My Only Problem
Labirinto de Vidro e Cinzas: O Peso da Obsessão
A mansão Waraha-Austin parecia um mausoléu de luxo quando o Sr. Waraha e a Sra. Austin cruzaram o portão em direção ao aeroporto. Mais uma viagem de negócios, mais uma semana onde as paredes de mármore pertenciam apenas a elas. O silêncio que se seguiu à partida dos pais não era de paz, mas de uma expectativa elétrica que fazia os pelos do braço de Charlotte se arrepiarem.
Engfa estava jogada no sofá da sala de estar, as pernas longas esticadas sobre a mesa de centro, observando Charlotte com uma intensidade predatória enquanto bebia um vinho tinto que custava mais do que o carro de muitos estudantes da faculdade.
— Finalmente sós, Char — Engfa disse, a voz rouca, quebrando o silêncio. — Sem teatros, sem "dia da família", sem aquela encenação ridícula de irmãs perfeitas.
Charlotte, que tentava se concentrar em um livro de literatura russa, não desviou os olhos da página.
— Nós ainda somos irmãs perante a lei, Engfa. E perante a sociedade. Não podemos simplesmente agir como se... como se fôssemos algo normal.
Engfa soltou uma risada seca e se levantou, caminhando até Charlotte com a elegância de um felino. Ela tirou o livro das mãos da mais nova e o jogou descuidadamente sobre a poltrona.
— Eu estou pouco me fodendo para a lei ou para o que os vizinhos pensam — Engfa sibilou, inclinando-se até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. — Se alguém tiver um problema com o jeito que eu olho para você, ou com o fato de eu passar a mão na sua cintura em público, eu vou fazer questão de que essa pessoa entenda o erro dela da maneira mais dolorosa possível.
— Você não pode bater em todo mundo, Engfa! — Charlotte sussurrou, embora seu corpo estivesse reagindo, como sempre, à proximidade da agressora.
— Assista-me — Engfa rebateu, deixando um beijo casto, mas carregado de promessas, no canto da boca de Charlotte. — Hoje, eu vou ser uma ótima "namorada". Vamos sair.
— Não podemos! Se alguém nos vir...
— Se alguém nos vir, verá que Engfa Waraha tem bom gosto — Engfa cortou, autoritária. — Vá se trocar. Vamos jantar fora. E use aquele vestido preto que eu comprei. Quero ver minhas marcas contrastando com a seda.
O jantar foi um exercício de tortura psicológica para Charlotte e de exibicionismo para Engfa. Em um restaurante caro, Engfa não se deu ao trabalho de esconder. Ela segurou a mão de Charlotte por cima da mesa, entrelaçando os dedos com uma força que beirava a dor. Ela alimentou Charlotte com pequenas porções de sobremesa, ignorando os olhares curiosos das mesas vizinhas. Sempre que um garçom se aproximava demais ou um homem olhava por mais de dois segundos para Charlotte, Engfa devolvia um olhar tão gélido e mortal que a pessoa recuava instantaneamente.
— Você está sendo possessiva demais — Charlotte murmurou quando voltaram para o carro. — As pessoas estão comentando.
— Deixe que comentem — Engfa disse, ligando o motor da Ferrari. — Elas têm inveja. Elas queriam ter o que eu tenho. Elas queriam ter você. Mas você é minha, Char. Só minha.
A noite, porém, tomou um rumo diferente. O celular de Engfa não parava de vibrar. Era o grupo da faculdade. Uma festa na cobertura de um dos herdeiros de uma rede de hotéis. Engfa, a popular, a líder, a figura central, não podia faltar.
— Eu vou lá rapidinho — Engfa disse, olhando para Charlotte enquanto estacionavam na garagem da mansão. — Só para marcar presença. Não quero que pensem que eu perdi meu posto.
Charlotte sentiu uma pontada de abandono, misturada com uma insegurança que ela odiava admitir.
— Vai lá, Engfa. Vá se divertir com seus amigos "normais".
— Não comece, Charlotte. Eu volto logo.
Engfa saiu, deixando Charlotte sozinha com seus quadros e suas angústias. As horas passaram como séculos. Charlotte tentou pintar, mas as cores pareciam sem vida. Ela se serviu de vinho, sentindo a dependência emocional pesar em seu peito. "Ela está lá", pensava Charlotte, "beijando outras pessoas. Sendo a Engfa que todo mundo ama. A Engfa que não precisa de uma irmã problemática para se sentir poderosa".
