My patty
O Intruso e a Fragilidade do Trono
A rotina no apartamento 405 sempre foi regida por uma harmonia peculiar: Jennie Kim ditava as regras e Lalisa Manoban as seguia com um sorriso devoto no rosto. No entanto, essa paz foi abalada por um som que Lisa aprendeu a detestar: o toque constante de notificações no celular de Jennie. O motivo atendia pelo nome de Hanbin, um amigo de infância de Jennie que, após anos vivendo no exterior, decidira retornar a Seul e, por uma "coincidência" que Lisa achava conveniente demais, alugar um estúdio no mesmo prédio que elas.
Naquela manhã de terça-feira, Lisa estava na cozinha preparando o café da manhã exatamente como Jennie gostava — ovos mexidos cremosos, torradas levemente queimadas nas bordas e café preto sem açúcar. O silêncio da casa foi quebrado pela entrada de Jennie, que já estava vestida para o trabalho, mas não tirava os olhos da tela do aparelho.
— O Hanbin perguntou se podemos ajudar ele com a mudança das caixas menores hoje à noite — comentou Jennie, sem desviar o olhar do chat. — Ele disse que o zelador está ocupado e ele ainda não conhece ninguém por aqui.
Lisa sentiu um aperto no peito. Ela colocou o prato sobre a mesa com um pouco mais de força do que pretendia.
— Nós, Jennie? Ou você quer dizer eu? — Lisa cruzou os braços, sua estatura de 1,80m projetando uma sombra sobre a mesa. — Porque eu sei que "ajudar" significa que eu vou carregar o peso e você vai ficar dando instruções sobre onde colocar os vasos de planta dele.
Jennie finalmente levantou os olhos, estreitando-os de imediato. O tom de desafio de Lisa não passou despercebido.
— Qual é o problema, Lalisa? Ele é meu melhor amigo de infância. Ele está sozinho em um país que não visita há anos. É o mínimo que podemos fazer como vizinhos.
— Ele não é só um vizinho, Nini. Ele olha para você de um jeito que me deixa doente — Lisa desabafou, a voz saindo mais rouca. — E ele não para de te ligar. Ontem à noite, eram onze horas e ele estava perguntando qual era a melhor marca de detergente. Ele tem internet, Jennie! Ele pode pesquisar no Google!
— Você está sendo ridícula e infantil — Jennie rebateu, levantando-se e ficando a poucos centímetros de Lisa, ignorando a diferença de altura. — O Hanbin é como um irmão para mim. Se você está com ciúmes de um "irmão", o problema é seu e da sua insegurança. Você vai me ajudar hoje às 19h. E eu não quero ouvir mais um pio sobre isso.
Lisa engoliu em seco. O comando estava dado.
— Sim, senhora — murmurou Lisa, embora o amargor em sua boca não fosse do café.
Às sete da noite, o cenário era exatamente o que Lisa previra. Ela subiu e desceu as escadas do prédio carregando caixas pesadas de livros e equipamentos de som, enquanto Hanbin — um homem de estatura média, sorriso fácil e um jeito de tocar o ombro de Jennie a cada dois minutos — fingia carregar um abajur leve.
— Nossa, Lisa, você realmente é forte como a Jennie dizia — Hanbin comentou, limpando um suor inexistente da testa enquanto observava Lisa colocar uma caixa enorme no canto da sala dele. — Fico até com inveja. Com esse tamanho todo, você deve ser muito útil para alcançar as prateleiras altas da Jennie, não é?
O tom de Hanbin era amigável, mas havia uma nota de condescendência que fazia o sangue de Lisa ferver. Ela olhou para Jennie, esperando que a namorada notasse a provocação barata, mas Jennie estava ocupada demais analisando a vista da janela do novo apartamento dele.
— Ela é ótima com as prateleiras — Jennie respondeu, virando-se com um sorriso suave. — E com todo o resto também.
— Imagino — Hanbin riu, aproximando-se de Jennie e entregando-lhe uma garrafa de água. — Sabe, Nini, eu senti falta disso. De ter você por perto para me dar opiniões sobre a minha vida. Ninguém em Londres tem o seu gosto refinado.
Lisa sentiu uma vontade avassaladora de chutar uma das caixas. Ela limpou as mãos na calça de moletom e caminhou até o casal.
— Terminamos aqui, não é? — Lisa perguntou, sua voz soando como um trovão no pequeno estúdio. — Eu preciso descansar, tive um treino pesado hoje cedo.
