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My Only Problem

Labirinto de Máscaras e a Calmaria do Sótão

A manhã de sábado na mansão Waraha-Austin não começou com o silêncio que Charlotte esperava. O plano de fuga para a casa de praia, sussurrado entre beijos e promessas proibidas na noite anterior, foi estilhaçado antes mesmo do primeiro café. O Sr. Waraha, com sua voz de comando que não aceitava contestações, e a Sra. Austin, com seu sorriso de quem tentava desesperadamente manter as aparências de uma família comercial de margarina, decretaram o "Dia da Família".

— É uma oportunidade maravilhosa para estreitarmos laços — anunciou a mãe de Charlotte, ajeitando o guardanapo de linho. — Vamos passar o dia todo juntos, aqui em casa. Sem telefones, sem reuniões, apenas nós quatro.

Charlotte sentiu o olhar de Engfa queimar sobre si do outro lado da mesa de carvalho. Engfa estava com a expressão fechada, a jaqueta da McLaren substituída por uma camisa polo cara que escondia os hematomas da briga de ontem, mas não escondia o mau humor latente.

— Que ideia... fascinante — Engfa ironizou, a voz pingando sarcasmo enquanto cortava um pedaço de fruta com uma precisão cirúrgica. — Mal posso esperar para passar horas ouvindo sobre o mercado imobiliário e as novas tendências de decoração.

— Engfa, por favor — o Sr. Waraha repreendeu, embora houvesse um brilho de diversão no olhar. — Charlotte tem sido uma adição doce a esta casa. Você deveria aprender um pouco de etiqueta com sua irmã.

Ouvir a palavra "irmã" fez o estômago de Charlotte dar um nó. Ela olhou para baixo, focando em sua xícara de chá, sentindo a tensão elétrica que emanava de Engfa. Ela sabia que a mais velha estava prestes a explodir ou, o que era pior, a começar um de seus jogos de provocação.

E não demorou. Durante o almoço no jardim, sob o sol escaldante que deveria estar iluminando a areia da praia onde elas planejavam estar sozinhas, Engfa começou seu ataque silencioso. Enquanto os pais discutiam planos para uma viagem de esqui no inverno, Engfa estendeu a perna por baixo da mesa.

Charlotte sentiu o pé de Engfa subir lentamente por sua panturrilha, a ponta do sapato de grife roçando a pele nua que o vestido leve deixava exposta.

— Você está bem, Char? — Engfa perguntou, a voz aveludada, enquanto seus olhos brilhavam com um desafio perigoso. — Parece um pouco... tensa. Talvez devesse relaxar mais.

Charlotte apertou o garfo com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ela olhou para a mãe, que sorria para o Sr. Waraha, alheia ao que acontecia centímetros abaixo da toalha de mesa.

— Estou ótima, Engfa — Charlotte respondeu, a voz firme, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Só estou concentrada na conversa.

Engfa não parou. O pé subiu mais, pressionando a parte interna da coxa de Charlotte com uma audácia que a fez perder o fôlego por um segundo. A provocação era explícita. Engfa queria ver Charlotte perder o controle na frente dos pais, queria ver a máscara de "filha perfeita" rachar sob o peso do desejo e da raiva.

— Sabe, papai — Engfa disse, sem desviar o olhar de Charlotte —, eu estava pensando em como a Charlotte é dedicada às artes. Ela passa tanto tempo naquele sótão... às vezes eu sinto que ela precisa de uma companhia para ajudá-la a soltar a criatividade.

— Que bom que você se interessa pelos hobbies dela, querida — a Sra. Austin comentou, encantada. — É tão bonito ver vocês se dando bem.

Charlotte sentiu o sangue subir às bochechas. Ela decidiu que não seria a única a sofrer naquele jogo. Se Engfa queria fogo, ela teria um incêndio.

