Voltar ao resumo

my girl

Entre Segredos, Ciúmes e Promessas de Verão

A manhã na chácara nasceu com um céu azul tão límpido que parecia pintado à mão. O sol entrava pelas frestas da cortina do quarto de hóspedes, avisando que o segundo dia de férias seria ainda mais quente que o primeiro. Eu acordei sentindo o peso do braço do Matheus Luiz sobre a minha cintura, um abraço possessivo até mesmo durante o sono. Fiquei ali, imóvel por alguns minutos, apenas sentindo o ritmo da respiração dele contra as minhas costas. Era estranho e maravilhoso pensar que, há apenas dois dias, estávamos naquela tensão de "vai ou não vai" nos corredores da escola.

Com cuidado para não acordá-lo, peguei meu celular na mesinha de cabeceira. Tinha uma mensagem da Lorena enviada às sete da manhã no nosso chat privado.

"Amiga, acorda! O Hanan já está querendo ir para o rio que tem aqui perto e eu não vou sem você. Se o Matheus não te soltar, eu vou aí e arranco ele da cama!"

Eu ri baixinho, sentindo o peito vibrar. Lorena não mudava nunca. Antes que eu pudesse responder, senti o Matheus se mexer atrás de mim. Ele me puxou para mais perto, enterrando o rosto no meu pescoço.

— Bom dia, marrentinha... — a voz dele estava rouca de sono, o que me deu um frio na barriga instantâneo. — Já está no celular?

— Bom dia, chato — respondi, virando-me para encará-lo. — A Lorena já está planejando nossa expedição ao rio. Acho melhor a gente levantar antes que ela arrombe essa porta.

— Ela não teria coragem — ele murmurou, me dando um selinho demorado. — Ou teria?

— É a Lorena, Matheus. Ela não tem limites quando o assunto é me tirar de perto de você para ser "só dela".

Levantamos e, depois de um café da manhã reforçado com as nossas famílias — que não paravam de fazer piadinhas sobre como a gente "dormiu bem" —, arrumamos as mochilas. O rio ficava a uns dez minutos de caminhada por uma trilha de terra batida. O grupo estava completo: eu, Matheus Luiz, Lorena, Hanan, Gabriel e o Matheus Gois, que tinha chegado naquela manhã com os pais dele.

— Olha, eu só vim porque me falaram que tinha wi-fi na beira do rio — brincou Gois, ajeitando o boné. — Se o sinal cair, eu volto pra sede da chácara.

— Deixa de ser viciado, Gois! — Gabriel deu um tapa no ombro dele. — Olha essa paisagem, cara. Esquece o Free Fire por uma hora.

Caminhamos pela trilha sob o sol forte. Eu estava com um biquíni preto por baixo de uma saída de praia transparente, e o Matheus Luiz não tirava a mão do meu ombro, como se estivesse marcando território na frente dos outros meninos. Quando chegamos ao rio, a água estava cristalina, batendo nas pedras e formando pequenas quedas d'água naturais.

— É perfeito! — Lorena gritou, já tirando o short e correndo para a beira da água. — Hanan, vem logo!

Hanan, sempre mais tímido, tirou a camisa e foi atrás dela. Eu me sentei em uma pedra grande e chata, deixando o sol esquentar minha pele. Matheus Luiz sentou logo atrás de mim, abrindo as pernas para que eu pudesse me encostar no peito dele.

— Hanna — ele sussurrou perto do meu ouvido, enquanto os outros faziam algazarra na água —, você viu quem curtiu sua foto nova no Instagram?

Eu respirei fundo, já sabendo onde aquela conversa ia parar.

— Não vi, Matheus. Quem foi?

— O Rodrigo. De novo. — Senti o corpo dele tensionar. — Ele não se toca? Todo mundo já sabe que a gente está namorando. Eu postei foto, você postou foto...

— Amor, relaxa — eu disse, virando o rosto para olhar para ele. — É só uma curtida. Eu nem respondo as mensagens dele. Você sabe que eu só tenho olhos para você.

— Eu sei, eu sei — ele resmungou, fazendo um biquinho de ciúmes que eu achava a coisa mais fofa do mundo. — Mas ele fica cercando. Se eu ver ele na rua quando a gente voltar, vou ter que trocar uma ideia séria.

— Você não vai trocar ideia nenhuma — respondi, rindo e passando minhas unhas grandes pelo braço dele, fazendo um carinho leve. — Você vai focar em mim e nas nossas férias. Combinado?

— Combinado — ele cedeu, me dando um beijo no ombro. — Mas se ele comentar na foto, eu vou apagar.

— Ciumento demais — brinquei, levantando-me. — Vamos nadar?

