Nemhum
O Ventre de Vênus e o Destino de Látex
A luz da manhã em York era filtrada por uma névoa persistente, conferindo à cidade medieval uma atmosfera de mistério que parecia feita sob medida para Eduarda. Eles estavam instalados em uma suíte na "The Ivy Manor", uma construção do século XVII cujas paredes de pedra eram tão espessas que abafavam qualquer som do mundo exterior. O quarto era decorado com veludos pesados, móveis de carvalho escuro e uma lareira que Emanuel mantinha sempre acesa, criando um refúgio de calor e sombra.
Eduarda estava sentada diante de uma penteadeira antiga, escovando os cabelos longos com gestos lentos e deliberados. Pelo reflexo do espelho manchado pelo tempo, ela observava Emanuel, que dormia profundamente na imensa cama de dossel. Ele parecia exausto, mas sereno. A viagem, embora carregada de tensão pela presença de Sara no quarto ao lado, estava cumprindo seu papel de aproximar Emanuel da quietude que Eduarda personificava.
Mas para Eduarda, a quietude não era mais suficiente.
Ela sentia uma urgência nova, um desejo que havia florescido durante suas leituras sobre a linhagem das grandes famílias europeias e o simbolismo da fertilidade na arte sacra. Ela não queria apenas o afeto de Emanuel ou sua proteção; ela queria algo irrevogável. Ela queria carregar a semente dele, ver seu corpo transformar-se para abrigar um menino que tivesse os mesmos olhos observadores e a mesma força silenciosa do pai.
— Um pequeno Emanuel — sussurrou ela para si mesma, um sorriso enigmático surgindo em seus lábios.
Ela sabia que, se pedisse, Emanuel negaria. Ele era racional, prático. Ele já havia dito, mais de uma vez, que ela deveria terminar a faculdade de História da Arte, viajar pelo mundo e consolidar sua própria identidade antes de pensar em maternidade. Ele a via como uma joia a ser lapidada, não como uma mãe. Mas ele não entendia que, para Eduarda, a maternidade era a lapidação final, o vínculo que Sara jamais conseguiria quebrar com seus diamantes ou sua vulgaridade.
Eduarda levantou-se silenciosamente e caminhou até a mesa de cabeceira de Emanuel. Com o coração batendo forte contra as costelas, ela abriu a gaveta superior. Lá, escondida sob um relógio de ouro, estava a caixa de preservativos que ele usava religiosamente. Emanuel era meticuloso; seu controle sobre a própria vida estendia-se até ao controle sobre a biologia.
Ela retirou um pequeno estojo de costura que havia trazido em sua mochila, escondido entre livros de anatomia. Com uma agulha fina, quase invisível, ela começou o trabalho.
— Um furo para o meu futuro — pensou ela, sentindo uma onda de rebeldia e satisfação percorrer seu corpo. — Um furo para garantir que eu serei a única que ele nunca poderá deixar.
Ela furou cada uma das embalagens, com uma precisão cirúrgica, garantindo que o dano fosse imperceptível a olho nu. Cada pequena perfuração era uma promessa, um contrato assinado com o destino. Ela se sentia como uma das divindades antigas que estudava: tecendo a vida através de um ato de traição necessária.
Quando terminou, guardou tudo com a mesma rapidez e voltou para a cama, deslizando para debaixo dos lençóis e aninhando-se contra as costas largas de Emanuel.
— Manu... — murmurou ela, roçando o nariz em sua nuca tatuada.
Emanuel despertou aos poucos, soltando um suspiro pesado e envolvendo-a com um braço possessivo.
— Já acordou, pequena? O dia está cinzento lá fora. Perfeito para ficarmos aqui.
— Eu estava pensando na Catedral — disse ela, a voz carregada de uma doçura manhosa. — Mas também estava pensando em nós. No que deixamos para trás e no que podemos construir.
Emanuel virou-se para olhá-la, os olhos ainda nublados pelo sono.
— Você está muito profunda hoje, Duda. É o ar de York?
— Talvez. É um lugar onde as coisas duram séculos, Manu. Eu quero algo que dure séculos também.
Antes que ele pudesse responder, a porta do quarto foi aberta sem qualquer cerimônia. Sara entrou, usando um sobretudo de pele sintética branca e botas de salto agulha que ecoavam agressivamente no piso de madeira.
— Mas que mofo é esse aqui dentro? — exclamou Sara, abrindo as cortinas pesadas e deixando a luz pálida invadir o quarto. — Emanuel, levanta! Eu não vim para a Inglaterra para ver você hibernar com a santinha. O fotógrafo que eu contratei chega em uma hora e eu quero fazer as fotos na muralha da cidade.
Emanuel sentou-se na cama, a irritação subindo instantaneamente ao seu rosto.
