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Nemhum

O Fruto da Traição e o Triunfo do Silêncio

O ar na cobertura de São Paulo estava tão carregado que parecia prestes a entrar em combustão. Emanuel estava parado no centro da sala, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria, os ombros tensos sob a camisa de linho. Ele olhava para os dois envelopes sobre a mesa de centro como se fossem dispositivos explosivos.

— Deixa eu ver se eu entendi direito... — A voz dele saiu rouca, uma vibração baixa que denunciava o limite do seu autocontrole. — As duas? Ao mesmo tempo?

— Pois é, Manu! — Sara exclamou, andando de um lado para o outro com saltos que martelavam o piso de mármore. Ela segurava uma taça de água mineral como se fosse champanhe, os olhos brilhando com uma mistura de pânico e excitação competitiva. — Parece que a viagem para York foi mais produtiva do que a gente imaginava. Mas olha para mim, eu estou em choque! Como eu vou manter meu corpo assim? O silicone vai cair? Eu vou precisar de uma plástica imediata depois que a Valentina nascer!

— Valentina? — Emanuel franziu o cenho, massageando as têmporas. — Você já deu nome?

— Claro! Nome de vitoriosa, de quem tem presença. — Sara parou diante dele, ignorando completamente a figura encolhida no sofá. — Mas e ela? Como a "santinha" deixou isso acontecer? Ela não é a mestre dos livros e do conhecimento? Não sabe como se prevenir?

Eduarda, sentada no canto do sofá de veludo, apertava uma almofada contra o ventre. Ela parecia menor do que o habitual, sua pele quase translúcida sob a luz do fim de tarde. Seus olhos estavam úmidos, e ela mantinha a cabeça baixa, deixando que os cabelos castanhos escondessem parte do rosto.

— Eu não sei, Manu... — sussurrou Eduarda, a voz falhando de forma magistral. — Eu tomei tanto cuidado. Você usou... você sempre usa. Eu sinto muito. Eu estraguei tudo, não foi? Minha faculdade, seus planos... eu sou um desastre.

Emanuel sentiu uma pontada de dor no peito ao ouvir o tom de autocrítica de Eduarda. Ele caminhou até ela, ajoelhando-se no tapete e segurando suas mãos pequenas e geladas.

— Não diga isso, Duda. Olhe para mim. — Ele esperou que ela levantasse os olhos lacrimejantes. — Você não estragou nada. Eu é que sou o responsável. Eu deveria ter sido mais cuidadoso. Você é tão jovem, tem tanto futuro pela frente na História da Arte... Meu Deus, eu tirei sua virgindade e agora te dei um peso que você não deveria carregar aos vinte anos.

— Um peso? — Sara interrompeu, soltando uma gargalhada vulgar. — Emanuel, acorda! Ela está adorando! Olha a carinha dela de quem ganhou na loteria genética. Enquanto eu estou aqui preocupada com a minha carreira de modelo e com a minha administração, ela vai ficar aí, ganhando beijinho na barriga e lendo livrinhos de gravidez.

— Cala a boca, Sara! — Emanuel rugiu, sem soltar as mãos de Eduarda. — A Duda é sensível, ela tem uma carreira acadêmica brilhante começando. Você... você sempre disse que queria um herdeiro para gastar meu dinheiro. Para você isso é um acessório de luxo. Para ela, é uma interrupção de vida!

Eduarda soltou um soluço baixo, escondendo o rosto no ombro de Emanuel. Por dentro, porém, seu coração batia com uma cadência de vitória absoluta. Ela sentia o calor do corpo dele, a proteção quase desesperada que ele emanava. O plano em York tinha funcionado melhor do que o esperado. O fato de Sara também estar grávida era um detalhe que ela não havia previsto, mas que agora percebia ser a moldura perfeita para sua santidade.

— Eu vou cuidar de tudo — prometeu Emanuel, beijando o topo da cabeça de Eduarda. — Vou contratar os melhores médicos. Você não vai precisar trancar a faculdade se não quiser, eu coloco motoristas, seguranças, o que for preciso.

— Eu só quero que você não me odeie, Manu — murmurou Eduarda contra o pescoço dele, sentindo o cheiro de sândalo e pele. — Eu quero que nosso filho saiba que ele foi fruto de amor, mesmo que tenha sido um acidente. Eu já até pensei em um nome... se for o menino que eu sinto que é. Arthur. Como os reis antigos que eu estudo.

