Nenhum
Lama, Leite e Luxo na Fazenda
O sol da manhã ainda não havia aquecido completamente o gramado extenso da Fazenda Recanto da Tinta, a propriedade que Emanuel mantinha no interior como um refúgio do caos urbano. O ar era puro, com cheiro de mato molhado e terra fresca, um contraste gritante com o aroma de verniz e antisséptico dos seus estúdios. Emanuel respirou fundo, tentando encontrar o equilíbrio que sabia que perderia nos próximos dez minutos.
— Manu, olha como o ar aqui é doce! — Eduarda comentou, descendo da caminhonete com movimentos leves.
Aos vinte e dois anos, ela parecia ter se tornado ainda mais etérea. Naquela manhã, Eduarda vestia um vestido de linho branco, solto e romântico, que balançava com a brisa. Seus cabelos longos estavam presos em uma trança lateral frouxa, adornada com um pequeno laço de fita. Ela parecia uma camponesa de um quadro clássico, exalando uma beleza suave e discreta que fazia Emanuel querer protegê-la de qualquer aspereza do mundo.
— É lindo, Duda. Mas tente não se afastar muito da casa, o terreno é irregular — recomendou Emanuel, já sentindo um puxão vigoroso em sua bermuda de sarja.
— Papai! Vaca! Eu quero a vaca! — Arthur, com seus dois anos de pura energia, já estava tentando escalar a cerca de madeira que separava o jardim do pasto principal.
O menino vestia um macacão jeans e galochas amarelas, mas seu rosto já tinha uma mancha de grama. Ele era o oposto da irmã, Valentina, que ainda estava dentro do carro, recusando-se a pisar no "chão sujo".
— Emanuel, você não vai me obrigar a descer aqui, vai? — A voz de Sara ecoou, carregada de desdém. — Tem bichos. E o cheiro... meu Deus, é cheiro de esterco!
Sara finalmente saiu do veículo, parecendo completamente fora de lugar. Ela usava um conjunto de malha de grife, justo e caríssimo, óculos escuros gigantes e sandálias de salto anabela que afundavam na grama a cada passo. Valentina estava em seu colo, vestida como se fosse para um desfile de moda em Paris, olhando para as galinhas com um desprezo que só uma criança criada em coberturas de luxo poderia ter.
— É uma fazenda, Sara. O que você esperava? Cheiro de Chanel número cinco? — Emanuel ironizou, pegando Arthur no colo antes que o menino conseguisse pular para o meio dos bezerros.
— Eu esperava um resort, não um cenário de filme de terror rural — rebateu Sara, tentando equilibrar-se enquanto uma de suas sandálias ficava presa em um tufo de trevo. — Eduarda, como você consegue ficar aí parada sorrindo? Esse lugar é um pesadelo higiênico.
— Eu acho relaxante, Sara — disse Eduarda, com sua voz mansa, aproximando-se de Emanuel e encostando a cabeça em seu ombro. — O Arthur precisa de espaço. Ele se sente preso no triplex.
— Ele se sente preso porque é um selvagem — murmurou Sara, ajeitando Valentina, que agora começava a reclamar do sol.
Emanuel decidiu que a melhor forma de evitar uma briga logo cedo era colocar todos em movimento. Ele levou o grupo em direção ao curral, onde as vacas leiteiras estavam sendo recolhidas para a ordenha matinal.
— Olha, Arthur! Aquelas são as vacas que dão o leite que você toma — explicou Emanuel, colocando o filho no chão, mas mantendo a mão firme em seu ombro.
Arthur estava em transe. Seus olhos brilhavam. Para ele, aqueles animais gigantes eram a coisa mais fascinante que já vira.
— Grande! Muito grande! — gritou o menino, apontando para uma vaca holandesa que mugiu alto.
O som fez Valentina pular no colo de Sara e começar a chorar baixinho.
— Viu só? Você assustou a minha princesa! — Sara ralhou com Arthur. — Emanuel, faça alguma coisa! Esse bicho é perigoso.
— É apenas uma vaca, Sara. Ela está atrás da cerca — Emanuel suspirou.
Eduarda aproximou-se da cerca, estendendo a mão para acariciar o focinho úmido de um bezerro menor que estava por perto. Ela agia com uma naturalidade que encantava Emanuel. Havia algo de maternal e instintivo nela que parecia se conectar com a natureza.
— Ele é tão macio, Manu... — disse ela, olhando para o marido com aqueles olhos expressivos e manhosos. — Parece o Arthur quando era recém-nascido.
