Noites que Nunca Têm Fim
Como começar a narrar isso? Bem... Eu me chamo Mariana, tenho 18 anos e cabelos lisos e longos de tom loiro escuro dourado intenso, olhos mel-esverdeados e estatura magra. E o que isso acrescenta nesta história? Nada, eu acho. Mas gostaria de narrar meus fortes traços de Alaska Young. Eu conheci ele, Patrick, 20 anos, com seus cabelos ondulados e castanho claro quase loiros caindo por sobre os olhos verdes intensos e seu rosto salpicado de sardas discretas. Perdi as contas de quantas vezes traguei seu cheiro de perfume masculino, nicotina e futurismo meio art deco. Em contrapartida, eu, cheiro de perfume doce, chiclete de melancia e discoteca. Tudo ocorre em 1992, em uma discoteca de Nova Iorque, ao som de Swert Dreams - La bouche, minha música favorita. Eu estou com os meus sempre cabelos indomáveis e os olhos maquiados com sombra preta, uma referência nata de quem eu sou: uma jovem leopardo pronta para mostrar as unhas; com argolas e pulseiras cintilantes nos pulsos fazendo “tin-tin-tin” cada vez que dou um passo, tentando transparecer uma imagem de que pertenço à noite e àqueles lugares. Patrick com seu casaco de couro batido e cigarros Malboro Vermelho nos bolsos, seus óculos estilo 90s e sorriso perfeitamente branco como se estivessem tentando dizer “eu sou o rei desse lugar”. As noites sendo uma tigresa noturna parecem nunca ter fim. Essas noites são traiçoeiras pois nos soldam com pensamentos de que seremos eternamente jovens sem responsabilidades, mas no fim a nossa energia e vontade de viver nunca acabam e somos indestrutíveis. A cada amanhecer, por debaixo de roupas gomadas e falas polidas nos ambientes que somos obrigados a frequentar perante a sociedade, há feras dentro de nós que a anseiam pelo entardecer e pela luz das estrelas para que possamos ser nós mesmos novamente, ao som da discoteca, do badalar do relógio, regidos pelo gosto do álcool e decisões sagazes. Patrick tem uma energia de nostalgia de algo doce como chardonnay mas pesado como tequila. Ele é um ator muito promissor de Hollywood mas ainda não tão famoso, ele é amigo íntimo do círculo de Leonardo DiCaprio e de Jhonny Deep, o que significa que aqueles lugares, que eu rotineiramente frequentava com identidades falsas, eram muito exclusivos para pessoas como eu, digo, pessoas que tem uma vida normal, com trabalho comum, vida comum, amigos comuns.. mas por detrás dessa menina comum e até dita "sem sal", existe uma criatura da noite que espreita o pôr do sol na espera de comparecer aos clubes mais polêmicos de Nova Iorque, sem julgamentos, sem máscaras, sem "faça isso ou aquilo", mas apenas risos e "what's your name, honey?". Eu sou jovem, inconsequente, respondona, doce, ardilosa. Ele é juvenil mas maduro, seguro e desafiador, sarcástico de um sorriso lindo e engraçado até demais com quem quer, ele me lembra Patrick Verona aliás. Nessa noite, e todas as que vierem dessa boate suja, seremos eternos adolescentes brincando de sermos donos do mundo. 8 de junho de 1992, 1:14 da manhã. Eu estava em mais uma noite caótica, estava na 89 Street Club como intrusa, claro. Eu estava dançando na pista de dança "Rhytm of The Night - Corona". Eu vestia calça jeans de cintura baixa e uma blusa verde musgo cintilante que dava abertura nas costas, com uma boina que estava na moda, junto de um clássico piercing no umbigo, olhos enuviados com sombra negra e pulseiras "tin-tin-tin". E dentre aquelas 1.500 pessoas dançando e conversando freneticamente, no meio de tanto caos e música alta, eu o vi pela primeira vez, entre as luzes e os cabelos volumosos, e nós nos aproximamos enquanto dançamos, como duas almas gêmeas que finalmente se encontraram, como em China Girl 1987, como se o mundo nos pertencesse, como se fôssemos só nós. Bom, e ali começa nossa história entre telas de tinta baratas para passar o tempo, cerveja quase quente e caixas de pizza de 0,99 centavos, e não se esqueça dos cigarros e das juras de amor ao alvorecer, essas são inesquecíveis. Eu nunca pensei dividir as caóticas noites com a Pussy Posse. Jhonny se tornou meu amigo íntimo, eu não sei o que eu faria se não tivesse o ombro dele para choramingar um pouco quando preciso ou de um trago no cigarro dele quando necessito espairecer. DiCaprio é amigo de todo mundo. Ele rasga notas de 100 dólares como se fosse papel higiênico e q atrai confusão igual a um ímã, mas é leal a quem ama, ele é um irmão pra mim. A Patrick, bom... Não sei descrever a intensidade dos acontecimentos, das noitadas, dos amanheceres no apartamento do Leo em que acordamos e pensamos "PUTA MERDA, O QUE HOUVE ESSA NOITE?!" debaixo de vômito e cheiro de pizza... só sei que é forte, é intragável, inegociável, é como se... nos conhecêssemos de outras vidas, outros universos. Me refiro aos outros rapazes também.. são como meus irmãos, eu não sei o que eu faria se não os tivesse conhecido naquela discoteca, mas Patrick.. Ah, Patrick. Seus lábios de pássaro sempre trazem boas notícias. (Referência de Cherry Coloured-Funk de Cocoteau Twins)