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O Refúgio de Cristal e a Moeda de Troca

O vento que soprava da costa trazia um aroma salino e fresco, uma promessa de liberdade que Eduarda raramente sentia nas ruas agitadas onde os estúdios de Emanuel prosperavam. Diante dela, erguia-se um chalé de arquitetura moderna e rústica ao mesmo tempo, uma joia de madeira nobre e vidro encravada em um penhasco suave, com vista direta para o azul infinito do Atlântico.

— É seu, Duda — disse Emanuel, observando a reação da esposa. Ele estava parado atrás dela, as mãos grandes e tatuadas repousando nos ombros delicados da mulher. — Para quando a faculdade de História da Arte ficar pesada demais, ou quando o Arthur precisar correr sem paredes por perto. Um refúgio só seu.

Eduarda virou-se lentamente, os olhos grandes e expressivos inundados de lágrimas que brilhavam sob o sol da tarde. Ela se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito, sentindo o cheiro de tinta e perfume caro que era a marca registrada de Emanuel.

— Manu... eu não sei o que dizer. É o lugar mais lindo que eu já vi. Você fez tudo isso por mim?

— Fiz por nós — corrigiu ele, beijando o topo da cabeça dela. — Você sempre diz que precisa de paz. Aqui, o único barulho que vai te incomodar é o das ondas.

Eduarda apertou o abraço, sentindo uma onda de triunfo silencioso. Ela sabia que, legalmente, ela era a esposa, a dona do sobrenome e agora a dona daquele paraíso. A insegurança que a perseguia desde que Sara engravidara parecia dissipar-se diante daquela prova concreta de favoritismo. Emanuel não daria um chalé na costa para alguém que não amasse profundamente.

— O Arthur vai adorar brincar nessa varanda — sussurrou ela, manhosamente, buscando os lábios dele. — E eu vou poder pintar meus quadros olhando para o mar. Obrigada, meu amor.

No entanto, o segredo do presente não durou vinte e quatro horas. No mundo de Emanuel, onde extratos bancários de alta soma e escrituras de imóveis passavam pelas mãos de secretários e administradores, as informações circulavam como eletricidade. E Sara, com seu diploma de Administração e sua rede de contatos alimentada por fofocas e interesses, tinha ouvidos em todos os lugares.

Na manhã seguinte, no triplex da cidade, o clima de paz foi estraçalhado pelo som de saltos altos marchando em direção ao escritório de Emanuel.

— Onde você estava com a cabeça, Emanuel?! — Sara entrou sem bater, jogando uma pasta de couro sobre a mesa de carvalho.

Emanuel levantou os olhos do projeto de uma nova convenção de tatuagem em Londres, a expressão endurecendo instantaneamente.

— Bom dia para você também, Sara. E eu estava com a cabeça no meu patrimônio, que eu gerencio como bem entendo.

— Patrimônio? Você deu um chalé na costa para aquela mosca morta! — Sara gritou, as bochechas coradas sob a maquiagem impecável. — Um refúgio particular? Com vista para o mar? E o que eu ganho? Um "bom dia" e uma pensão para a Valentina?

— Você mora em uma cobertura de luxo que eu pago, Sara. Você dirige um carro que custa o preço de um apartamento. Não venha falar de falta de recursos.

— Eu não estou falando de recursos, estou falando de status! — Ela se inclinou sobre a mesa, o decote do vestido justo desafiando a gravidade. — Se ela tem um refúgio para "pintar quadros", eu quero algo que mostre quem eu sou nesta cidade. Eu não vou ser a "outra" que fica trancada em casa enquanto a santinha ganha propriedades de veraneio.

Emanuel suspirou, massageando as têmporas. Ele conhecia aquele brilho nos olhos de Sara. Não era apenas ganância; era uma sede insaciável de competição.

— O que você quer, Sara? Diga logo o preço da sua calma.

Sara sorriu, um movimento predatório e vitorioso. Ela deu a volta na mesa e sentou-se no braço da poltrona de Emanuel, passando os dedos longos pelo pescoço dele, ignorando a rigidez do homem.

— Eu não quero uma casa velha na praia. Eu quero uma recompensa à altura do meu sacrifício de carregar sua filha e aguentar suas ausências. Eu quero a minha própria linha de cosméticos e joias, com o selo do seu grupo empresarial. E quero um evento de lançamento no Copacabana Palace.

Emanuel soltou uma risada seca, afastando a mão dela.

— Uma linha de cosméticos? Sara, você não trabalha há anos. Você mal administra a agenda da babá da Valentina.

