Nenhum
Tinta, Manha e Pequenos Furacões
O som que ecoava pelo loft de três andares de Emanuel não era mais o silêncio focado de um artista ou os gritos agudos das discussões entre Sara e Eduarda. Agora, o som predominante era o de pés pequenos batendo freneticamente contra o piso de madeira nobre, seguido pelo barulho metálico de carrinhos de ferro colidindo com móveis de design.
— Arthur! Arthur, volta aqui agora! Mamãe ainda não terminou de passar o protetor! — Eduarda exclamava, a voz doce agora carregada de um cansaço crônico e adocicado.
Aos vinte e dois anos, Eduarda parecia ter florescido em uma maternidade absoluta. Seus cabelos estavam presos em um coque despojado, e ela vestia um cardigã leve sobre um vestido de algodão, mas o rosto sensível estava vermelho de esforço. Arthur, com seus dois anos recém-completados, era a personificação viva da rebeldia que Eduarda escondera durante toda a vida, misturada à intensidade silenciosa de Emanuel. Ele era um furacão de cabelos escuros e olhos observadores que não parava um segundo.
— Não! — gritou o menino, soltando uma gargalhada travessa enquanto dobrava o corredor em direção à ala de Sara.
— Arthur, aí não! — Eduarda tentou alcançá-lo, mas o menino era ágil.
Arthur invadiu a sala de estar de Sara, onde a loira tentava manter um ambiente de "paz e sofisticação". Valentina, com apenas um ano e meio, estava sentada em um tapete de pele sintética branca, vestindo um conjunto de grife em tons de rosa seco, com um laço de fita maior que sua própria cabeça. Ela segurava um iPad com uma capinha cravejada de cristais, assistindo a desenhos de moda infantil com uma expressão de tédio precoce que herdara da mãe.
O pequeno furacão não hesitou. Arthur passou por Valentina como um raio, derrubando o iPad da mão da irmã e pisando sem querer (ou talvez querendo) na ponta do laço de fita dela.
— Aaaaah! — Valentina soltou um grito agudo, não de dor, mas de pura indignação. Ela não chorava como um bebê comum; ela protestava como uma diva cujo camarim fora invadido.
— Emanuel! — Sara gritou do andar de cima, aparecendo no parapeito da escada com um roupão de seda e uma máscara facial dourada. — Tira esse monstrinho daqui! Ele quebrou o tablet da Valentina! Eduarda, você não tem controle sobre esse seu filho selvagem?
Eduarda finalmente alcançou o filho, pegando-o no colo enquanto ele se debatia e tentava alcançar o cabelo de Valentina.
— Me desculpa, Sara... — disse Eduarda, ofegante, tentando ajeitar Arthur em seu quadril. — Ele acordou com muita energia hoje.
— Energia? Isso é falta de limites! — Sara desceu as escadas, os saltos batendo forte. Ela pegou Valentina no colo, que imediatamente fez um biquinho de desprezo para o irmão. — A minha filha é uma lady. Ela sabe se comportar. Esse menino parece que foi criado em um estúdio de tatuagem de subúrbio.
— Não fale assim dele! — Eduarda rebateu, a voz trêmula, mas firme. — Ele é uma criança, Sara. Crianças correm.
Emanuel apareceu na porta de entrada, carregando uma maleta de couro. Ele acabara de chegar de uma viagem de negócios para supervisionar seu novo estúdio em Berlim. Ao ver a cena — Eduarda descabelada, Arthur gritando "Papai!", Sara furiosa com a máscara dourada e Valentina com seu ar de superioridade —, ele apenas fechou os olhos e respirou fundo.
— Papai! Papai! — Arthur se jogou dos braços de Eduarda, correndo em direção às pernas do pai.
Emanuel se abaixou e pegou o filho, sentindo o peso sólido e a energia vibrante do menino. Arthur era, de fato, a sua cara. O mesmo queixo decidido, o olhar intenso que parecia analisar tudo ao redor. Emanuel sentia um fascínio quase hipnótico pelo filho. Arthur era o único ser no mundo capaz de quebrar sua couraça de gelo com um simples abraço babado.
— E aí, campeão? — Emanuel deu um beijo no topo da cabeça do menino. — Botando o loft abaixo de novo?
— Emanuel, olha o que ele fez com o iPad da Valentina! — Sara se aproximou, estendendo o aparelho com a tela trincada. — Eu exijo um novo. E exijo que esse menino fique longe da ala dela. A Valentina está traumatizada.
