My rich girl
O Protocolo da Paciência e do Chocolate
O corredor do terceiro bloco da NYU parecia mais tenso do que o normal naquela manhã de sexta-feira, e a razão tinha nome, sobrenome e um humor comparável a um campo minado: Jennie Kim. A capitã das líderes de torcida, geralmente impecável e exalando uma confiança calculada, hoje parecia emanar uma aura de pura eletricidade estática. Seus olhos castanhos, normalmente expressivos e doces para Lisa, estavam reduzidos a fendas perigosas.
Lalisa Manoban, por outro lado, parecia ter passado por um treinamento intensivo de sobrevivência. Com seus 1,80m de altura, ela se movia como uma sombra protetora atrás de Jennie. Lisa carregava uma mochila extra, uma garrafa térmica com chá de camomila, uma bolsa térmica que precisava ser aquecida a cada duas horas e uma sacola estratégica da Godiva.
— Lisa! — a voz de Jennie chicoteou o ar, fazendo alguns calouros pularem de susto.
— Estou aqui, Nini! — Lisa prontamente se inclinou, ficando na altura do rosto da namorada. — O que você precisa? O chá? A bolsa térmica? Quer que eu peça para o professor de História da Arte falar mais baixo porque a voz dele está irritando seus ouvidos?
Jennie parou de andar bruscamente, virando-se para a maior. Seus lábios estavam comprimidos em uma linha fina.
— Eu quero que você pare de respirar tão alto, Lalisa. O som do seu oxigênio entrando e saindo está me dando vontade de gritar.
Lisa piscou, processando a informação com a calma de um monge budista. Ela sabia que não era a "sua" Jennie falando, mas sim a tempestade hormonal que a visitava mensalmente.
— Tudo bem, meu amor. Vou respirar de forma mais discreta — Lisa murmurou, dando um passo para trás com um sorriso compreensivo que só serviu para irritar Jennie ainda mais.
— E não sorria assim para mim! Parece que você está com pena — Jennie bufou, cruzando os braços. — Onde está aquele chocolate amargo com 70% de cacau que eu pedi há dez minutos?
— Aqui, bem aqui — Lisa rapidamente tirou uma barra da sacola, já abrindo a ponta da embalagem para facilitar o acesso de Jennie.
Jennie pegou o chocolate com um resmungo, mordendo um pedaço com uma ferocidade que fez Lisa agradecer mentalmente por não ser o chocolate. No entanto, a paz durou exatamente quatro segundos.
Do outro lado do corredor, Sarah, a garota do curso de moda que vinha tentando "marcar território" perto de Lisa desde o incidente da biblioteca, surgiu caminhando com um café na mão e um sorriso que Jennie classificaria imediatamente como "predatório".
— Oi, Lisa! — Sarah chamou, ignorando completamente a presença vulcânica de Jennie. — Eu estava pensando se você não quer me ajudar com aquele projeto de simulação física para a minha aula de design têxtil. Suas mãos são tão precisas, eu adoraria uma consultoria...
Lisa sentiu o ar esfriar instantaneamente. Ela nem precisou olhar para o lado para saber que Jennie tinha acabado de entrar em modo de combate total.
— Ela não tem mãos — Jennie disparou, a voz saindo como um rosnado baixo.
Sarah parou, piscando confusa.
— O quê?
— A Lalisa. Ela não tem mãos para você — Jennie deu um passo à frente, a barra de chocolate ainda na mão esquerda, funcionando quase como um cetro de autoridade. — Ela está ocupada pelos próximos dez anos sendo minha assistente pessoal, namorada e a única pessoa autorizada a respirar no meu raio de alcance. Alguma dúvida, ou eu preciso desenhar um mapa para você encontrar a saída desse corredor?
Sarah empalideceu, olhando de Jennie para a estatura imponente de Lisa, que apenas deu um de ombros com um olhar de "sinto muito, ela está no comando".
— Eu... eu só estava perguntando... — Sarah começou a gaguejar.
— Pois pare de perguntar. E pare de usar esse perfume de baunilha barata, está me dando náuseas — Jennie finalizou, virando as costas com uma elegância letal.
Lisa rapidamente seguiu a namorada, mas não antes de fazer um sinal de "vaza" com a mão para Sarah. Ela não queria que a fúria de Jennie respingasse em ninguém mais, principalmente porque a próxima aula era de Literatura e ela precisava que Jennie estivesse minimamente relaxada.