Eram três da manhã quando o som do motor ecoou no pátio. Charlotte estava sentada na penumbra da sala, a taça de vinho quase vazia na mão. A porta se abriu e Engfa entrou. Ela parecia impecável, exceto pelo cabelo levemente bagunçado pelo vento. O cheiro de perfume caro e álcool a acompanhava.
Engfa parou ao ver Charlotte no escuro.
— Ainda acordada, Char?
Charlotte levantou-se, a voz carregada de um sarcasmo que escondia sua mágoa.
— E então? Como foi a festa? Beijou muita gente? — Charlotte caminhou até ela, parando a uma distância segura. — Deve ter sido divertido ser a solteira cobiçada da noite, sem uma "irmã" para te atrapalhar.
Engfa suspirou, jogando a chave do carro sobre o aparador. Ela parecia exausta, mas não da festa. Parecia exausta de si mesma.
— Eu não beijei ninguém, Charlotte.
— Ah, por favor, Engfa! Eu conheço você. Você adora a atenção. Aposto que o Mew estava lá, ou alguma daquelas garotas que vivem rastejando atrás de você. Quem foi dessa vez? Uma loira? Uma modelo?
Engfa deu um passo à frente, sua aura de dominância retornando, mas havia algo diferente. Havia uma urgência desesperada em seus olhos.
— Eu disse que não beijei ninguém! — Engfa elevou o tom de voz, aproximando-se de Charlotte até que ela recuasse contra a parede. — Eu passei a noite inteira em um canto, bebendo e olhando para o relógio. Eu não deixei ninguém chegar a menos de um metro de mim.
— Por que eu acreditaria nisso? — Charlotte desafiou, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Você adora provocar, adora ser o centro das atenções.
Engfa segurou os ombros de Charlotte com força, sacudindo-a levemente.
— Eu não deixei ninguém me tocar porque eu estava obcecada com a ideia de que você pudesse sentir o cheiro de outra pessoa em mim! — Engfa gritou, a confissão saindo como um desabafo violento. — Eu tive medo, Charlotte! Medo de que, se alguém encostasse na minha pele ou flertasse comigo, você saberia. Eu não queria que você tivesse um único motivo para ficar chateada comigo hoje.
Charlotte parou de respirar por um segundo. A intensidade daquelas palavras a atingiu em cheio. Engfa, a controladora, a agressora, estava admitindo que sua própria obsessão a tornara prisioneira do medo de perder a aprovação de sua vítima.
— Você... você evitou todo mundo? — Charlotte perguntou, a voz falhando.
— Sim! — Engfa soltou os ombros dela e passou as mãos pelo próprio rosto, frustrada. — Um cara tentou me pagar um drink e eu quase quebrei o copo na cara dele. Uma garota tentou dançar comigo e eu a mandei para o inferno. Eu só conseguia pensar em você aqui, nesse sofá, com esse olhar de julgamento que me destrói. Eu queria voltar para casa. Eu queria você.
A vulnerabilidade de Engfa era a coisa mais perigosa que Charlotte já vira. Era o que a mantinha presa naquele ciclo.
— Você é louca, Engfa — Charlotte sussurrou, aproximando-se e tocando o peito de Engfa, sentindo o coração da outra batendo de forma frenética.
— Eu sou — Engfa admitiu, cobrindo a mão de Charlotte com a sua. — Sou louca por você de um jeito que me assusta. Eu controlo tudo, Charlotte. Eu controlo a faculdade, eu controlo os negócios do meu pai, eu controlo quem entra e sai desta casa. Mas eu não consigo controlar o quanto eu preciso que você me olhe e não sinta nojo.
Charlotte sentiu a raiva se dissipar, sendo substituída por aquela melancolia familiar e pelo desejo que nunca morria. Ela subiu as mãos para o pescoço de Engfa, puxando-a para baixo.
— Prove — Charlotte ordenou.
Engfa não precisou de um segundo convite. Seus lábios colidiram com os de Charlotte com uma sede desesperada. Não era o beijo técnico e performático do restaurante; era um beijo de alguém que estava morrendo de sede e finalmente encontrara água. Engfa a prensou contra a parede, suas mãos subindo para o rosto de Charlotte, os polegares acariciando as bochechas com uma delicadeza que contrastava com a força de seus corpos colados.
— Eu não toquei em ninguém — Engfa murmurou contra os lábios dela, entre respirações ofegantes. — Só você me toca. Só você me marca.
