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My rich girl

O Protocolo da Sobrevivência e o Sofá da Discórdia

A sexta-feira à noite no apartamento de Lalisa Manoban costumava ser o ápice da paz. O aroma de incenso de sândalo flutuava pelo ar, a iluminação era baixa e quente, e o silêncio era interrompido apenas pelo som suave das páginas de algum livro de astrofísica sendo viradas. No entanto, aquela noite em particular tinha uma variável que nenhuma equação de Lisa conseguia prever com precisão: o quarto dia do ciclo menstrual de Jennie Kim.

Lisa estava sentada no tapete da sala, com as costas apoiadas no sofá, servindo de encosto humano para Jennie. A coreana estava envolta em três cobertores, apesar do aquecedor estar ligado, e segurava uma xícara de chá como se fosse um artefato sagrado. O clima era de uma calmaria tensa, daquelas que precedem furacões em alto mar.

— Lili? — a voz de Jennie saiu baixa, quase manhosa.

— Sim, meu amor? — Lisa respondeu instantaneamente, deixando o livro de lado e focando toda a sua atenção na nuca de Jennie.

— Minhas costas estão doendo. Acho que é porque você se mexeu há cinco minutos e mudou o ângulo do meu apoio.

Lisa não contestou a física impossível daquela afirmação. Ela apenas se ajustou milimetricamente.

— Desculpe, Nini. Melhor assim?

— Um pouco. Mas agora estou com vontade de comer algo que não seja chá. Quero algo salgado, mas que tenha um toque de doce, mas que não seja enjoativo. Entendeu?

Lisa processou o pedido. Era o equivalente gastronômico a resolver um paradoxo temporal.

— Que tal pipoca com caramelo e flor de sal? Eu posso fazer agora mesmo.

Jennie ponderou por um momento, fazendo um biquinho que geralmente desarmava todas as defesas de Lisa.

— Pode ser. Mas não demore. O silêncio da cozinha me deixa ansiosa quando você não está por perto.

Lisa sorriu, beijou o ombro de Jennie e se levantou com a agilidade de quem não queria perturbar o ecossistema do sofá. Enquanto a pipoca estourava na cozinha, o celular de Lisa, que havia ficado sobre a mesa de jantar, vibrou com uma sequência frenética de notificações.

Ela limpou as mãos e deu uma olhada rápida. Era o grupo do time de basquete da faculdade. Apesar de ser a "nerd" oficial, a altura de 1,80m e a força física de Lisa a tornavam uma peça valiosa em jogos informais.

"Manoban! O ginásio da comunidade abriu uma exceção. Jogo noturno, 5 contra 5. O Jackson tá aqui se achando o rei da quadra. Vem calar a boca dele?" — dizia a mensagem de BamBam, seu melhor amigo.

Lisa sentiu um formigamento nos dedos. Ela amava Jennie, amava cuidar dela, mas tinha passado os últimos três dias em um estado de alerta constante, funcionando como enfermeira, assistente pessoal e alvo de oscilações de humor imprevisíveis. A ideia de correr, suar e, talvez, dar um toco fenomenal em Jackson parecia o paraíso.

Ela voltou para a sala com a tigela de pipoca, tentando manter a expressão mais neutra possível.

— Aqui está, Nini. Quentinha.

Jennie pegou a tigela, provou uma e soltou um suspiro de satisfação. O monstro da TPM parecia ter sido domado temporariamente.

— Está perfeito, Lili. Agora senta aqui e assiste esse documentário sobre pinguins comigo. Eles são tão fiéis, não são como os humanos.

Lisa sentou-se, mas sua mente estava na quadra. Ela olhou para o relógio. Eram 20h30. Se ela saísse agora, poderia jogar por uma hora e voltar antes de Jennie decidir que era hora de dormir.

— Sabe, Nini... — Lisa começou, escolhendo as palavras como se estivesse desarmando uma bomba. — O BamBam me mandou uma mensagem.

Jennie nem desviou os olhos da TV, onde um pinguim tentava proteger seu ovo do frio.

— O que aquele tonto quer agora?

— Ele disse que o pessoal se reuniu no ginásio. Estão precisando de um pivô para o jogo de hoje. O Jackson está lá... e você sabe como ele fica insuportável quando ganha.

O movimento da mandíbula de Jennie parou. Ela mastigou a pipoca lentamente e virou o rosto na direção de Lisa. Seus olhos gatinunos, que antes estavam sonolentos, agora brilhavam com uma lucidez perigosa.

— Você quer ir jogar bola? — Jennie perguntou. A voz era calma, o que, para Lisa, era o sinal de perigo nível vermelho.

— É só uma horinha, amor. Eu volto rápido, tomo um banho e a gente continua o documentário. Eu juro que faço aquela massagem nos seus pés com o óleo de lavanda depois.

Jennie deixou a tigela de pipoca sobre a mesa de centro com um baque seco. Ela se desvencilhou dos cobertores e sentou-se ereta, encarando Lisa.

