My dear
O Jardim de Vidro e a Promessa de Outrora
O domingo amanheceu com uma preguiça dourada, daquelas que convidam a alma a permanecer sob os lençóis por mais tempo. Na casa de Mizi, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo tique-taque rítmico de um relógio de parede na cozinha e pelo som suave da respiração de Sua.
Elas estavam sozinhas. Os pais de Mizi haviam saído cedo para resolver pendências da família, deixando para trás um bilhete e uma casa que parecia pequena demais para conter o tamanho do que Mizi e Sua estavam reconstruindo.
Sua acordou primeiro. Ela sentiu o peso reconfortante do braço de Mizi sobre sua cintura. O sol atravessava as cortinas finas do quarto, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Ela ficou imóvel por longos minutos, apenas observando o rosto de Mizi em repouso. A garota de cabelos rosa parecia um anjo, a expressão suave, sem o peso da ansiedade que a amnésia de Sua havia imposto nos últimos meses.
Sua estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, traçou o contorno da mandíbula de Mizi. O toque foi leve, mas o suficiente para que Mizi soltasse um murmúrio sonolento e abrisse os olhos. O dourado das íris de Mizi encontrou o roxo profundo de Sua, e um sorriso lento e genuíno floresceu.
— Bom dia, dorminhoca — sussurrou Mizi, puxando Sua para mais perto, enterrando o rosto na curva de seu pescoço. — Você está com um cheiro tão bom.
Sua sorriu, sentindo o peito aquecer. Ela procurou o caderno na mesa de cabeceira, mas Mizi segurou sua mão.
— Não precisa do caderno agora. Só fica aqui.
Elas permaneceram assim, em um emaranhado de pernas e carinhos, até que a fome se tornou maior que a preguiça. Mizi preparou um café da manhã tardio: torradas com geleia e chá de camomila. Elas comeram na pequena mesa da varanda, que dava para um jardim bem cuidado, cheio de flores que Mizi insistia em dizer que Sua ajudara a plantar no ano anterior.
Foi enquanto observava uma roseira específica, de pétalas brancas com as bordas levemente rosadas, que o estalo aconteceu.
A luz que batia nas flores, o vento morno que trazia o cheiro de terra úmida e o modo como Mizi cantarolava uma melodia qualquer enquanto limpava a mesa... tudo se alinhou.
*Flashback.*
Era o final do primeiro ano, quase início do segundo. O sol estava se pondo, tingindo o céu de tons de violeta e laranja que combinavam com os olhos de Sua. Elas estavam no jardim da escola, escondidas atrás da estufa de vidro. Mizi parecia mais nervosa do que o habitual, as mãos escondidas nas costas e os pés balançando inquietos.
— Sua — disse a Mizi do passado, a voz falhando levemente. — Eu sei que eu falo demais. E eu sei que você gosta do silêncio. Mas eu queria saber se você aceitaria compartilhar esse silêncio comigo... para sempre. Ou pelo menos até a gente se formar. Ou até depois disso.
Mizi tirou as mãos das costas. Ela não segurava um anel caro, mas sim uma pulseira feita de linha trançada com uma pequena conta de vidro roxo no centro.
— Eu não sou muito boa com palavras sérias, mas... eu amo você. De um jeito que dói e que me faz querer ser melhor. Você quer ser minha namorada? Oficialmente? Com direito a segurar a mão no corredor e tudo?
A Sua da memória não respondeu com o caderno. Ela simplesmente pegou a mão de Mizi, colocou a pulseira no próprio pulso e a puxou para um beijo que selou o destino das duas sob a luz do crepúsculo.
*Fim do Flashback.*
Na varanda da casa de Mizi, a Sua do presente deixou a xícara de chá bater no pires com um som metálico. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente, mas não eram lágrimas de dor. Era o alívio de reencontrar uma peça fundamental do seu próprio quebra-cabeça.
Mizi largou o pano de prato e correu para o lado dela, o pânico habitual voltando aos seus olhos.
— Sua? O que foi? Outro flashback? Você está sentindo dor?
Sua negou com a cabeça, soluçando baixinho. Ela pegou o caderno com urgência e escreveu, a caligrafia mais firme do que nunca:
"O JARDIM DE VIDRO. A PULSEIRA DE LINHA. O CREPÚSCULO."
Mizi leu e sentiu o próprio coração parar por um segundo. Ela levou a mão ao peito, onde, por baixo da camiseta, ela ainda guardava uma pulseira idêntica presa em um cordão no pescoço.
— Você lembrou... — Mizi sussurrou, a voz embargada. — Você lembrou do nosso pedido.
Sua assentiu freneticamente. Ela se levantou e abraçou Mizi com toda a força que possuía. Ela queria gritar que lembrava do frio na barriga, da doçura do primeiro beijo "oficial", do medo de ser rejeitada que Mizi tentava esconder atrás daquele sorriso radiante. Como ela não conseguia falar, ela usou o corpo. Ela apertou Mizi contra si, escondendo o rosto em seu ombro, deixando que suas lágrimas molhassem o tecido da blusa da namorada.
