Nossa garota
Nutella, Ursos e a Inocência de Derry
O relógio de parede na sala dos Bowers marcou dez badaladas com um som metálico e seco, mas para mim, aquele som parecia vir de uma dimensão distante. Abri os olhos devagar, sentindo a textura macia do meu macacão do Stitch contra a pele. Eu estava deitada no sofá, envolta em um cobertor pesado que cheirava a amaciante e ao perfume amadeirado de Henry. O silêncio da casa era interrompido apenas pelo som abafado de vozes vindo da varanda; o cheiro característico de tabaco entrava pelas frestas da janela, indicando que Patrick e Victor provavelmente estavam lá fora, perdidos em fumaça e planos sombrios.
A porta da frente rangeu levemente e Henry entrou. Ele parecia ter deixado toda a sua agressividade habitual do lado de fora junto com a bituca de cigarro. Ao me ver sentada, esfregando os olhos com as mãos pequenas escondidas pelas mangas compridas do pijama, ele soltou um suspiro suave e caminhou até a televisão velha.
— Acordou, sapeca? — perguntou ele, a voz num tom baixo que ele só usava comigo.
Sem esperar resposta, ele apertou o botão de ligar. A tela brilhou, iluminando o quarto escuro, e logo as cores vibrantes de um desenho animado preencheram o ambiente. Era algo simples, com animais falantes e músicas repetitivas, mas para o meu estado mental atual, era a coisa mais fascinante do mundo.
— Olha! — eu exclamei, embora o som tenha saído abafado pela chupeta.
Soltei uma risadinha infantil e comecei a bater palminhas, os olhos brilhando conforme os personagens pulavam na tela. O mundo de Derry, com seus esgotos sombrios e vizinhos perversos, tinha sumido por completo.
— Henry... — chamei, apontando para a poltrona onde a caixa de tesouros estava. — Meu ursinho. Por favor?
Henry deu um meio sorriso, aquele que raramente chegava aos seus olhos quando ele estava com o bando na escola, mas que agora era totalmente meu. Ele pegou o urso de pelúcia com a fita amarela e o entregou. Eu o agarrei com força, enterrando o rosto no pelo sintético e sentindo um conforto indescritível. Fiquei ali, totalmente entretida, balançando as pernas e comentando com o urso sobre o que acontecia no desenho.
Pouco tempo depois, ouvi o som de passos pesados na escada e na varanda. Patrick e Victor entraram na sala, trazendo consigo o ar fresco da noite. Eles pararam por um momento, observando a cena: a garota que eles conheciam como brava e inteligente agora estava encolhida no sofá, abraçada a um brinquedo e hipnotizada por desenhos.
— Parece que o nenê recarregou as baterias — comentou Patrick, jogando-se no tapete aos meus pés.
— Ela está na melhor fase agora — disse Victor, sentando-se do outro lado.
Eles começaram a me dar atenção total. Patrick fazia caretas engraçadas para me fazer rir, e Victor usava um dos chocalhos de prata para marcar o ritmo da música da TV. Por um tempo, fomos apenas quatro adolescentes brincando, ignorando a escuridão que sempre cercava a história dos Bowers.
Henry, mexendo novamente na caixa de madeira, retirou um maço de cartas amareladas presas por um elástico. Ele trocou um olhar cúmplice com os meninos.
— São as cartas que a mãe dela escreveu para o meu pai guardar — sussurrou Henry. — Coisas sobre o futuro dela.
Os três se afastaram um pouco, sentando-se à mesa de jantar, a poucos metros de mim, mas o suficiente para terem um momento de privacidade. Eu os observava de soslaio, mas o desenho ainda prendia a maior parte da minha atenção. Vi quando eles abriram os envelopes com cuidado. Patrick, geralmente o mais caótico, lia em silêncio, sua expressão suavizando. Victor passava a mão pelo papel, talvez sentindo a caligrafia de uma mulher que amava a filha o suficiente para planejar sua proteção mesmo não estando presente.
Eles leram por alguns minutos, sussurrando entre si sobre o que a minha mãe desejava para mim. Eu não precisava saber o que estava escrito; a forma como eles me olharam depois de fecharem as cartas dizia tudo. Havia um novo nível de determinação em seus olhos. Eles não eram apenas meus amigos ou amantes; eles eram os guardiões de uma promessa que ia além de Derry.
— Chega de leitura por hoje — anunciou Henry, levantando-se e guardando as cartas com reverência.
Eles voltaram para perto de mim, e Victor me entregou a minha naninha de cetim rosa.
— Hora de mexer as perninhas, Hanna — disse ele, estendendo a mão. — Vamos para a cozinha.
Eu segurei a mão dele e, com o urso debaixo do braço e a naninha na outra mão, caminhei com passos vacilantes até a cozinha. Patrick já estava lá, encostado no balcão, segurando a mamadeira que Henry tinha acabado de aquecer.
— Aqui, neném. Toma tudo — disse Patrick, entregando-me o objeto.
