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O Labirinto de Pétalas e Sombras

A brisa que soprava sobre as colinas de Bosquealto era carregada com o perfume de terra úmida e o frescor das macieiras em flor, um contraste gritante com o ar pesado de enxofre de Pedra do Dragão. A viagem até as terras da Casa Caswell fora um capricho de Daemon, uma tentativa de recompensar suas esposas após as tensões do último mês. Lady Jeyne, uma amiga de infância de Laena, os recebera com a hospitalidade calorosa típica da Campina, oferecendo-lhes um refúgio de paz que Alicent, em particular, parecia absorver por cada poro.

Naquela manhã, o grupo se dispersara pelos jardins vastos que se fundiam quase imperceptivelmente com uma floresta antiga e densa. Daemon estava ocupado discutindo linhagens de cavalos com Lorde Caswell, enquanto Laena, radiante em um traje de montaria que exibia sua vitalidade, caminhava à frente com Lady Jeyne, rindo de memórias compartilhadas.

Alicent caminhava alguns passos atrás. Ela usava um vestido de linho verde-claro, simples para os padrões da corte, mas que combinava perfeitamente com a paisagem. Em seus braços, a pequena Helaena observava o mundo com seus olhos grandes e curiosos, mantendo-se em silêncio absoluto. Alicent sentia-se leve. A cicatriz em seu rosto, agora uma linha fina e prateada, mal incomodava, e a trégua silenciosa com Laena trouxera um alívio que ela não sabia que precisava.

— Veja, querida — sussurrou Alicent para a filha, parando na entrada de uma trilha que se desviava do caminho principal. — Você já viu algo tão azul?

Na borda da mata, protegidas pela sombra das grandes carvalhas, brotavam flores que Alicent nunca vira em nenhum livro de botânica da Cidadela. Eram pequenas campainhas de um azul tão profundo que pareciam conter pedaços do céu noturno, com pétalas que brilhavam levemente, como se tivessem sido polvilhadas com pó de prata.

— São Lírios-da-Lua — disse Laena, parando por um momento e olhando por cima do ombro. — Dizem que só florescem onde a magia dos Primeiros Homens ainda toca o solo. São bonitas, não são?

— São divinas — respondeu Alicent, encantada.

— Não se demore, Alicent — avisou Laena, o tom menos ríspido que o de costume, mas ainda autoritário. — Jeyne diz que estas matas são traiçoeiras para quem não conhece as trilhas. O sol da tarde prega peças nas sombras.

— Só vou colher algumas para enfeitar o quarto — disse Alicent com um sorriso gentil. — Alcancem-me em breve.

Laena assentiu e continuou sua caminhada, desaparecendo em uma curva do caminho com sua amiga. Alicent colocou Helaena no chão por um momento, segurando sua mãozinha enquanto se agachava para colher a primeira flor. A menina parecia hipnotizada pelas pétalas azuis.

— Uma para você, meu amor — disse Alicent, prendendo a flor no cabelo da filha.

Alguns metros à frente, um grupo ainda mais vibrante daquelas flores chamou sua atenção. Alicent deu alguns passos para dentro da mata. Depois mais alguns. O solo era macio, coberto por um tapete de musgo que abafava o som de seus passos. O ar ali era mais fresco, quase frio, e o canto dos pássaros parecia vir de uma distância infinita.

Alicent viu uma flor de um tom de violeta raríssimo, crescendo perto do tronco de uma árvore retorcida. Ela se soltou da mão de Helaena por apenas um segundo para alcançá-la.

— Só mais esta, Helaena... — começou ela, mas quando se virou, a filha não estava exatamente onde ela achava.

A menina, atraída por uma borboleta de asas pálidas, tinha caminhado alguns metros para a esquerda, entrando em um denso aglomerado de arbustos.

— Helaena! — chamou Alicent, o coração dando um salto. — Não se afaste, querida.

Ela correu em direção à silhueta da filha, mas a mata parecia se fechar conforme ela avançava. Os arbustos eram mais altos do que pareciam e, em questão de segundos, a trilha de onde viera desapareceu de vista. Alicent pegou a filha nos braços, apertando-a contra o peito.

— Está tudo bem — murmurou ela, mais para si mesma do que para a criança. — Só precisamos voltar por ali.

Ela girou sobre os calcanhares, mas o que encontrou foram apenas troncos idênticos e o emaranhado de galhos. O sol, que antes brilhava intensamente, agora era filtrado por uma copa tão densa que criava um crepúsculo artificial. As direções pareciam se embaralhar. Onde estava o caminho de pedra? Onde estava a voz de Laena?

