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O Banquete da Discórdia e o Gosto Amargo do Ciúme

A noite em São Paulo tinha aquele ar denso e sofisticado que Emanuel tanto apreciava. O restaurante escolhido foi o Fasano, um lugar onde o poder e o status se sentavam à mesa antes mesmo dos clientes. Ele precisava de um ambiente imponente para o que estava prestes a fazer. Emanuel não era um homem de meias medidas; ele era um estrategista. E sua estratégia para aquela noite era clara: comunicar a Sara que o relacionamento deles passaria por uma "expansão".

Sara chegou ao restaurante como uma força da natureza. Ela usava um vestido de couro ecológico preto, tão justo que parecia uma segunda pele, realçando o busto siliconado e a cintura esculpida por procedimentos estéticos caros. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto e impecável, e o som de seus saltos Louboutin contra o mármore era como o rufar de tambores de uma guerra iminente.

— Você está atrasado cinco minutos, Manu — disse ela, sentando-se à mesa e já sinalizando para o garçom sem sequer olhar o cardápio. — Espero que o motivo seja um novo contrato para o estúdio de Dubai, e não aquela garotinha de porcelana de ontem.

Emanuel manteve a expressão serena, embora o comentário de Sara tivesse atingido um nervo exposto. Ele observou a namorada com uma mistura de admiração e cansaço. Sara era eficiente, era linda de uma forma agressiva e era a única pessoa que conseguia acompanhar seu ritmo de negócios.

— Sara, vamos manter o nível — respondeu ele, a voz calma e autoritária. — Eu te chamei aqui porque nossa relação precisa de uma nova dinâmica. Eu valorizo o que temos, a nossa parceria e o sexo, mas sinto que falta algo... uma suavidade que eu encontrei em outro lugar.

Sara arqueou uma sobrancelha, um sorriso irônico brincando em seus lábios pintados de vermelho vibrante.

— Suavidade? Você quer dizer aquela menina que parece que vai quebrar se alguém espirrar perto dela? Emanuel, por favor. Você é um homem de negócios, um tatuador de renome mundial. Você precisa de uma mulher que segure o rojão ao seu lado, não de uma boneca que precisa de babá.

— Eu não estou pedindo permissão, Sara — Emanuel inclinou-se para frente, os olhos fixos nos dela. — Estou comunicando que Eduarda fará parte da minha vida. Eu quero ela morando comigo. E quero que você continue sendo quem você é para mim. Eu tenho espaço para as duas.

Sara soltou uma risada curta e seca, atraindo olhares das mesas vizinhas.

— Você enlouqueceu? Quer montar um harém moderno? Eu tenho uma carreira, Emanuel. Sou formada em administração, eu cuido da sua vida financeira! Eu não vou dividir o meu homem com uma estagiária de museu que se veste como se estivesse em 1950.

Emanuel estava prestes a retrucar, a tensão subindo por seus ombros, quando seu olhar se desviou por cima do ombro de Sara. O mundo pareceu girar em câmera lenta.

No fundo do restaurante, em uma mesa mais reservada mas ainda visível, estava Eduarda.

Ela não estava sozinha.

Eduarda usava um vestido de seda azul-claro, com alças finas que mostravam a tatuagem delicada que Emanuel havia terminado nela há poucas horas. Ela parecia radiante, mas de uma forma contida, manhosa. Ao lado dela, um homem mais velho, por volta dos quarenta anos, vestindo um dólmã branco impecável — o chef executivo do restaurante —, falava com ela de forma animada, tocando levemente em sua mão sobre a mesa.

Emanuel sentiu o sangue ferver. A racionalidade que ele tanto pregava evaporou em um segundo, substituída por um ciúme primitivo e avassalador.

— O que foi? — perguntou Sara, percebendo a mudança drástica na postura dele. Ela se virou na cadeira, seguindo o olhar do namorado. — Ora, ora... parece que a sua "santinha" não perde tempo. Quem é o coroa?

Emanuel não respondeu. Ele se levantou, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.

— Emanuel! Onde você vai? — Sara sibilou, mas ele já estava caminhando em direção à mesa ao fundo.

Eduarda estava rindo de algo que o chef dizia, um riso baixo e doce, quando sentiu a presença de Emanuel. Ela empalideceu instantaneamente, os olhos grandes se arregalando de susto.

— Emanuel? — sussurrou ela, encolhendo os ombros e buscando proteção no encosto da cadeira, o gesto manhoso que geralmente o encantava agora o irritava profundamente.

— Boa noite, Eduarda — disse Emanuel, a voz saindo como um trovão contido. Ele ignorou completamente o homem à mesa. — Eu não sabia que você tinha planos para esta noite. Achei que estivesse cansada depois da sessão de hoje.

O chef levantou-se, confuso mas educado.

— Pois não? Eu sou o Chef Lorenzo. Estamos discutindo um projeto de estágio de curadoria gastronômica para a Eduarda. Posso ajudar em algo?