— Você viu isso, Lisa? — Jennie perguntou, subindo as escadas com passos pesados. — Ela estava praticamente se jogando em cima de você. Na minha frente! Comigo com cólica! Ela não tem coração?
— Eu sei, Nini. Ela é muito inconveniente — Lisa concordou prontamente, pegando a mão de Jennie para ajudá-la a subir os degraus, apesar de Jennie ser perfeitamente capaz. — Mas você a colocou no lugar dela. Você é incrível quando defende o que é seu.
Jennie parou no patamar da escada e olhou para Lisa. Seus olhos suavizaram por um microssegundo antes de voltarem a ficar nublados.
— Você é minha, Manoban. Se eu vir você sorrindo para ela de novo, eu juro que queimo todos os seus livros de astrofísica.
— Eu sou toda sua — Lisa prometeu, inclinando-se para beijar o topo da cabeça de Jennie. — Quer que eu carregue você até a sala?
— Não seja ridícula — Jennie resmungou, mas logo em seguida acrescentou: — Talvez se você me der um pouco de apoio na lombar enquanto eu ando...
Lisa posicionou a mão grande e quente na base das costas de Jennie, aplicando uma pressão suave que fez a menor soltar um suspiro de alívio. Elas entraram na sala de aula e Lisa parecia um assistente de palco de luxo. Ela limpou a cadeira de Jennie, organizou os cadernos, apontou os lápis e colocou a bolsa térmica na temperatura ideal antes de entregá-la.
Rosé, que já estava sentada por perto, observava a cena com uma mistura de divertimento e horror.
— Lisa, você parece um daqueles maridos de filmes dos anos 50 que acham que a esposa vai quebrar se tocar no chão — Rosé sussurrou quando Jennie se distraiu olhando o cronograma.
— Rosé, se você valoriza sua vida, não faça piadas hoje — Lisa respondeu no mesmo tom, sem tirar os olhos de Jennie. — Ela está no estágio cinco da TPM. Ontem ela chorou porque o comercial da ração de cachorro era "triste demais" e depois quis me bater porque eu esqueci de comprar o iogurte grego específico que ela gosta.
— E por que você está com essa cara de quem ganhou na loteria? — perguntou Rosé, confusa.
Lisa olhou para Jennie, que agora estava concentrada em comer o restante do chocolate, com uma manchinha marrom minúscula no canto da boca.
— Porque ela é linda até quando está querendo me destruir — Lisa sorriu, um brilho de adoração pura nos olhos. — E porque eu gosto de cuidar dela.
— Você é um caso perdido, Manoban — Rosé riu, voltando-se para seus próprios livros.
A aula de Literatura começou e o professor, um homem de meia-idade que já não tinha muita paciência, começou a ler um poema de Sylvia Plath. Jennie, que geralmente era a melhor aluna da classe depois de Lisa, estava com a cabeça apoiada na mão, lançando olhares de ódio para o ventilador de teto que fazia um leve ruído.
— Lisa — Jennie sussurrou, a voz carregada de urgência.
— Sim, meu amor? — Lisa se inclinou imediatamente.
— Meus pés estão inchados.
— Quer que eu tire seus sapatos por baixo da mesa? — Lisa ofereceu, já se abaixando.
— Não aqui, idiota! — Jennie sibilou, mas depois fez um biquinho. — Mas eu quero que você anote tudo o que o professor disser. Minha mão está cansada de existir.
— Deixa comigo. Vou fazer anotações coloridas e com esquemas para você entender depois — Lisa prometeu, pegando o caderno de Jennie.
Pelas próximas duas horas, Lisa foi uma máquina de escrever humana. Ela anotava as falas do professor, as referências literárias e até os comentários irrelevantes dos colegas, tudo enquanto mantinha uma mão massageando discretamente a panturrilha de Jennie por baixo da mesa comprida da universidade.
Quando o sinal finalmente tocou, Jennie parecia um pouco mais calma, mas o perigo ainda rondava. Na saída da sala, Sarah estava novamente no corredor, conversando com um grupo de amigos. Lisa tentou passar direto, mantendo Jennie protegida pelo seu corpo largo, mas Sarah, aparentemente sem instinto de preservação, resolveu tentar uma última vez.