— Laena! — gritou Alicent, a voz saindo mais fina do que pretendia. — Daemon!

O único retorno foi o eco de sua própria voz e o farfalhar das folhas ao vento. O pânico, frio e cortante, começou a subir por sua garganta.

***

No pátio do castelo, Daemon terminava sua conversa quando viu Laena retornar sozinha com Lady Jeyne. Ele franziu a testa, seus olhos violetas percorrendo o espaço atrás delas.

— Onde está Alicent? — perguntou ele, a voz instantaneamente carregada de uma tensão que fez Lorde Caswell se calar.

Laena parou, olhando para trás com uma expressão de confusão que rapidamente se transformou em preocupação.

— Ela estava logo atrás de nós, na entrada da mata. Parou para colher flores.

— Você a deixou sozinha? — A voz de Daemon baixou para aquele tom perigoso, a mão instintivamente buscando o punho da Irmã Sombria, mesmo que ele não estivesse armado para a guerra.

— Ela disse que nos alcançaria! — retrucou Laena, o orgulho ferido pela acusação implícita. — E ela estava com Helaena. Achei que ela conhecesse seus próprios limites.

— Alicent não conhece estas terras, Laena! — Daemon já estava se movendo, atravessando o pátio com passadas largas. — Caswell, chame seus homens. Se algo acontecer a elas...

Ele não terminou a frase, mas a promessa de fogo estava em seu olhar. Laena não esperou por ordens. Ela correu ao lado de Daemon, o remorso começando a queimar em seu peito. Ela sabia que Alicent era distraída quando se encantava com coisas belas, e sabia que a floresta de Bosquealto era um labirinto para os incautos.

***

Dentro da mata, o tempo parecia ter estagnado. Alicent caminhava há o que pareciam horas, mas o cenário nunca mudava. Seus pés, calçados com sapatos finos, doíam, e o peso de Helaena começava a exaurir suas forças. A menina, sentindo a angústia da mãe, começou a chorar baixinho, escondendo o rosto no pescoço de Alicent.

— Shhh, minha pequena — soluçou Alicent, sentando-se exausta na raiz de uma árvore imensa. — O papai vai nos encontrar. Ele sempre encontra.

Ela olhou para as flores azuis que ainda segurava na mão. Elas pareciam zombar dela agora. Por causa de um punhado de pétalas, ela colocara sua filha em perigo. O medo de lobos, de bandidos ou simplesmente de morrer de frio naquela imensidão verde a dominava.

— Eu sou uma tola — sussurrou ela, as lágrimas escorrendo livremente. — Uma tola que não pertence a este mundo de dragões e florestas selvagens.

De repente, um som quebrou o silêncio. Não era o vento. Era o som de galhos secos sendo esmagados por algo grande. O coração de Alicent disparou. Ela se encolheu contra o tronco da árvore, tentando cobrir Helaena com seu vestido verde.

— Quem está aí? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Alicent?

O chamado não veio de Daemon. Era uma voz feminina, mas carregada de uma urgência que Alicent reconheceria em qualquer lugar.

— Laena? — Alicent levantou-se, tropeçando nas próprias saias. — Laena! Estamos aqui!

Através da folhagem, a figura de Laena Velaryon emergiu. Ela estava desgrenhada, com o rosto arranhado por galhos e a respiração ofegante. Quando seus olhos encontraram os de Alicent, houve um momento de puro alívio que transcendeu qualquer rivalidade.

Laena correu até elas, envolvendo Alicent e Helaena em um abraço coletivo tão forte que tirou o fôlego da Hightower.

— Pelos deuses, Alicent! — exclamou Laena, a voz embargada. — Você tem ideia do que passamos? Daemon está quase incendiando a floresta inteira com os homens de Caswell!

Alicent desabou contra o ombro de Laena, chorando de soluçar.

— Eu me perdi... as flores... eu não percebi o quanto entrei.

Laena afastou-se apenas o suficiente para olhar o rosto de Alicent. Ela viu o terror nos olhos verdes e a marca da cicatriz que ela mesma, indiretamente, ajudara a causar no passado. Um sentimento de proteção, profundo e inesperado, floresceu no coração da Velaryon.

— Você está segura agora — disse Laena, limpando as lágrimas de Alicent com o polegar. — Eu encontrei vocês.

— Como? — perguntou Alicent, tentando se acalmar. — Eu gritei, mas ninguém respondia.

— Eu segui o rastro — disse Laena, apontando para o chão. — Você deixou cair algumas daquelas flores azuis pelo caminho. O brilho delas na sombra me guiou.

