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My patty

O Labirinto da Culpa e o Retorno da Coleira

Lalisa Manoban nunca soube que o silêncio poderia ter tanto peso. Nos três dias que se seguiram à fatídica chamada de vídeo, o apartamento de cobertura transformou-se em uma prisão de mármore e vidro. Lisa mal comia, mal dormia e, seguindo a ordem implacável de Jennie, mal se movia para além do perímetro do quarto principal. A gigante de um metro e oitenta sentia-se encolher a cada hora, sua estatura física tornando-se irrelevante diante da sombra psicológica que Jennie projetava de Paris.

Ela passava horas encarando a porta, o coração disparando a cada ruído no corredor. A traição com Somi, que no calor do momento pareceu um ato de libertação, agora ardia em sua memória como uma marca de ferro em brasa. Lisa sentia nojo de si mesma, não apenas pelo ato em si, mas pela fraqueza de ter buscado validação nos braços de outra pessoa. Ela sabia que, para Jennie, a lealdade não era uma opção, era uma condição de existência.

O som do código eletrônico da porta principal ecoou pelo apartamento como um tiro. Lisa saltou da cama, as mãos suando frio. O clique da fechadura, o deslizar suave da porta e, finalmente, o som de saltos altos batendo contra o piso de porcelanato.

Jennie estava em casa.

Lisa caminhou até a sala com as pernas trêmulas. Ela parou no início do corredor, observando Jennie deixar as malas de grife de lado. A coreana não parecia cansada da viagem. Ela usava um conjunto de alfaiataria cinza que a fazia parecer uma executiva impiedosa, o cabelo perfeitamente alinhado e os olhos felinos fixos em algum ponto invisível à frente.

— Venha aqui, Lalisa — a voz de Jennie era baixa, desprovida de qualquer emoção, o que era infinitamente mais aterrorizante do que um grito.

Lisa aproximou-se lentamente, parando a dois metros de distância, mantendo a cabeça baixa, os ombros curvados como se tentasse ocupar o menor espaço possível.

— Mais perto.

Lisa deu mais dois passos, sentindo o perfume de Chanel No. 5 misturado ao cheiro metálico do aeroporto. Jennie levantou a mão e, com um movimento lento, segurou o queixo de Lisa, forçando-a a olhar para cima. Os olhos de Jennie percorreram o rosto da tailandesa, detendo-se no pescoço, onde a marca deixada por Somi já havia desaparecido fisicamente, mas permanecia vívida na mente de ambas.

— Olhe para mim e me diga — começou Jennie, sua voz agora um sussurro perigoso —, valeu a pena? O vinho barato daquela mulher e o toque daquelas mãos vulgares valeram o que eu vou fazer com você agora?

— Nini... eu... eu sinto tanto... — Lisa começou a soluçar, as lágrimas transbordando. — Eu fui fraca, eu estava sozinha e...

— Não ouse usar a solidão como desculpa! — Jennie soltou o queixo de Lisa com um empurrão, fazendo a mais alta cambalear. — Eu trabalho para nos dar esta vida. Eu cruzo o mundo para garantir que você não precise mover um dedo, e você me retribui abrindo a porta para a primeira vizinha que balança um rabo de cavalo na sua frente?

— Eu te amo, Jennie! Por favor, me perdoa...

Jennie riu, uma risada seca e sem humor, enquanto caminhava em direção ao sofá, sentando-se com a elegância de uma monarca prestes a assinar uma sentença de morte.

— O perdão é algo que se conquista, Lalisa. E você está muito longe disso. Você quebrou a única regra que mantinha este relacionamento de pé: a minha confiança absoluta na sua submissão. Você achou que era o "homem" da casa só porque eu não estava aqui para te segurar pela coleira?

Lisa caiu de joelhos no tapete aos pés de Jennie, escondendo o rosto nas mãos.

— Eu não sou nada sem você. Eu percebi isso no momento em que saí daquele apartamento. Eu me senti suja. Por favor, faz qualquer coisa, me pune, mas não me deixa...

Jennie inclinou-se para frente, puxando o cabelo de Lisa para que ela mostrasse o rosto banhado em lágrimas.