— Lalisa Manoban. Deixa eu ver se eu entendi bem. Eu estou aqui, com o útero parecendo que está sendo espremido por um espremedor de laranjas industrial. Eu estou com dor de cabeça, com as costas em frangalhos e com uma carência que me faz querer chorar porque o pinguim perdeu o ovo. E você... você quer me deixar aqui, sozinha, para ir suar com um bando de marmanjos e jogar uma bola laranja num cesto?

— Não é só jogar bola, Nini... é um alívio de estresse. E eu estive aqui o tempo todo, não estive? Eu fiz tudo o que você pediu.

— Ah! Então agora você está contando pontos? — Jennie se levantou, a manta caindo aos seus pés. — "Eu fiz tudo o que você pediu, então agora eu mereço um prêmio"? Eu sou um fardo para você, Lisa? É isso?

— Claro que não! — Lisa se levantou também, sua altura geralmente intimidante não surtindo efeito nenhum sobre a pequena mulher furiosa à sua frente. — Eu só queria esticar as pernas, Jennie. Eu sinto falta de correr um pouco.

— Esticar as pernas? — Jennie riu, uma risada sarcástica que fez Lisa estremecer. — Você quer esticar as pernas longe de mim. Você quer fugir porque eu estou "insuportável", não é? Pode falar! Você acha que eu não percebo o jeito que você suspira quando eu peço para trocar o canal?

— Eu não suspirei! — Lisa exclamou, embora soubesse que tinha suspirado pelo menos três vezes na última hora. — Nini, você está exagerando por causa da... você sabe, da situação.

O erro foi fatal. Mencionar a "situação" ou os hormônios durante uma discussão de TPM era como jogar gasolina em um incêndio florestal.

— A situação? — Jennie deu um passo à frente, o rosto vermelho. — Você está jogando a culpa nos meus hormônios? Quer dizer que eu não tenho razão para estar brava? Quer dizer que meus sentimentos são inválidos porque eu estou sangrando?

— Não foi isso que eu disse! — Lisa tentou aproximar-se para abraçá-la, mas Jennie recuou como se o toque de Lisa fosse brasa.

— Não me toca! Vai lá. Vai jogar seu basquete. Vai lá ser a grande Lalisa, a estrela da quadra. Mas não ouse voltar para essa cama com cheiro de suor e de liberdade.

— Jennie, é só um jogo...

— É a sua prioridade, Lisa! — Jennie gritou, e uma lágrima solitária escapou de seu olho, o que partiu o coração de Lisa instantaneamente. — Eu aqui, sofrendo, e você pensando em enterradas. Vai logo! O que você está esperando? Um convite formal?

Lisa suspirou, derrotada. Ela sabia que, se fosse, a noite terminaria em desastre. Se ficasse, o clima seria de enterro.

— Quer saber? Eu não vou. Vou mandar mensagem para o BamBam dizendo que não posso. Pronto. Feliz?

Jennie cruzou os braços, o biquinho voltando, mas dessa vez carregado de mágoa e não de manha.

— Agora você vai ficar aqui com essa cara de quem perdeu o brinquedo favorito, me fazendo sentir culpada por querer sua companhia. Eu não quero que você fique por obrigação, Lalisa. Se o seu coração está na quadra, vá para a quadra!

— Meu coração está com você, Jennie!

— Não parece! — Jennie virou-se de costas. — Sabe de uma coisa? Eu cansei. Cansei da sua indecisão e cansei de ser a "chata" da relação.

Lisa tentou tocar o ombro de Jennie novamente.

— Amor, vamos conversar...

No momento em que a mão de Lisa encostou no tecido do pijama de Jennie, a coreana girou com uma velocidade impressionante.

— Eu disse para não me tocar!

E então, aconteceu. No auge da frustração, Jennie desferiu um tapa sonoro nas costas de Lisa. Não foi um tapa fraco; foi um golpe carregado com toda a irritação dos últimos quatro dias. O som de impacto ecoou na sala silenciosa.

Lisa deu um passo à frente pelo impulso, os olhos arregalados de surpresa. Não doeu fisicamente — afinal, Lisa era forte e Jennie era pequena —, mas o choque moral foi imenso.

— Você... você me bateu? — Lisa perguntou, a voz falhando.

Jennie parecia igualmente surpresa com o próprio ato. Ela olhou para a palma da mão e depois para Lisa. Por um segundo, o arrependimento passou por seus olhos, mas a teimosia da TPM era um escudo impenetrável.

— Bati! Bati para você acordar! — Jennie exclamou, a voz embargada. — Agora, pega um travesseiro e uma coberta.

— O quê? — Lisa piscou, confusa.

— Você ouviu bem. Você quer tanto espaço? Quer tanto ficar longe de mim e das minhas reclamações? Pois o sofá é todo seu. Hoje você dorme aqui.

— Jennie, você não pode estar falando sério. É o meu apartamento também!

— E o sofá é confortável o suficiente para uma atleta, não é? — Jennie começou a caminhar em direção ao quarto, parando na porta para lançar o veredito final. — Não ouse entrar no quarto, Lalisa. Eu vou trancar a porta. E se eu ouvir o som de uma bola de basquete sendo quicada no chão, eu jogo suas chuteiras pela janela.

