Noites que Nunca Têm Fim
Veludo Azul e Promessas de Tinta
O sol de Nova Iorque no verão de 1992 era um intruso. Ele entrava pelas frestas das cortinas pesadas do loft de Leo no Soho, expondo a poeira dançando no ar e a decadência gloriosa da nossa última noite. O cheiro de cigarro amanhecido e o perfume doce que eu usava — uma mistura de baunilha com algo que lembrava asfalto quente — criavam uma atmosfera pesada, quase palpável. Eu estava sentada no parapeito da janela, observando Patrick.
Ele estava jogado em um sofá de couro desgastado, com um caderno de desenho aberto no colo e um cigarro apagado no canto da boca. Seus cabelos castanho-claros estavam uma bagunça de ondas indomáveis, caindo sobre os olhos verdes que, mesmo cansados, pareciam processar o mundo em uma velocidade que ninguém mais conseguia acompanhar. Ele não era apenas um ator; ele era uma força da natureza contida em uma jaqueta de couro batido.
— Você está me encarando de novo, Problema — disse ele, sem tirar os olhos do papel. — Se continuar assim, vou começar a cobrar por minuto de observação.
Eu ri, sentindo o tilintar das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — enquanto ajeitava minha boina.
— Eu estava apenas pensando se você é real ou se é uma alucinação causada pela tequila barata do Leo.
Patrick finalmente levantou o olhar. Aquele sorriso de Patrick Verona, sarcástico e irresistivelmente charmoso, iluminou seu rosto salpicado de sardas.
— Se eu for uma alucinação, sou a melhor que você já teve. Vem aqui.
Eu pulei do parapeito e caminhei até ele, sentando-me no chão, entre suas pernas. Patrick passou a mão pelos meus cabelos loiros dourados, desembaraçando os nós que a pista de dança da 89 Street Club havia criado. No caderno, havia um esboço rápido: eu, dançando sob as luzes de neon, com as mãos para o alto e uma expressão de quem estava prestes a devorar o mundo.
— Você me desenhou como se eu fosse... perigosa — comentei, passando o dedo sobre o traço de grafite.
— Porque você é — ele murmurou, inclinando-se para frente. O cheiro de nicotina e aquele perfume futurista me envolveram. — A maioria das pessoas nesta cidade está fingindo ser algo que não é para conseguir um papel ou um contrato. Você está fingindo ser comum para esconder que é uma fera. Isso é muito mais perigoso, Mariana.
Antes que eu pudesse responder, a porta do quarto principal se abriu e Leonardo DiCaprio surgiu, usando apenas uma calça de pijama de seda e segurando uma garrafa de água mineral como se fosse um troféu de guerra.
— Quem morreu e esqueceu de me convidar para o velório? — Leo perguntou, a voz rouca de sono e excessos. — Johnny já foi embora?
— Ele saiu faz uma hora — Patrick respondeu, fechando o caderno. — Disse que tinha uma reunião com o Tim Burton ou algo do tipo. Ele parecia um vampiro tentando evitar o nascer do sol.
Leo se jogou em uma poltrona, bebendo metade da garrafa de uma vez.
— Aquele cara vive em um filme do expressionismo alemão. Mas e aí? Qual é o plano para hoje? O Meatpacking District nos espera. Eu já consegui os nomes. Mariana, você será Ingrid, a filha de um barão do aço sueco. Patrick, você é o guarda-costas dela que, por acaso, também é um modelo de vanguarda.
Eu olhei para Patrick e caímos na gargalhada.
— Um guarda-costas? — Patrick perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Leo, eu tenho cara de quem consegue proteger alguém? Eu mal consigo proteger meus próprios cigarros de você.
— É a atitude, cara! A atitude! — Leo gesticulou freneticamente, a energia de "Pussy Posse" voltando ao seu corpo. — Ninguém questiona quem entra com confiança e fala com um sotaque estranho. Mariana, você consegue fazer um sotaque sueco?
— Eu consigo fazer qualquer coisa se houver chardonnay gelado envolvido — respondi, desafiadora.
