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My rich girl

Guerra de Pixels e Hormônios

O quarto de hotel em Chicago era luxuoso, mas para Jennie Kim, parecia uma cela de isolamento banhada a ouro. O resto das líderes de torcida do Blackpink estava no andar de baixo, comemorando a vitória na competição regional, mas Jennie tinha se retirado cedo. O motivo? Uma cólica que parecia um pequeno exército marchando dentro de seu abdômen e uma saudade de Lalisa Manoban que beirava a agonia física.

Jennie estava deitada na cama king size, cercada por travesseiros, vestindo um moletom três vezes maior que o seu — um "empréstimo" permanente do guarda-roupa de Lisa — que ainda mantinha aquele perfume cítrico amadeirado que a acalmava. Ou deveria acalmar.

Naquela noite, a TPM de Jennie tinha decidido pegar um atalho perigoso: o túnel do tempo. Ela estava rolando o feed do Instagram, descendo, descendo, até chegar em fotos de dois anos atrás. Fotos de quando Lisa ainda era apenas a "vizinha nerd e misteriosa" que ela observava de longe.

Seus olhos pararam em uma foto de Lisa em uma feira de ciências. Ela estava com um jaleco branco, o cabelo um pouco mais curto, e sorria de um jeito que Jennie considerou "radiante demais" para alguém que estava apenas explicando o funcionamento de um acelerador de partículas. E o pior: havia uma garota ao lado dela. Uma garota loira, segurando um troféu, com a mão encostada no ombro de Lisa.

O sangue de Jennie ferveu. O gatilho foi acionado.

Ela pegou o celular e abriu o WhatsApp.

— Lisa. — Jennie enviou, apenas o nome, com o ponto final mais agressivo da história das comunicações digitais.

A resposta veio quase instantaneamente. Lisa devia estar estudando, como sempre.

— Oi, Nini! Como foi a comemoração? Já estou com saudade da minha capitã favorita. — Lisa enviou, seguido de um emoji de coração e um de gatinho.

Jennie bufou. "Minha capitã favorita". A audácia.

— Quem é aquela loira da feira de ciências de 2022? — Jennie digitou, os dedos batendo na tela com força.

Houve uma pausa. Os três pontinhos de "digitando" apareceram e desapareceram várias vezes. Lisa estava confusa, e Jennie adorava que ela estivesse confusa.

— Loira? Que feira, Jennie? Isso faz dois anos! — Lisa respondeu.

— Não se faça de desentendida, Lalisa. Aquela que está sorrindo como se tivesse ganhado na loteria e com a mão no seu ombro. Você parecia bem confortável na foto.

— Amor, aquela era a Roseanne! A Rosé! Você conhece ela, é sua melhor amiga agora! Nós ganhamos o primeiro lugar em física aplicada. Por que você está vendo fotos de 2022 às onze da noite?

— Não importa por que eu estou vendo. O que importa é que você nunca me disse que ela tocava no seu ombro daquele jeito. — Jennie enviou, ignorando completamente a lógica. — E tinha outra foto. De uma festa de aniversário. Você estava segurando um copo vermelho e rindo para uma garota de franja. Quem era?

— Jennie, pelo amor de Deus, eu nem bebo! O copo devia ter suco de uva. E a garota de franja era a minha prima que veio de Bangkok! — Lisa enviou, agora claramente em modo defensivo. — O que está acontecendo? Você comeu? Tomou o remédio para cólica?

Jennie visualizou e não respondeu. Ela queria brigar. Ela precisava que Lisa sentisse um pouco da turbulência que estava acontecendo dentro dela.

— Engraçado como você tem uma explicação para tudo. "Prima", "Melhor amiga". Aposto que se eu descer mais um pouco, vou achar uma "instrutora de yoga" e uma "colega de laboratório" também. — Jennie digitou.

— Qual é, tá brava mesmo? — Lisa enviou, tentando suavizar o clima.

— Não. — Jennie respondeu secamente.

— Tem certeza, amor? — Lisa insistiu.

— Sim, e meu nome é Jennie, não amor. — A mensagem de Jennie foi visualizada na hora.