— Sara, eu já disse que não quero fotógrafos. E você não pode entrar aqui assim. Este é o quarto da Eduarda.
— Ah, por favor, Emanuel! — Sara revirou os olhos, caminhando até a penteadeira e mexendo nos frascos de perfume de Eduarda com desdém. — O hotel é seu, o dinheiro é seu e eu sou sua namorada. Não existem portas trancadas para mim. E você, Duda, não vai se arrumar? Ou vai passar o dia lendo sobre pedras velhas enquanto eu brilho sozinha?
Eduarda sentou-se, puxando o lençol para cobrir os ombros, mantendo uma calma que enfurecia Sara.
— Eu vou acompanhar o Emanuel na visita técnica ao estúdio de Leeds mais tarde — disse Eduarda suavemente. — As fotos na muralha parecem... apropriadas para você, Sara. Algo externo, para quem precisa de cenário para existir.
Sara virou-se bruscamente, as unhas cravadas na bolsa de grife.
— Escuta aqui, garota. Você acha que essa sua pose de intelectual te faz melhor que eu? O Emanuel gosta do que eu tenho aqui — ela apontou para o próprio corpo — e ele gasta comigo porque eu sou um investimento que dá retorno. Você é só uma despesa emocional.
— Sara, chega! — Emanuel levantou-se da cama, sua estatura imponente fazendo Sara recuar um passo. — Vá fazer suas fotos. Vá gastar o que quiser. Mas deixe a Eduarda em paz. Ela não está bem, o médico recomendou tranquilidade.
— Ela nunca está bem quando eu estou por perto, já percebeu? — ironizou Sara. — É uma doença conveniente, não acha? Ela sangra, ela desmaia, ela se faz de vítima... e você cai todas as vezes.
— Eu não sou vítima de nada, Sara — disse Eduarda, levantando-se da cama com uma dignidade que contrastava com sua aparência frágil. Ela caminhou até Emanuel e abraçou sua cintura, olhando para Sara por cima do ombro dele. — Eu só tenho o que você nunca terá: a paciência de esperar pelo que é meu.
Sara soltou uma risada ríspida e saiu do quarto, batendo a porta com tanta força que um dos quadros na parede tremeu.
Emanuel suspirou, passando as mãos pelo rosto.
— Eu não sei quanto tempo mais eu consigo manter esse equilíbrio, Duda. Ela está ficando impossível.
— Você não precisa manter o equilíbrio para sempre, Manu — disse Eduarda, conduzindo-o de volta para a cama. — As coisas têm um jeito natural de se resolverem. Por que você não relaxa um pouco antes de irmos para Leeds?
Emanuel olhou para ela, e o desejo começou a suplantar o estresse. Eduarda tinha esse poder sobre ele; ela era o bálsamo para as feridas que Sara abria.
— Você tem razão — murmurou ele, puxando-a para perto. — Eu preciso esquecer o mundo lá fora.
Ele esticou o braço e abriu a gaveta da mesa de cabeceira. Eduarda sentiu um frio na barriga, uma mistura de medo e triunfo. Ela observou, com a respiração suspensa, enquanto ele pegava um dos pacotes que ela havia sabotado minutos antes.
Emanuel abriu a embalagem com os dentes, um gesto bruto que sempre a excitava. Ele não percebeu nada. Não havia como perceber. A agulha era fina demais, o furo era um segredo guardado entre ela e as sombras de York.
— Tem certeza? — perguntou ele, parando por um momento para olhar nos olhos dela. — O médico disse...
— Eu tenho certeza, Manu — interrompeu ela, puxando-o para cima de si. — Eu quero você. Todo você. Sem barreiras.
O que se seguiu foi um encontro de intensidades opostas. Emanuel a possuía com uma urgência que parecia querer expulsar toda a frustração causada por Sara, enquanto Eduarda o recebia com uma entrega que era, na verdade, uma captura. A cada movimento, ela imaginava a vida sendo plantada, o destino sendo selado. Ela sentia-se poderosa, uma rainha tecendo sua linhagem no silêncio de um quarto antigo.
Emanuel, em seu clímax, não sabia que estava entregando a Eduarda exatamente o que ela queria. Ele achava que estava sendo responsável, que estava protegendo o futuro dela ao usar o preservativo que agora, ironicamente, servia apenas como um condutor para o plano de Eduarda.
Quando terminaram, Emanuel ficou deitado ao lado dela, ofegante, a mão repousando sobre o ventre ainda plano de Eduarda.
— Você é minha vida, Duda — disse ele, a voz carregada de uma emoção rara. — Eu quero que você termine seus estudos, que seja a melhor historiadora que este país já viu. Eu vou te dar o mundo inteiro.
Eduarda sorriu, um sorriso que Emanuel interpretou como gratidão, mas que carregava a satisfação de quem já havia conquistado o que realmente importava.