— Viu? Ela é perfeita — Leo apontou para mim. — Ela tem aquela energia de "Alaska Young" que você tanto gosta, Patrick. Aquela coisa de "eu vou quebrar seu coração e você vai me agradecer por isso".
Patrick não riu dessa vez. Ele apenas me olhou de um jeito profundo, um olhar que parecia enxergar através da minha sombra preta nos olhos e da minha blusa cintilante. Era um olhar que dizia que, para ele, eu não era um personagem de livro ou uma identidade falsa.
— Ela não vai quebrar meu coração — disse Patrick, a voz baixa e firme. — Nós estamos no mesmo time, não estamos, Mariana?
— Até o fim da noite — respondi, embora no fundo eu quisesse dizer "até o fim do mundo".
O dia passou como um sonho febril. Enquanto o resto de Nova Iorque trabalhava em cubículos e servia café, nós três — e mais alguns agregados que apareciam e sumiam como fantasmas — passamos as horas entre galerias de arte obscuras no Lower East Side e lojas de discos usados. Patrick comprou um vinil do *Cocteau Twins* e me entregou com um brilho cúmplice nos olhos.
— Para você ouvir quando estiver se sentindo uma "leopardo de apartamento" — ele brincou.
Ao entardecer, a transformação começou. Eu voltei para o meu pequeno apartamento, troquei a blusa verde musgo por um vestido curto de veludo azul marinho que brilhava como o céu antes da tempestade. Refiz a maquiagem, carregando ainda mais no preto ao redor dos olhos. Eu queria parecer intocável. Eu queria parecer eterna.
Quando o relógio marcou meia-noite, o Cadillac preto de Leo parou na frente do meu prédio. Patrick estava no banco do carona, usando os óculos escuros de novo, mesmo sendo noite. Ele abriu a porta para mim.
— Pronta para ser Ingrid, a sueca? — ele perguntou, estendendo a mão.
— *Jag är redo* — respondi, arriscando uma frase que tinha decorado à tarde.
— Puta merda, ela é boa nisso! — Leo gritou do banco do motorista, acelerando o carro pelas ruas desertas.
O clube no Meatpacking District era uma antiga fábrica de processamento de carne transformada em um templo de luxúria e batidas eletrônicas. A fila dava a volta no quarteirão, cheia de modelos, artistas e pessoas que dariam a alma para atravessar o cordão de veludo.
Nós saímos do carro com a arrogância que só os 20 anos e a beleza podem proporcionar. Leo caminhava na frente, com aquela aura de quem era dono da cidade. Patrick caminhava ao meu lado, a mão levemente apoiada na minha cintura, os olhos atentos sob as lentes escuras.
— Nomes? — o segurança, um homem que parecia um armário de terno, perguntou com tédio.
— Ingrid Von Steel e sua comitiva — Leo disse, com um sotaque europeu afetado e perfeitamente irritante. — Estamos atrasados para a mesa do proprietário.
O segurança olhou para mim. Eu sustentei o olhar, fria, distante, o tilintar das minhas pulseiras sendo o único som entre nós. Eu era a jovem leopardo. Eu era a dona do mundo.
— Podem entrar — ele disse, abrindo o cordão.
Lá dentro, o caos era sublime. "Sweet Dreams" não estava tocando, mas o som pesado do techno industrial preenchia o espaço. O ar era quente e cheirava a suor, álcool e luxo proibido. Encontramos Johnny em um canto reservado, conversando com uma mulher que parecia ter saído de um filme de ficção científica dos anos 60.
— Vocês conseguiram — Johnny sorriu, oferecendo-me um copo de algo que queimava como fogo na garganta. — Mariana, você está radiante. O veludo azul combina com a sua melancolia.
— É o meu disfarce de hoje — respondi, sentindo a adrenalina correr pelas veias.
Patrick me puxou para a pista de dança. Não era como na 89 Street Club; o ambiente aqui era mais denso, mais carnal. Dançamos como se nossos corpos estivessem tentando resolver um enigma. A cada movimento, o cheiro dele — nicotina, perfume e aquele toque de "rei do lugar" — me deixava mais tonta do que o álcool.
