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My dear

O Labirinto das Memórias Proibidas

A sala de Hyuna estava mergulhada em um caos confortável. Era sábado à tarde, e os pais dela haviam viajado, deixando a casa como o quartel-general oficial do grupo. O som de uma playlist de indie rock ecoava baixo, competindo com o barulho de sacos de salgadinhos sendo abertos e as risadas ocasionais.

No tapete, a cena era, no mínimo, inusitada. Till e Ivan, que passavam 90% do tempo se estranhando, haviam finalmente cruzado a linha tênue entre o ódio e a tensão acumulada. Em um canto do sofá, os dois estavam em um emaranhado de braços e pernas, trocando beijos afoitos que faziam Till bufar entre os toques e Ivan sorrir contra os lábios do outro, claramente aproveitando cada segundo da irritação do guitarrista.

— Pelo amor de Deus, arrumem um quarto ou usem a garagem! — exclamou Hyuna, jogando uma almofada neles enquanto ria.

Luka, sentado ao lado dela, apenas ajeitou os óculos com um sorriso cúmplice.

— Deixe-os, Hyuna. O Till precisa de uma válvula de escape para tanta rebeldia acumulada.

Do outro lado da sala, o clima era diferente. Mizi estava jogada no sofá, com a cabeça pendida para trás e um olhar dramático fixo no teto. Ela parecia estar em um estado de abstinência emocional profunda. Ao seu lado, Sua estava compenetrada, segurando um tablet que mostrava vídeos tutoriais de língua de sinais. Ela movia os dedos com lentidão, tentando formar a frase "o gato subiu no telhado", mas sua mente parecia mais interessada em observar a curva do pescoço de Mizi do que nos sinais.

— Eu não aguento mais... — lamentou Mizi, a voz arrastada. — Eu sinto falta da minha namorada que sabia fofocar comigo por sinais em três segundos. Sua, meu amor, você é linda aprendendo, mas eu estou sofrendo sem os nossos segredos.

Sua olhou para ela e, com um biquinho de frustração, pegou o caderno e escreveu:

"EU ESTOU TENTANDO. MEUS DEDOS NÃO TÊM MEMÓRIA MUSCULAR AINDA."

— Mas o seu subconsciente tem uma memória muito boa para outras coisas, não é? — provocou Ivan, afastando-se de Till por um segundo, com o cabelo todo bagunçado e os lábios vermelhos. — E aí, Sua? Já teve mais algum flashback picante desde a sorveteria ou o "modo freira" foi ativado?

Till soltou um rosnado baixo, ajeitando a camisa.

— Não começa, Ivan. Eu ainda estou tentando esquecer a imagem da Mizi dominadora que a Sua descreveu ontem.

— Ah, qual é! — Hyuna se inclinou para frente, os olhos brilhando de malícia. — A gente tem que ajudar ela a lembrar. Sua, você lembra daquela vez no acampamento do segundo ano? Você ficou tão zonza depois da terceira rodada que nem conseguia andar em linha reta até o banheiro.

Sua franziu a testa, confusa. Ela olhou para Hyuna e depois para Mizi.

— Ah, é verdade! — Mizi exclamou, sentando-se ereta, a animação substituindo o desânimo. — Aquele dia foi épico. Eu tive que te carregar no colo porque você dizia que o chão estava "muito macio e ondulado".

— Seis vezes, Mizi — disse Luka, com seu tom calmo e informativo que sempre tornava as coisas mais embaraçosas. — Eu lembro de vocês sumirem da barraca e voltarem horas depois. O Till ficou reclamando que não conseguia dormir com os ruídos da barraca ao lado.

— EU NÃO RECLAMEI, EU SÓ DISSE QUE ERA FALTA DE EDUCAÇÃO! — gritou Till, ficando da cor de um tomate.

— Seis vezes? — Mizi riu, dando um tapinha no ombro de Sua. — Não, Luka. Seis vezes foi o recorde daquela noite específica. Mas a Sua sempre foi... resistente.

De repente, o mundo de Sua deu outra guinada violenta.

*Flashback.*

O ar estava quente e abafado dentro da barraca de nylon. O cheiro de terra molhada lá fora se misturava ao cheiro de suor e pele. Sua sentia o corpo mole, uma exaustão deliciosa que fazia seus membros pesarem. Mizi estava por cima dela, com o cabelo rosa bagunçado caindo sobre o rosto, limpando delicadamente o suor da testa de Sua com um lenço.

— Chega por hoje, Sua — sussurrou a Mizi da memória, com um sorriso de satisfação que beirava a crueldade. — Seis vezes já está de bom tamanho. Você vai acabar desmaiando se a gente continuar.

A Sua da memória tentou puxar Mizi de volta pelo colarinho da camiseta, mas sua visão estava turva, o prazer tinha sido tão intenso que ela se sentia flutuando. Mizi riu, beijando a ponta de seu nariz.

— Não, senhora. Agora você vai beber água e dormir. Eu cuido de você.

*Fim do Flashback.*

Sua largou o tablet no chão com um baque seco. Ela cobriu o rosto com as mãos, sentindo o calor irradiar de suas bochechas até a ponta das orelhas.

