My dear
O Eco do Toque e o Brilho do Passado
O silêncio da manhã na casa de Hyuna tinha uma textura diferente, quase densa. Quando Sua abriu os olhos, a primeira coisa que sentiu foi o peso do próprio corpo contra os lençóis de algodão, uma sensação de exaustão que parecia ter se infiltrado até a medula dos seus ossos. A luz do sol filtrava pelas frestas da persiana, desenhando listras douradas sobre a cama vazia.
Vazia.
Sua tateou o lado oposto do colchão, encontrando apenas o lençol bagunçado e o calor residual de alguém que havia acabado de sair. Ela se sentou devagar, sentindo um latejo leve na base da coluna e uma dormência familiar nas coxas. Ao tentar se levantar, suas pernas vacilaram, bambas como se tivessem esquecido como sustentar seu peso.
Foi então que as imagens da noite anterior voltaram em uma enxurrada impiedosa.
Não foram apenas borrões. Foram cinco vezes. Cinco rodadas de uma intensidade que Sua nunca imaginou ser capaz de suportar. Ela lembrou da voz de Mizi, geralmente tão doce e brincalhona, transformando-se em um comando rouco e possessivo. Lembrou do modo como Mizi a conduzia, da paciência cruel em levá-la ao limite repetidamente, garantindo que Sua perdesse os sentidos em ondas de prazer absoluto antes de permitir que ela descansasse.
*Cinco vezes.*
Sua sentiu o rosto esquentar, um rubor que não tinha nada a ver com a febre. Ela se vestiu com movimentos lentos, sentindo o atrito da roupa contra a pele sensível. Cada passo em direção à porta era um esforço consciente para não desabar. Ela se sentia grogue, como se estivesse flutuando em uma névoa de endorfina e cansaço.
Ao chegar na sala, o cenário era de uma paz doméstica quase irônica. Hyuna e Luka preparavam algo na cozinha, o cheiro de café fresco preenchendo o ar. Ivan e Till estavam jogados no sofá grande, Till com a cabeça no colo de Ivan enquanto este mexia no celular, parecendo estranhamente calmos. Mizi estava sentada em uma poltrona lateral, segurando uma caneca de chá, com um olhar distante e pensativo.
Sua se sentou no sofá, ao lado dos pés de Till, soltando um suspiro audível.
— Olha só quem sobreviveu à maratona — comentou Ivan, sem tirar os olhos da tela, mas com aquele sorriso de canto que Sua já tinha aprendido a odiar e amar ao mesmo tempo.
— Você está bem, Sua? — perguntou Hyuna, aparecendo na porta da cozinha com uma espátula na mão. — Você parece que foi atropelada por um caminhão de glitter rosa.
Mizi despertou de seus pensamentos e olhou para Sua. O olhar dela não era de deboche; era carregado de uma ternura protetora, mas também de uma satisfação silenciosa que fez Sua desviar o olhar imediatamente, o coração martelando.
Nesse exato momento, um barulho alto vindo da rua — o estouro de um escapamento de moto seguido pelo som estridente de pneus freado no asfalto — ecoou pela sala.
O mundo de Sua parou.
O som não foi apenas um ruído externo. Foi um gatilho.
De repente, ela não estava mais na sala de Hyuna. Ela estava dentro de um carro. O cheiro de metal retorcido, o gosto acre de sangue na boca e o som ensurdecedor de vidro se estilhaçando em mil diamantes mortais. Ela sentiu o impacto, a pressão violenta contra o peito. Mas, acima de tudo, ela viu Mizi.
Mizi estava no banco do motorista. O rosto dela estava coberto de poeira e pequenos cortes, o cabelo rosa desgrenhado. Mesmo com o carro tombado, mesmo com a dor evidente em sua expressão, Mizi não olhava para si mesma. Ela estava esticando o braço, tentando alcançar a mão de Sua, ignorando o fato de que seu próprio ombro parecia deslocado e que o sangue escorria de um corte profundo em sua testa.
— Sua... — a Mizi da memória sussurrava, a voz embargada pelo pânico e pela dor. — Fica comigo... olha pra mim... por favor, não fecha os olhos...
Mizi tinha priorizado Sua. Ela tinha tentado protegê-la com o próprio corpo no momento da colisão, usando o que restava de suas forças para garantir que o lado do passageiro sofresse menos impacto.
Sua soltou um arquejo sufocado na sala, levando as mãos à cabeça. As lágrimas começaram a descer sem aviso, quentes e desesperadas.
— Sua! O que foi? — Mizi largou a caneca e correu para o lado dela, ajoelhando-se no chão. — Foi o barulho? Calma, está tudo bem, foi só uma moto...
Sua agarrou os ombros de Mizi, os dedos cravando-se no tecido da camiseta dela. Ela olhou nos olhos dourados de Mizi, mas não via apenas a garota daquela manhã. Ela via a salvadora. A garota que quase morreu para que ela pudesse acordar.
