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Noites que Nunca Têm Fim

Neblina no Canal e o Eco das Pulseiras

A luz de Veneza no outono de 1994 era diferente do brilho febril de Nova Iorque. Era uma luz densa, que parecia carregar o peso de séculos de segredos e águas paradas. Eu estava sentada na mureta de pedra da sacada do hotel, observando as gôndolas deslizarem como sombras silenciosas lá embaixo. No meu colo, o roteiro de *O Silêncio das Águas* estava marcado com anotações em vermelho, mas minha mente estava a quilômetros dali, em um loft bagunçado no Soho, onde o cheiro de tinta a óleo e cigarros Malboro era a única atmosfera que eu realmente chamava de lar.

O filme estava quase pronto. Kathryn Bigelow havia extraído de mim algo que eu nem sabia que possuía: uma vulnerabilidade cortante que, diante das câmeras, se transformava em uma força indomável. Mas o preço era a convivência diária com Tom Cruise. Tom era um enigma de eficiência e carisma, uma máquina de atuação que nunca saía do trilho. Ele me observava com uma curiosidade quase científica, como se estivesse tentando entender como uma "menina comum" de Nova Iorque conseguia manter o equilíbrio naquele mar de tubarões.

— Você está muito pensativa hoje, Mariana — disse uma voz às minhas costas.

Eu não precisei me virar para saber que era ele. O som dos seus passos era firme, decidido. Tom parou ao meu lado, apoiando os braços no parapeito. Ele vestia um terno escuro que parecia custar mais do que a minha educação inteira.

— Estou apenas pensando na última cena — menti, fechando o roteiro. — Elena precisa de mais... fúria. Ela está sendo sufocada pelo Julian.

— Elena não está sendo sufocada — Tom corrigiu, com aquele sorriso de marfim que nunca alcançava totalmente os olhos. — Ela está sendo moldada. Julian quer que ela veja o mundo como ele é: um palco onde apenas os fortes permanecem sob o holofote.

— É uma visão bem cínica, Tom.

— É a visão da realidade, honey — ele usou o apelido que Patrick costumava usar, e aquilo me atingiu como um soco no estômago. — Você tem talento. Mas esse seu círculo... o Ledger, o DiCaprio... eles são como crianças brincando com fogo em um depósito de pólvora. Eles vão se queimar, e vão levar você junto.

— Pelo menos eles sentem o calor — retruquei, levantando-me e sentindo minhas pulseiras de metal fazerem o familiar "tin-tin-tin". — Eles são reais. Eles não vivem em um roteiro planejado vinte e quatro horas por dia.

Tom soltou uma risada curta, quase admirada.

— Você é leal. Eu respeito isso. Mas a lealdade é uma moeda que desvaloriza rápido nesta indústria.

Saí da sacada sem me despedir. Eu precisava de ar. Eu precisava de Patrick.

Naquela noite, o set foi montado em uma praça isolada, perto da Ponte dos Suspiros. A névoa artificial se misturava à neblina real de Veneza, criando um cenário fantasmagórico. Seria a gravação da cena do beijo de Judas — o momento em que Elena percebe que Julian a traiu para manter seu status.

Eu estava exausta. O isolamento na Itália e as mensagens curtas de Patrick — que estava gravando em Los Angeles e parecia cada vez mais distante por causa do fuso horário — estavam me desgastando.

— Ação! — gritou Kathryn.

Tom se aproximou. Na luz azulada da cena, ele parecia quase angelical, se não fosse pelo brilho predatório nos olhos. Ele segurou meu rosto com as mãos enluvadas.

— Eu fiz isso por nós, Elena — sussurrou ele, a voz carregada de uma sinceridade assustadora. — Para que ninguém pudesse nos tocar.

— Você destruiu a única coisa que era verdade — eu respondi, e as lágrimas que brotaram eram metade personagem, metade saudade de casa. — Você me vendeu por um aplauso.

