Noites que Nunca Têm Fim
Ouro Líquido, Veneza e o Beijo de Judas
O final de 1993 chegou com um sopro de mudança que parecia esculpido pelo próprio vento de Manhattan. Patrick, em um de seus surtos de nostalgia ou talvez por cansaço de carregar o peso de um poeta romântico nos ombros, decidiu passar a tesoura nos cachos longos. Ele voltou a ser o Patrick que eu conheci naquela boate suja: uma bagunça organizada de fios castanho-claros, quase loiros, caindo de forma rebelde sobre os olhos verdes que ainda me desarmavam com um único olhar. Eu, por outro lado, deixei meus cabelos crescerem até a cintura, um loiro dourado intenso que brilhava sob as luzes estroboscópicas como ouro líquido.
Nossas noites continuavam sendo um mosaico de caos e sofisticação. Transitávamos entre clubes underground no Lower East Side, onde o chão era pegajoso e a música era um soco no estômago, até festas de gala na Quinta Avenida, onde o champanhe custava mais do que o aluguel do meu antigo estúdio. Minhas roupas tornaram-se meu manifesto. Eu usava vestidos de cetim com alças finas, gargantilhas de veludo e botas pesadas, uma mistura de elegância e rebeldia que começou a atrair os flashes dos paparazzi. Eu aparecia nas colunas de moda como a "it girl" anônima da Pussy Posse, uma inspiração grunge que os editores de revistas tentavam decifrar.
Patrick era meu porto seguro e meu maior incentivador. Ele me colocava em um pedestal, mas suas mãos estavam sempre prontas para me puxar para trás sempre que as garras de Hollywood tentavam se cravar fundo demais. Ele conhecia o monstro por dentro; ele sabia que o glamour era apenas a pele de um predador faminto.
— Você brilha mais que qualquer estrela aqui, Mari — dizia ele, enquanto me observava ajustar o batom marrom no espelho de algum banheiro de clube VIP —, mas lembre-se: essas luzes são feitas para cegar, não para iluminar o caminho.
Tom Cruise continuava sendo uma presença constante e enigmática em nosso círculo. Cruzamos com ele em eventos de caridade e estreias de filmes. Ele sempre nos cumprimentava com aquele sorriso de um milhão de dólares, sem demonstrar qualquer ressentimento pela forma como os rapazes o haviam "marcado território" no Tatou. Na verdade, ele parecia se divertir com a nossa dinâmica. Seu interesse em mim havia se transformado em algo mais silencioso e, por isso mesmo, mais perigoso: ele me olhava como se eu fosse uma Afrodite que ele finalmente havia descoberto em meio às ruínas da modernidade.
— Ela tem o fogo, Patrick — Tom disse uma vez, durante um coquetel na cobertura de um hotel. — Não tente apagar isso apenas para mantê-la segura. O mundo precisa ver o incêndio.
Patrick apenas apertou minha mão com mais força, um aviso mudo de que o incêndio era nosso, e de mais ninguém.
Tudo mudou em uma première de inverno. Eu fui apenas como "a companhia", vestindo um casaco de pele sintética branca sobre um vestido preto minimalista. O evento estava lotado de grandes nomes, mas meus olhos captaram uma mulher pequena, de olhar afiado e postura de comando, observando-me do outro lado do salão. Era Kathryn Bigelow, a diretora que estava redefinindo o cinema de ação e drama.
Ela se aproximou de nós com a naturalidade de quem sabe exatamente o que quer.
— Você — disse ela, apontando para mim, ignorando Leo e Johnny que estavam ao meu lado. — Você tem o rosto que eu procuro há meses. Há uma febre nos seus olhos, uma mistura de inocência e perigo que não se ensina em escolas de atuação.
Eu congelei. Patrick deu um passo à frente, mas Kathryn levantou a mão, silenciando-o.
— Eu estou preparando um filme. Chama-se *O Silêncio das Águas*. É sobre uma adolescente febril, inconsequente, que se vê presa em um jogo psicológico com seu tutor, um homem controlado e obsessivo. Vamos filmar em Veneza. Três meses.