Ficamos na água por horas. Gabriel e Gois tentavam pescar com as mãos, o que era um desastre completo e nos rendia crises de riso. Em um momento, Lorena se aproximou de mim enquanto os meninos tentavam fazer uma competição de quem ficava mais tempo embaixo d'água.

— Amiga, preciso te contar — ela disse, com os olhos brilhando. — O Hanan me pediu em namoro sério ontem à noite, na varanda.

— O quê? — gritei, atraindo a atenção de alguns pássaros nas árvores. — E você só me conta agora?

— Shhh! — ela colocou a mão na minha boca, rindo. — Eu queria ter certeza de que não era um sonho. Ele foi tão fofo, Hanna. Disse que não queria ser só um "rolo de férias".

— Eu sabia! — abracei ela com força, quase nos derrubando na água rasa. — Agora somos oficialmente o quarteto fantástico.

— É, mas o Matheus Luiz ainda me olha como se eu fosse roubar você dele a qualquer momento — Lorena comentou, olhando para onde o Matheus estava saindo da água.

— E você não vai? — provoquei.

— Vou, mas só 90% do tempo, como combinamos.

O dia passou entre mergulhos, lanches improvisados e muitas fotos para o TikTok e Instagram. Eu e Lorena gravamos um vídeo de dancinha na beira do rio, e os meninos ficaram ao fundo tentando estragar o vídeo com caretas, o que acabou ficando super engraçado e viralizou em poucas horas entre o pessoal da escola.

Quando o fim de tarde chegou, voltamos para a chácara. O cansaço era bom, aquele peso nos músculos que só um dia de sol proporciona. Depois do jantar com as famílias — que agora discutiam sobre o que fazer no Réveillon —, eu e o Matheus Luiz conseguimos escapar para a área da rede, que ficava um pouco mais afastada da casa principal.

A lua estava cheia, iluminando o gramado com uma luz prateada. Deitamos na rede grande, eu por cima dele, sentindo o balanço suave.

— Hanna? — ele chamou baixinho.

— Oi?

— Eu estava pensando... a gente vai fazer 15 anos ano que vem, né?

— Sim, em agosto. Por quê?

— É que... eu quero que a gente dure muito. Não quero que seja só uma coisa de oitavo ano. Eu gosto de verdade de você, marrentinha. De um jeito que eu nunca gostei de ninguém.

Eu senti meu coração amolecer. O Matheus Luiz podia ser ciumento e às vezes um pouco infantil, mas o sentimento dele era real. Dava para sentir na forma como ele me segurava.

— Eu também gosto de você, Matheus — confessei, escondendo o rosto no pescoço dele. — De verdade.

Ficamos em silêncio por um tempo, apenas ouvindo os sons da natureza. Mas o clima romântico foi quebrado pelo som de passos rápidos na grama.

— ACHAMOS VOCÊS! — era o grito do Gabriel, seguido pelo Matheus Gois. — Nada de melaço agora, a gente vai jogar "Eu Nunca" com refrigerante e pimenta lá na beira da fogueira. O Hanan e a Lorena já estão lá!

— Ah, não... — Matheus Luiz reclamou, afundando a cabeça na rede. — A gente não tem paz?

— Nem um segundo — eu ri, levantando-me e puxando ele pela mão. — Vamos, antes que eles venham carregar a gente.

A fogueira já estava alta, estalando brasas para o céu escuro. Sentamos em troncos de árvore ao redor do fogo. Lorena e Hanan estavam de mãos dadas, trocando olhares cúmplices. Gabriel, o mestre de cerimônias, segurava uma garrafa de dois litros de Sprite misturada com um molho de pimenta que o pai do Gois tinha feito.

— Regras simples — explicou Gabriel. — Se você já fez o que eu disser, bebe um gole. Se mentir e a gente descobrir, bebe o dobro.

— Isso vai dar muito errado — comentou Hanan, já rindo.

— Primeira rodada — começou Gabriel. — Eu nunca... mandei mensagem para um ex ou para alguém que eu gostava enquanto estava com outra pessoa.

Ninguém bebeu.

— Somos todos fiéis, que lindo! — debochou Gois. — Minha vez: Eu nunca... fiquei com ciúmes de curtida no Instagram hoje.

Todo mundo olhou para o Matheus Luiz. Ele bufou, pegou o copo e deu um gole generoso, fazendo uma careta imediata por causa da pimenta.

— Tá ardendo, seu idiota! — ele gritou para o Gois, enquanto a gente caía na gargalhada.

— Eu nunca... — foi a vez da Lorena, com um olhar malicioso para mim — ...fiquei enrolando um garoto por meses só para ver ele sofrer um pouquinho antes de dizer sim.

Eu olhei para ela indignada, enquanto o Matheus Luiz me encarava esperando a resposta.