A porta do quarto bateu com tanta força que um quadro na parede de Lisa ficou torto. O som da tranca girando foi o ponto final da discussão.

Lisa ficou parada no meio da sala, em silêncio, olhando para a tigela de pipoca abandonada. Ela passou a mão no local onde Jennie a atingira. Estava quente. Ela soltou um suspiro longo, sentando-se pesadamente no sofá que agora seria sua morada noturna.

— Inacreditável — Lisa murmurou para as paredes. — Eu sou uma mulher de 1,80m, consigo carregar três sacos de cimento sem suar, e acabei de ser expulsa da minha própria cama por uma garota de 1,60m que está de pijama de ursinho.

Ela pegou o celular e viu uma nova mensagem de BamBam: "E aí, cadê você? O Jackson tá perguntando se a sua namorada não deixou você sair de casa."

Lisa digitou com os polegares pesados: "Cala a boca, BamBam. Eu estou... ocupado. E sim, ela é a capitã por um motivo."

Ela jogou o celular de lado e se ajeitou no sofá. Seus pés, obviamente, ficaram para fora da extremidade. Lisa tentou se encolher, mas a estrutura do móvel não fora projetada para alguém da sua estatura. Ela olhou para a porta do quarto, sentindo uma mistura de irritação e uma saudade absurda que não fazia sentido, já que a pessoa estava a apenas cinco metros de distância.

Cerca de duas horas se passaram. Lisa estava quase pegando no sono, em uma posição contorcida que certamente lhe renderia uma visita ao quiroprata, quando ouviu o som da tranca do quarto girando suavemente.

Ela permaneceu imóvel, fingindo que dormia. Ouviu passos leves e hesitantes se aproximando. O cheiro de cereja, o perfume natural de Jennie, preencheu o ar ao redor do sofá.

Lisa sentiu um peso leve sendo colocado sobre ela. Jennie estava cobrindo-a com o edredom mais grosso que tinham. Em seguida, sentiu uma mão pequena acariciar seus cabelos, com uma delicadeza que contrastava totalmente com o tapa de horas atrás.

— Idiota... — Jennie sussurrou, a voz rouca de quem tinha chorado. — Minha nerd idiota...

Lisa sentiu Jennie se inclinar e depositar um beijo suave em sua bochecha.

— Desculpe pelo tapa. Minha mão agiu sozinha. Mas você ainda é uma boba por querer jogar bola quando eu estou morrendo.

Lisa não aguentou. Ela abriu um dos olhos e capturou o pulso de Jennie com suavidade, puxando-a levemente.

— Eu ainda estou no sofá? — Lisa perguntou, a voz rouca de sono.

Jennie tentou manter a pose de brava, mas ao ver Lisa ali, toda encolhida e desconfortável para caber no móvel, seu coração derreteu.

— O sofá é pequeno demais para você, Lili — Jennie murmurou, sentando-se na beirada. — Você parece um girassol tentando caber num vaso de violetas.

— Então eu posso voltar? — Lisa perguntou, fazendo um biquinho que ela sabia que Jennie não resistiria.

Jennie suspirou, derrotada pela própria carência e pelo amor que sentia.

— Pode. Mas se você falar a palavra "basquete" ou "Jackson" antes de segunda-feira, eu te mando para o corredor do prédio.

Lisa se levantou rapidamente, ignorando a dor nas costas, e pegou Jennie no colo como se ela não pesasse nada. A coreana soltou um ganido de surpresa, passando os braços pelo pescoço de Lisa.

— Eu amo você, Nini. Mesmo quando você tem a força de um urso pardo.

— Eu não bati tão forte assim — Jennie resmungou, escondendo o rosto no pescoço de Lisa. — E você mereceu por ser tão insensível.

— Eu mereci — Lisa concordou, caminhando em direção ao quarto. — Prometo que amanhã eu sou todo seu. Sem basquete, sem BamBam, só eu, você e os pinguins.

— E chocolate — Jennie acrescentou.

— E muito chocolate.

Lisa a colocou na cama com todo o cuidado do mundo e se deitou ao seu lado, puxando-a para perto. Jennie se aninhou no peito de Lisa, o lugar onde ela sempre encontrava paz, independentemente da tempestade hormonal que estivesse enfrentando.

— Lili? — Jennie chamou, já quase dormindo.

— Sim, meu amor?

— Se você ganhar do Jackson na semana que vem... eu deixo você comprar aquele telescópio novo que você queria.

Lisa sorriu no escuro, beijando o topo da cabeça de Jennie.

— Combinado, capitã. Dorme bem.

Naquela noite, entre o calor dos cobertores e o som das respirações sincronizadas, Lisa entendeu que algumas batalhas não eram feitas para serem vencidas na quadra, mas sim na paciência de um sofá apertado e no perdão de um abraço. A nerd e a patricinha tinham suas fórmulas próprias para o caos, e o resultado, felizmente, era sempre o amor.