— Eu sei que você vai, Manu. E o mundo vai ser pequeno para o que nós vamos construir juntos.
Mais tarde, naquele mesmo dia, eles passeavam pelas ruas estreitas de "The Shambles". Sara estava à frente, posando para o fotógrafo com roupas extravagantes, atraindo olhares de reprovação dos moradores locais. Ela parecia uma mancha de tinta neon em uma fotografia em preto e branco.
— Ela é tão... barulhenta — comentou Eduarda, segurando a mão de Emanuel enquanto observavam a cena de longe.
— Ela é necessária para o meu lado público, Duda. Eu preciso dessa energia para os negócios, para o marketing. Mas é aqui, com você, que eu descanso.
— Logo você terá um motivo maior para descansar, Manu — disse ela, enigmática.
— O que quer dizer com isso?
— Nada. Só que a vida tem ciclos. Como as catedrais. Elas levam décadas para serem construídas, mas uma vez prontas, duram para sempre.
Eles entraram na Catedral de York Minster. O silêncio lá dentro era absoluto, quebrado apenas pelo som distante de um coral ensaiando. A luz atravessava os imensos vitrais, pintando o chão de pedra com tons de rubi e safira. Eduarda parou diante de uma imagem da Madona, uma escultura delicada de madeira policromada.
— Ela é linda — disse Emanuel, aproximando-se.
— Ela é fértil — corrigiu Eduarda. — Veja como as mãos dela protegem o ventre. Naquela época, a maior honra de uma mulher era dar um herdeiro ao seu senhor. Era a única forma de ser eterna.
Emanuel riu baixinho, abraçando-a por trás.
— Ainda bem que não vivemos mais na Idade Média, pequena. Você tem muito o que viver antes de se preocupar com herdeiros.
Eduarda não respondeu. Ela apenas encostou a cabeça no peito dele, sentindo o pulsar forte de seu coração. Ela sabia o que Emanuel ainda não sabia. Sabia que, dentro de algumas semanas, a névoa de York não seria apenas uma lembrança de viagem, mas o cenário onde sua nova vida começou a tomar forma.
Naquela noite, no jantar, Sara estava radiante. As fotos haviam ficado "divinas", segundo ela. Ela bebia champanhe e falava sem parar sobre a próxima festa em Londres, sobre como Eduarda deveria usar algo menos "monástico" e sobre como Emanuel precisava comprar um novo estúdio em Mayfair.
— Você está muito quieta, Duda — provocou Sara, servindo-se de mais caviar. — O gato comeu sua língua ou o vidro velho da igreja te deixou deprimida?
— Eu estou apenas satisfeita, Sara — respondeu Eduarda, levantando sua taça de água. — Há momentos em que o silêncio diz muito mais do que qualquer grito de atenção.
— O silêncio é para quem não tem nada a dizer — rebateu Sara, piscando para Emanuel. — Não é, Manu? Você gosta de ação, de barulho, de vida!
Emanuel olhou para as duas. Ele via o brilho nos olhos de Sara, a energia inesgotável que o atraía e o repelia ao mesmo tempo. E via a serenidade de Eduarda, a doçura que o acalmava e o prendia.
— Eu gosto das duas coisas — disse ele, diplomático. — Mas hoje, eu só quero aproveitar esta última noite em York.
Enquanto voltavam para o hotel, Eduarda sentiu uma leve pontada no ventre. Poderia ser apenas sugestão, ou o início de algo real. Ela sorriu para a escuridão da carruagem que os levava. Ela havia furado as camisinhas, havia furado a bolha de proteção de Emanuel, e em breve, furaria o ego de Sara com a notícia que mudaria tudo.
Sara achava que os diamantes eram sua garantia. Emanuel achava que seu controle era absoluto. Mas Eduarda, a tímida e manhosa historiadora, sabia que a história não é escrita por quem fala mais alto, mas por quem planta as sementes que crescem nas sombras.
— Boa noite, Manu — sussurrou ela quando chegaram ao quarto, dando-lhe um beijo casto na bochecha.
— Boa noite, pequena. Durma bem.
Eduarda deitou-se e fechou os olhos. Em sua mente, ela já via o menino. Ele teria as tatuagens do pai, talvez não na pele, mas na alma. E ela seria a guardiã desse legado. Sara poderia ter o presente, o brilho e os flashes. Mas Eduarda tinha o futuro, guardado em silêncio sob a pele, onde ninguém, nem mesmo Emanuel, poderia tocá-lo até que fosse tarde demais para voltar atrás.
A "santinha" havia vencido a rodada mais importante. E o melhor de tudo é que Emanuel ainda acreditava que ele era quem estava no comando. Ela adormeceu com um sorriso de triunfo, enquanto lá fora, a chuva de York continuava a cair, lavando as pedras antigas e preparando o solo para o que estava por vir.