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O Cárcere de Veludo e a Fúria Silenciosa
A luz da manhã entrava pelas enormes janelas da cobertura, iluminando a poeira que dançava no ar. Eduarda estava sentada à mesa de café da manhã, usando um robe de seda branca que Emanuel lhe dera. Ela parecia radiante, um contraste gritante com a tensão que geralmente pairava naquela casa desde que se mudara para lá, há duas semanas. Sara já havia saído para a sede administrativa dos estúdios, o que significava que Eduarda tinha Emanuel só para ela por alguns instantes.
— Emanuel! — chamou ela, a voz doce e carregada de uma animação infantil. — Você não vai acreditar!
Emanuel, que lia relatórios financeiros em seu tablet enquanto tomava um café amargo, levantou os olhos. A visão de Eduarda sempre o acalmava. Ela era a sua dose de pureza em um mundo de tintas, agulhas e a agressividade de Sara.
— O que foi, pequena? — perguntou ele, fechando o aparelho e dedicando-lhe total atenção.
— Eu consegui! — Ela se levantou e correu até ele, sentando-se em seu colo de um jeito manhoso, passando os braços delicados em volta do pescoço dele. — O estágio na Galeria Von Strauss. O curador me ligou hoje cedo. Eu começo na segunda-feira!
Emanuel sentiu um solavanco no peito, mas não foi de alegria. O nome "Von Strauss" ecoou em sua mente como um alerta de perigo. Ele conhecia Marcus Von Strauss. O homem era um frequentador assíduo dos círculos de alta sociedade que Emanuel evitava, mas que Sara adorava. Marcus era conhecido por duas coisas: seu olho clínico para arte e sua fama de predador sexual insaciável, especialmente com estagiárias jovens e vulneráveis.
O rosto de Emanuel endureceu instantaneamente. A mão que acariciava a cintura de Eduarda parou.
— Você não vai, Eduarda — disse ele, a voz seca e definitiva.
Eduarda congelou. Ela se afastou um pouco para olhar o rosto dele, os olhos grandes piscando em confusão.
— O quê? Mas Emanuel... é a melhor galeria da cidade. É a oportunidade da minha vida para a faculdade de História da Arte. Eu vou aprender sobre curadoria, sobre...
— Eu disse que você não vai — repetiu ele, levantando-se e fazendo com que ela tivesse que se colocar de pé. — Eu conheço o Marcus. Ele é um canalha, um mulherengo que não respeita ninguém. Você é muito inocente, Eduarda. Você não duraria um dia naquele ambiente sem que ele tentasse algo.
— Mas eu sei me cuidar! — protestou ela, a voz subindo um tom, algo raro para sua personalidade tímida. — Eu não sou uma criança, Emanuel. Eu tenho vinte anos!
— Você tem vinte anos e a maturidade de uma menina que vive em um livro de contos de fadas — rebateu ele, cruzando os braços. — Eu não vou permitir que você se coloque em uma situação onde eu não possa te proteger. O assunto está encerrado.
As lágrimas começaram a brotar nos olhos de Eduarda. O lábio inferior dela tremeu, e por um momento, Emanuel achou que ela fosse ceder, como sempre fazia. Mas a frustração de ter seu sonho podado foi maior que sua timidez.
— Você não manda em mim! — gritou ela, batendo o pé no chão de mármore, um gesto que seria cômico se não fosse tão carregado de desespero. — Você me trouxe para cá dizendo que ia cuidar de mim, não que ia me prender! Eu odeio você! Eu vou fugir! Eu vou embora desta casa agora mesmo!
Ela se virou e correu em direção ao quarto, os soluços ecoando pelo corredor. Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto. O estresse estava começando a cobrar seu preço. Ele amava a doçura dela, mas aquela resistência era nova.
— Eduarda, volte aqui! — ordenou ele, seguindo-a.