Charlotte cravou as unhas nas costas de Engfa, sentindo o tecido da camisa polo se esticar. Ela queria deixar marcas. Queria que, na próxima vez que Engfa fosse a uma festa, todos vissem que as costas dela pertenciam aos arranhões de Charlotte Austin.
— Você é minha, Engfa — Charlotte disse, a voz carregada de uma possessividade que ela aprendera com a própria agressora. — Se eu descobrir que alguém te tocou...
Engfa sorriu, um sorriso genuinamente feliz em meio ao caos.
— Ninguém vai me tocar. Eu não permitiria. Eu sou sua cadela leal, Char. Só mordo quem você mandar.
Elas subiram para o quarto de Engfa, o caminho marcado por peças de roupa deixadas pelo corredor. No escuro do quarto, iluminado apenas pelas luzes da cidade que entravam pela janela panorâmica, a toxicidade de seu amor floresceu em sua forma mais pura.
Engfa foi dominante, controladora, explorando cada centímetro do corpo de Charlotte como se estivesse mapeando um território recém-conquistado. Ela deixou marcas novas no pescoço de Charlotte, chupões escuros que seriam impossíveis de esconder no dia seguinte. Ela queria que o mundo visse. Queria que, quando os pais voltassem, a verdade estivesse escrita na pele de Charlotte.
— Elas estão ficando lindas — Engfa sussurrou, admirando as marcas roxas sob a clavícula de Charlotte. — Você vai ter que usar gola alta por uma semana.
— Eu te odeio por isso — Charlotte respondeu, embora estivesse puxando Engfa para mais perto, suas pernas entrelaçadas nas dela.
— Eu sei que odeia. Mas você também adora saber que eu fiz isso para que ninguém mais se atreva a chegar perto.
Charlotte acariciou as costas de Engfa, sentindo os relevos dos arranhões que acabara de fazer.
— Você realmente não beijou ninguém? — Charlotte perguntou uma última vez, a insegurança ainda sussurrando em seu ouvido.
Engfa se inclinou e olhou profundamente nos olhos de Charlotte.
— Charlotte, olhe para mim. Eu passei a noite cercada pelas pessoas mais bonitas da Tailândia, e a única coisa que eu conseguia visualizar era você pintando no sótão com aquela mancha de tinta azul no nariz. Ninguém chega aos seus pés. Ninguém tem a sua língua afiada, ninguém tem o seu cheiro de baunilha e tinta. Eu estou obcecada por você a um ponto onde o resto do mundo é apenas ruído.
Charlotte sentiu uma lágrima escapar. Era um amor doente, ela sabia. Era uma dependência que a destruiria a longo prazo. Mas ali, nos braços de Engfa, sentindo o calor e a proteção agressiva da mulher que o mundo via como sua irmã, Charlotte se sentia completa.
— Fica comigo — Charlotte pediu. — Não vai mais a essas festas sem mim.
— Eu nunca mais vou a lugar nenhum onde você não esteja, se for isso o que você quer — Engfa prometeu, selando o pacto com um beijo lento. — Eu sou sua, Char. Do meu jeito violento e possessivo, eu sou inteiramente sua.
A madrugada avançou enquanto elas exploravam o prazer e a dor, o conforto e o confronto. Engfa Waraha e Charlotte Austin eram um desastre anunciado, uma colisão de egos, traumas e desejos proibidos. Mas no labirinto de vidro e cinzas que era a vida delas, elas haviam encontrado a melhor parte do amor: a certeza de que, não importa o quão tóxico fosse o mundo lá fora, dentro daquelas paredes, elas eram a única verdade que importava.
Quando o sol começou a nascer, Engfa não se levantou para ir para o seu próprio quarto. Ela permaneceu ali, abraçada a Charlotte, protegendo-a até do amanhecer. Elas eram meias-irmãs para a sociedade, mas ali, entre lençóis bagunçados e marcas de posse, elas eram duas almas condenadas que preferiam queimar juntas no inferno do que viver separadas no paraíso.
— Amanhã vamos à faculdade juntas — Engfa disse, antes de finalmente cair no sono. — E eu vou segurar sua mão no corredor. Quero ver quem vai ter coragem de dizer uma única palavra.
Charlotte sorriu, fechando os olhos. Ela sabia que Engfa cumpriria a promessa. E sabia que, se alguém ousasse contestar, Engfa Waraha estaria lá para destruir o mundo por ela. Era terrível, era errado, era tóxico. Mas era delas. E para Charlotte Austin, isso era o suficiente.