Olhei para Patrick, buscando uma âncora. Ele parecia em choque, mas havia um brilho de orgulho misturado ao medo em seus olhos.
— Eu não sou atriz, Sra. Bigelow — consegui dizer, a voz falhando levemente.
— Você atua todas as noites, querida — Kathryn respondeu com um sorriso de canto. — Eu vi você nas manchetes. Eu vi como você se move. Você é a personagem. Faça um teste amanhã. Se passar, o papel é seu.
Passei a noite em claro. A ideia de seguir a atuação, algo que eu sempre vi como o território sagrado de Patrick e dos rapazes, agora batia à minha porta. Eu queria ser mais do que a "musa" ou a "inspiração". Eu queria o fogo que Tom Cruise mencionara.
O teste foi um borrão de adrenalina. E, para a surpresa de todos — inclusive a minha —, eu consegui. Mas a verdadeira bomba caiu durante a reunião de elenco, dias depois.
— Estou feliz em anunciar — disse Kathryn, enquanto estávamos todos reunidos em um escritório luxuoso — que o papel do tutor, o par romântico e antagonista de Mariana, será interpretado por Tom Cruise.
O silêncio na sala foi ensurdecedor. Patrick, que estava sentado ao meu lado, ficou tão pálido que suas sardas pareceram saltar da pele. Tom, sentado na cabeceira da mesa, inclinou a cabeça para mim e sorriu. Não era o sorriso de marfim de antes; era o sorriso de quem acabara de ganhar o jogo.
— Parece que vamos passar um tempo juntos na Itália, Mariana — disse Tom, sua voz suave e predatória. — Vai ser um prazer ver você mostrar as unhas na frente das câmeras.
A viagem para Veneza foi marcada por uma tensão latente. Patrick não podia ir comigo; ele tinha seus próprios compromissos contratuais em Los Angeles. Pela primeira vez desde 1992, estaríamos separados por um oceano, e eu estaria à mercê daquele mundo que ele tanto tentara me proteger.
— Tome cuidado, Mari — disse ele no aeroporto, seus olhos verdes nublados de preocupação. — O Tom... ele não joga para perder. E ele sabe que, no cinema, as linhas entre o que é real e o que é cena costumam desaparecer.
— Eu sou uma leopardo, lembra? — respondi, tentando soar mais corajosa do que me sentia. — Eu sei me cuidar.
— Eu sei que sabe. É por isso que estou com medo.
Veneza era um sonho febril de canais escuros, névoa e arquitetura gótica. O set de filmagem era em um palácio antigo que parecia respirar história e decadência. Minha personagem, Elena, era uma jovem que desafiava a autoridade de seu tutor, Julian, interpretado por Tom.
As primeiras semanas foram exaustivas. Tom era um profissional impecável, mas sua intensidade era sufocante. Fora das câmeras, ele era o cavalheiro perfeito, enviando flores para o meu camarim e convidando-me para jantares privados para "discutirmos o arco dos personagens". Eu recusava todos, mantendo a lealdade a Patrick como um escudo.
No entanto, em frente às lentes, tudo mudava.
— A cena 42 — anunciou Kathryn. — O primeiro confronto físico. Elena tenta fugir, Julian a impede. Ação!
Eu corri pelo salão de mármore, o som das minhas pulseiras — que Kathryn insistira que eu usasse no filme como marca da personagem — fazendo aquele familiar *tin-tin-tin*. Tom me alcançou, segurando-me pelo braço com uma força que não era técnica. Ele me girou, prensando-me contra uma coluna fria.
— Você acha que pode escapar de mim, Elena? — sussurrou ele, o rosto a centímetros do meu. — Você é minha criação. Minha obra-prima.
— Eu não sou nada sua! — eu gritei, sentindo a raiva real borbulhar. — Eu pertenço à noite, não a você!
