Nossa garota
O Berço de Veludo e Ferro
A noite em Derry sempre trazia uma atmosfera diferente, como se a própria cidade respirasse mais devagar, escondendo seus dentes afiados sob o manto da escuridão. Dentro da casa dos Bowers, o tempo parecia ter dobrado sobre si mesmo. Henry voltou do quarto do pai carregando uma caixa de papelão pesada, cujas bordas estavam gastas pelo tempo. Ele a colocou sobre a mesa da sala com um baque surdo, e o cheiro de talco antigo e mofo suave se espalhou pelo ar.
— Minha mãe disse que isso aqui era seu tesouro — disse Henry, limpando a poeira da tampa. — Ela e o meu velho conversaram muito sobre isso. Acho que seu pai nunca entendeu que você precisava de tempo para crescer, Hanna. Mas aqui dentro... aqui o tempo parou.
Eu olhei para a caixa com uma mistura de nostalgia e ansiedade. Meu pai sempre foi um homem rígido, querendo que eu fosse o filho homem que ele nunca teve, forçando-me a abandonar minha infância antes da hora. Mas minha mãe, em sua sabedoria silenciosa, salvou os pedaços da minha inocência e os confiou ao pai de Henry. O Sr. Bowers, que para muitos era um homem temível, sempre me tratou como a filha que ele nunca teve, protegendo meu lado mais frágil com a mesma ferocidade que Henry usava para proteger o bando.
Fui até o banheiro para me trocar. Tirei a roupa de "garota má" de Derry e vesti o macacão de pelúcia que estava por cima de tudo na caixa. Era um pijama do Stitch, de um azul vibrante, com orelhas caídas na touca e um rabinho pomposo atrás. O tecido era macio contra a minha pele, abraçando meu corpo de uma forma que me fazia sentir pequena e segura.
No fundo da caixa, encontrei minha antiga chupeta. Ela era uma peça única, decorada com pequenas pérolas que brilhavam sob a luz amarelada do banheiro. Lavei-a cuidadosamente na pia, sentindo o relevo das pedrinhas sob meus dedos. Quando a coloquei na boca, um sentimento de conforto absoluto me invadiu. Era como se um interruptor tivesse sido desligado na minha cabeça; a Hanna brava, inteligente e defensiva deu lugar a algo muito mais puro.
Saí do banheiro e caminhei até a sala, onde os três me esperavam. Patrick, que estava encostado na parede com um cigarro apagado entre os dedos, parou o que estava fazendo e me encarou de cima a baixo.
— Caramba... — murmurou ele, soltando uma risada que não tinha nada de cruel. — Você realmente ficou com cara de criança, Hanna. Olhem só para ela.
Eu sorri por trás da chupeta, sentindo minhas bochechas esquentarem. Meus olhos cor de mel brilharam enquanto eu caminhava em direção a Victor, que estava sentado no chão, cercado pelos objetos que Henry estava retirando da caixa.
— Vem cá, neném — chamou Victor, estendendo os braços.
Eu não disse nada. Parte da "brincadeira" — ou da terapia, como eu preferia pensar — era que eu não precisava falar. Eu não precisava explicar nada, não precisava ser a garota que tinha resposta para tudo. Eu apenas fui até ele e me sentei em seu colo, sentindo a firmeza de suas pernas me apoiando. No chão, ao lado dele, vi minha antiga naninha: um pedaço de pano de cetim rosa, já um pouco desbotado, mas com o cheiro familiar de casa. Eu a peguei e a abracei contra o peito, escondendo metade do meu rosto nela.
Henry começou a tirar o restante das coisas da caixa, agindo como um arqueólogo descobrindo uma civilização perdida.
— Olha só isso aqui — disse Henry, levantando uma mamadeira de vidro com detalhes em relevo. — Tem até um jogo de chocalhos de prata. Sua mãe não economizou nos mimos, hein?
— Tem um par de sapatinhos de lã aqui também — Victor comentou, pegando os pequenos objetos e comparando-os com o tamanho da minha mão. — E um livro de contos de fadas com as bordas douradas.
A caixa era um universo de mimos. Tinha um prendedor de chupeta feito de fita de cetim, uma escova de cabelo com cerdas tão macias que pareciam nuvens, um ursinho de pelúcia com uma fita amarela no pescoço e até um pequeno diário onde minha mãe provavelmente anotava meus primeiros passos, mas que agora servia apenas como um lembrete de que eu fui amada.