— Não compare meu filho com um bezerro, Eduarda! — Sara interveio, aproximando-se com dificuldade, os saltos afundando cada vez mais. — Emanuel, eu quero ir para a área da piscina. Já vi as vacas, já cumpri minha cota de vida simples.
Mas Arthur tinha outros planos. Em um milésimo de segundo em que Emanuel afrouxou a mão para responder a Sara, o menino viu uma das vacas se afastar em direção ao pasto aberto e decidiu que precisava segui-la.
— Vaca! Volta aqui! — Arthur gritou, passando por baixo da trava da cerca com a agilidade de um pequeno felino.
— Arthur! Não! — Emanuel gritou, o coração disparando.
O menino começou a correr pelo pasto, suas galochas amarelas batendo contra o capim alto. Emanuel não pensou duas vezes; ele saltou a cerca, suas botas de couro pesado ganhando tração na terra.
— Eduarda, fique aí! — ordenou Emanuel enquanto iniciava a perseguição.
Arthur era rápido. Ele corria rindo, achando que tudo era uma grande brincadeira de pega-pega, enquanto a vaca, confusa com o pequeno ser humano gritando atrás dela, começou a trotar mais rápido, aproximando-se de uma área onde o terreno ficava mais úmido e perigoso.
— Arthur, para agora! O papai está mandando! — Emanuel corria, desviando de pedras e poças.
Lá atrás, a confusão era total. Eduarda estava com as mãos no rosto, em prantos, gritando o nome do filho. Sara, movida por uma mistura de curiosidade e irritação, resolveu seguir Emanuel pela lateral da cerca, tentando ver para onde eles estavam indo.
— Emanuel! Pegue ele! Se esse menino se machucar, eu não vou ter paz com os gritos da Eduarda! — Sara gritava, tentando correr com suas anabelas na beira de um declive.
O destino, porém, tem um senso de humor peculiar.
Arthur, vendo que o pai estava quase o alcançando, deu uma guinada brusca para a direita, indo direto para a área onde ficavam os porcos. O chiqueiro da fazenda era cercado por uma mureta baixa e estava, devido à chuva da noite anterior, transformado em um festival de lama e restos de lavagem.
— Arthur, não! Aí não! — Emanuel se jogou, conseguindo agarrar o menino pelo macacão jeans exatamente um segundo antes de ele pular para dentro da lama.
Emanuel caiu de joelhos, segurando o filho contra o peito, ambos ofegantes. Arthur estava rindo, achando o máximo estar coberto de poeira e mato.
— Peguei você, seu pestinha — Emanuel disse, a voz entre o alívio e a exaustão.
No entanto, o ímpeto da carreira de Emanuel e a parada brusca criaram um efeito dominó. Sara, que vinha logo atrás, tentando manter o equilíbrio enquanto gritava ordens, não conseguiu frear a tempo. O solo na beira do chiqueiro estava extremamente liso.
— Cuidado, Sara! — Emanuel tentou avisar, mas já era tarde.
Sara deslizou. Seus braços giraram no ar como moinhos de vento enquanto ela tentava recuperar o centro de gravidade. Valentina, que já havia sido colocada no chão por Sara segundos antes para que a mãe pudesse segurar a saia, assistiu a tudo com os olhos arregalados.
Com um grito agudo que provavelmente foi ouvido na cidade vizinha, Sara perdeu a batalha contra a física. Ela tombou para trás, caindo sentada exatamente no meio da lama mais densa e malcheirosa do chiqueiro.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo grunhido satisfeito de um porco grande que se aproximou para investigar a nova visitante.
Sara estava estática. Sua roupa de grife, agora de uma cor marrom indefinida, estava arruinada. O rosto, que minutos antes exibia uma máscara de sofisticação, estava salpicado de lama.
— Meu... Deus... — sussurrou Eduarda, que havia chegado à beira da mureta, olhando a cena com uma mistura de choque e uma vontade quase incontrolável de rir.
— Emanuel... — A voz de Sara saiu baixa, trêmula de fúria. — Emanuel, tire-me daqui agora!
Emanuel, ainda segurando Arthur, tentou manter a compostura, mas a visão de Sara, a rainha do luxo, sentada entre os porcos, era demais até para o seu autocontrole de ferro. Ele soltou uma risada curta, que logo se transformou em uma gargalhada enquanto Arthur batia palmas.
— Lama! A titia tá na lama! — gritou o menino.
— Não tem graça! — Sara berrou, tentando se levantar e escorregando novamente, mergulhando uma das mãos na lavagem dos animais. — Eu vou matar você, Emanuel! Eu vou destruir esta fazenda! Valentina, não olhe!
