Nenhum
O Ritual do Domínio e a Semente da Discórdia
A chuva batia contra as vidraças da cobertura, criando uma sinfonia melancólica que contrastava com o calor opressor dentro do quarto principal. O ar estava saturado com o perfume caro de Sara, uma fragrância forte e amadeirada, e o aroma suave de baunilha que parecia emanar dos poros de Eduarda. Emanuel estava sentado em uma poltrona de couro preto, ainda vestido com sua calça social, mas com a camisa aberta, revelando as tatuagens que subiam pelo seu peito e pescoço.
Ele estava em um de seus dias sombrios. Uma das franquias em Tóquio apresentara problemas fiscais e o estresse acumulado agia como um combustível para sua libido possessiva. Nesses momentos, a lógica de Emanuel se tornava puramente instintiva: ele precisava reafirmar seu controle sobre tudo o que lhe pertencia.
— Venham aqui — ordenou ele, a voz rouca e baixa, carregada de uma autoridade que não admitia hesitação.
Sara, que retocava o batom em frente ao espelho, soltou um risinho irônico, mas seus olhos brilhavam com uma antecipação selvagem. Ela adorava o Emanuel perigoso. Eduarda, sentada na beira da cama com sua camisola de seda rosa pálido, estremeceu. Ela olhou para Sara com uma mistura de medo e timidez, encolhendo os ombros de forma manhosa antes de se levantar e caminhar lentamente até ele.
— Emanuel... — sussurrou Eduarda, parando entre as pernas dele e apoiando as mãos pequenas em seus joelhos. — Você parece tão bravo hoje. Eu fiz algo errado?
Emanuel segurou o queixo dela com firmeza, forçando-a a olhar para ele. Os olhos dela estavam úmidos, a sensibilidade sempre à flor da pele.
— Você não fez nada, pequena — disse ele, suavizando o toque, mas mantendo o olhar frio. — Só preciso que vocês se lembrem de quem manda nesta casa.
Sara aproximou-se, parando atrás de Eduarda. Ela era mais alta, mais imponente com suas curvas acentuadas e o cabelo loiro platinado que caía como uma cascata de ouro artificial. Ela colocou as mãos nos ombros de Eduarda, um gesto que parecia de proteção, mas que a morena sabia ser de pura dominação.
— Deixe de ser chorona, Eduarda — provocou Sara, a voz carregada de sarcasmo. — O Manu só quer se divertir um pouco. Não é, querido?
Emanuel não respondeu. Ele puxou Eduarda para o colo, ignorando o olhar de desdém que Sara lançou para a cena. Ele começou a beijar o pescoço de Eduarda, sentindo o tremor que percorria o corpo esguio da garota. Eduarda soltou um gemido baixo, escondendo o rosto no ombro dele, buscando o refúgio que só o seu protetor podia oferecer.
— Tão carente — comentou Sara, cruzando os braços e observando-os. Ela sentia a excitação crescer, mas também uma pontada de irritação por não ser a primeira a ser tocada.
Emanuel levantou o olhar para Sara, um sorriso enigmático surgindo em seus lábios.
— Tire a roupa, Sara. Fique onde eu possa te ver.
A loira não esperou um segundo convite. Com movimentos estudados e teatrais, ela se despiu, revelando o corpo escultural, os seios firmes pelo silicone e a pele impecável. Ela se posicionou aos pés da cama, exibindo-se com a confiança de quem sabia que era um espetáculo.
Enquanto isso, Emanuel focava sua atenção em Eduarda. Ele a despiu com uma delicadeza que beirava a adoração, tratando-a como a peça de arte valiosa que ela representava em sua vida. Eduarda permanecia em silêncio, os olhos fechados, entregando-se totalmente ao controle dele. Ela não olhava para Sara; o contato visual entre as duas era evitado a todo custo, um acordo tácito de que, naquele quarto, elas eram dois mundos que orbitavam o mesmo sol, mas nunca se tocavam.
— Você é tão doce, Eduarda — murmurou Emanuel, deitando-a na cama.
Ele a possuiu com uma intensidade que misturava proteção e posse. Eduarda gemia o nome dele, as mãos apertando os lençóis, o corpo reagindo com uma sensibilidade quase dolorosa a cada toque. Sara observava tudo de perto, a respiração acelerada. Ela sentia inveja da forma como Emanuel olhava para Eduarda — como se ela fosse algo sagrado —, enquanto para ela, o olhar dele era de desejo bruto e conquista.
Quando Emanuel atingiu o clímax dentro de Eduarda, ele se demorou, abraçando-a contra o peito, sussurrando palavras de conforto que Sara não conseguia ouvir. Eduarda parecia flutuar, um sorriso tímido e satisfeito nos lábios, sentindo-se a única mulher no mundo.
— Agora você — disse Emanuel, voltando-se para Sara sem qualquer transição emocional.
Ele a puxou com força, jogando-a sobre o colchão de forma rústica. Com Sara, não havia palavras doces ou carícias lentas. Era um embate. Ela respondia à altura, arranhando suas costas, provocando-o, usando sua experiência para tentar tirar Emanuel do eixo. Eduarda, encolhida no canto da cama, cobria-se com o lençol, observando a cena com uma mistura de fascínio e repulsa silenciosa. Ela se sentia pequena diante da volúpia de Sara, mas sentia-se segura por saber que o coração de Emanuel batia de forma diferente por ela.
