu a testa, processando.
— No quarto? Tipo... lutando?
Ivan, que tinha uma mente muito mais rápida para esse tipo de coisa, soltou um engasgo que foi metade risada, metade choque. Ele cobriu a boca, os olhos brilhando de diversão maligna.
— Oh. *Oh.*
Hyuna arregalou os olhos, a boca formando um "O" perfeito. Luka limpou a garganta, subitamente muito interessado na estampa do seu copo de sorvete, as orelhas ficando vermelhas.
Mizi leu a frase e, por um momento, ficou estática. Então, a compreensão a atingiu como um raio. Suas bochechas, que já estavam rosadas, atingiram um tom de neon.
— Sua! — Mizi exclamou, a voz saindo dois tons acima do normal. — Você... você lembrou *disso*? Agora? Aqui?
Sua, sentindo que não tinha mais nada a perder e querendo apenas que a terra a engolisse, continuou escrevendo com uma fúria nervosa:
"FOI DA GENTE TRANSANDO, MIZI! EU LEMBREI DOS SEUS DEDOS E DE TUDO! POR QUE EU LEMBREI DISSO NA FRENTE DE TODO MUNDO?!"
Ela virou o caderno com um baque surdo na mesa.
Till, que finalmente entendeu, soltou um ruído abafado e enterrou a cara nas mãos.
— Por que eu tenho ouvidos? Por que eu estou aqui? — ele resmungou, a voz abafada. — Eu não precisava dessa informação. Nunca.
Ivan não aguentou. Ele soltou uma gargalhada alta, batendo na mesa, atraindo a atenção de outras pessoas na sorveteria.
— Eu sabia! — gritou Ivan, entre risos. — Eu sempre soube que a Mizi era a que mandava na relação! "Prendendo os braços", hein? Quem diria que a nossa princesinha rosa era tão... intensa?
— Cala a boca, Ivan! — Mizi gritou, escondendo o rosto nas mãos, embora estivesse sorrindo por trás dos dedos.
— Nossa, Sua... — Hyuna disse, tentando manter a compostura, mas falhando miseravelmente enquanto dava tapinhas nas costas da amiga. — De todas as memórias... o seu subconsciente tem prioridades bem claras, hein?
Sua estava com a testa encostada na mesa, querendo desaparecer. Ela sentia o olhar de todos sobre ela — o deboche de Ivan, o constrangimento de Till, a surpresa de Hyuna e Luka. Mas, acima de tudo, ela sentia o toque de Mizi.
Mizi se inclinou, sussurrando perto do ouvido de Sua, ignorando as piadas de Ivan que agora envolviam algemas imaginárias.
— Ei... — Mizi disse, a voz cheia de um carinho travesso. — Pelo menos agora eu sei que você não esqueceu de como eu te fazia sentir.
Sua levantou a cabeça apenas o suficiente para lançar um olhar mortal para Mizi, mas não conseguiu manter a pose por muito tempo. O absurdo da situação era grande demais. Ela pegou a caneta e escreveu:
"VOCÊ É UM PERIGO, MIZI."
— E você é uma safada que recupera a memória nos momentos mais impróprios — rebateu Mizi, piscando para ela.
— Gente, por favor, podemos voltar a falar de coisas que não envolvam a vida sexual da Sua? — pediu Till, parecendo genuinamente traumatizado. — Eu ainda quero terminar meu sorvete de menta sem visualizar a Mizi "prendendo pulsos".
— Ah, qual é, Till! — Hyuna provocou. — É um avanço médico! Ciência! O prazer como gatilho para a memória!
Luka, sempre o mais sensato, tentou acalmar os ânimos, embora ainda estivesse visivelmente sem graça.
— Bom, pelo menos é um sinal de que as memórias estão lá. Elas só precisam do estímulo certo.
— Estímulo certo, né, Luka? — Ivan piscou para ele. — Acho que a Mizi tem muito "trabalho de casa" para fazer com a Sua hoje à noite.
— IVAN! — Mizi e Sua (através de um gesto obsceno com a mão) gritaram ao mesmo tempo.
Apesar do constrangimento monumental, o clima na mesa tinha mudado. O peso da amnésia, que antes parecia uma barreira intransponível, tinha sido quebrado por uma revelação escandalosa e humana. Sua ainda estava morrendo de vergonha, mas havia algo libertador no fato de que sua primeira grande lembrança era algo tão visceralmente ligado ao que ela sentia por Mizi.
Enquanto o grupo continuava a zoar Mizi e Sua — com Ivan sugerindo que elas comprassem um manual de "sinais para adultos" e Till tentando desesperadamente mudar de assunto para futebol —, Mizi se aproximou de Sua e entrelaçou seus dedos.
Desta vez, quando Mizi apertou a mão de Sua, não houve pânico. Houve apenas um reconhecimento silencioso.
Sua olhou para Mizi e, com a mão livre, sinalizou algo que Mizi tinha lhe ensinado naquela manhã, mas adicionou um movimento que ela mesma criou no momento.
"Memória."
E depois apontou para Mizi e sorriu, um sorriso que desta vez não era tímido, mas sim cúmplice.
— Você está bem? — Mizi perguntou baixinho, enquanto Ivan e Hyuna começavam uma guerra de guardanapos.
Sua pegou o caderno e escreveu uma última coisa antes de guardá-lo:
"Estou. Mas da próxima vez que você me beijar assim em público, eu vou te morder para você aprender a não me dar flashbacks eróticos na frente do Till."
Mizi leu e soltou uma gargalhada deliciosa, encostando a cabeça no ombro de Sua.
— Combinado, meu amor. Combinado.
A tarde na sorveteria continuou, barulhenta e caótica como sempre. Para qualquer estranho que olhasse, eram apenas adolescentes sendo adolescentes. Mas para Sua, cada risada de Ivan e cada reclamação de Till agora pareciam mais reais. A neblina em sua mente estava começando a se dissipar, mesmo que o primeiro raio de sol a ter atravessado fosse um que ela preferiria ter mantido em segredo.
No final das contas, se o caminho para recuperar sua vida envolvia lembrar dos momentos mais intensos com a pessoa que ela amava, Sua estava disposta a enfrentar qualquer constrangimento.
Mas ela definitivamente ia trancar a porta do quarto na próxima vez que Mizi fosse visitá-la.