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O Voo do Herdeiro e o Grito da Corça

O vento em Pedra do Dragão naquela manhã era uma navalha invisível, cortando o céu cinzento e agitando as águas escuras do Mar Estreito. No pátio de treinamento, o som do metal contra o metal ecoava, mas o verdadeiro centro das atenções não era o treino de espadas. Era Caraxes. O dragão de Daemon, longo e sinuoso como uma serpente de fogo, repousava sobre as rochas, sua respiração pesada soltando anéis de fumaça que cheiravam a enxofre e morte.

Daemon Targaryen observava seu filho, Aegon. O menino, com apenas dois anos, possuía a fisionomia inconfundível dos Hightower misturada à altivez prateada dos Targaryen. Ele corria pelo pátio com uma energia que Daemon reconhecia como sua, mas com uma risada que era toda de Alicent.

— Ele tem o equilíbrio de um cavaleiro — comentou Laena, aproximando-se de Daemon. Ela carregava Baela no quadril, observando o pequeno Aegon com um olhar que misturava carinho e uma ponta de melancolia. — Mas Alicent vai ter um colapso se ele tropeçar nessas pedras.

Daemon soltou um riso curto, passando o braço pelos ombros de Laena.

— Alicent o protege como se ele fosse feito de vidro soprado. Mas ele é um dragão, Laena. O sangue dele clama pelo céu, não pelos tapetes macios de Vilavelha.

Nesse momento, Alicent surgiu na arcada do castelo, segurando a mão da pequena Helaena. Ao ver Aegon tão perto das garras de Caraxes, ela apressou o passo, a seda verde de seu vestido sussurrando contra o chão de pedra. Sua expressão era de uma vigilância constante, uma ternura que beirava a ansiedade.

— Daemon! — chamou ela, a voz doce, mas firme. — Aegon precisa entrar. O vento está ficando frio e o meistre disse que ele ainda tem um pouco de tosse.

Daemon virou-se, um sorriso provocador brincando em seus lábios.

— O vento vai limpá-lo, minha doce Alicent. Veja como ele olha para Caraxes. Ele não tem medo.

— Ele tem dois anos, Daemon — retrucou Alicent, aproximando-se e pegando o filho no colo, limpando uma mancha de poeira de sua bochecha. — Ele não tem medo porque não conhece o perigo. É nosso dever conhecê-lo por ele.

Daemon olhou para o filho, que agora puxava as mechas de cabelo castanho da mãe, apontando para o dragão vermelho.

— Dragão! — exclamou o pequeno Aegon, os olhos brilhando. — Papai, dragão!

O Príncipe Canalha sentiu um surto de orgulho que nublou seu julgamento estratégico. Ele olhou para Caraxes, depois para o filho, e uma ideia impulsiva, típica de sua natureza indomável, tomou conta de sua mente.

— Ele quer voar, Alicent — disse Daemon, a voz ganhando um tom de excitação.

Alicent empalideceu instantaneamente, apertando Aegon contra o peito.

— Absolutamente não. Nem pense nisso.

— Daemon, talvez ele seja um pouco jovem demais — interveio Laena, embora houvesse um brilho de curiosidade em seus olhos violetas. Os Velaryon também eram filhos do mar e do céu; a cautela não era sua primeira língua.

— Bobagem — disse Daemon, dando um passo à frente e tirando Aegon dos braços de Alicent antes que ela pudesse protestar. — Ele é um Targaryen. Eu voei com meu pai antes de saber falar frases completas. Ele precisa sentir o vento. Precisa saber que o mundo pertence a quem o domina de cima.

— Daemon, por favor! — O grito de Alicent foi agudo, carregado de um pânico real. Ela tentou segurar o braço dele, mas Daemon já se movia em direção à sela de Caraxes com a agilidade de um predador. — Ele é um bebê! Se ele escorregar... se o dragão se assustar...

— Caraxes não se assusta com o meu sangue — declarou Daemon, subindo na sela com Aegon seguro contra seu peito, protegido por seu braço musculoso e pela estrutura de couro. — Fique calma, Alicent. Eu o seguro. Ele está mais seguro comigo do que em qualquer berço.

— Laena, impeça-o! — implorou Alicent, virando-se para a outra esposa com os olhos cheios de lágrimas. — Você sabe como ele é! Diga a ele que isso é loucura!

Laena olhou para Daemon, depois para a angústia no rosto de Alicent. Por um momento, o antigo ressentimento vacilou diante da dor genuína da outra mulher. Mas a cultura valiriana falava mais alto em seu sangue.

— Ele é o pai, Alicent — disse Laena, embora sua voz tivesse uma nota de hesitação. — E o menino é um dragão. Daemon não deixaria nada acontecer com ele.

— Sova! — gritou Daemon, o comando em alto valiriano ecoando pelas muralhas.