Emanuel olhou para Valentina, que estava impecavelmente limpa e cheirava a perfume francês para bebês. Ela olhou para o pai e estendeu a mãozinha, esperando ser carregada, mas sem a pressa ou o desespero de Arthur. Ela era, de fato, uma mini versão de Sara: calculista e esnobe, mesmo com tão pouco tempo de vida.
— Eu compro outro, Sara. Calma — disse Emanuel, pegando Valentina no outro braço. Agora ele tinha os dois: o furacão e a diva. — Mas Arthur é pequeno, ele ainda está aprendendo.
— Aprendendo a destruir tudo, você quer dizer — resmungou Sara, cruzando os braços. — Ele é um terrorista.
Arthur, sentindo a tensão, esticou a mão e puxou o colar de pérolas que Valentina usava.
— Meu! — gritou o menino.
— Não! — Valentina respondeu, empurrando a mão do irmão com uma delicadeza gélida. — Sai!
Emanuel teve que separá-los rapidamente antes que uma guerra de unhas e dentes começasse no seu colo. Ele entregou Valentina para Sara e manteve Arthur consigo.
— Eu vou levar o Arthur para o estúdio hoje — anunciou Emanuel. — Ele precisa gastar essa energia e eu tenho alguns desenhos para finalizar.
— O estúdio? — Eduarda se aproximou, preocupada. — Manu, tem muita tinta lá, agulhas... ele é muito curioso.
— Ele ama aquele lugar, Duda — disse Emanuel, com um meio sorriso. — E é o único lugar onde ele realmente presta atenção em algo que não seja destruir móveis.
No estúdio principal de Emanuel, o ambiente era de puro profissionalismo. Paredes escuras, luzes focais e o cheiro característico de antisséptico e tinta. Arthur estava sentado em uma cadeira alta, observando o pai preparar as máquinas. O menino estava em transe. Seus olhos grandes seguiam cada movimento das mãos tatuadas de Emanuel.
— Tatuagem, papai? — perguntou o menino, apontando para o braço do pai.
— É, Arthur. Tatuagem. Mas você só vai chegar perto disso daqui a muitos anos — disse Emanuel, entregando ao filho um papel e algumas canetas hidrográficas. — Desenha aqui para o papai.
Por quase meia hora, o milagre aconteceu. Arthur ficou em silêncio, rabiscando freneticamente no papel, tentando imitar os traços que via o pai fazer. Emanuel o observava de soslaio, sentindo um orgulho que raramente permitia transparecer. Arthur tinha uma coordenação motora impressionante para a idade.
A paz, no entanto, durou pouco. Um de seus tatuadores assistentes entrou na sala com um cliente, e o barulho da porta abrindo foi o gatilho. Arthur pulou da cadeira e começou a correr pelo estúdio, gritando "Vruuum! Vruuum!", transformando as macas de couro em pistas de corrida.
— Arthur, parado! — Emanuel tentou pegá-lo, mas o menino deslizou por baixo de uma mesa.
— Pega eu! Pega eu!
Foi um caos de dez minutos até que Emanuel conseguisse capturá-lo, agora com as mãos sujas de tinta preta que ele conseguira tocar em um pote mal fechado. Quando voltaram para casa, Arthur estava exausto, mas feliz, com manchas de tinta nos braços que faziam parecer que ele tinha suas próprias pequenas tatuagens.
Ao chegarem ao loft, o ambiente estava carregado de um novo tipo de perfume. Sara estava no meio da sala com um fotógrafo, organizando um ensaio para uma revista de fofocas sobre "Mães de Elite". Valentina estava sentada em um mini trono, usando um vestido de tule que parecia uma nuvem rosa.
— Não acredito! — Sara gritou ao ver Arthur entrar sujo de tinta. — Emanuel, eu estou no meio de uma sessão de fotos! Tire esse menino sujo daqui! Ele vai manchar o cenário!
Arthur, vendo todo aquele tule rosa e a irmã parecendo uma boneca, soltou-se da mão de Emanuel e correu em direção a Valentina. Antes que alguém pudesse reagir, ele abraçou a irmã, deixando marcas de dedos pretos de tinta por todo o vestido de grife dela.
Valentina ficou paralisada por dois segundos. Ela olhou para o vestido, olhou para as mãos sujas de Arthur e então olhou para a mãe. Ela não chorou. Ela apenas soltou um suspiro profundo e deu um tapa certeiro na mão de Arthur, antes de descer do trono com a dignidade de uma rainha deposta.