Ele a encontrou no quarto de hóspedes — que ela ainda insistia em usar, apesar de passar a maioria das noites nos braços dele. Ela estava tentando puxar uma mala de cima do armário, mas era pequena demais e frágil demais para o esforço.
— Me deixa sair! — gritou ela ao vê-lo na porta. — Eu vou morar na faculdade, vou morar na rua, mas não vou ficar aqui sendo sua prisioneira enquanto a Sara fica rindo da minha cara!
Emanuel caminhou até ela com passos lentos e predatórios. Ele a segurou pelos pulsos, não com força, mas com uma firmeza que a fez parar de lutar imediatamente.
— Você não vai a lugar nenhum — sibilou ele, o olhar fixo no dela. — Você é minha, Eduarda. Eu te tirei daquela vida medíocre para te dar o melhor. Mas o preço do meu cuidado é a sua obediência. Você não pisa naquela galeria.
Eduarda murchou sob o peso da autoridade dele. Ela parou de gritar, mas o olhar que lançou a ele era de pura mágoa.
— Então eu não vou comer — disse ela, a voz agora baixa e carregada de uma determinação manhosa e perigosa. — Se eu não posso ter a minha vida, eu não quero nada. Não vou comer nada que venha do seu dinheiro.
Emanuel soltou um riso sarcástico.
— Greve de fome, Eduarda? Realmente, você é uma criança.
— Veremos — respondeu ela, soltando-se dele e se encolhendo na cama, cobrindo-se até o queixo e virando o rosto para a parede.
O dia passou de forma torturante. Emanuel tentou trabalhar de casa, mas sua mente estava no quarto ao lado. Ele pediu que a empregada preparasse as comidas favoritas de Eduarda: risoto de aspargos, doces finos, frutas frescas. Nada funcionou. A bandeja voltava intacta.
À noite, Sara chegou. Ela entrou no escritório de Emanuel exalando o cheiro de sucesso e uísque caro.
— O que aconteceu com a santinha? — perguntou Sara, jogando a bolsa sobre a mesa. — A casa está em um silêncio de velório.
— Ela quer trabalhar para o Von Strauss — Emanuel respondeu sem tirar os olhos do computador. — Eu proibi. Ela decidiu que vai morrer de fome em protesto.
Sara soltou uma gargalhada alta e vulgar, sentando-se no braço da cadeira de Emanuel.
— Eu disse que ela era problemática, Manu. Gente sonsa é assim, faz drama para conseguir o que quer. Deixa ela. Quando o estômago roncar mais forte que o orgulho, ela aparece pedindo caviar.
— Ela não comeu nada há dez horas, Sara. Ela é frágil, não tem a sua resistência — Emanuel disse, a irritação transparecendo na voz.
— Ah, me poupe do seu instinto paternal — Sara revirou os olhos e começou a acariciar a nuca dele. — Esquece ela. Vamos jantar fora? Eu quero comemorar o fechamento do contrato de Berlim.
— Eu não vou sair com ela nesse estado — Emanuel se levantou, afastando-se de Sara. — Vá você. Eu preciso resolver isso.
Sara estreitou os olhos, a competição por atenção brilhando intensamente.
— Você está perdendo a mão, Emanuel. Está ficando mole por causa de uma menina que faz birra. Cuidado para não virar o brinquedo dela.
Ela saiu batendo a porta, e Emanuel sentiu a tensão explodir. Ele caminhou até o quarto de Eduarda. A luz estava apagada. Ele se aproximou da cama e viu o vulto pequeno sob os lençóis. O som de um soluço abafado cortou o silêncio.
— Eduarda — chamou ele, sentando-se na borda da cama.
Ela não respondeu. Emanuel puxou o lençol devagar. O rosto dela estava pálido, os olhos inchados de tanto chorar. Ela parecia ainda menor, uma boneca quebrada.