Emanuel sentiu um aperto na garganta. Arthur. Um nome forte, clássico.

— Arthur — repetiu ele, e a palavra soou como uma tatuagem sendo gravada em sua alma. — É um nome lindo, Duda.

— Ah, que fofo! — Sara debochou, jogando-se na poltrona em frente ao casal. — O Rei Arthur e a Rainha da Sucata. Pois saibam que a Valentina vai ser a estrela dessa casa. Ela vai ter as melhores roupas, as melhores festas e vai ser a cara do pai, mas com o meu carisma.

Emanuel levantou-se, recuperando sua postura de controle, embora seus olhos ainda refletissem o caos interno.

— Escutem bem as duas. — Ele olhou de Sara para Eduarda. — Esta cobertura vai se tornar um centro de saúde a partir de hoje. Eu não quero brigas. Eu não quero estresse. Sara, você vai parar de berrar e de provocar a Eduarda. Duda, você vai focar na sua nutrição e nos seus estudos. Eu vou prover tudo para ambas, mas não vou tolerar que essa rivalidade afete a saúde dos bebês.

— Eu vou ser muito boazinha, Manu — disse Eduarda, levantando-se devagar e caminhando até ele com passos manhosos. Ela segurou a lapela da camisa dele, olhando-o de baixo para cima. — Eu só quero paz. Pelo Arthur. Eu não quero brigar por atenção. Eu sei que você tem muito trabalho com os estúdios novos e agora com duas crianças a caminho... eu vou ser o seu porto seguro, como sempre fui.

Ela lançou um olhar rápido para Sara — um olhar que durou apenas um milésimo de segundo, mas que foi carregado de um veneno silencioso. Era o olhar de quem já sabia quem seria a favorita.

Os meses que se seguiram transformaram a rotina da mansão em um estudo de contrastes psicológicos. Sara vivia cercada de cremes caríssimos para evitar estrias, reclamando do inchaço nos pés e exigindo ensaios fotográficos de gestante a cada quinze dias. Ela era a grávida ruidosa, que usava a gestação como uma extensão de seu narcisismo.

Já Eduarda floresceu de uma maneira que deixou Emanuel hipnotizado. Ela ficara ainda mais tímida em público, muitas vezes escondendo a barriga crescente sob vestidos de seda fluida e tons pastéis, mas na intimidade do quarto, ela se tornara uma força da natureza.

— Manu, o Arthur chutou de novo — sussurrou ela em uma noite de chuva, guiando a mão tatuada de Emanuel para o baixo ventre.

Emanuel sentiu o movimento sob a palma de sua mão e fechou os olhos, uma expressão de pura maravilha cruzando seu rosto.

— É forte — comentou ele, emocionado.

— Ele sente você — disse Eduarda, inclinando-se para beijar o queixo dele. — Ele sabe quem é o pai dele. Sabe que você é o homem mais poderoso e protetor do mundo. Eu li que os bebês reconhecem a voz do pai desde o útero. Fala com ele, Manu.

Emanuel hesitou, sua natureza reservada lutando contra o pedido, mas a expressão doce e expectante de Eduarda o venceu.

— Oi, Arthur... — murmurou ele, encostando o rosto na barriga dela. — Aqui é o papai. Eu estou te esperando.

Eduarda sorriu, acariciando os cabelos curtos de Emanuel. Ela sabia que Sara nunca conseguiria um momento como aquele. Sara estava ocupada demais discutindo com a decoradora sobre o quarto de Valentina, que seria todo em ouro e rosa choque. Eduarda, por outro lado, escolhera tons de azul acinzentado e madeira clara, criando um ambiente que convidava Emanuel a ficar, a sentar e a ler para o filho.

A rivalidade, no entanto, explodiu durante o chá de bebê conjunto que Emanuel insistira em realizar para manter as aparências diante da sociedade e dos parceiros de negócios.

Sara usava um vestido de látex dourado que marcava cada centímetro de sua barriga de sete meses, agindo como se fosse a rainha de um império.

— Vejam só o presente que o Manu me deu! — exclamou ela para um grupo de socialites, exibindo um relógio cravejado de diamantes. — É para eu não me atrasar para as mamadas da Valentina. Ele sabe que eu preciso de incentivo para perder o sono.

