Noites que Nunca Têm Fim
Lábios de Pássaro e Outros Crimes Noturnos
O sol de 9 de junho de 1992 não pediu licença ao entrar pelas janelas industriais do loft de Leo no Soho. Ele cortava o ar como uma lâmina, revelando a poeira que dançava sobre os restos da nossa glória: caixas de pizza engorduradas, garrafas vazias de Chardonnay e o cheiro onipresente de Marlboro Vermelho. Eu estava deitada no tapete persa, sentindo o peso do sono e da adrenalina, enquanto o tilintar das minhas pulseiras — aquele *tin-tin-tin* que já era a trilha sonora da minha existência — soava baixo a cada vez que eu respirava fundo.
Ao meu lado, Patrick Ledger parecia uma escultura inacabada de um deus grego moderno. O cabelo ondulado estava uma bagunça gloriosa, e o casaco de couro batido servia de travesseiro. Ele abriu um dos olhos verdes, aquele tom intenso que parecia guardar todos os segredos de Manhattan, e sorriu. Não era um sorriso de bom dia comum; era o sorriso de quem ainda estava sob o efeito da nossa invencibilidade.
— Você ainda está aqui — murmurou ele, a voz rouca, carregada de sono e daquela nostalgia doce que ele sempre carregava. — Pensei que as leopardas desaparecessem com o primeiro raio de luz.
— Eu sou uma espécie rara, Patrick — respondi, sentando-me e sentindo o gosto de chiclete de melancia e nicotina ainda impregnado na boca. — Eu fico para ver o estrago que fizemos.
Ele se sentou, passando as mãos pelo rosto salpicado de sardas.
— O estrago foi lindo. O Leo ainda está vivo?
Olhamos para o outro lado da sala. Leonardo DiCaprio estava atravessado em uma poltrona de veludo, com uma nota de cem dólares colada na testa e um sorriso idiota no rosto, mesmo dormindo. Ele parecia um anjo que tinha acabado de cair de um bar de strip-tease. Johnny Depp, por outro lado, já não estava lá. Ele tinha aquela habilidade de desaparecer como fumaça antes que o mundo real pudesse cobrá-lo por qualquer coisa.
— O Johnny saiu às cinco — disse Patrick, esticando os braços. — Ele disse que precisava encontrar um tatuador ou um filósofo, não lembro bem.
— Ele é intenso — comentei, lembrando do ombro dele onde chorei por cinco minutos na noite anterior, apenas porque a música era bonita demais.
— Todos nós somos, Mariana. É por isso que nos encontramos naquela pista de dança.
Patrick se levantou e estendeu a mão para mim. Quando toquei sua pele, senti aquela voltagem de novo. Ele me puxou para cima e, por um momento, ficamos ali, no meio daquela bagunça de luxo e decadência, apenas nos olhando. Ele tinha um jeito de me observar que fazia eu me sentir como se fosse a única pessoa no mundo que realmente importava, e não apenas uma intrusa com uma identidade falsa.
— Vamos sair daqui — propôs ele, pegando os óculos estilo anos 90. — O Leo vai acordar em uma hora e vai querer levar todo mundo para os Hamptons em um carro roubado ou algo do tipo. Eu quero você só para mim por um tempo.
— Para onde vamos? — perguntei, ajeitando minha blusa verde musgo que agora parecia um pouco menos cintilante sob a luz cruel da manhã.
— Para o meu lugar. Onde as telas de tinta barata nos esperam.
O apartamento de Patrick era exatamente como eu imaginava: um caos organizado de referências art deco, pilhas de roteiros, discos dos Cocteau Twins espalhados pelo chão e o cheiro constante de tinta a óleo e cigarro. Ele me serviu uma cerveja quase quente, a única coisa que tinha na geladeira, e nos sentamos no chão, cercados por telas que ele pintava para passar o tempo entre um teste de elenco e outro.
— Você disse que eu te lembro o Patrick Verona — disse ele, acendendo um cigarro e me observando através da fumaça. — Quem é esse cara?