Caraxes soltou um rugido vibrante que fez o chão tremer. Alicent caiu de joelhos, as mãos cobrindo a boca para abafar um grito de horror. Ela viu as imensas asas membranosas se abrirem, batendo com uma força que levantou uma nuvem de poeira e cascalho. Com um impulso violento, o dragão vermelho lançou-se ao ar.

— Não... não, por favor... — soluçava Alicent, observando a silhueta de Caraxes diminuir rapidamente enquanto ele subia em espiral em direção às nuvens carregadas.

Lá no alto, o mundo era uma tapeçaria de cinza e azul. O vento açoitava o rosto de Daemon, mas sua atenção estava total e completamente no pequeno ser em seus braços. Aegon, longe de chorar, estava em êxtase. O menino soltava gritinhos de alegria, suas pequenas mãos agarrando-se à sela de couro, os olhos arregalados enquanto Pedra do Dragão se tornava uma miniatura abaixo deles.

— Veja, meu filho — rugiu Daemon contra o vento, sentindo uma conexão indescritível com o herdeiro. — Tudo o que o sol toca é seu por direito, se você tiver a coragem de tomá-lo.

Ele inclinou Caraxes, fazendo uma curva fechada sobre o mar. O dragão mergulhou levemente, as pontas das asas roçando a crista das ondas antes de subir novamente em um arco majestoso. Daemon sentia a vida pulsar em Aegon, a falta de medo que era a marca registrada de sua linhagem.

Mas, lá embaixo, no pátio, o tempo havia parado para Alicent.

Ela não conseguia respirar. Cada vez que o dragão sumia entre as nuvens, seu coração parecia parar de bater. Ela imaginava o aperto de Daemon afrouxando, imaginava um movimento brusco lançando seu filho para o abismo. O amor que ela sentia por Daemon, geralmente sua âncora, naquele momento parecia uma traição. Como ele podia ser tão imprudente? Como ele podia ignorar o terror dela com tanta facilidade?

— Ele vai ficar bem, Alicent — disse Laena, aproximando-se e colocando uma mão no ombro da Hightower. — Olhe, eles já estão voltando.

Alicent não respondeu. Ela se levantou, limpando as lágrimas com as costas das mãos, mas sua postura não era mais de súplica. Era de uma fúria fria e silenciosa que Laena nunca vira nela. A corça gentil fora ferida, e em seu lugar surgia algo mais rígido, algo moldado pelo instinto materno mais primordial.

Caraxes pousou com um estrondo, as garras raspando a pedra e soltando faíscas. Daemon saltou da sela antes mesmo que o dragão se acalmasse completamente, carregando um Aegon rindo e com os cabelos prateados completamente desalinhados pelo vento.

— Você viu, Alicent? — gritou Daemon, o rosto iluminado por uma alegria selvagem. — Ele é um natural! Ele nem piscou quando mergulhamos!

Ele caminhou em direção a ela, esperando ser recebido com o alívio habitual, talvez com um sermão leve seguido de um abraço. Mas o que encontrou foi um muro de gelo.

Alicent arrancou Aegon de seus braços com uma força que surpreendeu o príncipe. Ela verificou cada centímetro do corpo do filho, as mãos tremendo enquanto tocava as bochechas geladas do menino.

— Ele está bem, Alicent — disse Daemon, o sorriso vacilando diante do silêncio dela. — Ele adorou.

Alicent finalmente ergueu os olhos. O verde de suas íris estava escuro, quase negro de indignação.

— Você é um monstro, Daemon Targaryen — disse ela, a voz baixa, mas cortante como uma lâmina.

Daemon recuou um passo, a confusão estampada em seu rosto anguloso.

— O quê? Eu apenas o levei para...

— Você o levou para o perigo por puro ego! — interrompeu ela, as palavras saindo em um fluxo amargo. — Você queria provar para si mesmo que ele é seu, que ele é "um dragão". Você ignorou meus gritos, ignorou meus pedidos, como se eu fosse nada mais do que uma ama de leite cujas preocupações não têm valor.

— Alicent, não seja dramática — interveio Laena, tentando suavizar o clima. — O menino está ileso. Foi um batismo de voo.

Alicent virou-se para Laena, e o olhar foi tão gélido que a Velaryon se calou imediatamente.

— Você o encorajou, Laena. Porque para você, a glória do sangue vale mais do que a segurança de uma criança. Mas ele é meu filho. Ele saiu do meu corpo, ele se acalma no meu colo, e eu não vou permitir que a vaidade de vocês dois o coloque em perigo novamente.

— Ele é meu filho também! — rugiu Daemon, sua paciência se esgotando. — E eu decido como ele será criado! Ele não será um escriba de Vilavelha, Alicent! Ele será um rei, um guerreiro!