— Ah, eu vou te punir, Lili. Mas não vai ser do jeito que você está acostumada. Você gosta de ser útil, não gosta? Gosta de consertar coisas? Pois bem.

Jennie levantou-se e caminhou até a varanda, abrindo a porta de vidro. O vento frio da noite de Seul invadiu a sala.

— A partir de hoje, você não tem mais acesso ao videogame. Suas saídas para jogar futebol com o Jackson e o Bambam estão canceladas por tempo indeterminado. Suas redes sociais serão deletadas. E o mais importante... — Jennie voltou-se para ela, um brilho cruel nos olhos. — Você vai dormir no chão, ao lado da minha cama, em um colchonete. Todas as noites. Até que eu decida que você é digna de tocar os meus lençóis novamente.

Lisa assentiu freneticamente, aceitando as condições como um náufrago aceita um pedaço de madeira.

— Sim, senhora. O que você quiser. Eu faço tudo.

— E tem mais — Jennie aproximou-se, o tom de voz tornando-se subitamente doce, o que era ainda mais perturbador. — Amanhã, nós vamos descer até o 302.

Lisa paralisou. O sangue fugiu de seu rosto.

— O quê? Por que, Nini?

— Porque você vai pedir desculpas à senhorita Somi — disse Jennie, acariciando a bochecha de Lisa com o polegar. — Você vai dizer a ela, na minha frente, que você é um animal treinado que teve um lapso de comportamento. Você vai dizer que ela não significa nada e que você sente nojo do que aconteceu. E então, eu vou deixar claro para ela o que acontece com quem tenta roubar o que é meu.

— Jennie, por favor, não me faz fazer isso... é humilhante demais...

— Humilhante? — Jennie deu um tapa estalado no rosto de Lisa, não forte o suficiente para machucar, mas o bastante para chocar. — Humilhante foi eu ver marcas no pescoço da minha namorada através de uma tela de celular! Você vai fazer exatamente o que eu mandei. Ou você pode pegar suas coisas e sair por aquela porta agora mesmo.

Lisa baixou a cabeça, o peso da derrota esmagando seu peito.

— Eu vou fazer. Eu sinto muito.

— Bom. Agora, vá para o quarto. Tire toda essa roupa e espere por mim. Eu trouxe algumas coisas de Paris... acessórios novos que eu quero testar. Já que você gosta tanto de ser "dominante", vamos ver como você lida com a perda total de controle.

As horas seguintes foram um borrão de dor, prazer e uma reeducação brutal. Jennie utilizou cada grama de sua criatividade para reafirmar sua posse. Ela não foi gentil. Cada toque era carregado de uma possessividade agressiva, lembrando Lisa a cada segundo a quem seu corpo pertencia. A gigante de um metro e oitenta foi reduzida a um amontoado de suspiros e pedidos de desculpas, enquanto a pequena mulher de um metro e cinquenta e cinco exercia um poder absoluto sobre seus sentidos.

Na manhã seguinte, o clima era de execução. Jennie vestiu-se impecavelmente, enquanto Lisa parecia um fantasma de si mesma, os olhos inchados e a postura totalmente curvada.

— Vamos — ordenou Jennie.

O trajeto de elevador até o terceiro andar pareceu durar uma eternidade. Lisa sentia que ia desmaiar a qualquer momento. Quando pararam diante da porta 302, Jennie apertou a campainha com uma calma gélida.

Somi abriu a porta usando um roupão de seda, um sorriso surgindo em seu rosto ao ver Lisa, mas morrendo instantaneamente ao notar Jennie ao lado dela.

— Oh... Jennie. Você voltou cedo — disse Somi, tentando manter a compostura.

— Voltei a tempo de colocar o lixo para fora, Somi — Jennie disse, entrando no apartamento sem ser convidada, arrastando Lisa pelo braço. — A minha namorada tem algo para te dizer. Não é, Lalisa?

Lisa olhou para Somi, que agora parecia assustada. A vergonha que Lisa sentia era tão vasta que ela desejava que o chão se abrisse sob seus pés.