Eduarda, sentada em uma poltrona de vime decorada com flores naturais, usava um vestido romântico de renda renascença. Ela segurava apenas um pequeno sapatinho de lã que ela mesma começara a tricotar, embora Emanuel tivesse comprado coleções inteiras de grifes europeias.

— Que delicado, Eduarda — comentou uma das convidadas. — Você parece tão radiante. A maternidade te fez bem.

— Eu me sinto completa — respondeu Eduarda com sua voz mansa. — O Arthur é tudo o que eu sempre sonhei, embora tenha vindo de um jeito tão inesperado. Eu só rezo para que ele tenha a integridade e o coração do pai. O resto... o resto é apenas material.

Sara, que ouvia de longe, aproximou-se com a face vermelha de raiva.

— "O resto é material"? Você é muito falsa, Eduarda! Você vive às custas do Emanuel, mora na cobertura dele, usa o cartão dele para comprar esses livrinhos de arte caros e vem falar que o material não importa? Você é uma manipuladora de quinta categoria!

— Sara, por favor... — Eduarda começou a tremer levemente, os olhos se enchendo de lágrimas. — Eu não quis te ofender. Eu só estava falando do que eu sinto pelo meu filho.

— Seu filho! Seu filho! — Sara gritou, atraindo a atenção de todos os convidados. — Você acha que o Arthur vai ser mais importante que a Valentina? Pois saiba que eu vou garantir que o Emanuel veja quem você é de verdade. Você furou aquelas camisinhas em York, não foi? Eu conheço o seu tipo!

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Emanuel, que acabara de entrar no salão com uma bandeja de taças, parou no lugar. Seu rosto estava gélido.

— Sara, para o quarto. Agora — disse ele, a voz baixa e perigosa.

— Eu não vou! Eu estou falando a verdade! Ela é uma bruxa disfarçada de fada!

Eduarda levantou-se devagar, levando a mão ao ventre e soltando um gemido de dor, deixando-se cair de volta na poltrona.

— Manu... está doendo... — soluçou ela.

Emanuel largou a bandeja de qualquer jeito, o som do cristal quebrando ecoando pelo ambiente, e correu para o lado de Eduarda.

— Duda! O que você sente?

— Eu não sei... uma pressão... — Ela respirava de forma ofegante, escondendo o rosto no peito dele. — Por favor, não deixa ela gritar comigo. Eu tenho medo pelo Arthur.

Emanuel olhou para Sara com um ódio que a fez recuar.

— Se acontecer alguma coisa com esse bebê por causa do seu descontrole, Sara, eu juro por tudo o que é mais sagrado que você nunca mais verá a cor do meu dinheiro ou a face da sua filha. Saia da minha frente!

Sara saiu batendo os pés, mas pela primeira vez, havia medo em seus olhos. Ela percebera que, na guerra das narrativas, a "vítima" sempre vencia o "agressor".

No quarto, após os convidados irem embora e o médico confirmar que fora apenas um susto causado pelo estresse, Emanuel ficou sentado ao lado de Eduarda até que ela fingisse adormecer. Ele estava exausto, o peso de sustentar dois lares e duas gestações conflitantes drenando suas energias.

Quando ele finalmente saiu, Eduarda abriu os olhos. Ela se levantou e caminhou até o espelho. Sua barriga estava linda, a pele esticada e perfeita. Ela acariciou o ventre com um sorriso sombrio.

— Viu, Arthur? — sussurrou ela. — O papai quase expulsou aquela mulher hoje. Em breve, seremos só nós três. Ela pode ter a Valentina, mas nós teremos o coração dele.

As semanas finais foram um jogo de xadrez. Eduarda tornou-se a personificação da doçura e da dependência emocional. Ela pedia para Emanuel ler para ela todas as noites, pedia que ele ficasse em casa em vez de ir aos estúdios, alegando que se sentia insegura. E ele, consumido pela culpa de ter "estragado" a juventude dela, cedia a cada capricho manhoso.

O parto de Eduarda aconteceu primeiro, em uma manhã nublada. Arthur nasceu saudável, com os traços marcantes de Emanuel e a pele clara de Eduarda. Quando Emanuel segurou o filho pela primeira vez, algo mudou dentro dele. A racionalidade deu lugar a um instinto de proteção absoluto.