O silêncio do outro lado durou longos dois minutos. Jennie começou a roer a unha, sentindo um misto de satisfação e pânico. Ela tinha ido longe demais? Provavelmente. Ela ia parar? Jamais.

— Jennie, eu estou a quilômetros de distância. Eu só quero que você descanse e fique bem. Eu não fiz nada em 2022, e certamente não estou fazendo nada agora além de sentir sua falta. — Lisa tentou ser a voz da razão.

— Então tá bom, tu que sabe. — Jennie enviou a frase que, no dicionário de relacionamentos, significa o início da Terceira Guerra Mundial.

— "Tu que sabe"? Jennie, essa é a frase mais assustadora do mundo! O que isso significa? O que eu fiz hoje? — Lisa respondeu, visivelmente desesperada.

— Significa que eu vi o que eu vi. Você era bem "soltinha" antes da gente começar a namorar, não é? Sorrindo para todo mundo, deixando as pessoas tocarem em você. Eu aqui, sofrendo em Chicago, e você aí, provavelmente lembrando dos "bons tempos" de solteira.

— Eu odiava ser solteira! — Lisa enviou em caixa alta. — Eu passava o dia inteiro olhando para a sua porta esperando você sair para eu poder te dar um "oi" e gaguejar como uma idiota! Eu não tinha "bons tempos", eu tinha tempos de solidão nerd!

— Sei. — Jennie respondeu. — Aquela foto com a menina do vôlei diz o contrário.

— QUE MENINA DO VÔLEI, JENNIE KIM?

— Uma que comentou "arrasou" em uma foto sua de óculos.

— ISSO FOI UM BOT! ERA UM PERFIL DE PROPAGANDA DE SUPLEMENTO!

Jennie sentiu um pequeno sorriso surgir no canto dos lábios. Ver Lisa perder a compostura nerd e calma era um dos seus passatempos favoritos, especialmente quando ela estava se sentindo vulnerável.

— Um bot bem atencioso, pelo visto. — Jennie continuou. — Enfim, não quero mais falar sobre isso. Vou dormir. Aproveite seu espaço aí em Nova York para curtir sua vida de "não-comprometida" mentalmente.

— Eu vou pegar um voo para Chicago agora mesmo se você não parar com isso. — Lisa ameaçou. — Eu juro, Jennie. Eu não aguento ficar brigada com você por causa de um comentário de um bot de 2021.

— Não precisa se dar ao trabalho. — Jennie digitou, sentindo as lágrimas de TPM começarem a pinçar seus olhos. — Eu só percebi que você era muito feliz antes de ter que lidar com uma "patricinha mimada" que tem crises de humor.

O tom da conversa mudou. Lisa percebeu que a fase da agressividade tinha passado e a fase da autodepreciação e da tristeza tinha chegado. Ela conhecia o ciclo. Ela amava cada parte dele, mesmo as mais difíceis.

— Nini... — Lisa enviou, agora com uma voz digital muito mais doce. — Olha para a sua mesa de cabeceira. No hotel.

Jennie franziu a testa. Ela olhou para a mesinha de madeira escura ao lado da cama. Não havia nada lá, exceto o telefone do hotel e uma garrafa de água.

— Não tem nada aqui, Lisa. Pare de tentar me distrair.

— Abre a gaveta. — Lisa insistiu.

Jennie abriu a gaveta com má vontade. Lá dentro, havia um pequeno envelope pardo com o seu nome escrito na caligrafia perfeita e levemente inclinada de Lisa.

— O que é isso? Como isso veio parar aqui? — Jennie digitou, o coração batendo mais rápido.

— Eu pedi para a Rosé esconder lá quando vocês chegaram. Ela é uma ótima cúmplice, apesar de você estar brava com a foto dela de dois anos atrás. Abre.

Jennie abriu o envelope. Dentro, havia um pacote de seus doces favoritos de morango que só vendiam em uma loja específica perto da faculdade, e um pendrive pequeno, em formato de gatinho.

— O que tem no pendrive? — Jennie perguntou, a voz já falhando.

— Espeta no seu notebook.

Jennie pegou o laptop, as mãos tremendo um pouco. Ela conectou o gatinho de metal e abriu o único arquivo de vídeo que havia lá.