Ele me beijou. Foi um beijo técnico, mas carregado de uma pressão que parecia querer reivindicar algo de mim. Por um segundo, o mundo girou. Eu me senti perdida naquelas telas de tinta barata que mencionei uma vez, onde as cores se borram até você não saber mais o que é o desenho original.

— Corte! Perfeito! — a voz de Kathryn ecoou, quebrando o feitiço.

Eu me afastei de Tom, limpando a boca com as costas da mão. Ele me olhou com um triunfo indisfarçado, como se tivesse acabado de ganhar uma aposta silenciosa.

— Você sentiu isso, não foi? — perguntou ele, em um tom que só eu podia ouvir. — A eletricidade do poder. É muito melhor do que a nostalgia barata de Nova Iorque.

Eu não respondi. Corri para o meu camarim improvisado em uma tenda e desabei na cadeira. Eu me sentia suja, não pelo beijo em si, mas pela sensação de que estava perdendo minha essência de leopardo para me tornar apenas mais uma peça no tabuleiro de Tom Cruise.

Foi então que o telefone da tenda tocou. Era uma ligação internacional.

— Mari? — a voz de Patrick atravessou o oceano, rouca, cansada, mas tão familiar que meu coração quase parou.

— Pat... — eu sussurrei, tentando segurar o choro. — Eu não aguento mais este lugar. O Tom... ele é como um buraco negro. Ele consome tudo ao redor.

— Escuta — disse ele, e eu podia ouvir o som de um isqueiro riscando do outro lado. Ele estava fumando um Malboro Vermelho, eu tinha certeza. — Eu acabei de ver as prévias que a Kathryn mandou para o estúdio. Você está incrível, Mariana. Você é uma fera selvagem naquela tela. Não deixe ele domesticar você.

— Eu sinto que estou sumindo, Pat. Eu não sou mais a menina da 89 Street. Eu sou a "Elena" o dia inteiro.

— Você é a minha Mariana — ele afirmou com uma firmeza que me deu um novo fôlego. — A menina com cheiro de chiclete de melancia e alma de discoteca. O Tom pode ter o filme, ele pode ter o Oscar, ele pode ter o mundo inteiro... mas ele nunca vai ter o que nós temos. Ele nunca vai saber o que é acordar debaixo de cheiro de pizza e vômito e ainda assim se sentir o rei do universo porque você está lá.

— Eu sinto tanto a sua falta.

— Eu vou te buscar, honey. O filme acaba em três dias. Eu vou estar no aeroporto JFK com o Leo e o Johnny. Vamos fazer a maior festa que aquela cidade já viu. Vamos queimar esse vestido de veludo e voltar para o jeans de cintura baixa.

Desliguei o telefone sentindo uma força renovada. Eu não era uma peça no tabuleiro de Tom. Eu era a intrusa, a infiltrada, a fera que estava apenas de passagem pelo Olimpo para pegar o que queria e voltar para as sombras.

Os últimos dias em Veneza foram um borrão. Tom tentou me convidar para um jantar de encerramento privado em seu palácio alugado, mas eu recusei com um sorriso que Patrick teria orgulho de ver.

— Sinto muito, Tom — eu disse, enquanto guardava minhas pulseiras na mala. — Eu tenho um compromisso com o meu passado.

— O passado é uma âncora, Mariana — ele advertiu, observando-me da porta do camarim.

— Para alguns, é uma âncora — respondi, fechando o zíper. — Para mim, é o motor.

O voo de volta para Nova Iorque pareceu durar uma eternidade. Quando finalmente pousei no JFK e atravessei o portão de desembarque, o mundo voltou a ter cores reais.

Lá estavam eles.

Leo estava usando um boné de beisebol e óculos escuros, tentando (e falhando) passar despercebido enquanto segurava um cartaz escrito "BEM-VINDA AO CAOS, INGRID". Johnny estava encostado em uma pilastra, com seu chapéu de feltro e um cigarro apagado no canto da boca, acenando de forma melancólica e doce.