— Por favor... — sussurrou ela, a voz fraca. — Eu só queria fazer algo por mim mesma. Você tem seus estúdios, a Sara tem a administração... eu não tenho nada. Eu sou só um enfeite na sua casa.
O coração de Emanuel apertou. Ele odiava vê-la sofrer, mas o medo de perdê-la para o mundo — ou para homens como Marcus — era paralisante. Ele precisava de uma solução lógica, algo que mantivesse o controle em suas mãos, mas que devolvesse o brilho aos olhos dela.
— Coma alguma coisa — pediu ele, a voz agora suave, quase suplicante. — Eu pensei em uma solução.
Eduarda olhou para ele, uma centelha de esperança surgindo em meio à tristeza.
— Qual? Você vai me deixar ir para a galeria?
— Não — Emanuel disse, e viu a decepção voltar. — Mas eu vou comprar a galeria.
Eduarda travou. Ela se sentou na cama, o cabelo castanho bagunçado caindo sobre os ombros.
— O quê?
— Vou comprar a maioria das ações da Von Strauss — explicou Emanuel, a mente racional trabalhando rápido. — Marcus continuará como curador técnico porque ele tem os contatos, mas eu serei o dono. Eu terei o controle total. Você poderá estagiar lá, mas terá seguranças e eu estarei por dentro de cada passo que você der.
Eduarda processou a informação. Era uma solução possessiva, exagerada e tipicamente Emanuel. Mas, para ela, significava que poderia viver seu sonho.
— Você faria isso? Gastaria milhões só para eu poder trabalhar lá? — perguntou ela, a voz manhosa voltando, enquanto ela se aproximava dele.
— Eu faria qualquer coisa para garantir que você esteja segura e que continue sendo minha — Emanuel puxou-a para um abraço apertado. — Mas você tem que prometer que nunca mais vai me assustar desse jeito. Coma agora.
Eduarda assentiu, escondendo o rosto no peito dele.
— Eu como... se você me der na boca — pediu ela, com aquela dependência que o fazia se sentir o homem mais poderoso do mundo.
Emanuel sorriu, um sorriso sombrio e satisfeito. Ele chamou a empregada e, minutos depois, estava alimentando Eduarda com pequenos pedaços de pão e queijo brie, como se estivesse cuidando de um pássaro ferido.
A porta do quarto se abriu fresta. Sara estava parada no corredor, observando a cena. Seus olhos loiros brilhavam com uma fúria fria. Ela via a forma como Eduarda manipulava Emanuel através da fragilidade, e via como Emanuel estava disposto a dobrar o mundo para satisfazer os caprichos da "santinha".
Sara não disse nada, apenas fechou a porta e voltou para o seu quarto. Ela sabia que a dinâmica estava mudando. Eduarda não era apenas uma distração; ela era uma ameaça ao seu controle.
Dentro do quarto, Eduarda terminou de comer e se aninhou nos braços de Emanuel.
— Emanuel? — chamou ela baixinho.
— Sim?
— A Sara vai ficar brava quando souber que você comprou a galeria para mim, não vai?
Emanuel beijou o topo da cabeça dela.
— A Sara terá que aceitar. Eu sou o dono desta casa, Eduarda. E eu decidi que vou dar a cada uma o que vocês precisam para ficarem exatamente onde eu quero.
Eduarda fechou os olhos, sentindo-se protegida e vitoriosa. Ela sabia que Emanuel a amava de uma forma obsessiva, e ela usaria cada gota dessa obsessão para se manter como a favorita, mesmo que tivesse que dividir o teto com o furacão loiro.
Emanuel, por sua vez, olhava para o teto, já planejando a reunião com os advogados na manhã seguinte. Ele teria o controle sobre a arte, sobre os negócios e sobre as duas mulheres. O império estava mais sólido do que nunca, construído sobre a base da força de uma e da manha da outra. E ele não permitiria que ninguém, nem mesmo o destino, destruísse o equilíbrio perfeito que ele havia criado.