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O Equilíbrio do Caos e do Mel

A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão pequena quanto naquela tarde de terça-feira. O ar estava saturado com o perfume doce e enjoativo de Sara, que andava de um lado para o outro da sala em seus saltos agulha, fazendo um barulho rítmico e irritante contra o piso de mármore italiano. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, observando a cena com uma calma glacial que escondia a tempestade interna. Ao seu lado, encolhida como um passarinho ferido, Eduarda segurava uma xícara de chá com as mãos ainda trêmulas.

A porta do elevador privativo se abriu com um sinal sonoro suave, e o que entrou não foi apenas um casal, mas uma presença que exigia respeito. Os pais de Eduarda, apesar da simplicidade, carregavam uma aura de dignidade que fez até Sara parar seu desfile frenético.

— Onde ela está? — A voz de Helena, a mãe de Eduarda, era firme.

Helena e Roberto eram jovens, mal haviam passado dos quarenta anos. Tiveram Eduarda cedo e, por isso, a conexão entre eles era quase visceral. Helena tinha os mesmos olhos grandes e expressivos da filha, enquanto Roberto possuía uma postura protetora que Emanuel reconhecia em si mesmo.

— Mãe! Pai! — Eduarda levantou-se num salto, deixando a xícara sobre a mesa lateral, e correu para os braços de Roberto, que a envolveu em um abraço esmagador.

— O que é isso agora? — Sara explodiu, jogando os braços para o alto, o silicone saltando sob o decote do vestido justo. — Agora a minha casa virou albergue para a família inteira da "boneca de porcelana"? Emanuel, você ficou louco de vez?

Emanuel levantou-se lentamente, sua altura e as tatuagens que subiam pelo pescoço impondo um silêncio imediato no ambiente.

— Sara, abaixa o tom. Eles são convidados.

— Convidados? — Sara riu, uma risada estridente e vulgar. — Eles são invasores! Essa garota entra aqui, rouba a atenção do meu homem, e agora traz os pais para chancelar a palhaçada?

Roberto afastou a filha suavemente e deu um passo à frente, encarando Emanuel. O contraste entre o tatuador rico e o pai preocupado era gritante.

— Senhor Emanuel, viemos buscar nossa filha. O que aconteceu na rua ontem foi inaceitável. Eduarda não é mulher para viver em um ambiente de agressividade e... — ele olhou com desdém para Sara — ... vulgaridade.

— Como é que é, seu velho metido a besta? — Sara avançou, o rosto vermelho. — Você não tem ideia de quem eu sou! Eu administro os negócios desse homem! Eu sou a mulher dele há meses, enquanto essa sua filhinha sonsa não passa de um capricho que ele achou em um museu!

— Sara, chega! — O grito de Emanuel ecoou pelo pé-direito alto da sala. — Eu não vou repetir.

Eduarda, vendo a tensão escalar, sentiu o coração apertado. Ela odiava a discórdia. Para ela, o amor deveria ser leve, como as pinceladas de Monet que tanto estudava. Com um gesto tímido, ela se soltou do pai e caminhou até Sara. Seus passos eram curtos, sua postura era de submissão, mas seus olhos brilhavam com uma esperança ingênua.

— Sara... — a voz de Eduarda era um sussurro manhoso, quase um apelo. — Eu não quero tomar o seu lugar. Eu sei o quanto você é importante para o Emanuel. Eu só... eu só queria que pudéssemos ficar bem. Você é tão bonita e forte, eu achei que pudéssemos ser amigas.

Sara olhou para a mão estendida de Eduarda como se fosse um inseto nojento. O choque daquela tentativa de amizade a deixou muda por três segundos, antes que o sarcasmo voltasse com força total.

— Amigas? — Sara soltou uma gargalhada genuinamente cruel. — Escuta aqui, coisinha. Eu não sou sua amiga, eu não sou sua irmã e eu não sou sua "colega de namorado". Você é uma intrusa. Um erro de sistema que o Emanuel cometeu e que eu vou deletar assim que você cansar de brincar de casinha.

Eduarda recuou, os olhos enchendo-se de lágrimas instantaneamente. Ela olhou para Emanuel, buscando proteção, e depois para os pais, que já estavam prontos para tirá-la dali à força.

