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Nemhum

O Equilíbrio das Sombras e do Ouro

A manhã na cobertura de Emanuel não trazia a paz que o luxo sugeria. O ar estava saturado com o perfume caro de Sara e a essência suave de baunilha que Eduarda exalava. Emanuel, sentado à cabeceira da mesa de jantar de carvalho escuro, sentia-se como um diplomata em meio a uma guerra civil iminente. Ele tinha uma missão clara, embora perigosa: apaziguar os ânimos e manter o controle de sua vida doméstica antes que a viagem para York se tornasse um desastre.

— Emanuel, querido, eu decidi que não vou mais usar aquele vestido vermelho para a inauguração da sua galeria em Londres — anunciou Sara, entrando na sala com um conjunto de academia que parecia colado ao corpo, destacando cada curva aprimorada pelo silicone. — Quero algo exclusivo. E quero que você venha comigo ao shopping hoje. Nada de motorista, quero você carregando minhas sacolas.

Emanuel mal teve tempo de processar a exigência antes que Eduarda aparecesse na porta da cozinha, segurando uma xícara de chá com as duas mãos, as mangas do cardigã de lã cobrindo metade de seus dedos. Ela parecia uma pintura de Vermeer, delicada e envolta em uma aura de quietude.

— Manu... — disse ela, a voz baixa e manhosa — você prometeu que hoje iríamos àquela livraria de exemplares raros. Você disse que me ajudaria a encontrar o tratado sobre simbolismo medieval para a minha tese.

Emanuel olhou de uma para a outra. O contraste era quase cômico se não fosse trágico. De um lado, a exuberância agressiva e solar de Sara; do outro, a retração lunar e intelectual de Eduarda. Ele sabia que, se escolhesse uma, a outra transformaria o restante da semana em um inferno de sarcasmo ou de silêncio punitivo.

— Eu tenho uma ideia melhor — disse Emanuel, levantando-se e ajeitando o relógio de pulso. — Nós vamos fazer os dois. Primeiro, vamos ao shopping para a Sara escolher o que precisa. Depois, passamos na livraria. Almoçamos juntos no centro.

— Juntos? — Sara soltou uma risada anasalada, jogando o cabelo loiro para trás. — Emanuel, você quer me matar de tédio? Ter que aguentar a "enciclopédia ambulante" falando de papel velho enquanto eu tento decidir entre Gucci e Prada?

— Eu não me importo de ir, se o Manu estiver lá — murmurou Eduarda, lançando um olhar de soslaio para Sara, um olhar que Emanuel reconheceu como um desafio silencioso. — A estética da moda também é uma forma de arte, embora às vezes seja... superficial demais.

— O que você disse, sua nanica? — Sara estreitou os olhos, a postura ficando defensiva.

— Chega — interrompeu Emanuel, a voz ganhando o tom de comando que usava em seus estúdios. — Nós vamos os três. É uma oportunidade para tentarmos um pouco de harmonia. Sara, pegue sua bolsa. Duda, troque os sapatos. Saímos em dez minutos.

O shopping de luxo era o habitat natural de Sara. Ela desfilava pelos corredores de mármore como se fosse a dona do estabelecimento, parando em cada vitrine e exigindo a opinião de Emanuel sobre tudo. Ela fazia questão de se pendurar no braço dele, empurrando os seios contra o seu bíceps e falando alto, atraindo olhares.

— Este, Manu! O que acha? — perguntou ela, apontando para um vestido de paetês dourados que era pouco mais que uma fita larga. — Valoriza meu investimento, não acha?

— É chamativo, Sara. Como tudo o que você gosta — respondeu ele, sentindo o peso das sacolas que já carregava.

Eduarda caminhava um passo atrás, observando as vitrines com um desinteresse polido. Ela não reclamava, mas Emanuel notava como ela se encolhia quando Sara esbarrava nela "sem querer". Em um momento em que Sara entrou em um provador, Emanuel se aproximou de Eduarda, que analisava um lenço de seda em uma arara próxima.

— Você está bem, pequena? — perguntou ele em voz baixa, tocando a nuca dela sob o cabelo longo.

— Estou — respondeu ela, dando um sorriso pequeno e doce. — É interessante observar como as pessoas usam a roupa como uma armadura de ego. Ela precisa de muito brilho para não se sentir invisível, não é?

Emanuel sentiu um calafrio. Eduarda tinha uma forma de dissecar as pessoas que era assustadora. Ela não gritava, mas suas palavras eram como agulhas de tatuagem: finas e permanentes.

— Tente não provocá-la, Duda. Eu estou tentando equilibrar as coisas.

— Eu sei, Manu. Você é tão bom para nós... — Ela se inclinou e beijou o rosto dele, deixando um rastro de perfume de baunilha. — Por isso eu li aquele capítulo sobre "recompensas" ontem à noite. Acho que você vai gostar de como eu pretendo te agradecer por hoje, quando estivermos sozinhos.

A promessa nos olhos de Eduarda fez o sangue de Emanuel correr mais rápido. Aquela garota era um labirinto; ele nunca sabia se encontraria a santa ou a pecadora na próxima curva.