— Um personagem que ainda não existe, eu acho — brinquei, embora no fundo eu soubesse que ele era a personificação exata daquele charme rebelde. — Alguém seguro, sarcástico, mas com um coração que ele tenta esconder atrás de uma jaqueta de couro. Alguém que cantaria no meio de um estádio só para pedir desculpas.
Patrick soltou uma risada curta e soprou a fumaça para o teto.
— Parece um idiota. Eu gostaria de interpretá-lo.
— Você já o interpreta, Patrick. Todos os dias.
Ele ficou em silêncio por um momento, e o ar entre nós mudou. A energia de "rei do lugar" deu espaço para algo mais cru, mais real. Ele pegou um pincel sujo de tinta preta e se aproximou de mim.
— Posso? — perguntou ele, apontando para o meu braço.
— O que você vai fazer?
— Uma marca. Para que você não esqueça que, debaixo dessa fachada de "menina sem sal", existe uma criatura que me entende.
Ele começou a desenhar linhas abstratas na minha pele, o toque do pincel era frio, mas o olhar dele queimava. O tilintar das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — acompanhava o movimento da minha mão enquanto eu segurava o braço com firmeza.
— Você é um ator promissor, Patrick — sussurrei, observando o foco dele. — O Leo diz que você vai ser gigante. O Johnny diz que você tem o fogo. Você não tem medo de que tudo isso acabe? De que a gente acorde um dia e a discoteca tenha fechado para sempre?
Ele parou de pintar e olhou nos meus olhos mel-esverdeados.
— Todo dia eu tenho medo disso, Mariana. Por isso eu vivo como se o mundo fosse acabar no próximo refrão de *Sweet Dreams*. As pessoas como nós... nós não fomos feitas para o "felizes para sempre". Fomos feitas para o "agora ou nunca".
— Isso soa perigoso.
— É perigosíssimo — ele sorriu, e seus lábios de pássaro se aproximaram dos meus. — Mas você não disse que gostava de mostrar as unhas?
O beijo dele tinha gosto de aventura e de algo que eu sabia que me destruiria se eu deixasse. Era uma mistura de chardonnay e tequila, doce e pesado ao mesmo tempo. Naquele apartamento sujo de tinta, com o barulho de Nova Iorque lá fora tentando nos lembrar de que tínhamos responsabilidades, éramos apenas dois adolescentes brincando de sermos donos do destino.
— Sabe o que o Leo me disse ontem à noite? — perguntou ele, afastando-se apenas um centímetro, a respiração ainda quente contra o meu rosto.
— O que aquele louco disse?
— Que você é a primeira pessoa que não tenta tirar fotos dele ou pedir um autógrafo. Que você olha para a Pussy Posse e só vê um bando de garotos perdidos.
— E eu estou errada? — provoquei.
— Não — ele riu, encostando a testa na minha. — Você é a única pessoa que está certa. E é por isso que eles te amam. E é por isso que eu...
Ele não terminou a frase. O telefone dele começou a tocar freneticamente em cima de uma pilha de livros. Patrick soltou um suspiro dramático e atendeu.
— Fala, Leo. Sim, eu estou com ela. Não, não vamos para os Hamptons agora. O quê? O Johnny se meteu em uma briga no Chelsea? Puta merda... estamos indo.
Ele desligou o telefone e me olhou com uma expressão de "eu avisei".
— A fera chamou — disse ele, levantando-se e pegando as chaves. — O Johnny precisa de nós. Parece que ele tentou explicar existencialismo para um segurança de boate e as coisas não terminaram bem.
— Mais uma noite de caos? — perguntei, levantando-me e sentindo minhas pulseiras tinirem.
— É o que fazemos de melhor, não é, honey?
Saímos do apartamento e o calor de Nova Iorque nos atingiu como um soco. Entramos no carro de Patrick, um conversível que parecia ter visto dias melhores, e ele acelerou pelas ruas como se estivéssemos em uma cena de perseguição de um filme de Scorsese. O vento bagunçava meus cabelos loiros dourados e eu me sentia indestrutível de novo.
