My patty
Traição sob a Geada de um Ar-Condicionado
A partida de Jennie Kim para aquela viagem de negócios de sete dias em Paris foi, para Lalisa Manoban, um misto de alívio e agonia. Alívio porque, pela primeira vez em meses, ela não precisaria cronometrar o tempo de banho ou pedir autorização para mudar o canal da TV. Agonia porque, sem a presença mandona e o perfume de baunilha de sua "rainha", o apartamento de cobertura parecia um deserto frio e vasto demais para seus um metro e oitenta de altura.
Nos primeiros três dias, Lisa comportou-se como a namorada exemplar que Jennie moldara. Ela limpou a casa, alimentou-se nos horários previstos e ignorou as chamadas de Jackson para ir ao bar. No entanto, a solidão começou a pesar. Jennie mal atendia o telefone, ocupada com desfiles e reuniões, limitando-se a enviar mensagens curtas como: "Não se esqueça de regar minhas orquídeas" ou "Vi que você gastou 50 dólares no cartão, o que foi isso?".
No quarto dia, o interfone tocou.
— Lisa? É a Somi, do 302. — A voz da vizinha saiu suave, quase melódica, através do aparelho. — Desculpa incomodar, eu sei que a Jennie viajou... mas meu ar-condicionado parou de vez. Está um forno aqui embaixo e eu lembro que você comentou que entendia de manutenção. Você poderia dar uma olhadinha? Por favor?
Lisa hesitou. Ela conseguia ouvir a voz de Jennie em sua cabeça: "Não fale com aquela sirigaita, Lalisa! Se ela respirar perto de você, eu corto o seu videogame!". Mas Jennie estava a milhares de quilômetros de distância. E Lisa, no fundo, queria ser útil. Queria ser a "gigante gentil" que todos admiravam antes de se tornar a propriedade exclusiva de Jennie.
— Claro, Somi. Vou pegar minha caixa de ferramentas e desço em cinco minutos.
Quando Lisa entrou no apartamento 302, foi atingida por uma lufada de calor abafado e um perfume floral intenso. Somi estava vestida com um short jeans curtíssimo e uma regata de seda branca, o tipo de roupa que Jennie proibiria Lisa de sequer olhar.
— Obrigada por vir, Lisa. Eu estava quase derretendo — disse Somi, jogando o cabelo loiro para o lado e oferecendo um sorriso que durou um segundo a mais do que o necessário.
— Sem problemas. Onde fica a unidade condensadora? — Lisa perguntou, tentando focar no trabalho.
Ela passou a hora seguinte debruçada sobre o aparelho na varanda. O sol poente de Seul dourava sua pele, e o suor fazia sua camiseta grudar nos músculos das costas. Somi não saiu de perto. Ela fazia perguntas bobas sobre ferramentas, trazia copos de água gelada e, ocasionalmente, "esbarrava" no braço de Lisa enquanto apontava para algum fio.
— Pronto — disse Lisa, limpando a testa com o antebraço. — Era apenas um capacitor queimado. Já deve começar a esfriar agora.
— Você é um anjo, Lisa! — Somi exclamou, batendo palmas. — Sério, como a Jennie consegue deixar uma mulher talentosa como você sozinha por tanto tempo? Eu não deixaria.
Lisa sentiu um frio na barriga.
— Ela está trabalhando, Somi. É importante para ela.
— Eu sei, eu sei... — Somi caminhou até a cozinha. — Mas você deve estar exausta. Eu abri um vinho maravilhoso, um Cabernet que ganhei de presente. Bebe uma taça comigo antes de subir? Como agradecimento.
— Eu não deveria... a Jennie não gosta que eu beba sem ela.
Somi soltou uma risadinha provocante, servindo o líquido rubro em duas taças de cristal.
— A Jennie não está aqui, Lisa. Ela está em Paris, bebendo champanhe com modelos franceses. O que os olhos não veem, o coração não sente, certo? Só uma taça.
Lisa olhou para a taça. Olhou para Somi. A rebeldia, que estivera enterrada sob camadas de obediência cega, começou a borbulhar. Ela aceitou o copo.
O primeiro gole foi doce e perigoso. O segundo foi reconfortante. Na terceira taça, Lisa já estava sentada no sofá de Somi, rindo de histórias que nem eram tão engraçadas assim. O ar-condicionado agora soprava uma brisa gelada, criando um contraste perfeito com o calor que o vinho espalhava pelo corpo de Lisa.