Sua pegou o caderno que estava na mesa de centro com uma urgência febril e escreveu, as letras saindo grandes e trêmulas:
"EU LEMBREI DO ACIDENTE. VOCÊ ME SALVOU. VOCÊ ESTAVA SANGRANDO E SÓ QUERIA ME ALCANÇAR."
Mizi leu e sentiu o próprio ar faltar. Ela puxou Sua para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço da namorada.
— Está tudo bem, Sua. Passou. Eu faria tudo de novo. Eu só queria que você ficasse bem — sussurrou Mizi, a voz trêmula de emoção.
O grupo na sala ficou em silêncio absoluto. Até Ivan parecia ter perdido a vontade de fazer piadas. Till sentou-se ereto, observando as duas com uma expressão de respeito sombrio.
Mizi começou a acariciar as costas de Sua, fazendo movimentos circulares e lentos, tentando acalmar o tremor que sacudia o corpo da menor.
— Shhh... eu estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum. Calma, respira comigo.
Aquele gesto, o modo como Mizi a envolvia e a voz baixa e constante, desencadeou outra lembrança. Não uma lembrança de dor ou de sexo, mas algo cotidiano. Sua lembrou de uma tarde chuvosa, muito antes do acidente, onde ela estava chorando por causa de uma nota baixa ou de um livro que tinha terminado de forma triste — algo bobo, pequeno. E Mizi a confortava exatamente daquele jeito.
Naquela memória, Sua tinha se agarrado a Mizi e feito um gesto específico. Um ato de carinho que era só delas, um código secreto que substituía as palavras que Sua não podia dizer.
Sua se afastou levemente do abraço, ainda com os olhos úmidos. Ela olhou para Mizi e, com uma delicadeza que contrastava com o pânico de segundos atrás, levou a mão direita ao rosto de Mizi. Com o polegar, ela desenhou um pequeno círculo na bochecha de Mizi e, em seguida, tocou levemente o lóbulo da orelha dela, terminando com um toque suave no centro da testa.
Era um movimento contínuo, como se estivesse desenhando uma constelação invisível no rosto da namorada.
Mizi paralisou. Seus olhos se arregalaram e uma nova onda de lágrimas, desta vez de pura alegria, transbordou.
— Sua... — Mizi sussurrou, a voz falhando completamente. — Você... você fez o nosso sinal.
Sua assentiu devagar, um sorriso frágil, mas genuíno, surgindo em seus lábios. Ela pegou o caderno e escreveu:
"EU TE AMO. EU LEMBREI QUE ESSE ERA O MEU JEITO DE DIZER QUE TE AMO QUANDO MEU CORAÇÃO ESTAVA CHEIO DEMAIS."
Mizi soltou um soluço de alívio e puxou Sua para um beijo, mas desta vez não havia urgência ou desejo carnal. Era um beijo de reconhecimento, de cura.
— Eu também te amo, Sua — disse Mizi, encostando a testa na dela. — Eu nunca esqueci.
— Ok, agora eu também vou chorar — resmungou Till, desviando o olhar e limpando o canto do olho com o braço.
— Tarde demais, Till. Você já está com cara de quem assistiu a um filme de cachorro que morre no final — provocou Ivan, embora ele mesmo parecesse visivelmente tocado.
Hyuna se aproximou e colocou a mão no ombro de Mizi.
— Acho que isso merece um café da manhã especial. Luka, capricha nas panquecas. A nossa Sua está voltando de verdade.
Enquanto o grupo se movimentava para preparar a refeição, Sua permaneceu ali, sentada no sofá com Mizi. Ela ainda se sentia cansada, e as memórias do acidente ainda doíam como feridas abertas, mas o peso do esquecimento não parecia mais uma sentença de morte.
Ela olhou para Mizi e repetiu o gesto — o círculo na bochecha, o toque na orelha, o ponto na testa.
— De novo? — perguntou Mizi, sorrindo entre as lágrimas.
Sua pegou o caderno.
"PARA VOCÊ NÃO ESQUECER QUE, MESMO QUE EU ESQUEÇA TUDO DE NOVO, MEU CORAÇÃO SEMPRE VAI SABER O CAMINHO DE VOLTA PARA VOCÊ."
Mizi abraçou Sua novamente, e ali, no meio da sala de Hyuna, cercada pelos amigos que nunca desistiram delas, Sua sentiu que o silêncio da sua voz não importava mais. Ela tinha encontrado sua linguagem, sua memória e, acima de tudo, seu lar.
A recuperação seria lenta, os traumas do acidente ainda teriam que ser processados e os flashbacks sensuais provavelmente continuariam a deixá-la envergonhada nos momentos mais inoportunos. Mas enquanto Mizi estivesse ali, traduzindo o mundo com um beijo e recebendo seus sinais secretos com o coração aberto, Sua sabia que não havia labirinto no qual ela pudesse se perder para sempre.
Afinal, o amor não era feito apenas de memórias guardadas no cérebro; ele estava escrito na pele, no toque e no ritmo compartilhado de dois corações que se recusaram a parar, mesmo quando o mundo tentou silenciá-los.