— Emanuel, isso basta — disse Helena, a voz tremendo de indignação. — Nossa filha é sensível demais para esse tipo de gente. Vamos, Eduarda. Pegue suas coisas.

Emanuel sentiu o controle da situação escorregar pelos dedos. Ele olhou para Sara, que exalava uma energia agressiva e vibrante, a mulher que o mantinha alerta, que o desafiava e que conhecia seus segredos mais obscuros. Depois, olhou para Eduarda, a personificação da doçura, a garota que o fazia querer ser um homem melhor, que trazia paz ao seu mundo de tintas e agulhas.

Ele não podia perder nenhuma das duas. A ideia de escolher era, para ele, uma derrota lógica.

— Ninguém vai a lugar nenhum — Emanuel declarou, sua voz assumindo aquele tom de comando que usava em seus estúdios ao redor do mundo.

Ele caminhou até o centro da sala, ficando entre os pais de Eduarda e a fúria de Sara.

— Roberto, Helena, eu entendo a preocupação de vocês. Mas Eduarda está segura aqui comigo. Eu a amo. — Ele fez uma pausa, olhando para Sara. — E eu também amo a Sara.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que poderia ser cortado com uma faca. Os pais de Eduarda trocaram olhares de puro choque. Sara, por sua vez, cruzou os braços, bufando, mas havia um brilho de triunfo em seus olhos por ter sido mencionada primeiro.

— Você está sugerindo o quê, Emanuel? — Roberto perguntou, a voz carregada de ameaça. — Que nossa filha viva em um harém?

— Eu estou dizendo que eu sou um homem que tem tudo o que deseja — Emanuel respondeu com uma arrogância calma. — Eu tenho estúdios em três continentes, tenho poder e tenho a capacidade de cuidar de quem eu amo. Sara é o meu braço direito, a minha força. Eduarda é o meu coração, a minha paz. Eu não vou abrir mão de nenhuma das duas.

— Isso é doentio! — Helena exclamou, pegando a mão da filha. — Eduarda, vamos agora!

— Não! — Eduarda soltou um pequeno grito, um som manhoso e desesperado que parou a todos. Ela se agarrou ao braço de Emanuel, escondendo o rosto em seu ombro. — Eu quero ficar com ele, mãe. Eu me sinto segura aqui.

— Segura? Com essa mulher te insultando? — o pai questionou, incrédulo.

— O Emanuel não vai deixar ela me machucar — Eduarda sussurrou, olhando para o tatuador com uma adoração cega. — Ele prometeu.

Emanuel sentiu o peso daquela confiança e apertou a cintura de Eduarda, trazendo-a para mais perto. Ele então se voltou para os pais dela, sua expressão suavizando levemente.

— Eu vou comprar um apartamento no andar de baixo para vocês. Ou uma casa no bairro que preferirem. Quero que estejam perto, que vejam que ela está bem. Eduarda terá tudo: a faculdade, a arte dela, e a minha proteção total. Mas ela fica comigo.

Roberto parecia pronto para explodir, mas Helena colocou a mão no braço do marido. Ela via o olhar da filha. Eduarda não estava sendo coagida; ela estava enfeitiçada. A dependência emocional da jovem era o terreno onde Emanuel construía seu império pessoal.

— Nós não vamos aceitar seu dinheiro — Roberto sibilou. — Mas não vamos deixar nossa filha sozinha com essa... essa mulher.

— Então fiquem para o jantar — Emanuel convidou, já sabendo que tinha vencido. — Vamos conversar como adultos.

Sara, percebendo que a batalha de expulsão estava perdida por enquanto, soltou um som de desprezo e caminhou até o bar, servindo-se de uma dose generosa de vodca.

— Ótimo. Jantar em família — ela ironizou, virando a bebida de uma vez. — Vou pedir um buffet, porque não vou cozinhar para gente que me olha como se eu fosse um bicho de circo.

O jantar foi uma tortura de etiquetas e tensões subentendidas. Sara fazia questão de ostentar sua intimidade com Emanuel, tocando-o constantemente, falando sobre contratos e lucros, tentando excluir Eduarda da conversa. Eduarda, por sua vez, mantinha-se quieta, comendo pouco, agindo de forma manhosa sempre que Emanuel lhe dirigia a palavra, pedindo que ele cortasse sua carne ou que lhe servisse água, pequenos gestos de dependência que irritavam Sara profundamente.