Nesse momento, um assobio agudo e familiar cortou o ar, seguido pelo som de passos pesados. Daemon surgiu de um arbusto lateral, a expressão de fúria se transformando em uma agonia de alívio ao ver suas duas esposas juntas.

Ele não disse nada. Simplesmente avançou e envolveu as duas em seus braços poderosos. Helaena, vendo o pai, estendeu os bracinhos, e Daemon a pegou, beijando o topo de sua cabeça enquanto pressionava sua testa contra a de Alicent e depois contra a de Laena.

— Se vocês voltarem a fazer isso comigo — murmurou ele, a voz rouca —, eu juro que as tranco na torre mais alta de Pedra do Dragão e jogo a chave no mar.

— Foi minha culpa, Daemon — disse Alicent, ainda trêmula. — Eu fui imprudente.

— Não — interrompeu Laena, olhando para o marido. — Foi minha. Eu a deixei sozinha. Eu não deveria ter me afastado tanto.

Daemon olhou de uma para a outra. Ele viu a mão de Alicent ainda agarrada à manga do traje de Laena, e o modo como Laena mantinha um braço protetor em volta da cintura de Alicent. A floresta, com todos os seus perigos, realizara algo que meses de diplomacia não conseguiram.

— Vamos sair daqui — ordenou Daemon, embora seu tom fosse agora suave. — O sol está se pondo e eu não pretendo passar a noite sob as árvores.

O caminho de volta foi feito em silêncio, mas uma harmonia diferente pairava entre eles. Daemon caminhava na frente, carregando Helaena, abrindo caminho com sua força. Atrás dele, Laena e Alicent caminhavam lado a lado.

— Alicent — disse Laena, quando já podiam ver as luzes do castelo de Bosquealto brilhando ao longe.

— Sim?

— Aquelas flores... — Laena olhou para o pequeno buquê amassado que Alicent ainda segurava. — Elas são realmente bonitas. Mas nenhuma flor vale a sua vida. Ou a paz do meu espírito.

Alicent olhou para as flores e depois para Laena. Ela percebeu que, naquele labirinto de sombras, algo fora encontrado. Não era apenas o caminho de volta, mas uma ponte sobre o abismo que as separava.

— Eu sei — respondeu Alicent suavemente. — Mas eu as colhi para você também, Laena. Queria que o nosso quarto em Bosquealto tivesse algo que nos lembrasse de que a beleza pode crescer mesmo em lugares selvagens.

Laena parou por um segundo, surpresa. Ela pegou uma das flores azuis da mão de Alicent e, com uma delicadeza que raramente mostrava, prendeu-a no próprio cabelo.

— Então vamos guardá-las — disse Laena. — Como um lembrete.

Ao chegarem ao castelo, foram recebidos com mantas quentes e vinho temperado. Daemon não se afastou de nenhuma das duas durante toda a noite. Ele sentou-se no grande salão, com Alicent de um lado e Laena do outro, observando o fogo na lareira.

— Você está bem mesmo? — perguntou Daemon a Alicent, acariciando sua mão.

— Estou — respondeu ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Só estou cansada.

— Ela foi corajosa — comentou Laena, bebendo seu vinho. — Manteve a menina calma. A maioria das damas da corte teria desmaiado de terror.

Alicent sorriu para Laena, um reconhecimento silencioso de que o respeito estava, finalmente, superando o ressentimento.

— Eu tive uma boa professora — disse Alicent. — Você me ensinou que, nesta família, não há espaço para a fraqueza.

Daemon sorriu, sentindo-se o homem mais afortunado dos Sete Reinos, apesar do susto. Ele sabia que as cicatrizes do passado — físicas e emocionais — ainda estavam lá. Sabia que Laena ainda teria seus momentos de ciúme e que Alicent ainda se sentiria deslocada às vezes. Mas ali, sob a luz das chamas, ele via uma união que não era baseada apenas nele, mas em um entendimento mútuo entre as duas mulheres que amava.

Naquela noite, as flores azuis foram colocadas em um vaso de prata entre os leitos. O perfume doce e místico preencheu o quarto, um lembrete do labirinto onde se perderam e da verdade que encontraram. Alicent dormiu sem pesadelos, sentindo o calor de Daemon de um lado e, pela primeira vez, a presença reconfortante e não hostil de Laena do outro.

A Casa do Dragão era feita de fogo e sangue, mas em Bosquealto, entre pétalas azuis e sombras antigas, eles aprenderam que também poderia ser feita de perdão. E enquanto o sol nascia sobre a Campina, o Príncipe Canalha finalmente compreendeu que seu coração não estava dividido, mas multiplicado pela força das duas mulheres que, cada uma à sua maneira, eram as verdadeiras guardiãs de sua alma.