— Eu sou formada em Administração, esqueceu? E eu entendo de beleza melhor do que qualquer uma daquelas suas tatuadoras alternativas. — Ela se levantou, cruzando os braços sobre os seios siliconados. — Ou você financia o meu império, ou eu garanto que a vida da Eduarda naquele chalé seja um inferno de processos judiciais e escândalos. Eu sei onde estão os furos das camisinhas, Emanuel. Eu sei como ela te pegou.

O olhar de Emanuel tornou-se perigosamente frio. A menção ao ato de rebeldia de Eduarda ainda era uma ferida aberta em seu ego, embora ele tivesse escolhido perdoar.

— Você está me chantageando, Sara?

— Eu estou negociando, querido. É o que pessoas de negócios fazem. Você deu o doce para a criança, agora dê o diamante para a mulher.

Emanuel ficou em silêncio por longos minutos. Ele odiava ser manipulado, mas odiava ainda mais o caos público. Ter Sara ocupada com uma empresa poderia, ironicamente, dar a paz que Eduarda tanto pedia.

— Tudo bem — disse ele, a voz rouca de irritação. — Vou mandar meu jurídico preparar um plano de viabilidade. Mas se você falir em seis meses, eu fecho tudo e você volta a viver apenas da mesada da Valentina. Entendido?

— Eu não vou falir — Sara deu uma piscadela, vitoriosa. — Eu vou ser a maior empresária que este círculo social já viu.

A notícia da "recompensa" de Sara chegou aos ouvidos de Eduarda durante o jantar. Ela estava servindo a sopa de Arthur quando Emanuel, tentando ser transparente para evitar futuras explosões, mencionou o novo empreendimento de Sara.

Eduarda sentiu o estômago apertar. Ela colocou a concha de volta na panela com cuidado, as mãos tremendo levemente.

— Então... ela ganhou uma empresa porque eu ganhei um chalé? — perguntou ela, com a voz pequena e mágoa evidente.

— Não é bem assim, Duda. É uma forma de manter as coisas equilibradas. A Sara precisa de ocupação, e isso vai mantê-la longe de você por um tempo.

— Mas parece que tudo o que você me dá, você tem que dar em dobro para ela — Eduarda sentou-se à mesa, os olhos marejados. — O meu chalé foi um gesto de amor. O que você deu para ela foi um pagamento. Você não vê a diferença, Manu?

— Eu vejo, meu amor. Por isso o seu presente é um lar, e o dela é trabalho.

— Ela vai usar isso para me humilhar — sussurrou Eduarda. — Ela vai dizer que é uma mulher de negócios e que eu sou apenas uma dona de casa que ganha esmolas.

— Você é minha esposa, Eduarda. Ninguém pode tirar isso de você.

Eduarda não respondeu. Ela apenas olhou para Arthur, que comia alegremente, alheio às tensões dos adultos. Por dentro, a timidez de Eduarda estava dando lugar a um ressentimento silencioso. Ela percebeu que, no mundo de Emanuel, a paz tinha um preço alto, e que Sara sempre encontraria uma forma de transformar o sagrado em algo profano e comercial.

Semanas depois, o contraste entre as duas vidas tornou-se absoluto.

Eduarda passou a frequentar o chalé nos fins de semana. Ela levava seus cavaletes, suas tintas e Arthur. O menino adorava a areia, e Eduarda encontrava na pintura uma forma de expressar a melancolia que não ousava dizer em voz alta. Ela pintava o mar em tons de cinza e azul profundo, capturando a solidão de ser a "esposa oficial" em um relacionamento que nunca estava realmente completo.

Enquanto isso, Sara transformou a cobertura em um quartel-general de marketing. Caixas de amostras de batons, frascos de perfumes com embalagens douradas e vulgares, e uma equipe de assistentes frenéticos ocupavam o espaço. Ela estava em seu elemento.

— Mais brilho! — Sara gritava com o designer gráfico. — Eu quero que a marca "Sara Diamond" seja vista do espaço! E mandem um convite especial para a senhora Eduarda. Façam questão de que ela receba no chalé dela. Quero que ela veja o que uma mulher de verdade constrói enquanto ela fica lá pintando marizinhos.

O convite chegou em uma tarde de quinta-feira. Era um envelope de veludo preto com letras em ouro. Eduarda o abriu enquanto sentia a brisa do mar bater em seu rosto. "Lançamento da Coleção Império - Sara Diamond".

— Ela nunca vai parar, não é? — perguntou Eduarda para as ondas.