— Ah, claro! — Hanbin sorriu, mas sua mão permaneceu por um segundo a mais do que o necessário nas costas de Jennie. — Obrigado mesmo, Lisa. Jennie, você fica para um vinho? Eu abri uma garrafa para comemorar a casa nova.
Lisa sentiu o mundo parar por um segundo. Ela olhou para Jennie, seus olhos suplicando para que ela dissesse não.
— Só uma taça, Hanbin — Jennie aceitou, para o horror de Lisa. — Lili, você pode descer e ir tomando banho. Eu já vou.
— Jennie... — Lisa tentou protestar, mas o olhar felino de Jennie se tornou afiado.
— Eu disse que já vou, Lalisa. Vá.
Lisa saiu do apartamento de Hanbin sentindo-se pequena, apesar de seus 1,80m. Ela desceu as escadas em vez de pegar o elevador, precisando gastar a energia acumulada pela raiva. Quando entrou no 405, a casa parecia fria. Ela tomou banho, vestiu um pijama e sentou-se no sofá, encarando o relógio.
Dez minutos se passaram. Trinta. Uma hora.
Quando a porta finalmente se abriu, Jennie entrou rindo, guardando o celular na bolsa.
— Foi tão bom relembrar as histórias de quando éramos pequenos — disse Jennie, agindo como se nada estivesse errado. — Você não acredita na peça que o Hanbin pregou no professor de...
— Eu não quero saber, Jennie — Lisa a interrompeu, levantando-se do sofá.
Jennie parou no lugar, a expressão mudando de alegre para defensiva em um piscar de olhos.
— Como é que é?
— Eu disse que não quero saber! — Lisa explodiu. — Você me usou como carregadora de piano para o seu "amiguinho" e depois me mandou embora como se eu fosse uma empregada para poder ficar bebendo vinho com ele! Você tem noção de como isso me faz sentir?
— Eu não te mandei embora como uma empregada, eu te dei a chance de descansar! — Jennie gritou de volta, caminhando até o centro da sala. — Você está sendo possessiva e controladora, Lalisa. Eu não sou sua propriedade!
— E eu sou o quê? — Lisa deu um passo à frente, sua voz trêmula de mágoa. — Eu sou a pessoa que faz tudo para você. Eu obedeço cada ordem sua, eu mudo meus planos, eu suporto seus ciúmes doentios com a Somi e com qualquer pessoa que respire perto de mim! Mas quando é um homem que está claramente dando em cima de você na minha cara, eu tenho que ficar calada e aceitar?
— Ele não está dando em cima de mim! — Jennie rebateu, embora houvesse uma leve hesitação em sua voz.
— Ele está, Jennie! Todo mundo vê, menos você! Ou talvez você veja e goste da atenção! — Lisa cuspiu as palavras, e o silêncio que se seguiu foi cortante.
Jennie empalideceu. Ela deu um passo em direção a Lisa, mas não para abraçá-la. Seu rosto estava transformado pela fúria.
— Como você ousa insinuar que eu preciso da atenção de outro homem? — A voz de Jennie era um sussurro perigoso. — Eu sou Jennie Kim. Eu tenho quem eu quiser. E se eu estou com você, é porque eu escolhi estar. Mas se você continuar com esse comportamento ridículo, talvez eu comece a questionar essa escolha.
Lisa sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. O medo de perder Jennie, que sempre fora sua maior fraqueza, latejou em seu peito.
— Nini... eu não quis dizer isso...
— Cala a boca! — Jennie ordenou, e Lisa obedeceu instantaneamente, os ombros caindo. — Eu estou farta das suas inseguranças. O Hanbin vai continuar sendo meu amigo, ele vai continuar morando no prédio e nós vamos continuar saindo com ele. Se você não consegue lidar com isso como uma mulher adulta, então saia da minha frente.
— Jennie, por favor...
— Quarto de hóspedes. Agora — Jennie apontou para o corredor.
— Mas, amor...
— Agora, Lalisa! Ou eu juro que você não entra mais neste quarto nem para pegar suas roupas.
Lisa baixou a cabeça, as lágrimas começando a embaçar sua visão. Ela caminhou lentamente em direção ao quarto de hóspedes, sentindo o peso de cada centímetro de seu corpo. Ela era forte o suficiente para carregar todas as caixas de Hanbin, mas não tinha força nenhuma para enfrentar o olhar de desprezo da mulher que amava.
A noite foi longa e solitária. Lisa mal conseguiu pregar os olhos, ouvindo os passos de Jennie pelo apartamento até que as luzes se apagassem.
