Voltar ao resumo

Nas sombras

O Labirinto de Máscaras e a Queda do Muro de Prata

O Salão Comunal da Grifinória estava excepcionalmente barulhento naquela tarde de quinta-feira, mas para Harry e Rony, o mundo parecia ter se reduzido a um único ponto de foco na mesa da Sonserina, visível através das portas abertas do Grande Salão.

Draco Malfoy estava cercado. Não por inimigos, mas por uma atenção que Harry e Rony consideravam absolutamente inaceitável. Pansy Parkinson estava debruçada sobre o ombro de Draco, rindo de algo que ele dizia, enquanto Astoria Greengrass, uma segundanista de aparência impecável, mantinha uma mão delicada sobre o braço do loiro, ouvindo-o com uma adoração óbvia.

— Ele está fazendo de propósito — rosnou Rony, apertando o cabo de sua colher com tanta força que o metal começou a ceder. — Olhe para ele, Harry. Ele está deixando aquela garota tocar nele como se... como se ele não pertencesse a ninguém!

Harry não estava em melhor estado. Seus olhos verdes estavam fixos em Draco, que parecia estar se deliciando com a atenção feminina, jogando a cabeça para trás em uma risada aristocrática que Harry sabia ser apenas uma máscara, mas que ainda assim incendiava seu sangue de ciúme.

— Ele está se fazendo de difícil — murmurou Harry, a voz carregada de uma possessividade sombria. — Ele sabe que estamos olhando. Ele sabe o que isso faz com a gente.

Hermione Granger, sentada à frente deles com um livro de Aritmancia aberto, levantou os olhos e soltou um suspiro audível. Ela observava a cena há dias, e a tensão que emanava de seus dois melhores amigos era quase palpável.

— Vocês dois estão sendo patéticos — disse ela, fechando o livro com um estalo seco. — Realmente acham que o Malfoy tem algum interesse real naquelas garotas? Ele está sustentando a fachada dele. O "herdeiro solteiro e cobiçado", lembram-se?

— Fachada ou não, Hermione, ela está tocando no braço dele há dez minutos! — Rony exclamou, voltando sua fúria para a amiga. — E ele não se afastou!

Hermione deu um sorriso ladino, um brilho de diversão maliciosa nos olhos.

— Ah, Rony... — provocou ela. — É engraçado ver você assim. Quem diria que o grande Rony Weasley ficaria com o rosto mais vermelho que o cabelo só porque um Malfoy está sendo... bem, um Malfoy. Você está com ciúmes, não está?

— Eu não estou com ciúmes! — mentiu Rony, a voz subindo uma oitava. — Eu só acho que... que é uma falta de respeito com o que temos!

— Com o que vocês têm em segredo, você quer dizer — corrigiu Hermione, voltando sua atenção para Harry. — E você, Harry? Vai continuar fingindo que não quer lançar um feitiço de estuporação na Greengrass?

Harry não respondeu. Ele viu quando Draco se levantou, lançando um olhar rápido e carregado de desafio em direção à mesa da Grifinória antes de sair do salão acompanhado pelas duas garotas.

— Chega — disse Harry, levantando-se abruptamente. — Rony, vamos.

— Para onde? — perguntou Rony, já se levantando também.

— Para onde você acha? — Harry respondeu, a voz fria. — Vamos acabar com esse teatrinho agora.

Hermione os seguiu, mantendo uma distância segura, mas curiosa o suficiente para não perder o desfecho. Ela sabia que aquele equilíbrio precário de segredos estava prestes a ruir, e honestamente, ela achava que já passava da hora.

Eles encontraram Draco no corredor das masmorras, afastando-se de Pansy e Astoria com uma desculpa qualquer. No momento em que ele viu Harry e Rony se aproximarem com expressões de puro ódio, um sorriso de satisfação genuína cruzou seu rosto pálido.

— Ora, ora... o que temos aqui? — Draco arrastou as palavras, encostando-se na parede de pedra com uma arrogância calculada. — O Menino-Que-Sobreviveu e seu fiel escudeiro parecem um pouco... perturbados?

— Perturbados é pouco, Malfoy — sibilou Rony, aproximando-se até ficar a poucos centímetros do rosto de Draco. — O que foi aquilo no Grande Salão? Você deixou aquela garota se pendurar em você como se fosse um troféu!

Draco arqueou uma sobrancelha, seus olhos cinzentos brilhando com uma diversão perversa.

— Ciúmes, Weasley? Que coisa mais... plebeia. Eu tenho uma reputação a manter. O mundo bruxo espera que um Malfoy se case com alguém de linhagem pura, não que ele passe as noites sendo a "cadelinha", como vocês gostam de dizer, de um Grifnório.