Naquela noite, Emanuel chegou ao chalé para passar o fim de semana. Ele parecia mais exausto do que o normal. O estresse de financiar o ego de Sara e sustentar a sensibilidade de Eduarda estava cobrando seu preço em olheiras profundas.

— Você vai à festa dela, não vai? — perguntou Eduarda, enquanto caminhavam pela areia sob o luar.

— Eu tenho que ir, Duda. É o meu capital que está lá. Mas eu queria que você fosse comigo. Como minha esposa.

Eduarda parou de caminhar, olhando para o reflexo da lua na água.

— Para ser o troféu que ela vai tentar quebrar? Para ouvir as piadas dela sobre como eu sou "caseira" e "simples"? Não, Emanuel. Eu vou ficar aqui. No meu refúgio.

— Duda, por favor. Não torne as coisas mais difíceis.

— Eu não estou tornando nada difícil, Manu. Eu só estou escolhendo o meu lado. Você escolheu dar a ela o palco. Então aproveite o show. Eu fico com o silêncio.

Emanuel a puxou para um abraço, mas sentiu que, pela primeira vez, havia uma barreira invisível entre eles. Eduarda não era mais apenas a menina manhosa que furava camisinhas por desespero; ela estava se tornando uma mulher que entendia o poder do seu próprio silêncio.

A noite do lançamento no Copacabana Palace foi um delírio de ostentação. Sara estava deslumbrante em um vestido de paetês dourados que abraçava cada curva de seu corpo siliconado. Ela circulava entre empresários e celebridades, segurando uma taça de champanhe como se fosse um cetro. Valentina, vestida como uma boneca de luxo, era exibida pelas babás como parte do cenário.

Emanuel estava ao lado de Sara, impecável em seu terno sob medida, mas seus olhos buscavam a saída. Ele sorria para as fotos, apertava mãos, mas sua mente estava no chalé, onde Eduarda provavelmente estava lendo para Arthur ou pintando sob a luz de velas.

— Veja só, Emanuel! — Sara sussurrou em seu ouvido, enquanto os flashes disparavam. — Todos estão falando de nós. Este é o poder. Aquele chalé de madeira nunca vai te dar essa adrenalina.

— O poder cansa, Sara — respondeu ele, a voz fria. — E a adrenalina passa. No final, o que sobra é o que é real.

— E isso aqui é real! — Ela apontou para o salão lotado. — O dinheiro é real. O sucesso é real. A sua esposa pode ter o seu nome, mas eu tenho a sua imagem.

Enquanto a festa atingia seu ápice, no chalé, Eduarda finalizava um quadro. Não era uma paisagem marinha. Era um retrato de Emanuel, mas seus olhos na pintura estavam vendados por faixas de ouro e seda. Ela assinou o quadro com um traço firme.

Eduarda pegou o telefone e discou para Emanuel. Ele atendeu no meio do barulho da festa, afastando-se para um canto mais reservado.

— Manu? — a voz dela era um sussurro doce, mas carregado de uma nova força.

— Duda? Aconteceu alguma coisa? O Arthur está bem?

— Estamos ótimos. Só liguei para dizer que o quadro está pronto. Ele se chama "O Preço do Equilíbrio". Quando você voltar, eu quero que você o veja.

— Eu volto amanhã cedo, prometo.

— Não tenha pressa, Manu. Aproveite o brilho da Sara. Eu descobri que o mar é muito mais profundo do que eu imaginava. E eu estou aprendendo a nadar.

Emanuel desligou o telefone, sentindo um calafrio que não vinha do ar-condicionado do hotel. Ele olhou para Sara, que agora subia ao palco para fazer seu discurso de agradecimento, e depois para a porta de saída.

Ele percebeu, naquele momento, que ao tentar dar tudo para as duas para manter a paz, ele estava perdendo o controle sobre ambas. Sara estava se tornando um monstro de ambição que ele mesmo criara, e Eduarda estava se afastando para um lugar onde ele talvez não pudesse mais alcançá-la apenas com presentes e carinhos manhosos.

O chalé na costa e a linha de cosméticos eram mais do que presentes; eram as novas fronteiras de uma guerra que estava longe de terminar. E Emanuel, o homem que gostava de ter o controle, percebeu que era apenas o financiador de uma batalha onde o prêmio final era sua própria sanidade.

A noite terminou com Sara sendo carregada nos braços da imprensa social e Eduarda dormindo ao som das ondas, sonhando com um menino que teria a cara do pai, mas que nunca teria os olhos vendados pelo ouro. E Emanuel, no meio do caminho entre o luxo da cidade e a paz da costa, sentiu que sua vida era agora uma tatuagem mal feita: permanente, dolorosa e impossível de apagar.