O vídeo começou com Lisa sentada em sua mesa de estudos, cercada por livros de astrofísica. Ela parecia nervosa, ajeitando os óculos constantemente.

— Oi, Nini. — A Lisa do vídeo disse, sorrindo timidamente. — Se você está vendo isso, provavelmente é sexta-feira à noite, você está em Chicago, e eu estou aqui morrendo de saudade. Eu fiz esse vídeo porque eu sei que, às vezes, sua cabeça gosta de criar histórias tristes quando eu não estou por perto. Eu sei que a TPM é difícil e que você se sente sozinha.

Jennie sentiu a primeira lágrima cair.

— Eu queria te mostrar uma coisa. — No vídeo, Lisa virou a câmera para a parede atrás dela.

A parede, que Jennie sempre achou que estivesse cheia de mapas estelares e fórmulas, estava coberta de fotos. Mas não eram fotos de 2022. Eram fotos delas. Fotos de Jennie dormindo no ombro de Lisa, fotos delas tomando café, fotos de Jennie rindo de alguma piada nerd que ela não entendeu, e até um ingresso de cinema do primeiro filme que assistiram juntas.

— Esse é o meu universo agora, Jennie. — A voz de Lisa no vídeo era suave. — Não existem loiras de feiras de ciências, não existem primas de Bangkok, não existem bots de vôlei. Só existe você. Você é a única estrela que eu faço questão de observar todas as noites. Então, por favor, não briga com a Lisa do presente por causa da Lisa do passado que nem sabia o que era ser amada de verdade. Eu te amo, capitã. Volta logo para casa.

O vídeo terminou com Lisa soprando um beijo para a câmera.

Jennie soltou um soluço alto, abraçando o notebook contra o peito. Ela se sentia a pessoa mais boba e sortuda do mundo. O celular vibrou na cama.

— Ainda está brava com a loira da foto? — Lisa perguntou.

Jennie limpou o rosto com a manga do moletom de Lisa, respirando fundo.

— Eu te odeio, Lalisa Manoban. — Jennie digitou.

— Odeia? — Lisa enviou um emoji de carinha triste.

— Odeio porque você me conhece bem demais. E odeio porque eu não consigo ficar brava com você nem por dez minutos sem me sentir uma idiota. — Jennie enviou, seguido de vários emojis de coração. — Desculpa por ser difícil.

— Você não é difícil, Nini. Você é intensa. E eu amo a sua intensidade. Até quando ela envolve investigar meu Instagram de três anos atrás. — Lisa respondeu. — Agora, come os doces e tenta dormir. Eu vou estar aqui quando você acordar.

— Lisa? — Jennie chamou.

— Sim?

— Você tem certeza que aquela menina de franja era sua prima? — Jennie não resistiu à última cutucada.

— JENNIE! — Lisa enviou, e Jennie quase pôde ouvir o grito de frustração brincalhona da namorada.

— Brincadeira! — Jennie riu, sentindo-se leve pela primeira vez no dia. — Eu te amo. Boa noite, minha nerd.

— Boa noite, meu amor. Sonha com a gente.

Jennie desligou a tela do celular e se encolheu debaixo das cobertas. A cólica ainda estava lá, a distância ainda era real, e a viagem ainda duraria mais dois dias. Mas, enquanto ela fechava os olhos, a única imagem que via não era a de uma foto antiga ou de uma insegurança boba. Era o sorriso de Lisa, o brilho nos olhos dela quando falava sobre o universo, e a certeza absoluta de que, entre todas as galáxias possíveis, Lisa tinha escolhido a dela para habitar.

Em Nova York, Lisa Manoban finalmente fechou seus livros de física. Ela olhou para a parede cheia de fotos de Jennie e suspirou, um sorriso bobo brincando em seus lábios. Ela sabia que o "então tá bom, tu que sabe" era apenas o código de Jennie para "eu preciso que você me prove que me ama". E Lisa estava mais do que disposta a passar o resto da vida resolvendo essa equação. Porque para Lalisa, não importava o quão complexa Jennie Kim pudesse ser; ela era, e sempre seria, a solução para tudo o que importava.