— Sabe o que eu sinto quando estou com você? — Patrick perguntou, aproximando os lábios do meu ouvido para ser ouvido acima da música.
— O quê?
— Sinto que o tempo parou em 1992. Que nunca vamos envelhecer. Que nunca vamos ter que nos preocupar com contas, ou com o que a sociedade espera de nós — ele me girou, e eu senti o mundo rodar. — Sinto que somos invencíveis.
— Mas o sol sempre nasce, Patrick — eu disse, uma ponta de tristeza nascendo no meu peito. — E quando ele nasce, as feras têm que se esconder.
— Então vamos garantir que esta noite dure para sempre — ele respondeu, parando de dançar e segurando meu rosto com as duas mãos. — Mariana, você é a única pessoa que me olha e não vê o "promissor ator de Hollywood". Você vê o Patrick. O Patrick que gosta de desenhar em guardanapos e que odeia o gosto de caviar.
— Eu vejo o Patrick que tem lábios de pássaro e que sempre traz boas notícias — eu sussurrei, citando a música que ele me dera.
Ele me beijou ali, no meio da pista de dança, rodeado por estranhos e luzes estroboscópicas. O gosto dele era uma mistura de tequila e promessas. Era forte, intragável e inegociável. Naquele momento, eu não era Mariana, a menina comum, e ele não era o líder da Pussy Posse. Éramos apenas duas almas que se reconheceram de outras vidas, tentando desesperadamente soldar a eternidade no calor de uma boite suja de Nova Iorque.
Horas depois, quando o céu começou a ganhar tons de lavanda e cinza, estávamos de volta ao loft. Leo estava desmaiado em um monte de casacos de pele que alguém tinha esquecido por lá. Johnny tinha desaparecido com a mulher futurista.
Patrick e eu estávamos na varanda de incêndio, observando a cidade despertar. Ele acendeu um Marlboro Vermelho e me ofereceu.
— O que você vai fazer quando o mundo descobrir quem você realmente é? — perguntei, observando a fumaça se dissipar no ar frio da manhã.
— Vou continuar atuando — ele deu de ombros. — Mas as melhores performances sempre serão essas. As que ninguém filma. As que só você vê.
Ele pegou uma caneta do bolso e a minha mão. Com uma delicadeza surpreendente, ele desenhou uma pequena estrela no meu pulso, logo acima de onde as pulseiras ficavam.
— Para você se lembrar de que, mesmo quando estiver usando roupas gomadas e falando coisas polidas, você ainda tem um pedaço da noite com você.
Eu olhei para a estrela de tinta barata.
— É uma jura de amor ao alvorecer? — perguntei, tentando manter o tom brincalhão para não chorar.
— É mais do que isso — Patrick disse, aproximando-se e beijando o desenho. — É um contrato. Você é a minha cúmplice, Mariana. E cúmplices não se abandonam quando a música para.
Aquelas noites eram traiçoeiras. Elas nos faziam acreditar na imortalidade. Mas, enquanto eu sentia o calor do corpo de Patrick contra o meu, vendo o sol iluminar as sardas no seu rosto, eu decidi que não me importava com a mentira. Se a vida era um palco e a noite era o nosso esconderijo, eu interpretaria meu papel até que as cortinas caíssem.
— Vamos dormir — ele murmurou, puxando-me para dentro. — Temos que descansar para sermos feras de novo amanhã.
— Amanhã o Leo quer ir para os Hamptons — lembrei.
— Então vamos para os Hamptons — Patrick sorriu. — Mas só se você prometer que vai levar aquele vestido de veludo.
Eu sorri de volta, o tilintar das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — ecoando no loft silencioso. Éramos jovens, éramos loucos e, naquele amanhecer de 9 de junho de 1992, éramos verdadeiramente donos do mundo. Debaixo do cheiro de pizza e da ressaca iminente, havia uma chama que nem o sol mais brilhante de Nova Iorque conseguiria apagar. E Patrick Ledger, com seus lábios de pássaro e seu sorriso de rei, era o guardião daquela chama.