Tom parou. Ele não saiu da personagem, mas seus olhos brilharam com algo que não estava no roteiro. Ele se inclinou e, em vez de me soltar como previsto, ele me beijou.
Não era um beijo de cinema. Era um beijo de conquista, carregado com toda a arrogância de quem mandava no Olimpo. Por um segundo, eu congelei. O gosto era de perfeição e controle, o oposto absoluto do gosto de aventura e liberdade que Patrick tinha.
— Corte! — gritou Kathryn, parecendo extasiada. — Isso foi... inesperado, Tom. Mas funcionou. Mariana, sua reação de choque foi perfeita.
Eu empurrei Tom, limpando a boca com as costas da mão. Meu coração martelava contra as costelas como um animal enjaulado.
— Isso não estava no roteiro — eu disse, a voz trêmula de fúria.
— Às vezes, as melhores cenas são as que não planejamos, Mariana — Tom respondeu, ajeitando o terno com uma calma irritante. — Você não sentiu? A eletricidade? Patrick é um bom ator, mas ele é um garoto. Aqui, neste filme, você precisa de um homem que possa acompanhar sua intensidade.
— Você é um doente — eu sibiluei, saindo do set sob o olhar curioso da equipe.
Fui para o meu camarim e liguei para Patrick. A conexão estava ruim, a voz dele parecia vir de outro planeta.
— Mari? Está tudo bem? Como foi o dia? — perguntou ele, e o som da sua voz quase me fez chorar.
— Foi difícil, Pat. O Tom... ele está tentando me desestabilizar. Ele me beijou em uma cena, sem aviso.
Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Eu podia ouvir a respiração de Patrick, rápida e pesada.
— Ele o quê? Mariana, eu vou para Veneza. Agora. Eu não me importo com os contratos.
— Não, Pat! — eu disse, tentando manter o controle. — Se você vier, ele ganha. Ele quer causar um escândalo. Ele quer provar que eu sou frágil e que você é impulsivo. Eu vou terminar este filme. Eu vou mostrar para ele que ele pode ser o rei de Hollywood, mas ele não manda em mim.
— Prometa-me que não vai deixar ele entrar na sua cabeça — ele pediu, a voz carregada de uma dor que partiu meu coração.
— Eu prometo.
Mas as semanas seguintes foram um teste psicológico. Tom era sutil. Ele não me atacava; ele me envolvia. Ele elogiava minha atuação, dizia que eu tinha um futuro brilhante, que ele poderia me colocar em qualquer filme que eu quisesse. Ele semeava a dúvida sobre minha vida em Nova Iorque, sobre o caos da Pussy Posse, sobre a efemeridade da juventude de Patrick.
— Você vai ser grande, Mariana — dizia ele, enquanto tomávamos café no intervalo das gravações. — Mas para ser grande, você precisa deixar as coisas pequenas para trás. Patrick Ledger é uma fase. Eu sou o destino.
— Você é uma ilusão, Tom — eu respondia, mas a voz já não era tão firme.
A cena final do filme seria gravada em uma gôndola, à noite, sob a luz da lua de Veneza. Elena e Julian teriam seu último adeus. O roteiro pedia um beijo de despedida, um reconhecimento de que, apesar de tudo, havia uma ligação entre eles.
Eu estava exausta. A pressão de atuar, a saudade de Patrick e o jogo mental de Tom tinham me deixado no limite. Eu usava um vestido de veludo azul-marinho, o mesmo tom da noite veneziana.
— Ação! — Kathryn comandou.
Tom se aproximou de mim na gôndola oscilante. Ele parecia mais humano naquela luz, menos o astro intocável e mais o personagem que sofria por perder sua musa.
— Eu te amei do meu jeito, Elena — disse ele, a voz carregada de uma emoção que parecia real demais. — Eu queria te dar o mundo.
— O seu mundo é uma prisão de ouro, Julian — eu respondi, as lágrimas — reais e de personagem — escorrendo pelo rosto. — Eu prefiro a liberdade da cinza.