— Ele será um cadáver se você continuar a tratá-lo como um brinquedo para seus caprichos! — gritou Alicent de volta, as lágrimas voltando a cair, mas desta vez de raiva. — Se você tocar nele para levá-lo perto daquele dragão antes que ele tenha idade para decidir por si mesmo, eu juro pelos Sete, Daemon... eu o levo para longe daqui. Eu o levo para onde você nunca o encontrará.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até Caraxes parecia ter sentido a mudança de temperatura no ar, emitindo um rosnado baixo e submisso. Daemon olhou para Alicent e, pela primeira vez em anos, sentiu um lampejo de medo. Não medo de uma espada ou de um dragão, mas medo daquela mulher pequena e gentil que ele acreditava dominar completamente.

Alicent não esperou por uma resposta. Ela se virou e caminhou em direção ao castelo, carregando Aegon, que agora começava a chorar, assustado pela tensão entre os pais.

Daemon ficou parado no pátio, as mãos fechadas em punhos. Laena aproximou-se dele, o rosto preocupado.

— Você pegou pesado, Daemon — murmurou ela. — Eu sei como é... o desejo de voar. Mas ela... ela não entende o nosso fogo. Para ela, o céu é apenas um lugar de onde se pode cair.

— Eu não fiz por mal — disse Daemon, a voz agora desprovida de sua arrogância habitual. — Eu queria que ele sentisse o que eu sinto.

— Você queria que ele fosse você — disse Laena com uma sabedoria amarga. — Mas ele é dela também. E você quase a matou de susto. Vá atrás dela, Daemon. Antes que esse gelo se torne permanente.

Daemon entrou na fortaleza, seus passos ecoando pesadamente. Ele encontrou Alicent no berçário. Ela estava sentada em uma cadeira de balanço, amamentando a pequena Helaena enquanto Aegon dormia exausto em seu berço próximo. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas por algumas velas.

Ele parou à porta, observando a cena. A raiva dele havia evaporado, substituída por um peso incômodo no peito. Ele via a cicatriz fina no rosto dela — a marca de Meleys — e lembrou-se de que Alicent já carregava marcas de sua vida com os dragões.

— Alicent — chamou ele suavemente.

Ela não olhou para cima. Continuou balançando a cadeira, os olhos fixos na filha.

— Saia, Daemon.

— Eu não queria te ferir — disse ele, aproximando-se lentamente. — Eu vi o brilho nos olhos dele e agi sem pensar.

— Você sempre age sem pensar, Daemon — disse ela, a voz cansada. — Esse é o seu charme e a sua maldição. Mas quando se trata dos meus filhos, eu exijo que você pense. Eu divido o meu marido com outra mulher. Eu divido a minha casa com feras que podem nos queimar em um piscar de olhos. Eu aceitei tudo isso por amor a você. Mas eu não vou dividir a vida dos meus filhos com a sua imprudência.

Daemon ajoelhou-se ao lado da cadeira, colocando a mão sobre o joelho de Alicent. Para sua surpresa, ela não se afastou, mas permaneceu rígida.

— Eu prometo — disse ele, olhando-a nos olhos com uma sinceridade que raramente mostrava a alguém. — Eu não o levarei novamente sem o seu consentimento. Eu... eu me esqueci de que nem todos veem o céu como um lar.

Alicent finalmente olhou para ele. A raiva ainda estava lá, mas atenuada pela exaustão. Ela viu o homem que amava, o guerreiro indomável, ajoelhado diante dela como um suplicante.

— Você quase me tirou a razão hoje, Daemon — sussurrou ela. — Se algo acontecesse a ele... eu não sobreviveria. E eu nunca te perdoaria.

— Eu sei — disse ele, pegando a mão dela e beijando as pontas dos dedos. — Perdoe-me, minha doce corça. O dragão foi tolo.

Alicent suspirou, fechando os olhos por um momento. Ela sabia que Daemon não mudaria sua essência, mas aquele momento de submissão era o máximo que ela poderia obter de um homem como ele.

— Vá falar com Laena — disse ela. — Ela está se sentindo culpada por ter te deixado ir.

— Eu falarei — prometeu ele. — Mas primeiro, deixe-me ficar aqui um pouco. No silêncio.

Naquela noite, o equilíbrio em Pedra do Dragão foi restaurado, mas com uma nova compreensão. Daemon aprendeu que a gentileza de Alicent tinha limites de aço, e que o amor dela, embora infinito, exigia respeito pelas suas fronteiras. Laena, observando-os mais tarde, sentiu uma pontada de algo que não era ciúme, mas uma estranha admiração. Alicent enfrentara o dragão e vencera, não com fogo, mas com a força inabalável de seu coração de mãe.

A família sentou-se para jantar naquela noite em um silêncio pensativo. Aegon, alheio ao drama que causara, balbuciava sobre "nuvens" e "vento", enquanto Daemon e Alicent trocavam olhares que carregavam promessas de reconciliação e novas regras. O Príncipe Canalha ainda era o senhor dos céus, mas naquela sala, sob o olhar vigilante de Alicent e a presença forte de Laena, ele compreendeu que sua maior força não residia nas asas de Caraxes, mas na união complexa e frágil das duas mulheres que, juntas, compunham o seu mundo.