— Ela é sempre assim? — Sara perguntou, apontando o garfo para Eduarda. — Parece que tem cinco anos de idade. Emanuel, como você aguenta esse mel todo?

Emanuel apenas sorriu de canto, limpando o canto da boca com o guardanapo.

— O mel dela equilibra o seu veneno, Sara. É por isso que funciona.

Os pais de Eduarda assistiam a tudo com uma mistura de horror e fascínio. Eles viam que Emanuel controlava o ambiente com uma mão de ferro revestida de veludo. Ele não era um vilão de desenho animado, mas um homem prático que havia decidido que a moralidade comum não se aplicava a ele.

Após o jantar, quando Roberto e Helena se preparavam para sair, ainda relutantes mas percebendo que a filha não se moveria dali, Emanuel os acompanhou até o elevador.

— Amanhã meu advogado entrará em contato — disse ele. — Vou garantir que vocês tenham acesso livre aqui. Mas entendam uma coisa: Eduarda é feliz aqui. E eu farei de tudo para que continue assim.

Quando o elevador desceu, Emanuel voltou para a sala. Sara estava jogada no sofá, as pernas longas estendidas, parecendo uma rainha destronada mas ainda perigosa. Eduarda estava sentada no chão, perto da lareira apagada, abraçando os próprios joelhos.

— Acabou o show? — Sara perguntou, sem olhar para ele.

Emanuel caminhou até Eduarda, pegou-a no colo como se ela fosse feita de vidro e a sentou no sofá, ao lado de Sara. O contraste era absoluto: a loira siliconada e agressiva de um lado, a morena delicada e tímida do outro.

— Escutem bem as duas — Emanuel disse, ficando de pé diante delas. — Eu amo vocês. De formas diferentes, por razões diferentes. Sara, eu preciso da sua garra. Eduarda, eu preciso da sua doçura. Eu não vou escolher. Este apartamento é grande o suficiente para nós três, e a minha vida é grande o suficiente para comportar o que eu sinto por ambas.

— Você é um egoísta, Emanuel — Sara cuspiu as palavras, mas não se levantou para sair. A segurança e o poder dele eram o seu vício.

— Eu sou um homem que sabe o que quer — ele rebateu.

Eduarda estendeu a mão timidamente e tocou o braço de Sara.

— Eu não quero brigar, Sara. De verdade.

Sara olhou para a mão de Eduarda e, por um breve momento, a agressividade vacilou, substituída por uma confusão genuína. Ela afastou a mão da garota com um gesto brusco, mas não disse nada ofensivo.

— Vou dormir — Sara anunciou, levantando-se. — E não quero ser acordada por chorinhos ou sussurros de "História da Arte".

Ela saiu em direção à suíte principal, o quadril balançando com uma confiança que agora parecia um pouco forçada.

Emanuel sentou-se ao lado de Eduarda, que imediatamente se aninhou em seu peito, suspirando de alívio.

— Ela me odeia tanto, Manu... — ela murmurou, usando o apelido carinhoso que só ela ousava usar.

— Ela só está assustada, pequena. Com o tempo, ela vai entender que você não é uma ameaça, mas um complemento.

— Você promete que não vai me mandar embora? — Ela olhou para ele com aqueles olhos que entregavam toda a sua alma.

— Eu prometo. Você é minha, Eduarda. Assim como a Sara é minha. E eu cuido do que me pertence.

Ele a beijou na testa, sentindo o cheiro de baunilha que agora impregnava sua vida. Lá fora, as luzes da cidade brilhavam, indiferentes ao drama que se desenrolava na cobertura. Emanuel sabia que o caminho seria difícil. Sara tentaria sabotar Eduarda, e Eduarda provavelmente teria crises de choro e insegurança. Mas ele estava pronto para mediar, para controlar e para possuir.

Naquela noite, Emanuel dormiu entre o fogo e o mel, sentindo-se, pela primeira vez, completo em sua própria e complexa ganância emocional. O império de tatuagens agora tinha duas rainhas, e ele era o único soberano capaz de manter a coroa sobre as cabeças de ambas.