— Lisa! Espera! — Sarah correu até elas. — Eu só queria pedir desculpas pelo mal-entendido de antes. Jennie, eu não quis ser desrespeitosa, eu só admiro muito o trabalho da Lisa...
Jennie parou. Lisa sentiu a tensão irradiar do corpo da namorada e soube que o "estágio seis" tinha sido alcançado.
— Você admira o trabalho dela? — Jennie perguntou, a voz perigosamente doce.
— Sim, ela é brilhante... — Sarah sorriu, achando que tinha conseguido apaziguar a situação.
— Então você deve saber que a mente brilhante dela está focada agora em me levar para casa, me fazer massagem e garantir que eu não tenha que olhar para a sua cara pelos próximos três dias — Jennie deu um passo à frente, e apesar da diferença de altura, Sarah recuou. — Se você "admirar" a minha mulher mais uma vez, eu vou garantir que seu projeto de moda seja avaliado por mim. E eu sou muito, muito rigorosa com quem não sabe o seu lugar.
Sarah não disse nada, apenas deu meia-volta e sumiu entre a multidão de alunos.
— Uau — Lisa murmurou, impressionada. — Você realmente é a capitã, Nini.
— Cala a boca e me leva para o carro — Jennie ordenou, embora tenha se aninhado no braço de Lisa logo em seguida. — Minhas costas estão me matando.
No estacionamento, Lisa abriu a porta do carro para Jennie como se ela fosse a realeza. Ela ajustou o banco, colocou o cinto de segurança na namorada e verificou a temperatura do ar-condicionado.
— Está confortável? — perguntou Lisa, antes de fechar a porta.
— Está. Mas você está demorando muito para entrar — Jennie reclamou, cruzando os braços.
Lisa deu a volta no carro e sentou-se no banco do motorista. Antes de dar a partida, ela olhou para Jennie, que parecia exausta.
— Nini, eu sei que você está se sentindo mal hoje. Mas eu quero que você saiba que eu amo cuidar de você. Mesmo quando você está brava com o ventilador ou querendo banir a Sarah da face da terra.
Jennie olhou para Lisa, e a armadura de "patricinha mandona" finalmente caiu. Seus olhos se encheram de lágrimas, o que era comum naquele período, mas o motivo era diferente.
— Eu sou um monstro quando estou assim, não sou? — Jennie fungou, escondendo o rosto nas mãos. — Eu tratei você mal o dia todo e você ficou aí, carregando minhas coisas e me dando chocolate.
Lisa soltou o cinto e se inclinou para abraçar Jennie, trazendo-a para o seu peito. Jennie se encaixou ali, sentindo-se segura no abraço da mulher que era seu porto seguro.
— Você não é um monstro. Você é apenas a minha Jennie que precisa de um pouco mais de carinho hoje — Lisa beijou a testa dela. — E eu adoro ser a pessoa que te dá esse carinho. Agora, o que você acha de irmos para casa, pedirmos comida tailandesa e assistirmos àquela série de romance clichê que você gosta?
Jennie olhou para cima, limpando uma lágrima com o polegar.
— Você vai fazer aquela massagem nos meus pés? Com o hidratante de lavanda?
— Com certeza — Lisa sorriu.
— E você vai me dar o último pedaço de frango se eu pedir?
— Jennie, eu te daria o meu jantar inteiro se você pedisse — Lisa riu, dando um selinho carinhoso nela.
Jennie finalmente sorriu, um sorriso verdadeiro que iluminou o interior do carro.
— Tudo bem. Você é uma boa esposa, Manoban. Talvez eu te mantenha por perto por mais algum tempo.
— Fico feliz em ouvir isso, patroa — Lisa brincou, ligando o motor.
Enquanto saíam do campus da NYU, qualquer pessoa que olhasse para o carro veria a imagem de um casal em perfeita sintonia. Lisa dirigia com uma mão no volante e a outra entrelaçada na de Jennie, que agora descansava tranquilamente. Para o mundo, elas eram a líder de torcida popular e a nerd bolsista, mas ali, naquele espaço privado, elas eram apenas duas pessoas que se entendiam nos mínimos detalhes, onde o cuidado de uma supria as dores da outra, e onde até a TPM mais feroz não era páreo para a paciência infinita de um amor que começou entre equações e arquibancadas.