Sentei-me em uma das cadeiras altas, sugando o leite morno com mel. O sabor era doce e reconfortante, mas conforme o líquido descia, uma nova vontade começou a surgir. Eu não queria apenas leite. Meu estômago deu um pequeno nó de desejo por algo mais forte, algo achocolatado.
— Doce... — murmurei, soltando o bico da mamadeira e olhando para Henry com os olhos pidões, fazendo o meu melhor biquinho.
— Você acabou de tomar leite, Hanna — disse Henry, tentando ser firme, mas eu vi a fraquejada em sua voz.
Eu não desisti. Desci da cadeira com cuidado e, em vez de andar, decidi que engatinhar seria muito mais eficaz para mostrar o quão "neném" eu estava me sentindo. Engatinhei pelo linóleo frio da cozinha até chegar ao armário da despensa. Apontei para a porta fechada e olhei para trás, soltando um pequeno som de manha.
— Ela quer o armário de guloseimas — riu Victor. — Boa sorte tentando dizer não para essa cara.
Henry suspirou, derrotado, e abriu a porta para mim. Meus olhos brilharam quando avistei o pote grande de Nutella na prateleira de baixo. Eu o peguei com as duas mãos, sentando-me no chão da cozinha e abraçando o pote como se fosse um troféu.
— Nutella? Sério? — Patrick se abaixou ao meu lado. — Você vai ficar toda suja, sapeca.
Eu olhei para ele, inclinei a cabeça para o lado e estendi o pote na direção dele, fazendo um som de "por favor" que era impossível de ignorar. Era o meu jeitinho; eu sabia exatamente como dobrar cada um deles.
— Tudo bem, tudo bem — cedeu Henry, pegando uma colher. — Mas só um pouco, ou você não vai conseguir dormir depois.
Ele abriu o pote e pegou uma colherada generosa, levando-a até a minha boca. O sabor do chocolate com avelã explodiu no meu paladar, e eu fechei os olhos de puro prazer, soltando um murmúrio de satisfação.
— Está bom? — perguntou Victor, sentando-se no chão conosco.
Eu assenti vigorosamente e, em seguida, peguei a colher da mão de Henry. Mergulhei-a no pote e levei-a até a boca de Henry, oferecendo um pouco para ele. Ele hesitou por um segundo, olhando para os meninos, mas acabou aceitando, limpando o excesso de chocolate do canto da boca com um sorriso.
— É, realmente está bom — admitiu ele.
Logo, estávamos os quatro sentados no chão da cozinha, dividindo o pote de Nutella. Eu fazia questão de dar uma colherada para cada um deles, rindo quando Patrick tentava roubar um pouco mais ou quando Victor fazia aviões com a colher para me dar na boca.
— Veja só a gente — comentou Patrick, com o dedo sujo de chocolate. — O Terror de Derry, dividindo Nutella com um neném no chão da cozinha às onze da noite. Se o seu pai visse isso, Henry, ele teria um derrame.
— Meu pai não está aqui — respondeu Henry, limpando uma mancha de chocolate da minha bochecha com o polegar. — E o que acontece nesta casa, fica nesta casa.
Eu me sentia radiante. A sensação de ser cuidada, de ter meus desejos atendidos e de ver esses garotos tão durões se derretendo por mim era o melhor remédio para qualquer trauma. O episódio com o vizinho parecia uma memória de outra vida, algo que não podia me tocar enquanto eu estivesse ali, naquele círculo de proteção.
Depois que o pote estava quase vazio, eu comecei a sentir o peso do açúcar e do cansaço. Minha cabeça começou a pender para o lado, encostando no ombro de Victor.
— Acho que alguém exagerou no doce — sussurrou Victor, passando o braço ao meu redor.
— Hora da cama, de verdade agora — disse Henry, levantando-se e me pegando no colo com uma facilidade que sempre me impressionava.
Ele me levou de volta para o quarto, seguido por Patrick e Victor. Eles me deitaram na cama de casal, e eu me encolhi entre os travesseiros, ainda segurando meu urso e minha naninha. O silêncio voltou a reinar, mas era um silêncio preenchido pela presença deles.
— Boa noite, sapeca — sussurrou Patrick, dando um beijo na minha testa.
— Dorme bem, neném — disse Victor, ajeitando o cobertor até o meu queixo.
Henry foi o último a sair, parando na porta por um momento para apagar a luz principal, deixando apenas o abajur ligado.
— Ninguém toca em você, Hanna — murmurou ele, quase para si mesmo. — Nunca mais.
Fechei os olhos, sentindo o sabor residual de chocolate e o calor do amor distorcido, mas real, daqueles garotos. Em Derry, a escuridão podia ser eterna, mas naquela noite, eu era apenas uma garota protegida por monstros que decidiram que eu era a única coisa no mundo que valia a pena manter pura. E com esse pensamento, finalmente mergulhei em um sono profundo, onde não havia velhos pervertidos, apenas o gosto doce da Nutella e o abraço firme dos meus guardiões.