Emanuel finalmente olhou para o homem, seu olhar carregado de desprezo.

— Eu cuido da carreira dela agora, Lorenzo — afirmou Emanuel, a palavra "cuido" saindo com uma possessividade pesada. — Eduarda, levante-se. Nós vamos embora.

— Mas... Emanuel... — Eduarda começou, a voz trêmula, os dedos brincando nervosamente com o guardanapo. — O senhor Lorenzo está sendo tão gentil... ele disse que minhas notas em História da Arte são perfeitas para o que ele precisa...

— Eu disse para se levantar — repetiu ele, dando um passo para mais perto, ocupando o espaço pessoal dela.

Nesse momento, Sara chegou à mesa, rebolando e exibindo um sorriso predatório. Ela colocou a mão no ombro de Emanuel, mas seus olhos estavam fixos em Eduarda, analisando-a como uma presa.

— Que cena mais dramática! — exclamou Sara, a voz alta o suficiente para ser ouvida por todos. — Então este é o seu "estágio", gracinha? Jantando com o chef em um restaurante de cinco estrelas? Você é mais esperta do que parece.

— Eu não... eu só... — Eduarda sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ela olhou para Emanuel, buscando o porto seguro que ele prometera ser, mas encontrou apenas um homem consumido pela fúria e pelo controle. — Por favor, não briguem...

— Ninguém está brigando, querida — disse Sara, inclinando-se para frente, o decote generoso quase tocando a mesa. — Emanuel só está percebendo que talvez a sua "pureza" tenha um preço, assim como o silicone que ele pagou para mim.

— Cale a boca, Sara! — Emanuel rosnou.

Lorenzo, percebendo o nível da baixaria, tentou intervir.

— Senhor, acho que há um mal-entendido. Eduarda é uma jovem talentosa e...

— Não ouse falar o nome dela — Emanuel cortou, apontando o dedo para o chef. — Eduarda, agora!

Eduarda se levantou, as pernas tremendo visivelmente. Ela pegou sua bolsa pequena, olhando para o Chef Lorenzo com um pedido de desculpas mudo. Ela parecia uma criança perdida no meio de um furacão. Quando ela caminhou até Emanuel, ele a segurou pelo braço com firmeza, não para machucar, mas para garantir que ela não escapasse de sua órbita.

— Nós vamos para casa — declarou ele.

— Para qual casa, Manu? — Sara perguntou, cruzando os braços e exibindo um sorriso desafiador. — Para a nossa, onde eu moro há quatro meses, ou você vai levar a sua boneca para um hotel? Porque eu não pretendo sair de lá.

Emanuel olhou para as duas mulheres à sua frente. Sara, a loira siliconada, vulgar e brilhante, que o desafiava com o olhar. E Eduarda, a morena tímida e manhosa, que chorava silenciosamente enquanto se apoiava em seu braço.

— Para a minha casa — disse Emanuel, olhando para Sara. — E você vai estar lá também. Nós vamos resolver isso hoje.

— Ah, isso eu não perco por nada — Sara riu, pegando sua bolsa e começando a caminhar na frente, os quadris balançando de forma provocativa. — Vai ser divertido ver quanto tempo essa santinha aguenta a realidade da vida adulta.

Emanuel começou a conduzir Eduarda para fora do restaurante. Ela caminhava de cabeça baixa, soluçando baixinho, buscando o conforto do corpo dele mesmo após a grosseria.

— Shhh... está tudo bem — sussurrou Emanuel, sua voz suavizando ligeiramente ao sentir a fragilidade dela. — Eu só não quero você perto desses homens, Eduarda. Você é muito ingênua, não entende as intenções deles.

— Eu só queria um emprego... — ela murmurou, a voz sumida. — Eu queria te dar orgulho.

Aquelas palavras desarmaram Emanuel por um momento. O ciúme deu lugar a uma necessidade de proteção ainda mais doentia. Ele a apertou contra o seu lado enquanto esperavam o manobrista trazer o carro.

— Você não precisa de emprego, Eduarda. Você tem a mim. Eu vou te dar tudo o que aquele chef e qualquer outro homem prometer, e muito mais. Mas você é minha. Entendeu?

Eduarda olhou para ele, as lágrimas brilhando sob a luz dos postes da rua. Ela assentiu devagar, um gesto de submissão que alimentou o ego de Emanuel.

— Sim, Emanuel...

Sara, que já estava encostada no carro de luxo de Emanuel, observava a cena com um olhar de puro escárnio.

— Que lindo — ironizou ela. — O dono do mundo e sua escrava de estimação. Vamos logo, Manu. Eu tenho uma garrafa de champanhe na geladeira e muita vontade de ver até onde essa sua paciência vai durar.

O trajeto até a cobertura de Emanuel foi mergulhado em um silêncio tenso. No banco da frente, Sara retocava o batom e mexia no celular, mandando áudios sobre o trabalho como se nada tivesse acontecido. No banco de trás, Eduarda estava encolhida, olhando pela janela, o corpo miúdo parecendo desaparecer no couro do carro caro.