Aproveitando um momento em que o Sr. Waraha se levantou para atender uma ligação rápida — quebrando a própria regra de "sem telefones" —, Charlotte inclinou-se para frente, fingindo pegar a jarra de suco. Com um movimento rápido e calculado, ela cravou as unhas na mão de Engfa que estava apoiada sobre a mesa, apertando exatamente onde sabia que os nós dos dedos estavam esfolados da briga anterior.

Engfa soltou um suspiro pesado, o rosto retorcendo-se em uma mistura de dor e prazer súbito.

— Algum problema, Engfa? — Charlotte perguntou com um sorriso doce e venenoso. — Você parece ter perdido o fôlego.

Engfa travou o maxilar, os olhos escurecendo. Ela adorava quando Charlotte revidava. O jogo de gato e rato continuou durante toda a tarde. No cinema particular da mansão, enquanto assistiam a um documentário entediante que a Sra. Austin escolhera, Engfa aproveitava a escuridão para sussurrar obscenidades no ouvido de Charlotte, sua mão subindo perigosamente pela barra do vestido dela sempre que os pais se distraíam com a tela.

Charlotte, por sua vez, revidava com beliscões nos braços de Engfa ou sussurrando ameaças de que a deixaria trancada fora do quarto à noite. A tensão sexual entre as duas era uma corda esticada ao limite, vibrando com uma frequência que ameaçava quebrar os cristais da sala.

Quando a noite finalmente caiu e os pais se retiraram para seus aposentos, exaustos do "dia produtivo", a mansão mergulhou em um silêncio pesado.

Charlotte estava em seu quarto, tentando se concentrar em um livro de poemas, mas sua mente estava em curto-circuito. Ela estava brava com Engfa pelas provocações, mas também sentia aquela dependência emocional agoniante puxando-a em direção à porta da outra.

Antes que pudesse tomar uma decisão, a porta de seu quarto se abriu.

Engfa entrou sem pedir licença. Ela não usava a jaqueta de F1, nem a camisa polo. Estava apenas com uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta folgada. Seus olhos não tinham a faísca de malícia da tarde; pareciam cansados, vulneráveis.

— O que você quer agora? — Charlotte perguntou, fechando o livro com força. — Já não me provocou o suficiente na frente da minha mãe?

Engfa não respondeu com um sarcasmo ácido como de costume. Ela caminhou até a cama e, para a surpresa de Charlotte, simplesmente se sentou e deitou a cabeça no colo da mais nova.

— Eu estou cansada, Char — Engfa murmurou, a voz rouca, fechando os olhos. — O dia foi um inferno. Fingir que somos uma família normal... dói mais do que os socos que levei ontem.

Charlotte congelou. A agressora, a bully, a mulher que a controlava com mão de ferro, estava ali, buscando conforto. Charlotte deveria expulsá-la, deveria gritar por tudo o que passou durante o dia, mas suas mãos agiram por conta própria. Seus dedos deslizaram pelos cabelos castanhos de Engfa, desfazendo os nós com delicadeza.

— Você é impossível — Charlotte sussurrou, mas não havia raiva em sua voz.

— Eu me sinto sozinha, mesmo com eles lá embaixo — Engfa continuou, a voz abafada pelo tecido do vestido de Charlotte. — Só você me vê de verdade. Só você sabe o quanto eu sou quebrada. Me dá um pouco de carinho? Por favor.

Aquele "por favor" foi o golpe de misericórdia nas defesas de Charlotte. Ela se inclinou e beijou o topo da cabeça de Engfa, sentindo o cheiro de vinho e algo que era puramente o aroma da pele dela.

— Só porque você apanhou ontem — Charlotte mentiu para si mesma.

Elas ficaram ali por um longo tempo, imersas em um tipo de paz que raramente conheciam. Engfa acabou pegando no sono no colo de Charlotte, e a mais nova, sem coragem de acordá-la, acabou adormecendo também, encostada na cabeceira da cama.

Por volta das duas da manhã, Charlotte acordou com o movimento de Engfa. O quarto estava banhado pela luz prateada da lua.

— Char? — Engfa chamou baixinho.

— Oi.