Mizi a conduziu de volta para dentro, para o sofá da sala. Elas se acomodaram juntas, com Sua sentada entre as pernas de Mizi, as costas apoiadas no peito dela. O clima de agitação do flashback deu lugar a uma calmaria profunda e doce.
— Eu fiquei com tanto medo naquele dia — confessou Mizi, acariciando os cabelos curtos e pretos de Sua. — Você ficou me olhando por tanto tempo em silêncio que eu achei que você ia escrever no caderno "Mizi, você é legal, mas vamos ser apenas amigas".
Sua riu silenciosamente, sentindo a vibração da risada de Mizi contra suas costas. Ela pegou o caderno e escreveu:
"EU SÓ ESTAVA TENTANDO NÃO DESMAIAR. VOCÊ ESTAVA MUITO BONITA COM A LUZ DO SOL NO SEU CABELO."
— Ah, pare com isso! — Mizi corou, dando um beijo no topo da cabeça de Sua. — Você sempre soube como me deixar sem jeito, mesmo sem dizer uma palavra.
Elas passaram o resto da tarde assim, imersas em uma bolha de afeto. Mizi contava detalhes daquele dia que Sua ainda não tinha recuperado — como ela tinha passado três horas tentando trançar a pulseira e como quase desistiu porque achou que a conta de vidro não era da cor exata dos olhos de Sua.
Sua ouvia tudo com uma atenção devocional. Cada detalhe que Mizi fornecia era como uma pincelada de cor em uma tela que antes estava em branco.
— Sabe o que é mais engraçado? — Mizi disse, enquanto brincava com os dedos de Sua. — Mesmo quando você acordou e não sabia quem eu era, você ainda me olhava do mesmo jeito. Como se sua alma estivesse tentando furar o bloqueio da sua memória.
Sua pegou a mão de Mizi e a levou aos lábios. Ela escreveu:
"PORQUE O MEU AMOR POR VOCÊ NÃO ESTÁ NA MEMÓRIA, MIZI. ESTÁ NO MEU RITMO. EU NÃO PRECISO LEMBRAR QUE TE AMO PARA SENTIR QUE VOCÊ É O MEU LUGAR SEGURO."
Mizi sentiu os olhos arderem novamente. Ela virou Sua para que ficassem de frente uma para a outra. O sofá parecia o lugar mais confortável do mundo. Mizi segurou o rosto de Sua com as duas mãos, polegares acariciando as maçãs do rosto pálidas.
— Eu senti tanta falta de você, Sua. Da nossa Sua. Mas eu estou amando conhecer essa nova versão também. Você é corajosa. E você continua sendo a pessoa mais incrível que eu já conheci.
Sua sinalizou, com movimentos lentos mas precisos, o sinal de "obrigada" que Mizi lhe ensinara. Depois, ela fez o seu sinal especial — o círculo na bochecha, o toque na orelha e o ponto na testa.
Mizi sorriu e selou o gesto com um beijo calmo. O beijo evoluiu para algo mais profundo, mas sem a urgência frenética da noite anterior na casa de Hyuna. Era um beijo de conforto, de promessa. Mizi explorava a boca de Sua com uma doçura que fazia a menor se sentir protegida, como se nada no mundo pudesse machucá-la novamente.
Elas acabaram deitadas no tapete da sala, cercadas por almofadas, assistindo a um filme qualquer na TV que nenhuma das duas estava realmente vendo. Sua apoiava a cabeça no peito de Mizi, ouvindo as batidas estáveis do coração dela.
— Mizi? — Sua sinalizou, chamando a atenção da namorada.
— Oi, meu amor?
Sua pegou o caderno e escreveu uma última frase antes de o sono começar a vencê-la novamente, fruto da exaustão emocional e física dos últimos dias.
"NÃO PRECISAMOS MAIS DE ESTUFAS DE VIDRO OU JARDINS ESCONDIDOS. EU SOU SUA, EM QUALQUER LUGAR."
Mizi leu a frase e sentiu uma paz que não experimentava desde antes do acidente. Ela abraçou Sua, cobrindo as duas com uma manta felpuda.
— Sim, você é minha. E eu sou inteiramente sua.
Naquela noite, na casa silenciosa de Mizi, Sua não teve pesadelos com carros batendo ou vidros quebrando. Ela sonhou com jardins, com pulseiras de linha roxa e com uma voz que, mesmo no seu silêncio, nunca parou de chamá-la de volta para casa. A amnésia ainda tinha seus mistérios, e o futuro ainda era uma estrada em construção, mas enquanto houvesse o toque de Mizi e o eco daquela promessa de outrora, Sua sabia que nunca mais estaria verdadeiramente perdida.