— Sabe, Lisa... — Somi começou, aproximando-se tanto que Lisa conseguia sentir o calor de sua perna contra a dela. — Eu sempre achei um desperdício o jeito que ela te trata. Você é tão alta, tão forte... tão... imponente. Você deveria ser a pessoa mandando, não a que obedece.
— Ela só é protetora — Lisa murmurou, mas sua voz não tinha convicção. O álcool estava nublando seu senso de lealdade.
— Protetora? — Somi colocou a mão no peito de Lisa, sentindo os batimentos acelerados através do tecido fino da camiseta. — Ela é possessiva. Ela te esconde do mundo porque sabe que, se alguém te vir de verdade, vai querer te roubar dela. Como eu quero.
Lisa olhou para Somi. A vizinha era bonita, vibrante e, naquele momento, oferecia algo que Jennie raramente dava: adoração pura, sem cobranças ou ordens. Somi inclinou-se, e o beijo aconteceu.
Foi diferente do beijo de Jennie. Não havia a urgência de controle, mas sim uma fome desesperada. Lisa sentiu um estalo em sua mente. O "pau mandado" quebrou as correntes. Suas mãos grandes encontraram a cintura de Somi, puxando-a para o seu colo com uma força que fez a vizinha soltar um gemido de surpresa e prazer.
— Lisa... — sussurrou Somi contra o pescoço da tailandesa. — Me leva para o quarto.
Lisa não precisou de uma segunda ordem. Ela levantou-se, carregando Somi com a facilidade de quem carrega uma pluma, e caminhou em direção ao quarto escurecido. O ar-condicionado, recém-consertado, zumbia suavemente ao fundo, como se aplaudisse a traição.
Assim que as costas de Somi atingiram o colchão, Lisa perdeu o que restava de sua compostura. A frustração de meses sendo controlada, diminuída e vigiada transformou-se em uma energia sexual bruta. Ela despiu-se com pressa, revelando seu corpo atlético e sua natureza intersexual, algo que Jennie tratava como um segredo sagrado, mas que Lisa agora exibia como uma arma de conquista.
Somi arqueou o corpo ao ver Lisa diante dela sob a luz fraca que vinha do corredor.
— Meu Deus, Lisa... você é perfeita.
O sexo foi voraz. Não havia a delicadeza que Jennie às vezes exigia, nem a submissão que Lisa era forçada a encenar. Lisa dominou Somi de uma forma que nunca se permitira fazer com a namorada. Ela usou sua altura, sua força e sua resistência para levar a vizinha ao limite repetidas vezes.
Cada gemido de Somi parecia um grito de liberdade para Lisa. Ela explorou cada centímetro do corpo da loira, suas mãos grandes deixando marcas temporárias na pele clara, seus dentes cravando-se nos ombros de Somi enquanto o prazer as consumia. Era um ato de rebeldia carnal. Lisa sentia-se poderosa, sentia-se o "macho alfa" que Jennie sempre tentava castrar emocionalmente.
— Mais, Lisa! Por favor, não para! — Somi implorava, as unhas cravadas nas costas largas da tailandesa.
E Lisa não parou. Elas se envolveram em uma dança de suor e desejo que durou horas. O vinho e a adrenalina criaram uma bolha onde Jennie Kim não existia. Não havia Paris, não havia regras, não havia o medo do olhar felino. Havia apenas o prazer cru e a sensação inebriante de ser a pessoa no comando.
Quando o sol começou a ameaçar surgir no horizonte, Lisa estava deitada de costas, o peito subindo e descendo pesadamente. Somi estava aninhada em seu braço, traçando padrões aleatórios em seu abdômen com um sorriso de pura satisfação.
— Isso foi... incrível — disse Somi, a voz rouca. — Eu sabia que você seria assim.
Lisa olhou para o teto, a realidade começando a se infiltrar pelas frestas da porta. O álcool estava baixando, e com ele, o peso do que acabara de acontecer. Ela olhou para o próprio corpo, para as marcas de unhas em seus braços, e sentiu um calafrio que não vinha do ar-condicionado.
Ela se levantou em silêncio, vestindo as roupas espalhadas pelo chão.
— Você já vai? — Somi perguntou, sentando-se na cama, o lençol cobrindo apenas metade do corpo.
— Eu preciso ir — Lisa respondeu, a voz seca. — A Jennie... ela volta em três dias.
Somi riu, uma risada que agora soava levemente irritante para os ouvidos de Lisa.
— Ela não precisa saber, Lisa. Foi só um conserto de ar-condicionado que demorou um pouco mais.
Lisa não respondeu. Ela pegou sua caixa de ferramentas e saiu do apartamento 302 como se estivesse fugindo de uma cena de crime.