— Eu perdi o sono. E acho que você também.

Engfa sentou-se na cama, observando Charlotte com um olhar suave.

— Vamos para o sótão — sugeriu Engfa. — Sem brigas. Sem marcas. Só nós.

Charlotte sorriu, uma expressão rara e genuína. Elas subiram as escadas em silêncio, como duas sombras cruzando a mansão. No sótão, o cheiro de tinta ainda pairava no ar. Engfa acendeu apenas uma pequena luminária de luz quente em um canto.

— Pinta algo para mim? — Engfa pediu, sentando-se no chão sobre um tapete velho.

— Agora? — Charlotte riu. — Está escuro.

— Eu te ajudo.

O que se seguiu foi uma das madrugadas mais estranhas e belas da vida de ambas. Elas não fizeram sexo, não houve a violência das mordidas ou a agressividade das provocações públicas. Em vez disso, Engfa pegou um dos pincéis e começou a passar tinta nas mãos.

— O que você está fazendo? — Charlotte perguntou, observando Engfa rir como uma criança.

— Arte conceitual — Engfa respondeu, pressionando a palma da mão suja de tinta azul em uma tela em branco. — Agora sua vez.

Charlotte cedeu ao momento. Ela pintou traços delicados enquanto Engfa borrava as cores com os dedos, criando um caos cromático que, de alguma forma, era harmonioso. Elas ouviram música em um volume quase inaudível no celular — algo suave, indie, que contrastava com as jaquetas de F1 e a vida acelerada de Engfa.

Entre um traço e outro, elas trocavam beijos leves. Não eram beijos de posse, mas de descoberta. Engfa limpou uma mancha de tinta na bochecha de Charlotte com o polegar, detendo-se para admirar o rosto da garota que ela afirmava ser sua vítima, mas que era, na verdade, sua salvação.

— Você é tão bonita quando não está com medo de mim — Engfa confessou, a voz baixa.

— E você é quase suportável quando não está tentando ser a dona do mundo — Charlotte rebateu, dando um beijinho na ponta do nariz de Engfa.

Eles se deitaram no chão do sótão, cercados por telas e cheiro de tinta. Engfa puxou Charlotte para seus braços, envolvendo-a de uma forma que a fazia se sentir pequena, mas protegida.

— Amanhã, na faculdade... — Charlotte começou.

— Eu sei — Engfa a interrompeu. — Eu vou ser a Waraha babaca de novo. Vou implicar com o seu lenço e vou afastar qualquer um que tente respirar o seu ar. Mas aqui...

— Aqui somos apenas nós — Charlotte completou, fechando os olhos e ouvindo as batidas do coração de Engfa.

— É — Engfa sussurrou, deixando um beijo na testa de Charlotte. — Só nós.

Naquela madrugada, as marcas que deixaram uma na outra não foram roxas ou vermelhas. Foram marcas invisíveis de uma compreensão silenciosa. Elas sabiam que o relacionamento era tóxico, que a sociedade as condenaria e que a luz do dia traria de volta as máscaras de agressora e vítima. Mas, por aquelas poucas horas, no sótão empoeirado, elas descobriram que a melhor parte do amor não era a posse, mas a paz de ser vulnerável com a pessoa que conhece todos os seus demônios.

Quando os primeiros raios de sol começaram a aparecer, Engfa se levantou e ajudou Charlotte a se limpar. Elas se olharam uma última vez antes de voltarem para seus respectivos quartos, a barreira invisível voltando a se erguer entre elas.

— Charlotte? — Engfa chamou antes de descer a escada.

— Sim?

— Não use o lenço hoje. Quero que eles vejam que você é minha, mesmo que não saibam o porquê.

Charlotte sorriu tristemente. O monstro havia voltado. Mas, por baixo da jaqueta que Engfa vestiria em breve, Charlotte sabia que havia uma garota que passara a madrugada pintando flores com os dedos e ouvindo música suave. E esse segredo era a única coisa que tornava o labirinto suportável.