*PELO AMOR DE DEUS!* — ela gritava internamente. — *POR QUE EU SÓ LEMBRO DISSO? Sete vezes? Seis vezes? Como eu aguentava? Ela é um monstro?! Como a Mizi tem tanta energia? Ela parece um anjinho, mas é um perigo público!*

— Ih, lá vai ela de novo — comentou Ivan, apontando para Sua. — A "tela azul" da memória voltou. O que foi dessa vez, Sua? Lembrou da sétima rodada?

— Sua? — Mizi se aproximou, preocupada. — Você está bem? Você ficou pálida e depois vermelha muito rápido.

Sua não conseguia olhar para ninguém. Ela se sentia exposta, como se todos pudessem ver as imagens eróticas que passavam em sua mente. Ela apenas balançou a cabeça negativamente e apontou para o banheiro, fugindo da sala o mais rápido que suas pernas permitiam.

— Ela definitivamente lembrou de algo pesado — concluiu Hyuna, pegando mais um punhado de salgadinho.

***

Mais tarde, a casa ficou mais silenciosa. Hyuna e Luka haviam se recolhido para o quarto dos pais para ver um filme (ou assim eles disseram), enquanto Ivan e Till haviam se apropriado da sala, provavelmente continuando o que começaram antes no sofá.

No quarto de Hyuna, Mizi e Sua estavam sozinhas. A luz do abajur criava um clima íntimo e acolhedor. Mizi estava sentada na cama, observando Sua, que andava de um lado para o outro com o caderno nas mãos.

— Você quer me contar agora? — perguntou Mizi suavemente. — Ninguém vai rir, eu prometo.

Sua parou de andar. Ela olhou para Mizi, que parecia tão doce e inofensiva com seu pijama de gatinhos. Mas Sua agora sabia a verdade. Por trás daquela fofura existia uma dominadora incansável.

Com a mão trêmula, Sua escreveu e entregou o caderno para Mizi.

"EU LEMBREI DO ACAMPAMENTO. VOCÊ DISSE QUE SEIS VEZES ERA O BASTANTE. COMO EU AINDA ESTAVA VIVA?"

Mizi leu e, por um momento, o silêncio reinou. Então, um sorriso lento e perverso começou a se desenhar nos lábios da garota de cabelos rosa. Ela largou o caderno na colcha e se levantou, caminhando lentamente até Sua.

— Ah, então você lembrou disso... — Mizi murmurou, sua voz descendo uma oitava, tornando-se rouca e provocante. — É, você era bem persistente, Sua. Mas eu sempre soube quando parar para não te quebrar.

Mizi encurralou Sua contra a parede do quarto, colocando as mãos de cada lado da cabeça dela, prendendo-a exatamente como no flashback da sorveteria.

— Sabe... — Mizi continuou, aproximando o rosto do de Sua até que suas pontas de nariz se tocassem — ...é muito bom que você esteja recuperando essas memórias. Ajuda a gente a... restabelecer a nossa dinâmica.

Sua sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela deveria estar assustada, ou pelo menos envergonhada, mas o modo como Mizi a olhava, com aquela mistura de adoração e desejo, a deixava sem forças.

— O que foi? — zombou Mizi, soprando as palavras contra os lábios de Sua. — Ficou com medo da "monstra" que você lembrou? Ou será que... você ficou curiosa para saber se a sua resistência continua a mesma depois do coma?

Mizi deu uma risadinha baixa, roçando os lábios no pescoço de Sua, fazendo-a estremecer da cabeça aos pés.

— Eu estou só brincando, meu amor — disse Mizi, voltando a olhar nos olhos dela, mas sem se afastar. — Eu sei que você ainda está se recuperando. Eu não faria nada que você não quisesse. A gente pode só dormir e...

Sua, movida por um impulso que não vinha da sua mente desmemoriada, mas de algo muito mais profundo em seu instinto, agarrou a gola do pijama de Mizi. Ela pegou a caneta que estava presa no seu bolso e escreveu rapidamente na palma da própria mão, já que o caderno estava longe.

Ela mostrou a palma da mão para Mizi.

"EU QUERO RELEMBRAR."

Mizi arregalou os olhos. O choque durou apenas um segundo antes de ser substituído por um brilho predatório e intenso.

— Você tem certeza, Sua? — perguntou Mizi, a voz agora carregada de uma seriedade perigosa. — Porque se a gente começar, eu não vou parar na primeira rodada.

Sua não escreveu nada. Ela apenas puxou Mizi para um beijo faminto, respondendo à pergunta com a única linguagem que não precisava de sinais ou cadernos para ser compreendida.

Naquela noite, no quarto de Hyuna, Sua descobriu que algumas memórias não precisavam ser recuperadas pelo cérebro. Elas estavam escritas no modo como sua pele reagia ao toque de Mizi, no modo como seu corpo se curvava perfeitamente sob o dela e no modo como, mesmo no silêncio da sua voz, ela conseguia gritar o nome de Mizi através de cada suspiro.

A amnésia ainda era um labirinto, mas, pela primeira vez, Sua não se importava de estar perdida, desde que Mizi fosse quem a guiasse pela escuridão.

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