— Emanuel! — o grito de Sara veio de dentro da loja. — Venha aqui fechar esse zíper! Agora!

A tarde seguiu para a livraria de exemplares raros, um local silencioso, com cheiro de couro antigo e madeira encerada. O oposto absoluto do shopping. Agora, era a vez de Sara bufar de tédio enquanto Eduarda se perdia entre as estantes, seus olhos brilhando com uma fome intelectual que Emanuel achava fascinante.

— Olha, Manu... — sussurrou Eduarda, puxando-o para um canto isolado entre duas estantes altas de carvalho. — Um manuscrito iluminado original. Veja a precisão dessas cores. É como a pele antes da tinta, esperando para ser marcada.

Emanuel se aproximou, observando o livro, mas sua atenção foi desviada quando Eduarda pegou sua mão e a colocou sobre sua própria coxa, por baixo da saia de linho.

— Duda... aqui não — murmurou ele, embora não retirasse a mão.

— Ninguém está vendo — disse ela, a voz manhosa voltando com força. — A Sara está lá na frente reclamando do pó com o livreiro. Eu só queria que você sentisse como eu fico quando você me ensina coisas novas.

Emanuel sentiu a umidade e o calor dela através da calcinha de renda, e a audácia daquela menina tímida o deixou sem fôlego. Ela continuava olhando para o livro, com a expressão mais inocente do mundo, enquanto guiava os dedos dele.

— Você é um perigo, Eduarda — disse ele, a voz rouca.

— Eu sou sua aluna aplicada, Manu — respondeu ela, fechando o livro com um estalo suave.

— Onde vocês se meteram? — Sara apareceu no corredor, a voz estridente quebrando a reverência do local. — Emanuel, eu estou com fome. E esse lugar me dá alergia. Vamos embora agora.

— Já terminamos aqui — disse Emanuel, recompondo-se rapidamente e retirando a mão.

O almoço foi em um restaurante francês exclusivo. Emanuel sentou-se entre as duas, tentando distribuir sua atenção de forma cirúrgica. Ele elogiou o novo sapato de Sara e, no momento seguinte, comentou sobre a tese de Eduarda. Era um jogo exaustivo de xadrez emocional.

— Sabe, Manu — começou Sara, saboreando seu vinho — eu andei pensando. Para a viagem de York, eu quero levar o fotógrafo da *Vogue* que conheci na semana passada. Imagina as fotos naquele cenário medieval? Eu, de couro preto, em frente à catedral. Vai quebrar a internet.

— Não — disse Emanuel, firme. — York é uma viagem de pesquisa para a Eduarda e de negócios para mim. Não quero fotógrafos, não quero circo. Quero privacidade.

— Privacidade ou uma desculpa para ficar trancado no quarto com a "bibliotecária"? — Sara disparou, os olhos faiscando. — Você está mudando, Emanuel. Está ficando chato. Antes você adorava quando eu causava, quando a gente chamava atenção. Agora você quer o quê? Silêncio e chá das cinco?

— Eu quero paz, Sara — respondeu ele, sentindo o estresse acumulado latejar em sua nuca. — Eu trabalho dezesseis horas por dia gerenciando um império. Quando saio com vocês, quero relaxar, não ser o centro de um escândalo de tabloide.

Eduarda colocou a mão sobre a de Emanuel, um gesto suave e consolador.

— O Manu está certo, Sara. A verdadeira elegância é discreta. Mas eu entendo que, para quem vive de imagem, o silêncio deve ser assustador. Parece vácuo, não é?

Sara bateu o garfo no prato, o som metálico atraindo a atenção de outras mesas.

— Escuta aqui, sua sonsa de merda. Você acha que é superior porque lê esses livros que ninguém liga? Você é só uma diversão passageira, uma boneca que ele usa para se sentir "culto". Quando ele cansar de brincar de professor, é para mim que ele vai voltar, porque eu sou mulher de verdade, não um fetiche de colegial.

— Sara, chega! — Emanuel ordenou, a voz baixa, mas carregada de uma fúria que fez a loira empalidecer levemente. — Mais uma palavra e você volta para casa de táxi e eu cancelo sua viagem para a Europa.

O restante do almoço transcorreu em um silêncio tenso. Ao voltarem para a cobertura, o clima era de uma trégua armada. Emanuel foi direto para seu escritório, precisando de uma dose de uísque e de distância das duas.

Ele mal havia se sentado quando a porta se abriu. Era Sara. Ela entrou sem pedir licença, caminhando até ele com um olhar predatório. Ela se sentou em seu colo, ignorando os papéis sobre a mesa, e começou a desabotoar a camisa dele.

— Você está bravo comigo, meu rei? — perguntou ela, a voz agora doce e sedutora, usando a única arma que sabia que funcionava com ele. — Eu só quero o seu bem. Eu não suporto ver você sendo manipulado por aquela garota. Ela finge que é santa, mas ela só quer o seu dinheiro e o seu status para a vidinha medíocre dela.

— A Eduarda não é assim, Sara. Você sabe disso — disse ele, embora suas mãos já estivessem encontrando o caminho para os quadris dela.