E, no centro de tudo, estava Patrick.

Ele havia deixado o cabelo crescer um pouco, os cachos ondulados castanho-claros caindo sobre os olhos verdes que brilharam ao me ver. Ele vestia seu casaco de couro batido e exalava aquela energia de nostalgia e chardonnay que eu tanto amava.

Eu corri. Ignorei as malas, ignorei as poucas pessoas que começavam a reconhecer o "Trio de Ouro" e me joguei nos braços dele.

— Você voltou — sussurrou ele no meu ouvido, enterrando o rosto no meu pescoço. — Você ainda tem cheiro de Veneza, mas o seu coração ainda bate no ritmo da discoteca.

— Eu nunca saí de verdade, Pat — respondi, apertando-o com força.

— Ei, pombinhos! — gritou Leo, aproximando-se e nos envolvendo em um abraço coletivo desajeitado. — Chega de drama de Hollywood. O Johnny comprou três caixas de pizza e o champanhe está esquentando no Cadillac. Temos uma boate no Queens para invadir e identidades falsas para testar!

— Senti falta de vocês, seus idiotas — eu disse, rindo entre as lágrimas.

Johnny apenas pegou minha mão e a beijou com a cavalaria de um pirata.

— O mundo sentiu sua falta, pequena fera. Mas nós sentimos mais.

Entramos no carro de Leo, o som do rádio explodindo com "Sweet Dreams" do La Bouche. Enquanto atravessávamos a ponte em direção a Manhattan, eu olhei para o meu pulso. As pulseiras faziam "tin-tin-tin" a cada solavanco do carro.

Eu olhei para Patrick, que estava dirigindo com uma mão no volante e a outra entrelaçada na minha. Ele parecia um rei, mas não o rei de porcelana como Tom Cruise. Ele era o rei das ruas, das telas de tinta barata e das juras de amor ao alvorecer.

— O Tom Cruise disse que eu deveria deixar o passado para trás — comentei, observando as luzes da cidade começarem a brilhar no horizonte.

Patrick deu aquele sorriso sarcástico e lindo, o sorriso de Patrick Verona.

— O Tom Cruise não sabe de nada, honey. O passado é o que nos faz indestrutíveis. Ele vive para o futuro, para a próxima manchete. Nós vivemos para o agora. E agora... — ele parou o carro em frente à nossa velha discoteca — ...agora é hora de sermos eternos de novo.

Saímos do carro como uma explosão de juventude e inconsequência. A sombra negra nos meus olhos estava de volta, o perfume doce de chiclete de melancia mascarava o cansaço da viagem, e a fera dentro de mim rugia de satisfação.

Entramos na boate sem pagar, passando pelos seguranças que já nos conheciam como as lendas urbanas que éramos. No meio da pista de dança, cercada por 1.500 pessoas, eu fechei os olhos e deixei a música me consumir.

Patrick me puxou para perto, seus lábios de pássaro roçando os meus.

— What's your name, honey? — perguntou ele, revivendo o nosso primeiro encontro.

— Mariana — respondi, sorrindo contra a sua boca. — Mas hoje à noite... hoje à noite eu sou apenas sua.

Dançamos até o amanhecer, ignorando as responsabilidades, os contratos de Hollywood e as sombras do Olimpo. Éramos jovens, éramos ardilosos e, acima de tudo, éramos livres. Enquanto o sol começava a nascer sobre os prédios de Nova Iorque, pintando o céu de um tom de pêssego e dourado, eu soube que nada poderia nos quebrar.

Nós éramos as feras da noite, regidos pelo gosto do álcool e pelas decisões sagazes. E enquanto as pulseiras no meu pulso continuassem a fazer "tin-tin-tin", eu saberia que pertencia exatamente àquele lugar, ao lado daqueles rapazes, vivendo uma vida que nenhuma tela de cinema jamais seria capaz de capturar em toda a sua gloriosa e caótica verdade.