Nos dias que se seguiram, o clima entre as duas era de uma guerra fria. Jennie mal falava com Lisa, limitando-se a dar ordens curtas sobre as tarefas domésticas. Hanbin, por outro lado, parecia estar em todos os lugares. Ele aparecia na porta delas para pedir açúcar, para perguntar como funcionava a lavanderia do prédio, ou simplesmente para convidar Jennie para tomar café.
E Jennie sempre ia.
Na sexta-feira à noite, Lisa chegou do trabalho e encontrou Jennie se arrumando diante do espelho.
— Onde você vai? — perguntou Lisa, tentando manter a voz neutra.
— O Hanbin conseguiu reserva naquele restaurante novo no centro — respondeu Jennie, aplicando um batom vermelho vibrante. — Ele quer agradecer pela ajuda com a mudança.
— E eu estou convidada? — Lisa perguntou, embora já soubesse a resposta.
Jennie parou o que estava fazendo e olhou para Lisa através do espelho.
— Dado o seu comportamento nos últimos dias, eu achei melhor irmos só nós dois. Você só ia estragar o jantar com as suas caras e bocas.
— Jennie, isso já passou dos limites! — Lisa se aproximou, parando atrás dela. — Você vai sair em um encontro com um cara que quer você, enquanto a sua namorada fica em casa?
— Não é um encontro! É um jantar entre amigos! — Jennie virou-se bruscamente. — E eu não vou ficar aqui discutindo isso de novo. Eu mando na minha vida, Lisa. Se eu quiser jantar com o Papa, eu vou. Entendido?
— Eu não aguento mais isso — Lisa sussurrou, a voz quebrada. — Eu faço tudo por você, Jennie. Tudo. Mas eu não posso aceitar ser humilhada assim.
Jennie riu, uma risada amarga que gelou o sangue de Lisa.
— Humilhada? Você se humilha sozinha com esse seu jeito de cachorrinho carente. Se você quer que eu te respeite, comece a agir como alguém que merece respeito, e não como alguém que chora toda vez que eu levanto a voz.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Lisa olhou para Jennie como se a visse pela primeira vez. Havia uma crueldade ali que ela sempre ignorara em nome do amor. Sem dizer uma palavra, Lisa se virou e saiu do quarto.
Ela ouviu a porta da frente bater quinze minutos depois. Jennie tinha ido.
Lisa sentou-se na escuridão da sala. Seu celular vibrou no sofá. Era uma mensagem de Bambam.
— "E aí, Lisa? Vamos sair? O pessoal vai se reunir em um barzinho aqui perto. Sem futebol, prometo."
Normalmente, Lisa responderia "Minha rainha não deixa" ou inventaria uma desculpa. Mas hoje, ela sentia um vazio que precisava ser preenchido.
— "Me manda a localização" — ela digitou de volta.
Lisa se vestiu com sua melhor jaqueta de couro, arrumou o cabelo e saiu. Ela precisava de espaço. Precisava lembrar de quem era Lalisa Manoban sem os comandos de Jennie Kim.
O bar estava lotado e barulhento. Bambam e Jackson ficaram surpresos ao vê-la chegar sozinha e com uma expressão tão séria.
— Lisa! Você veio! — Jackson exclamou, entregando-lhe uma bebida. — A Jennie te deu um passe livre ou você fugiu da prisão?
— Eu só precisava sair — Lisa respondeu, virando o copo de uma vez.
A noite passou em um borrão de risadas e conversas aleatórias. Lisa tentava não olhar para o celular, mas a ansiedade era constante. Por volta de meia-noite, ela decidiu que já era o suficiente. Ela se despediu dos amigos e pegou um táxi de volta.
Ao entrar no prédio, ela viu Hanbin e Jennie no saguão. Eles tinham acabado de chegar. Hanbin estava rindo de algo e tinha o braço passado pelos ombros de Jennie. Ela parecia relaxada, encostando a cabeça levemente no ombro dele.
A visão foi como um estopim. Lisa caminhou até eles, sua presença de 1,80m tornando-se impossível de ignorar.
— Lisa? — Jennie perguntou, surpresa, afastando-se de Hanbin. — O que você está fazendo aqui embaixo a essa hora? E você... você bebeu?
— Oi, Lisa! — Hanbin sorriu, aquele sorriso que Lisa queria apagar da face da terra. — O jantar foi incrível. A Jennie me contou tantas coisas...
Lisa ignorou Hanbin completamente. Ela parou na frente de Jennie, os olhos injetados de uma mistura de cansaço e fúria reprimida.
— Acabou, Jennie — disse Lisa, a voz baixa e constante.