— Eu não estava fazendo ele sofrer! — defendi-me, mas peguei o copo e bebi. — Eu só estava... avaliando as opções.

— Avaliando as opções, Hanna? — Matheus Luiz perguntou, fingindo estar ofendido. — Tinha uma fila, por acaso?

— Tinha o Rodrigo, lembra? — Gabriel provocou, e quase levou um chute do Matheus.

O jogo continuou, ficando cada vez mais pesado e engraçado. Revelamos segredos bobos da escola, como quem já tinha colado na prova de história (quase todos) e quem já tinha tido um "crush" secreto em algum professor. Quando a garrafa terminou e a língua de todo mundo estava ardendo, ficamos apenas conversando, vendo as chamas diminuírem.

— Sabe o que é doido? — comentou Hanan, abraçando a Lorena. — Há uma semana a gente estava preocupado com a nota de matemática e com o que ia fazer nas férias. E agora parece que a escola foi há um ano.

— É o efeito das férias — eu disse, encostando minha cabeça no ombro do Matheus. — O tempo para.

— E a gente começa a viver de verdade — completou o Matheus Luiz, me dando um beijo na testa.

De repente, ouvimos um barulho vindo da mata atrás da chácara. Um estalo de galho seco. Todo mundo ficou em silêncio na hora.

— O que foi isso? — Lorena perguntou, apertando o braço do Hanan.

— Deve ser um bicho, Lolo. Calma — eu disse, embora também estivesse com o coração acelerado.

— Ou o fantasma do zelador da escola que veio cobrar o boletim de vocês — brincou Gois, mas ninguém riu.

Outro estalo. Dessa vez mais perto. Gabriel se levantou, pegando uma lanterna.

— Quem está aí? — ele gritou.

Uma luz de celular se acendeu no meio das árvores. Dois vultos apareceram. Quando a luz iluminou os rostos, eu não pude acreditar. Eram dois meninos da nossa sala, o Lucas e o Vitor, que também moravam por perto e tinham descoberto onde estávamos.

— E aí, galera! — gritou Lucas, rindo da nossa cara de susto. — Ouvimos a gritaria de vocês daqui da estrada e resolvemos ver se o churrasco ainda estava de pé.

O susto passou e virou indignação.

— Vocês quase mataram a gente do coração! — Lorena gritou, jogando uma almofada neles.

Eles se juntaram ao grupo, trazendo mais histórias e fofocas da escola que a gente ainda não sabia. A noite se estendeu, com o frio da madrugada começando a chegar, mas ninguém queria ir dormir. Era aquela sensação de que, se a gente fechasse os olhos, o encanto das férias poderia quebrar.

Mais tarde, quando finalmente todos se recolheram, eu e o Matheus Luiz voltamos para o nosso quarto na casa de hóspedes. O silêncio era absoluto agora. Trancamos a porta e, por um momento, apenas ficamos nos olhando.

— Hanna — ele disse, aproximando-se e segurando meu rosto com as duas mãos —, obrigado por não ter escolhido o Hanan naquela disputa de força na escola.

— Por que você está falando disso agora? — perguntei, sorrindo.

— Porque se você tivesse escolhido ele, eu não estaria aqui agora. E eu não consigo imaginar minhas férias sem você.

Eu o beijei, um beijo profundo que selava todas as promessas que tínhamos feito silenciosamente um ao outro. Ele me puxou para a cama, e ficamos ali, abraçados, assistindo a mais um pedaço de filme no tablet, mas dessa vez meus olhos não conseguiam focar na tela. Eu só conseguia pensar em como eu era sortuda.

— Matheus? — sussurrei, quando ele já parecia estar cochilando.

— Oi...

— Deita aqui.

Ele se acomodou, e eu fiz o que tinha feito na noite anterior: deitei sobre ele, sentindo sua respiração. Ele passou as mãos pelas minhas costas, por baixo da camisa, e eu senti um arrepio familiar.

— Você é minha marrentinha — ele murmurou.

— E você é meu ciumento — respondi.

Dormimos com a promessa de que o dia seguinte seria ainda melhor. Não havia provas, não havia despertador às 5:40 da manhã, não havia preocupações. Havia apenas nós, o sol da chácara e um verão inteiro pela frente para descobrirmos quem éramos longe dos quadros negros e das salas de aula.

As unhas grandes que eu tinha feito com tanto orgulho agora descansavam sobre o peito do meu namorado. Eu era a Hanna, de 14 anos, no oitavo ano, e nunca me senti tão viva. As férias tinham acabado de começar, e o melhor de tudo era saber que eu não precisaria passar por nada disso sozinha. A Lorena tinha o Hanan, eu tinha o Matheus, e nós tínhamos uns aos outros. O resto do mundo podia esperar até o nono ano começar.