Encontramos Leo e Johnny em um café de esquina no Chelsea. Johnny estava com um corte no lábio, mas parecia mais entediado do que ferido, enquanto Leo gesticulava loucamente para o garçom, tentando convencê-lo de que eles eram diplomatas suecos em missão secreta.
— Mariana! Patrick! — gritou Leo, jogando os braços para o alto. — Chegaram os reforços! Johnny, diga a eles que o cara era um neandertal.
— Ele não entendia a estética do silêncio, Mariana — disse Johnny, pegando um cigarro da mão de Patrick com a naturalidade de quem compartilha a alma. — Eu tentei explicar, mas ele preferiu usar os punhos. É a decadência da civilização ocidental.
— Você é um idiota, Johnny — Patrick riu, sentando-se à mesa e me puxando para o seu colo. — Mas é o nosso idiota.
Passamos a tarde ali, entre risadas altas e planos inconsequentes. O mundo nos olhava — ou melhor, olhava para eles — com uma mistura de adoração e inveja. Mas ali, naquele círculo fechado, eu não era a menina comum. Eu era a Mariana, a leopardo, a cúmplice.
— Ei, Mariana — disse Leo, rasgando uma nota de dez dólares e transformando-a em um guardanapo improvisado. — O que você vai ser quando crescer?
— Eu não pretendo crescer, Leo — respondi, com a audácia que só os 18 anos permitem. — Pretendo ser eterna.
Patrick me apertou um pouco mais forte contra ele, e eu senti o cheiro de seu perfume misturado ao sol da tarde.
— Essa é a minha garota — murmurou ele no meu ouvido.
A noite começou a cair novamente, e com ela, o nosso verdadeiro eu ressurgindo. O entardecer era o nosso sinal. As luzes de neon de Nova Iorque começaram a piscar, convidando-nos para a próxima rodada de decisões sagazes e juras de amor que seriam esquecidas — ou imortalizadas — ao amanhecer.
— Próxima parada: The Viper Room? — sugeriu Johnny, levantando-se com seu jeito de pirata moderno.
— Vamos para a 89 Street de novo — disse Patrick, olhando para mim. — Quero ouvir aquela música da Corona de novo. Quero ver a Mariana dançar como se estivesse caçando.
— Eu sempre estou caçando, Patrick — respondi, levantando-me e sentindo o tilintar das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — ecoar como um aviso.
Enquanto caminhávamos em direção ao carro, Patrick me parou por um segundo, longe dos olhos de Leo e Johnny.
— Você sabe que isso não vai durar, não sabe? — perguntou ele, a voz subitamente séria. — Hollywood vai me levar, a vida vai acontecer. O Leo vai ganhar um Oscar ou entrar em um colapso nervoso, e o Johnny... bem, o Johnny vai ser o Johnny.
— Eu sei — respondi, sentindo um aperto no peito que eu tentei ignorar.
— Mas hoje — ele continuou, pegando minha mão e beijando a estrela que tinha desenhado no meu pulso mais cedo —, hoje nós somos os donos dessa porra toda. E ninguém pode tirar isso de nós.
— Ninguém — concordei.
Entramos no carro e a música explodiu nos alto-falantes. Éramos jovens, éramos ardilosos e éramos, acima de tudo, livres. Patrick Ledger dirigia em direção ao neon, e eu, Mariana Watts, estava pronta para mostrar as unhas para qualquer um que tentasse nos acordar desse sonho.
As noites de 1992 eram traiçoeiras, sim. Elas nos prometiam a eternidade e nos entregavam ressacas de pizza de 99 centavos. Mas enquanto eu estivesse com eles, enquanto o cheiro de nicotina e futurismo de Patrick estivesse ao meu alcance, eu aceitaria o trato.
— What’s your name, honey? — perguntou Patrick, imitando um turista qualquer, enquanto parávamos no sinal vermelho.
— Meu nome é Problema — respondi, sorrindo com o gosto de melancia na boca.
— Prazer, Problema. Eu sou o seu destino.
E rimos, rimos tanto que o som abafou o barulho da cidade. Éramos feras, éramos adolescentes, éramos inegociáveis. E a noite estava apenas começando.