Harry deu um passo à frente, segurando Draco pelo colarinho da camisa e empurrando-o contra a parede. O impacto não foi violento, mas a intenção era clara.

— A brincadeira acabou, Draco — disse Harry, a voz baixa e perigosa. — Eu estou cansado de ver você se esfregando em outras pessoas para provar que é herdeiro de alguma coisa. Eu estou cansado de me esconder.

Draco perdeu o sorriso. O olhar de Harry era intenso demais, real demais.

— Harry, você sabe que não podemos... — Draco começou, mas foi interrompido.

— Podemos sim — disse Rony, colocando-se ao lado de Harry. — Nós três estamos nisto juntos. Eu também estou cansado, Malfoy. Cansado de fingir que te odeio quando tudo o que eu quero é estar com você e o Harry na Sala Precisa.

Hermione apareceu nas sombras do corredor, cruzando os braços.

— Eles têm razão, Draco — disse ela, sua voz ecoando suavemente pelas pedras frias. — A farsa está consumindo vocês. Olhe para o Rony; ele mal consegue comer sem querer azarar metade da Sonserina. E o Harry está a um passo de revelar tudo no meio de uma aula de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Draco olhou de Harry para Rony, e depois para Hermione. A máscara de arrogância começou a rachar, revelando a vulnerabilidade que ele só mostrava entre quatro paredes.

— Vocês não entendem o peso do meu nome — murmurou Draco, a voz agora sem o habitual tom de superioridade. — Meu pai... a sociedade... eles esperam algo de mim que eu não posso dar.

— Então pare de tentar dar a eles o que eles querem — Harry disse, soltando o colarinho de Draco, mas mantendo as mãos em seus ombros. — Nós não queremos sexo hoje, Draco. Não queremos jogos de poder na Sala Precisa. Queremos uma conversa séria.

Draco suspirou, fechando os olhos por um momento.

— Tudo bem. No lugar de sempre. Mas sem correntes, sem ordens... apenas nós.

Horas depois, a Sala Precisa se moldou em um ambiente confortável e acolhedor. Não havia o couro escuro ou as velas esverdeadas das noites de luxúria. Em vez disso, havia sofás macios, uma lareira quente e uma luz âmbar que suavizava as arestas de seus rostos cansados.

Harry e Rony sentaram-se em um sofá, enquanto Draco ocupou uma poltrona à frente deles. Hermione sentou-se em um canto, atuando como uma observadora silenciosa, a testemunha necessária para aquele momento histórico.

— Eu vi o jeito que você olhou para a Astoria — começou Rony, mas desta vez não havia raiva em sua voz, apenas uma mágoa profunda. — Parecia que você realmente gostava daquilo. Do jeito que ela te admirava.

— Ela admira o sobrenome, Rony — Draco respondeu, olhando para as próprias mãos. — Ela admira a fortuna e o status. Ninguém me admira do jeito que vocês dois fazem. Ninguém me conhece como vocês.

— Então por que continuar com isso? — Harry perguntou. — Por que me fazer sentir que eu sou o seu segredo sujo enquanto ela é a sua escolha pública?

Draco levantou os olhos, e Harry viu que eles estavam marejados.

— Porque eu tenho medo, Harry! — Draco exclamou, a voz falhando. — Tenho medo de que, se o mundo souber que eu sou... que eu sou de vocês, tudo o que eu construí desmorone. Eu sou um Malfoy. Supõe-se que eu seja o ativo, o dominante, o homem que comanda a linhagem. No momento em que souberem que eu me entrego a vocês, que eu adoro ser cuidado por vocês... eu perco tudo.

— Você não perde a gente — Rony disse, inclinando-se para frente e pegando a mão de Draco. — Você nunca vai perder a gente.

— E você não perde a si mesmo — completou Harry. — Pelo contrário, você finalmente vai poder respirar. Draco, olhe para nós. Nós estamos dispostos a enfrentar o julgamento de Hogwarts inteira por você. Por que você não pode fazer o mesmo por nós?

Draco olhou para a mão de Rony segurando a sua, e depois para Harry, que o observava com uma promessa de lealdade eterna.

— Hermione — chamou Draco, sem desviar o olhar dos dois. — O que você acha? Como o mundo reagiria?

Hermione fechou o livro que estava em seu colo e aproximou-se do círculo.

— Honestamente? Alguns ficariam chocados. Outros diriam que é um escândalo. Mas a maioria... a maioria veria a verdade. Veria que o herói da Grifinória e o herdeiro da Sonserina encontraram algo que transcende a guerra. Draco, a verdade é uma força poderosa. Uma vez que você a assume, ninguém pode usá-la contra você.

Draco sentiu um peso imenso sair de seus ombros. Ele passou meses, talvez anos, construindo muros de prata e mentiras elegantes, apenas para perceber que estava preso dentro deles.