— Vamos tratar você como você merece, Hanna — disse Patrick, aproximando-se e sentando-se no sofá atrás de nós. — Sem preocupações, sem vizinhos nojentos, sem ninguém exigindo que você seja adulta.
Eu me aconcheguei mais no colo de Victor, fechando os olhos por um momento. O som da voz deles, geralmente tão carregada de ameaça para o resto do mundo, era como uma canção de ninar. Eles começaram a listar tudo o que encontravam, competindo para ver quem achava o objeto mais "fofo".
— Achei uma tiara de elástico com um laço gigante — riu Henry. — Victor, segura ela direito, vou ver se serve.
Eu sorri, os olhos brilhando de diversão, enquanto Henry colocava a tiara sobre a touca do Stitch. Eu me sentia uma boneca, uma criança mimada que tinha o mundo — ou pelo menos o mundo que importava — aos seus pés.
Depois de um tempo, o desejo de explorar tomou conta de mim. Saí do colo de Victor, engatinhando pelo tapete felpudo em direção a um dos brinquedos que Henry tinha colocado perto da TV. Era um cubo de madeira com formas para encaixar. Eu estava concentrada, tentando lembrar como aquilo funcionava, quando senti uma sombra sobre mim.
Henry se inclinou e, com um movimento rápido e travesso, tirou a chupeta da minha boca.
— Deixa eu ver esse sorriso sem isso — disse ele, segurando o objeto no alto, fora do meu alcance.
O choque foi imediato. Sem o conforto plástico na boca, eu me senti vulnerável. Meus lábios começaram a tremer e meus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. Não era uma atuação; naquele estado mental, o gesto de Henry pareceu a maior traição do mundo. Eu soltei um pequeno ganido, um som de choro contido, e minhas mãos começaram a tatear o ar em busca do que ele havia tirado.
— Ei, ei! — Victor exclamou, olhando feio para Henry. — Não faz ela chorar, idiota!
— Eu só estava brincando! — Henry se defendeu, mas sua expressão mudou rapidamente de diversão para preocupação ao ver uma lágrima solitária escorrer pela minha bochecha. — Desculpa, neném. Toma, aqui está.
Ele devolveu a chupeta com delicadeza, encaixando-a novamente entre meus lábios. No momento em que senti o contato familiar, o choro parou. Eu soltei um suspiro trêmulo e me inclinei para frente, batendo levemente com a mão no peito de Henry, em um protesto silencioso e manhoso.
— Ela é brava até quando é neném — riu Patrick, esticando-se para limpar a lágrima do meu rosto com o polegar. — Mas é a nossa neném.
Henry me pegou no colo, sentando-se no sofá e me acomodando em seu peito largo. Ele começou a balançar o corpo ritmicamente, enquanto Victor abria a mamadeira e ia até a cozinha para prepará-la.
— Vou colocar leite morno com um pouco de mel, do jeito que o pai do Henry disse que ela gostava — gritou Victor de lá de dentro.
Fiquei ali, observando o movimento da casa. Patrick começou a folhear o livro de contos de fadas, limpando a garganta como se estivesse se preparando para uma performance.
— "Era uma vez, em um reino muito distante..." — começou ele, com uma voz teatralmente profunda.
Eu me aconcheguei no abraço de Henry, sentindo o calor de seu corpo e a segurança de seus braços. Ali, entre os três garotos mais perigosos de Derry, eu era a única coisa sagrada. Eles tinham limpado o sangue das mãos, tinham esquecido a raiva e a violência, tudo para garantir que, por algumas horas, eu pudesse recuperar o que meu pai havia tentado me roubar.
Victor voltou com a mamadeira, testando a temperatura no pulso com uma seriedade cômica antes de entregá-la a Henry.
— Aqui. Vê se não deixa ela engasgar, Bowers.
Henry segurou a mamadeira para mim, e eu a aceitei de bom grado, fechando os olhos enquanto o líquido morno e doce descia pela minha garganta. O som de Patrick lendo sobre castelos e dragões tornou-se um ruído de fundo reconfortante.
Eu era Hanna, a garota de dezessete anos que sabia lutar e que não baixava a cabeça para ninguém. Mas naquela noite, sob o teto da casa dos Bowers, eu era apenas a pequena protegida de um bando de lobos que decidiram que eu seria a única coisa que eles nunca deixariam o mundo quebrar. E enquanto o sono começava a me envolver, entre o cheiro de talco e o som de páginas virando, eu soube que nunca estaria sozinha. Derry podia ser um pesadelo, mas ali, no berço de veludo e ferro que eles construíram para mim, eu estava finalmente em casa.