Ele me puxou para o beijo final. Desta vez, eu não lutei. Eu deixei a cena acontecer, deixei que a febre da personagem me consumisse. Por um momento, em meio ao silêncio dos canais de Veneza, eu me perdi. Eu não sabia onde terminava a Mariana e onde começava a Elena. O beijo de Tom era um convite para o Olimpo, para a fama eterna, para uma vida onde eu nunca mais seria "comum".
— Corte! Está feito! Terminou! — Kathryn gritou, e a equipe começou a aplaudir.
Tom se afastou, mas manteve as mãos nos meus ombros. Ele me olhou com um triunfo indisfarçável.
— Você sentiu, não sentiu? — sussurrou ele. — A escolha está feita, Mariana. Você agora pertence a este mundo.
Eu o olhei, o coração ainda disparado. O silêncio de Veneza parecia zombar de mim. Eu tinha acabado de fazer o filme que me tornaria uma estrela, mas a que custo?
Saí da gôndola e caminhei em direção ao hotel, ignorando os chamados para a festa de encerramento. Eu precisava de ar. Eu precisava do asfalto sujo de Nova Iorque. Eu precisava do cheiro de nicotina e futurismo de Patrick.
Quando cheguei ao hotel, havia um buquê de rosas vermelhas no meu quarto. Não eram de Tom. O cartão dizia apenas: *"O voo 402 sai às seis da manhã. Estarei te esperando no portão. Volte para casa, minha leopardo. — P."*
Senti um soluço de alívio escapar. Patrick sabia. Ele sempre soube.
Naquela noite, eu não fui à festa de gala. Eu não celebrei com o Sol de Hollywood. Eu fiz minhas malas, deixei o vestido de seda para trás e vesti minha jaqueta de couro surrada e minhas pulseiras de metal.
No aeroporto, enquanto o sol nascia sobre a Itália, eu vi Patrick. Ele estava encostado em uma coluna, com os cabelos loiros bagunçados sobre os olhos e aquele sorriso de pássaro que era a única coisa real em um mundo de atuações.
Eu corri para ele, ignorando os flashes de alguns fotógrafos que já começavam a nos cercar. Ele me abraçou com tanta força que senti que minhas costelas iriam quebrar, e eu nunca estive tão feliz.
— Você conseguiu — sussurrou ele no meu ouvido. — Você enfrentou o monstro e voltou.
— Eu quase me perdi, Pat — confessei, chorando no seu ombro. — Ele é... ele é tudo o que você disse.
— Eu sei. Mas você está aqui agora. E o filme?
— O filme vai ser um sucesso — eu disse, afastando-me para olhá-lo. — Mas eu descobri uma coisa, Patrick. Eu posso ser Elena, eu posso ser a musa de Tom Cruise, eu posso ser a próxima grande coisa de Hollywood... mas eu só sou indestrutível quando estou com você.
Ele sorriu, e naquele momento, eu soube que Tom Cruise podia ter o Olimpo, Kathryn Bigelow podia ter seu filme premiado e o mundo podia ter suas manchetes. Eu tinha o caos, eu tinha a lealdade e eu tinha o homem que me amava sem precisar de um roteiro.
— Vamos para casa, honey — disse Patrick, pegando minha mala. — O Leo comprou uma caixa de pizza de 0,99 centavos e o Johnny disse que a cerveja está quase quente. Exatamente do jeito que você gosta.
— What’s your name, honey? — perguntei, enquanto caminhávamos em direção ao embarque, o tilintar das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — ecoando pelo terminal como um hino de liberdade.
— Meu nome é Aquele que nunca vai te deixar ir — ele respondeu.
E, enquanto o avião subia em direção ao céu de 1994, eu soube que a nossa história não era sobre o brilho das telas, mas sobre a verdade que encontrávamos no escuro das discotecas e no brilho das estrelas de tinta barata. Éramos feras, éramos amantes, e éramos, finalmente e para sempre, donos do nosso próprio destino.