Ao entrar em sua própria cobertura, o silêncio a atingiu como um tapa. O perfume de Jennie ainda estava lá, impregnado nas cortinas, no sofá, na cama. Lisa correu para o banheiro, esfregando a pele até que ficasse vermelha, tentando arrancar o cheiro de Somi e do vinho barato de seu corpo.
Ela se deitou na cama de casal, o lado de Jennie vazio e frio. Seu celular vibrou na mesa de cabeceira. Uma notificação de chamada de vídeo do FaceTime.
Era Jennie.
Lisa sentiu o coração parar. Ela respirou fundo, tentou ajeitar o cabelo e atendeu.
A imagem de Jennie apareceu na tela. Ela estava sentada em um café parisiense, deslumbrante em um casaco de pele sintética, segurando um croissant.
— Bom dia, Lalisa — disse Jennie, seus olhos estreitando-se imediatamente enquanto analisavam o rosto da namorada através da câmera. — Você parece péssima. Acabou de acordar?
— Oi, Nini... — a voz de Lisa falhou. — É, eu... eu perdi o sono.
Jennie inclinou a cabeça, o olhar felino tornando-se perigosamente aguçado.
— Por que você está com essa cara de culpada? E o que são esses arranhões no seu pescoço, Lisa?
Lisa congelou. Ela levara a mão ao pescoço instintivamente, tentando cobrir a marca que Somi deixara.
— Ah, isso? Foi... foi o gato da vizinha. A Somi me chamou para ver o ar-condicionado dela e o gato se assustou quando eu abri a unidade.
Houve um silêncio tenso na linha. Jennie parou de mastigar o croissant. O olhar que ela lançou através da tela era capaz de congelar o inferno.
— Você foi ao apartamento daquela mulher, Lalisa? — A voz de Jennie baixou para aquele tom sussurrado que precedia suas maiores explosões. — Eu te dei ordens claras. Eu te disse para não chegar perto dela.
— Nini, estava muito quente, ela estava desesperada... foi só um conserto rápido.
— Um conserto rápido que resultou em arranhões no seu pescoço e nessa sua olheira de quem não dormiu um segundo? — Jennie soltou uma risada gélida. — Eu conheço você, Lisa. Eu conheço cada movimento do seu corpo, cada mentira que você tenta contar.
Lisa sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. O poder que Jennie exercia sobre ela era tão absoluto que, mesmo a milhares de quilômetros de distância, ela sentia como se a namorada estivesse apertando seu pescoço com as próprias mãos.
— Eu sinto muito, Nini...
— Sente muito? — Jennie aproximou o rosto da câmera, seus olhos brilhando com uma fúria possessiva. — Você não tem noção do que te espera quando eu voltar, Lalisa Manoban. Eu vou fazer você se arrepender de cada segundo que passou naquele apartamento. Você acha que é livre? Você acha que pode me desobedecer só porque eu cruzei o oceano?
— Nini, por favor...
— Desliga esse telefone agora — ordenou Jennie. — E não ouse sair de casa até eu chegar. Eu vou monitorar as câmeras do corredor. Se eu vir você respirando o mesmo ar que aquela loira de farmácia novamente, eu juro que você nunca mais vai ver a luz do dia fora desse apartamento. Você é MINHA, Lisa. Entendeu?
— Sim, senhora — Lisa soluçou, a submissão voltando como uma maré inevitável.
— Ótimo. Agora vá para o nosso quarto, tire essa roupa que cheira a traição e fique lá até eu mandar você sair. Eu volto em três dias. E reze, Lisa. Reze para que eu esteja de bom humor.
A tela ficou preta.
Lisa soltou o celular e caiu de joelhos no tapete da sala. Ela olhou para as mãos, as mesmas mãos que horas antes tinham dominado Somi com tanta confiança. Agora, elas tremiam.
Ela percebeu, com um horror crescente, que a liberdade que sentira no apartamento 302 fora apenas uma ilusão temporária. O ar-condicionado de Somi podia estar gelado, mas nada era tão frio quanto o controle de Jennie Kim. Lisa rastejou até o quarto, trancando-se por dentro, esperando pelo retorno de sua rainha, de sua dona, de seu carrasco.
A gigante estava de volta à sua gaiola de ouro. E, no fundo, uma parte doentia de sua alma ansiava pela punição que Jennie traria, pois o domínio de Jennie era a única coisa que dava sentido à sua existência submissa. A traição fora um grito, mas o silêncio que se seguiu foi a aceitação final de sua eterna servidão.