— Ele é perfeito — murmurou Emanuel, as lágrimas escorrendo pelo rosto tatuado.

— Ele é o seu herdeiro, Manu — disse Eduarda, exausta mas triunfante na cama do hospital luxuoso. — O seu pequeno rei.

Duas semanas depois, nasceu Valentina. O parto de Sara foi barulhento e dramático, como tudo em sua vida. A menina era linda, loira e enérgica, mas a reação de Emanuel, embora afetuosa, não tinha a mesma reverência que ele demonstrava por Arthur. Para ele, Valentina era a prova de sua responsabilidade; Arthur era a prova de sua redenção.

De volta à cobertura, a dinâmica mudou drasticamente. Sara tentava usar Valentina para atrair Emanuel, vestindo a bebê com roupas de grife e postando fotos constantes, mas Emanuel estava sempre no quarto de Eduarda.

Ele ficava fascinado ao ver Eduarda amamentar. Ela fazia questão de criar um ambiente de penumbra, com música clássica suave, transformando o ato de nutrir o filho em um ritual sagrado.

— Você é uma mãe maravilhosa, Duda — disse ele em uma tarde, observando-a.

— Eu só vivo por ele agora, Manu. E por você. — Ela ajeitou o bebê no colo e olhou para Emanuel com olhos suplicantes. — Eu fico preocupada... a Sara fala coisas tão terríveis no corredor. Ela diz que a Valentina vai ser a única dona de tudo um dia. Eu não quero que o Arthur cresça em um ambiente de disputa.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão voltar.

— Eu não vou deixar isso acontecer, Duda. Eu já estou preparando um fundo de reserva e a sucessão das empresas. O Arthur terá o lugar dele.

— Eu confio em você — disse ela, inclinando a cabeça para que ele a beijasse.

Enquanto Emanuel saía do quarto para atender uma ligação de trabalho, Sara apareceu na porta, observando a cena com amargura. Ela segurava Valentina, que chorava estridentemente.

— Você acha que venceu, não é? — sibilou Sara.

Eduarda olhou para ela, a expressão manhosa desaparecendo para dar lugar a uma frieza absoluta. Ela colocou Arthur, que dormia serenamente, no berço de madeira nobre.

— Eu não acho, Sara. Eu sei. — Eduarda caminhou até a porta e fechou-a suavemente, ficando cara a cara com a rival no corredor. — Você nunca entendeu o Emanuel. Você deu a ele o que ele podia comprar em qualquer esquina: barulho e carne. Eu dei a ele o que ele não sabia que precisava: um propósito e um espelho da sua própria alma.

— Você é um monstro — disse Sara, a voz tremendo. — Eu vou contar para ele sobre as camisinhas. Eu vou provar!

— Conte — desafiou Eduarda, um sorriso doce e letal nos lábios. — Conte para o homem que me vê como uma santa sacrificada, que me vê amamentar o filho dele com devoção. Ele vai achar que é apenas mais uma das suas mentiras vulgares e invejosas. Você já perdeu, Sara. O Arthur é o futuro. A Valentina... bem, ela vai ser uma ótima companhia para você nas festas que você tanto gosta.

Eduarda voltou para o quarto e trancou a porta. Ela sentou-se na poltrona e pegou um de seus livros de História da Arte, mas não leu. Ela apenas ficou ali, ouvindo o silêncio do seu triunfo.

Lá fora, na sala, Emanuel tentava acalmar Valentina, sentindo o peso de suas escolhas. Ele olhou para a porta trancada do quarto de Eduarda e sentiu um desejo avassalador de estar lá dentro, no mundo de ordem, doçura e silêncio que ela criara.

Ele não sabia, e talvez nunca soubesse, que a timidez de Eduarda era a arma mais afiada que ele já encontrara. E que Arthur, seu pequeno rei, fora concebido não por um erro do destino, mas pelo traço preciso de uma mulher que sabia que, para governar um império, primeiro era preciso conquistar o coração do imperador com a fragilidade de uma porcelana que, por dentro, era feita de aço.

O capítulo da vida de Emanuel como um homem livre havia terminado. Agora, ele era o guardião de dois berços, mas sua alma pertencia apenas àquele que não gritava, mas que o prendia com o poder invencível de um olhar tímido e um sorriso de santa.