— Ela te engana direitinho... — Sara começou a beijar o pescoço dele, as unhas cravando-se em seus ombros. — Mas eu sou quem te conhece. Eu sei o que você gosta. Deixe ela com os livros dela. Aqui, no escuro, você é meu.

Emanuel se entregou ao momento, permitindo que a urgência de Sara dissipasse sua irritação. Era um sexo rápido, intenso, quase uma luta, como sempre era com ela. Sara precisava reafirmar sua posse através do corpo, e Emanuel, exausto mentalmente, usava aquele momento para não pensar em nada.

Quando Sara saiu do escritório, meia hora depois, ela tinha um sorriso triunfante no rosto. Ela passou por Eduarda, que estava sentada no sofá da sala lendo, e fez questão de ajeitar o cabelo e o vestido com um ar de superioridade óbvio.

— Ele é todo seu agora, "Duda" — provocou Sara, piscando. — Se é que sobrou alguma coisa para você.

Eduarda não respondeu. Ela apenas observou Sara subir as escadas e, então, fechou seu livro devagar. Ela não parecia abalada; parecia estar esperando.

Alguns minutos depois, Eduarda entrou no escritório. Emanuel estava recostado na poltrona, os olhos fechados, a camisa entreaberta. O cheiro de Sara ainda estava impregnado no ar.

— Ela passou por aqui, não foi? — perguntou Eduarda, a voz calma, quase clínica.

Emanuel abriu os olhos e suspirou.

— Duda, eu não quero brigar.

— Eu não vim brigar, Manu — disse ela, aproximando-se e sentando-se no tapete de pele entre as pernas dele. Ela começou a desamarrar os cadarços dos sapatos dele, um gesto de submissão e cuidado que o pegou de surpresa. — Eu sei o que a Sara faz. Ela usa o corpo como um grito, porque ela não tem mais nada para oferecer. Ela acha que o sexo é um troféu.

Eduarda levantou o olhar para ele, e Emanuel viu ali uma inteligência emocional que Sara jamais teria.

— Eu não me importo que você tenha estado com ela — continuou Eduarda, as mãos agora subindo pelas panturrilhas dele. — Porque o que ela te dá é apenas alívio. O que eu te dou é paz. E eu sei que, no fundo, é da paz que você tem fome.

Ela se levantou e sentou-se no colo dele, exatamente onde Sara estivera minutos antes. Mas a sensação era completamente diferente. Eduarda não era pesada nem exigente; ela se moldava a ele como se fossem feitos da mesma matéria.

— Ela é vulgar, Manu. Ela te trata como um objeto de exibição — sussurrou Eduarda contra o ouvido dele. — Eu te trato como o homem maravilhoso que você é. Eu li sobre como os antigos reis tinham concubinas para o prazer e esposas para a alma. Mas eu quero ser as duas coisas para você.

Eduarda começou a beijá-lo, mas não era a urgência faminta de Sara. Era um beijo lento, exploratório, carregado de uma curiosidade que Emanuel sabia que vinha de tudo o que ela estudava em segredo. Ela usava as mãos de forma delicada, mas precisa, encontrando pontos de prazer que ele nem sabia que estavam tão sensíveis.

— Você... você é muito mais perigosa que ela, Eduarda — murmurou Emanuel, sentindo seu coração acelerar de uma forma que Sara nunca conseguia provocar.

— Eu só sou dedicada — respondeu ela, desabotoando o restante da camisa dele. — Deixe ela ter os diamantes e as fotos. Eu só quero o que está aqui dentro. E eu sei exatamente como conseguir.

Naquela noite, Emanuel deitou-se na cama exausto, mas com uma percepção clara. Ele estava tentando agradar as duas, tentando manter um equilíbrio impossível. Sara era o vício, a adrenalina, o reflexo de seu sucesso no mundo exterior. Eduarda era a cura, o segredo, a profundidade que ele temia explorar, mas da qual não conseguia se afastar.

Ele olhou para o teto, ouvindo o som da respiração de Eduarda ao seu lado e o som da TV ligada no quarto de Sara. Ele era o dono de um império, um homem rico e poderoso, mas sentia que era apenas um prêmio em uma disputa onde as armas eram o grito e o silêncio.

E o pior — ou melhor — de tudo, era que ele não conseguia abrir mão de nenhuma das duas. Ele precisava do brilho vulgar de Sara para se sentir vivo no mundo, e precisava da doçura manipuladora de Eduarda para se sentir humano no privado.

— York vai ser interessante... — murmurou ele para a escuridão.

Ele sabia que a viagem seria o campo de batalha final. E, enquanto fechava os olhos, a última imagem que teve não foi a de Sara em seu vestido de paetês, mas a de Eduarda, na penumbra da livraria, com a mão sobre sua coxa e um olhar que dizia que ela já havia vencido a guerra, muito antes de Sara sequer perceber que ela havia começado.

Emanuel adormeceu sentindo o cheiro de baunilha, mas com o gosto do pecado de Sara ainda nos lábios, um alquimista tentando transformar chumbo e ouro em algo que ele pudesse chamar de felicidade.