— Minha roupa! — Sara quase teve um colapso. — Emanuel, olha o que ele fez! Esse vestido custou cinco mil dólares! É um modelo exclusivo!
— É só tinta, Sara. Sai com água — disse Emanuel, tentando segurar o riso diante da cara de indignação de Valentina.
— Não é só tinta! É a imagem da minha filha! Agora o ensaio está arruinado!
Eduarda apareceu na sala, correndo ao ver a confusão. Ela pegou Arthur, que agora começava a chorar, não de arrependimento, mas de cansaço.
— Vem, meu amor... vem com a mamãe — sussurrou Eduarda, levando-o para o quarto.
Cerca de vinte minutos depois, Emanuel subiu as escadas e entrou no quarto de Eduarda. O cenário era o oposto do caos da sala de estar. A luz estava baixa, uma música suave de ninar tocava ao fundo e o cheiro de lavanda preenchia o ar.
Eduarda estava deitada na cama de casal, com Arthur aninhado em seu peito. O menino, que momentos antes era um furacão de destruição e tinta, agora estava em total silêncio, mamando com os olhos fechados e uma mãozinha agarrada à blusa da mãe. A paz que emanava daquela cena era quase tangível.
Emanuel sentou-se na beira da cama, observando-os.
— Ele finalmente parou — sussurrou Emanuel.
— Ele só precisava de você e de mim, Manu — disse Eduarda, com a voz carregada de uma doçura manhosa. — Ele gosta de ser o centro do seu mundo, igual ao pai.
Emanuel esticou a mão e acariciou os cabelos do filho, e depois o rosto de Eduarda.
— Ele é intenso demais, Duda. Às vezes eu acho que não vou dar conta.
— Você dá conta de tudo, Manu — ela sorriu, aproximando-se para que ele pudesse beijar sua testa. — Mas ele é o seu reflexo. A Sara pode transformar a Valentina em uma boneca de vitrine, mas o Arthur... o Arthur tem a sua alma. Ele é livre.
Nesse momento, o choro de Valentina ecoou do outro lado do loft — provavelmente porque o banho não estava na temperatura exata que ela desejava ou porque Sara estava tentando tirar as manchas de tinta com muita força.
— A mini diva acordou — comentou Emanuel, suspirando.
— Ela é difícil de um jeito diferente — disse Eduarda. — Ela não corre, ela exige. O Arthur corre porque quer alcançar o mundo. A Valentina espera que o mundo venha até ela.
Emanuel ficou ali por um longo tempo, entre o silêncio sagrado do quarto de Eduarda e os ecos das exigências de Sara no corredor. Ele era um homem dividido entre duas realidades: a paz manhosa e profunda que Eduarda lhe oferecia, e o espetáculo vibrante e exaustivo que Sara demandava.
Arthur soltou o peito da mãe, suspirando profundamente no sono. Ele parecia um anjo, sem qualquer traço do pequeno demônio que virara o iPad da irmã e manchara um vestido de cinco mil dólares.
— Ele vai querer ir ao estúdio amanhã de novo — previu Emanuel.
— E você vai levá-lo — afirmou Eduarda. — Porque você adora ver ele tentando ser como você.
Emanuel não negou. Ele se levantou, deu um beijo final em cada um e saiu do quarto. No corredor, encontrou Sara, que já havia trocado de roupa e estava com Valentina no colo, ambas com expressões idênticas de descontentamento.
— Eu já liguei para a loja. O vestido novo chega amanhã — disse Sara, ríspida. — E eu quero que você pague um spa para mim. Meus nervos estão em frangalhos por causa daquela criança.
— Tudo bem, Sara. O que você quiser — disse Emanuel, pegando Valentina por um momento. A menina encostou a cabeça no ombro dele, soltando um suspiro de "finalmente um pouco de ordem".
Emanuel caminhou pelo loft, sentindo o peso e a alegria de sua vida dupla. De um lado, o furacão Arthur, que o desafiava e o fascinava com sua energia bruta e seu amor desesperado. Do outro, a princesa Valentina, que o lembrava de que o luxo e a imagem tinham seu preço e sua própria forma de afeto.
Ele era o mestre de um império de tinta, mas em casa, ele era apenas o mediador de um reino em guerra, onde o trono era disputado por um par de olhos intensos e manhosos e por um par de olhos azuis e esnobes. E, no fundo, ele sabia que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.