Sara estava no auge do prazer, esperando o momento em que Emanuel despejaria seu sêmen dentro dela, selando aquela união carnal. No entanto, no último segundo, Emanuel se retirou bruscamente. Ele gozou sobre as costas dela, o fluido quente marcando a pele loira como um estigma de sua recusa em criar um vínculo mais profundo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel levantou-se, caminhando até o banheiro sem dizer uma palavra. Eduarda permaneceu quieta, sentindo uma onda de pena misturada com uma satisfação secreta que não ousava admitir.
Sara ficou imóvel na cama por alguns instantes. Sua respiração estava voltando ao normal, mas seu coração batia com uma fúria renovada. Ela sentou-se devagar, limpando-se com o lençol descartado, e olhou para Eduarda.
— Você viu, não viu? — perguntou Sara, a voz cortante como uma lâmina.
Eduarda apenas a olhou com seus olhos grandes e expressivos, sem dizer nada.
— Ele nunca goza dentro de mim — continuou Sara, os dentes cerrados. — Comigo é sempre assim. Ele me usa, ele me fode como se eu fosse uma de suas máquinas de tatuagem, mas ele se retira. Ele se recusa a deixar qualquer coisa de si em mim.
Eduarda abraçou os próprios joelhos, buscando conforto em sua própria fragilidade.
— Emanuel tem o jeito dele, Sara... — sussurrou ela.
— Não venha com essa voz de santinha! — Sara explodiu, levantando-se da cama. — Ele goza dentro de você todas as vezes! Eu vejo como ele te olha depois, como se você fosse carregar o herdeiro do império dele a qualquer momento. Por que você? O que você tem além dessa cara de quem não sabe quebrar um ovo?
Eduarda sentiu a provocação, mas respondeu com o silêncio que tanto irritava Sara. Ela sabia que sua força residia justamente em não entrar no jogo de agressividade da outra. Ela era o porto seguro de Emanuel, a paz que ele buscava após as tempestades que Sara ajudava a criar.
— Ele me ama, Sara — disse Eduarda finalmente, com uma suavidade que doeu mais do que um grito. — Ele me quer morando aqui porque ele precisa de mim. Você... você é a sócia dele. Eu sou a vida dele.
Sara avançou um passo, a mão levantada como se fosse desferir um golpe, mas parou ao ouvir o som da porta do banheiro se abrindo. Emanuel saiu, já vestindo um roupão escuro, o semblante agora calmo e controlado.
— Algum problema aqui? — perguntou ele, o olhar alternando entre a fúria de Sara e a timidez de Eduarda.
— Nenhum, Manu — respondeu Sara, forçando um sorriso que não chegava aos olhos, embora seu corpo ainda tremesse de raiva. — Eu só estava comentando com a Eduarda sobre como você é... cuidadoso.
Emanuel caminhou até Eduarda e beijou o topo de sua cabeça, ignorando a ironia de Sara.
— Vá dormir, pequena. Você tem aula de História da Arte amanhã cedo e eu quero que você esteja descansada.
Eduarda assentiu, deitando-se e fechando os olhos, sentindo-se vitoriosa sob a proteção dele. Sara, sentindo-se uma intrusa em seu próprio quarto, pegou seu robe e caminhou em direção à porta.
— Eu vou dormir no outro quarto — anunciou Sara, a voz carregada de veneno. — Já tive entretenimento suficiente por uma noite.
Emanuel não tentou impedi-la. Ele sabia que Sara voltaria. Ela sempre voltava, atraída pelo poder e pela complexidade da relação que eles construíram. Mas, enquanto observava a porta se fechar atrás da loira, ele se deitou ao lado de Eduarda, puxando-a para seus braços.
Ele sabia que o conflito entre as duas só tendia a crescer. O fato de ele se entregar biologicamente apenas a Eduarda era a sua forma subconsciente de decidir quem era a mulher que ele queria que permanecesse ao seu lado para sempre, enquanto Sara era a chama necessária para manter sua ambição acesa.
— Você está bem? — perguntou ele no ouvido de Eduarda.
— Estou — murmurou ela, aninhando-se nele. — Só não gosto quando ela fica brava. Ela diz coisas que me assustam.
— Não deixe que ela te assuste. Você é a minha prioridade, Eduarda. O que eu sinto por você... ninguém mais pode tocar.
Eduarda sorriu no escuro. Ela sabia que tinha ganhado aquela batalha silenciosa. Sara podia ter a administração, os jantares de gala e a vulgaridade que atraía os olhares, mas Eduarda tinha a semente de Emanuel, o seu segredo mais íntimo e a sua promessa de futuro.
Enquanto isso, no quarto ao lado, Sara socava o travesseiro com frustração. Ela era uma mulher de administração, de números e de lógica, mas não conseguia entender a equação que Emanuel estava montando. O ciúme a corroía, não apenas pelo afeto, mas pela exclusividade que ele dava a Eduarda em algo tão fundamental.
— Isso não vai ficar assim — sibilou Sara para as paredes vazias. — Se ele quer as duas, ele vai ter que aprender que eu não aceito as sobras.
A guerra na cobertura de Emanuel estava longe de terminar. Entre a manha de uma e a fúria da outra, o tatuador milionário continuava a traçar o destino das duas, sem perceber que, ao tentar controlar o amor e o desejo de forma tão rígida, ele estava criando um campo minado que poderia explodir a qualquer momento, destruindo o equilíbrio precário de seu império particular. Mas, por enquanto, sob o som da chuva, ele dormia em paz, segurando a sua paz castanha nos braços, enquanto o seu caos loiro planejava a próxima jogada no escuro.