Emanuel dirigia com as mãos firmes no volante, a mente trabalhando a mil por hora. Ele sabia que estava entrando em um território perigoso. Sara era explosiva e não aceitaria ser deixada de lado. Eduarda era sensível e seria esmagada pela personalidade de Sara se ele não interviesse constantemente.

Mas, ao olhar pelo retrovisor e ver o rosto doce de Eduarda, e depois olhar para o lado e ver a presença imponente de Sara, ele sentiu uma satisfação sombria. Ele não era um homem comum. Ele tinha o controle sobre a dor e a beleza através das suas tatuagens, e agora teria o controle sobre as duas mulheres que representavam os dois lados de sua alma.

Ao chegarem na cobertura, Sara saltou do carro primeiro, entrando no elevador privativo com a propriedade de quem era a dona do lugar. Emanuel abriu a porta para Eduarda, ajudando-a a sair com uma delicadeza exagerada.

— Não tenha medo — disse ele, beijando a testa dela. — Eu estou aqui.

Eduarda segurou a mão dele com força, os dedos pequenos entrelaçados nos dele, que eram cobertos de tatuagens e cicatrizes de anos de trabalho.

— Ela me odeia, Emanuel — sussurrou Eduarda enquanto o elevador subia. — Eu sinto isso. Ela vai me fazer mal.

— Ela não vai encostar um dedo em você — Emanuel garantiu, embora soubesse que as feridas que Sara causava geralmente não eram físicas, mas verbais e psicológicas. — Eu vou mediar tudo. Você só precisa ser você mesma. Minha menina doce.

As portas do elevador se abriram diretamente na sala de estar luxuosa, com janelas do chão ao teto que mostravam o skyline de São Paulo. Sara já estava lá, com uma taça de champanhe na mão, descalça, mas ainda mantendo uma postura de dominação.

— Bem-vinda ao ninho, passarinho — disse Sara, apontando a taça para Eduarda. — Espero que você não tenha alergia a silicone e verdades nuas e cruas, porque aqui nós não usamos filtro.

Eduarda se encolheu atrás de Emanuel, o rosto escondido em suas costas.

— Sara, chega — ordenou Emanuel, caminhando até o bar e servindo-se de um whisky puro. — Eduarda vai ficar no quarto de hóspedes por enquanto, até que eu organize as coisas.

— Quarto de hóspedes? — Sara riu. — Que romântico. E quando você for para o meu quarto à noite, Manu, vai deixar a porta aberta para ela ouvir? Ou vai colocar fones de ouvido nela para não traumatizar a criança?

Eduarda soltou um pequeno soluço de angústia e se sentou no sofá, abraçando as próprias pernas, parecendo cada vez menor diante da agressividade de Sara.

— Eu quero ir embora... — choramingou Eduarda, a voz manhosa e infantilizada pela dor emocional. — Eu não pertenço a este lugar.

Emanuel atravessou a sala em dois passos e ajoelhou-se na frente de Eduarda, ignorando Sara completamente.

— Você pertence a onde eu estiver, Eduarda. Olhe para mim — ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a encará-lo. — Eu decidi que você fica. E o que eu decido, acontece.

Ele então se virou para Sara, o olhar frio e cortante.

— E você, Sara, se quiser continuar usufruindo de tudo o que eu te dou, e se quiser continuar sendo a mulher que caminha ao meu lado nos negócios, vai aprender a respeitar a presença dela. Caso contrário, a porta da rua é a serventia da casa, e você sabe que eu posso contratar dez administradores melhores que você amanhã.

O rosto de Sara se transformou. A máscara de deboche caiu, revelando uma fúria genuína, mas também um brilho de medo. Ela sabia que Emanuel não estava blefando. Ele era o poder. Ela era a extensão dele.

— Você está me trocando por... isso? — Sara apontou para Eduarda.

— Eu não estou trocando nada — Emanuel levantou-se, ficando entre as duas. — Eu estou somando. Agora, Sara, vá para o quarto. Eu vou acomodar a Eduarda e depois vou falar com você.

Sara bufou, terminando o champanhe de um gole só. Ela caminhou em direção ao corredor, mas antes de sair da sala, parou ao lado de Eduarda e sussurrou, baixo o suficiente para que apenas a menina ouvisse:

— Aproveite o seu quarto de hóspedes, boneca. Porque nesta casa, quem manda na cama e na conta bancária ainda sou eu.

Eduarda estremeceu e fechou os olhos, as lágrimas voltando a cair. Emanuel a pegou no colo, como se ela não pesasse nada, e começou a caminhar em direção ao quarto que havia preparado mentalmente desde o momento em que a viu pela primeira vez.

A guerra estava declarada. E no centro dela, Emanuel se sentia mais vivo do que nunca, alimentado pelo contraste entre o veneno de Sara e o mel de Eduarda. Ele teria o seu império, e ele seria o único mestre de suas duas rainhas.