— Vocês querem mesmo fazer isso? — Draco perguntou, a voz trêmula. — Querem entrar no Grande Salão amanhã e mostrar a todos que o Malfoy é... que ele é a "cadelinha" de vocês?

Harry sorriu, um sorriso cheio de ternura e uma pitada de malícia.

— Eu não usaria essas palavras em público, Draco. Mas eu quero entrar lá e poder colocar meu braço em volta da sua cintura sem que você se afaste.

— E eu quero poder calar a boca de qualquer um que tente dar em cima de você — acrescentou Rony, com um brilho protetor nos olhos.

Draco soltou uma risada curta, uma mistura de alívio e nervosismo.

— Meu pai vai ter um infarto. Pansy vai tentar me matar. E o Snape... bem, o Snape provavelmente vai nos dar detenção pelo resto da vida apenas por existirmos.

— Vale a pena — Harry disse, levantando-se e puxando Draco para cima também.

Eles se abraçaram, um abraço triplo que selava o pacto. Não havia desejo sexual naquele momento, apenas uma conexão emocional profunda, o reconhecimento de que a farsa havia chegado ao fim.

— Amanhã — Draco sussurrou contra o ombro de Harry. — Amanhã o muro cai.

— Amanhã — confirmou Rony, beijando a têmpora de Draco.

Hermione observava a cena com um sorriso satisfeito. Ela sabia que os dias seguintes seriam caóticos, cheios de fofocas, julgamentos e talvez alguns duelos de azarações. Mas ela também sabia que aqueles três rapazes nunca estiveram tão fortes.

Naquela noite, eles não fizeram sexo. Eles não brincaram de mestre e submisso. Eles apenas dormiram juntos na Sala Precisa, amontoados em um emaranhado de braços e pernas, protegidos pelo silêncio da noite.

Quando o sol começou a nascer no horizonte de Hogwarts, Harry foi o primeiro a acordar. Ele observou Draco, que dormia com uma expressão de paz que ele raramente via, e Rony, que roncava baixinho ao lado do loiro. A farsa de Draco de se fazer de "hétero ativo" para o público estava com as horas contadas.

O café da manhã no Grande Salão começou como qualquer outro. As corujas traziam o correio, os alunos conversavam sobre os exames e a comida aparecia magicamente nos pratos. Mas a atmosfera mudou no instante em que Harry Potter, Rony Weasley e Draco Malfoy entraram juntos.

Eles não caminharam para mesas diferentes.

Draco Malfoy, o herdeiro da Sonserina, caminhou entre os dois Grifnórios. Quando chegaram ao meio do salão, sob os olhares curiosos de centenas de alunos, Draco parou. Ele estava pálido, mas sua cabeça estava erguida.

Harry, com uma calma deliberada, passou o braço pela cintura de Draco e o puxou para perto. Rony, do outro lado, colocou a mão no ombro de Draco, um gesto de posse e proteção que não deixava dúvidas.

O silêncio que caiu sobre o Grande Salão foi absoluto. Até mesmo os professores na mesa principal pararam de comer. Pansy Parkinson deixou cair sua torrada, e Astoria Greengrass arregalou os olhos em choque.

Draco olhou para a mesa da Sonserina, depois para a da Grifinória, e finalmente para Harry.

— Você tinha razão — sussurrou Draco, alto o suficiente para que os mais próximos ouvissem. — É muito melhor respirar.

Harry inclinou-se e, diante de toda a escola, beijou a bochecha de Draco, subindo depois para o seu pescoço, onde deixou uma marca deliberada que o feitiço de camuflagem não escondia mais.

— Agora todos sabem, Dray — Harry disse, com um sorriso vitorioso. — Você é nosso.

Rony deu um tapinha amigável nas costas de Draco, mas seus olhos brilhavam com o desafio de quem enfrentaria qualquer um que ousasse dizer uma palavra contra aquela união.

— Vamos comer — disse Rony, puxando Draco em direção à mesa da Grifinória. — Eu estou faminto, e acho que o Malfoy precisa de uma boa torta de rins para lidar com o choque da própria coragem.

Eles se sentaram juntos na mesa da Grifinória, ignorando os sussurros que começavam a explodir como fogos de artifício ao redor deles. Hermione sentou-se à frente deles, abrindo seu livro com um sorriso triunfante.

A máscara havia caído. O segredo entre as cortinas de veludo agora era luz do dia. E enquanto Draco Malfoy se deixava ser mimado por Harry e Rony em público, recebendo carícias no cabelo e mordidas suaves no pescoço diante de todos, ele percebeu que nunca tinha sido tão poderoso. Porque agora, ele não precisava mais fingir ser um rei solitário; ele era parte de algo muito maior. Ele era amado, ele era livre e, acima de tudo, ele era deles.