Valentina, porém, estava olhando. A menina se aproximou da mureta, olhou para a mãe coberta de sujeira e soltou um suspiro de profundo desgosto, virando as costas e caminhando em direção a Eduarda.
— Suja — disse a pequena Valentina, pedindo colo para a "tia" Eduarda para não ter que lidar com a mãe naquele estado.
Eduarda pegou a menina, tentando esconder o sorriso atrás do ombro de Valentina.
— Vamos, Sara, me dê a mão — disse Emanuel, finalmente recompondo-se e estendendo o braço livre para ajudar a namorada.
— Não encoste em mim com essa mão que tocou no Arthur! — Sara cuspiu as palavras, conseguindo finalmente se apoiar na mureta e sair do cercado, parecendo uma criatura do pântano vestida pela Prada. — Eu quero ir embora. Agora! Eu quero um banho de desinfetante e dez sessões de terapia!
— Você precisa de um banho de mangueira primeiro, ou não entra no meu carro — Emanuel disse, tentando ser prático, embora o brilho de diversão ainda estivesse em seus olhos.
O caminho de volta para a casa principal foi um espetáculo à parte. Sara caminhava na frente, deixando um rastro de lama e indignação, enquanto Emanuel vinha logo atrás com Arthur nos ombros. Eduarda seguia por último, carregando Valentina e sentindo uma paz estranha. Ver Sara naquela situação, tão despojada de sua arrogância usual, trouxera uma leveza inesperada para o dia.
— Você está bem, Duda? — Emanuel perguntou, diminuindo o passo para caminhar ao lado da esposa.
— Estou maravilhosa, Manu — ela respondeu, com um brilho malicioso que raramente mostrava. — A fazenda realmente faz bem para a saúde.
— Papai, amanhã de novo? — Arthur perguntou, puxando as orelhas de Emanuel.
— Amanhã vamos ficar na piscina, Arthur. Acho que a cota de natureza da Sara estourou por esta década.
Ao chegarem na varanda, Emanuel ligou a mangueira de jardim. Sara, sem outra opção, teve que se sujeitar ao jato de água fria sob o olhar atento dos funcionários da fazenda e o riso abafado de Eduarda.
— Isso é humilhante! — Sara gritava enquanto a água tirava os pedaços de lama de seu conjunto de malha. — Eu sou uma administradora de empresas! Eu tenho cinco mil seguidores!
— E agora você tem uma história ótima para contar no próximo jantar — Emanuel brincou, fechando a mangueira. — Agora vá se trocar. Use algumas roupas da Eduarda que estão no armário de hóspedes.
— Eu? Usar aquelas roupas de camponesa romântica? — Sara olhou para Eduarda com horror.
— É isso ou ficar nua, Sara — Eduarda disse, com uma doçura que cortava como navalha. — Eu tenho um vestido de algodão azul que vai ficar... interessante em você.
Mais tarde, após o caos ter se acalmado, a fazenda finalmente encontrou sua paz. Sara estava emburrada no sofá, vestindo um dos vestidos simples de Eduarda que ficava curto demais em suas curvas siliconadas, o que a deixava ainda mais irritada. Valentina dormia no outro sofá, exausta de tanta "sujeira".
Emanuel e Eduarda estavam na varanda, observando o pôr do sol. Arthur estava sentado aos pés deles, brincando calmamente com um trator de plástico.
— Obrigado por vir, Duda — disse Emanuel, segurando a mão dela. — Eu sei que o clima entre vocês é difícil, mas esses momentos com o Arthur... eles valem a pena.
— Eu faria qualquer coisa por você e pelo nosso filho, Manu — ela respondeu, encostando a cabeça em seu ombro. — Até aguentar os gritos da Sara. Especialmente se ela terminar o dia em um chiqueiro.
Emanuel riu, puxando-a para um beijo demorado. Pela primeira vez em muito tempo, ele não sentia a tensão de ser o mediador. Ali, no silêncio do campo, com o filho seguro e a esposa que ele amava ao seu lado, o mundo parecia finalmente estar em ordem.
— Você é muito manhosa, sabia? — Emanuel sussurrou contra o cabelo dela.
— E você adora isso — ela rebateu, fechando os olhos e aproveitando o calor do marido.
A noite caiu sobre a Fazenda Recanto da Tinta, trazendo consigo o som dos grilos e a promessa de que, apesar das brigas, das lamas e das rivalidades, aquela família disfuncional e intensa ainda tinha muitos capítulos para escrever. E Emanuel, o homem que marcava peles para sempre, sabia que aquela memória — a de Sara no chiqueiro e o riso de Eduarda — era uma tatuagem que ele guardaria na alma com muito gosto.