— O que acabou? Do que você está falando? — Jennie perguntou, começando a ficar nervosa com a postura de Lisa.
— Esse jogo. Essa palhaçada de me tratar como se eu fosse um móvel da casa enquanto você desfila com ele — Lisa apontou para Hanbin. — Eu sou sua namorada. Ou eu sou respeitada como tal, ou eu não sou nada para você.
— Lisa, você está fazendo uma cena! — Jennie sibilou, olhando ao redor. — Vamos subir agora!
— Não — Lisa disse, e a palavra ecoou pelo saguão. — Eu não vou subir para ser mandada para o quarto de hóspedes. Eu não vou subir para ouvir que eu sou insegura enquanto você flerta com o seu "melhor amigo".
— Ei, Lisa, abaixa o tom — Hanbin tentou intervir, dando um passo à frente. — Você está assustando ela.
Lisa virou-se para Hanbin. Ela não gritou. Ela apenas deu um passo em direção a ele, usando toda a sua altura para cercá-lo.
— Se você abrir a boca mais uma vez para falar comigo ou com ela, eu vou esquecer que sou uma pessoa educada e vou te mostrar por que as pessoas me chamam de gigante — Lisa disse, a voz cheia de uma ameaça real. — Saia daqui. Agora.
Hanbin olhou para Jennie, esperando que ela o defendesse, mas Jennie estava paralisada, olhando para Lisa com uma expressão que misturava choque e, pela primeira vez em muito tempo, um brilho de admiração. O "cachorrinho" tinha acabado de mostrar os dentes.
— É melhor você ir, Hanbin — disse Jennie, sem desviar os olhos de Lisa.
Hanbin, percebendo que o clima tinha mudado drasticamente, murmurou um "boa noite" apressado e entrou no elevador.
O silêncio no saguão era absoluto. Lisa respirava pesadamente, a adrenalina ainda correndo por suas veias. Ela olhou para Jennie, esperando a explosão, o grito, a ordem para ir embora.
Jennie caminhou até Lisa lentamente. Ela parou bem na frente da tailandesa e, em vez de gritar, estendeu a mão e tocou o rosto de Lisa.
— Você me desafiou na frente dele — Jennie sussurrou.
— Eu cansei de ser o seu brinquedo, Jennie — Lisa respondeu, a voz embargada. — Eu te amo mais do que tudo, mas eu preciso que você me ame de volta. E amar não é mandar. Amar é respeitar.
Jennie olhou para baixo, o batem vermelho borrado no canto da boca. Quando ela olhou de volta para Lisa, seus olhos estavam úmidos.
— Eu tive medo — Jennie admitiu, a voz pequena. — Quando ele voltou, ele me lembrou de uma época em que eu era só a Jennie, antes de ser a "Jennie da Lisa". Eu acho que tentei provar para mim mesma que eu ainda tinha o controle de tudo. Mas eu quase perdi a única coisa que realmente importa.
Lisa sentiu as pernas fraquejarem. Ela se inclinou, apoiando a testa na de Jennie.
— Você nunca vai perder o controle sobre o meu coração, Nini. Mas você não pode me tratar assim.
— Eu sei — Jennie disse, envolvendo o pescoço de Lisa com os braços e puxando-a para baixo. — Eu fui uma idiota. Uma idiota mimada e egoísta.
— É, você foi — Lisa concordou, arrancando uma risadinha fraca de Jennie.
— Mas não pense que isso significa que as coisas mudaram — Jennie disse, tentando recuperar um pouco de sua autoridade enquanto subiam no elevador. — Você ainda me deve a massagem de duas horas por ter gritado comigo no saguão.
Lisa sorriu, sentindo o peso do mundo sair de seus ombros.
— Só se você prometer que o Hanbin vai ter que comprar o próprio açúcar de agora em diante.
Jennie parou o elevador entre os andares, exatamente como fazia quando queria a atenção total de Lisa. Ela subiu no colo da namorada, sentindo a força daqueles braços que a seguravam com tanta segurança.
— O Hanbin não vai mais ser um problema — Jennie prometeu, selando as palavras com um beijo que tinha gosto de arrependimento e possessão. — Porque ninguém manda em Lalisa Manoban... a não ser eu. E eu decidi que meu "pau mandado" favorito merece ser muito bem recompensado hoje à noite.
Lisa riu contra os lábios de Jennie, apertando-a contra si. O trono de Jennie Kim podia ser pequeno, mas seu domínio sobre Lisa era eterno — agora, construído não apenas sobre ordens, mas sobre a certeza de que, entre gigantes e intrusos, o amor delas era a única regra que realmente importava.