— Somi... eu... — Lisa engoliu em seco, sentindo o olhar de Jennie queimando em suas costas. — Eu queria pedir desculpas pelo meu comportamento na outra noite. Eu agi como um animal. Eu não tenho interesse nenhum em você. O que aconteceu foi um erro nojento e eu me arrependo de cada segundo.

Somi abriu a boca, chocada, olhando de Lisa para Jennie.

— Lisa, você não precisa dizer isso... ela está te obrigando...

— Ela está dizendo a verdade — Jennie interveio, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre ela e Somi. — A Lisa é minha propriedade. Ela é um brinquedo que eu deixei fora da caixa por tempo demais e acabou ficando sujo. Mas eu já limpei. E quanto a você...

Jennie olhou ao redor do apartamento de Somi com desdém.

— Eu sei que você está com o aluguel atrasado, Somi. O proprietário deste prédio é um amigo próximo da minha família. Um telefonema meu e você estará na rua antes do pôr do sol.

— Você não pode fazer isso! — Somi exclamou, a voz trêmula.

— Eu posso fazer o que eu quiser — Jennie disse, sua voz soando como o estalar de um chicote. — Fique longe da minha namorada. Não olhe para ela, não respire o mesmo ar que ela e, se eu souber que você sequer pensou no nome dela, eu vou destruir a sua vida de um jeito que você nem consegue imaginar. Estamos entendidas?

Somi apenas assentiu, as lágrimas começando a cair.

— Ótimo. Vamos, Lisa. Temos muito o que fazer em casa.

Ao voltarem para a cobertura, Lisa sentiu um peso estranho ser removido, apenas para ser substituído por uma corrente ainda mais pesada. Ela havia sido humilhada, mas, de alguma forma, ver Jennie defendendo sua "posse" com tanta ferocidade trouxe um conforto doentio.

— Você foi bem, Lili — disse Jennie, trancando a porta do apartamento e jogando as chaves na mesa. — Agora, vá para a cozinha. Eu quero que você prepare o almoço. E depois, você vai limpar cada centímetro desta casa com uma escova de dentes. Quero ver o meu reflexo no chão.

— Sim, Nini. Imediatamente.

Lisa começou a trabalhar. Suas mãos grandes, que antes tinham segurado Somi com desejo, agora esfregavam o chão com uma dedicação fervorosa. Ela trabalhava até que seus músculos queimassem, até que o suor turvasse sua visão. Jennie observava tudo de sua poltrona, bebendo um vinho caro, ocasionalmente dando ordens para que Lisa refizesse alguma parte.

À noite, exausta e com os joelhos esfolados, Lisa preparou o colchonete ao lado da cama de Jennie. Ela deitou-se, sentindo o frio do chão, enquanto Jennie se acomodava nos lençóis de seda acima dela.

— Lili? — chamou Jennie no escuro.

— Sim, senhora?

— Você aprendeu a lição?

— Sim, Nini. Eu aprendi. Eu sou sua. Só sua. Para sempre.

— Bom — Jennie estendeu a mão para fora da cama, acariciando o cabelo de Lisa por um momento antes de puxá-lo levemente. — Porque se você falhar comigo de novo, não haverá colchonete. Não haverá perdão. Haverá apenas o vazio. E você sabe que não consegue sobreviver no vazio sem mim.

— Eu sei — Lisa sussurrou, fechando os olhos.

Naquela noite, apesar do desconforto do chão e da dor no corpo, Lisa dormiu profundamente. O caos de sua breve rebeldia havia sido silenciado. A gigante de um metro e oitenta estava de volta ao seu lugar: aos pés da pequena mulher que era seu mundo, seu sol e seu carrasco. A coleira estava mais apertada do que nunca, e Lisa, pela primeira vez em dias, sentia-se finalmente em casa.

A traição tornara-se uma cicatriz na história delas, um lembrete constante de que a liberdade para Lisa era um fardo pesado demais, e que ela preferia mil vezes a segurança de suas correntes sob o olhar felino de Jennie Kim. O ar-condicionado de Somi poderia estar gelado, mas o fogo do controle de Jennie era o único que mantinha Lisa aquecida. E assim, o equilíbrio de poder foi restaurado, mais sombrio e absoluto do que nunca.