Nova visão
Entre Definições e Abismos
A luz da manhã infiltrava-se pelas frestas do celeiro, pintando listras douradas sobre o tapete onde Clark e Chloe estavam sentados, cercados por livros de história e restos de pizza da noite anterior. O silêncio entre eles era denso, mas não desconfortável — ou pelo menos não deveria ser. Para qualquer observador casual, eles pareciam o casal perfeito. Havia uma intimidade nos gestos, na forma como os joelhos se tocavam e no modo como Clark, distraidamente, passava a mão pelos cabelos de Chloe enquanto lia um parágrafo sobre a Guerra Civil.
Mas, para Chloe, cada toque era um lembrete silencioso de uma lacuna que crescia a cada dia. Eles dormiam juntos, compartilhavam segredos que poderiam destruir o mundo e trocavam beijos que faziam a gravidade parecer uma sugestão opcional. No entanto, as palavras que realmente importavam permaneciam presas na garganta de Clark.
— Você está em Marte de novo, Sullivan — disse Clark, sua voz vibrando com aquela confiança assertiva que ele adotara ultimamente. Ele fechou o livro e inclinou-se para frente, capturando o olhar dela. — Ou talvez em Metrópolis?
Chloe forçou um sorriso, ajeitando os óculos que nem precisava usar, mas que serviam como um escudo intelectual.
— Apenas processando os dados, Clark. O General Lee era um estrategista brilhante, mas péssimo em ler os sinais do tempo. Uma falha comum em homens poderosos, eu suponho.
Clark arqueou uma sobrancelha, um brilho divertido e sexy em seus olhos azuis. Ele se aproximou, reduzindo a distância entre eles até que Chloe pudesse sentir o calor emanando de seu corpo.
— E quais sinais eu estou perdendo, exatamente? — perguntou ele, a voz baixando para aquele tom rouco que sempre a desarmava.
— Nenhum que sua super-audição não pudesse captar, se você estivesse prestando atenção — respondeu ela, tentando manter o tom sarcástico, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
Clark riu, um som rico e possessivo. Ele estendeu a mão e puxou-a para o seu colo com uma facilidade desconcertante. Chloe sentiu a força dos braços dele ao redor de sua cintura, uma afirmação silenciosa de que, naquele momento, ela era dele.
— Você sabe que é minha, Chloe — murmurou ele contra o seu pescoço, antes de depositar um beijo demorado ali. — Não preciso de um livro de história para saber onde meu mundo começa e termina.
"Minha". A palavra ecoou na mente de Chloe como um sino de advertência. Era uma declaração de posse, sim, mas faltava o rótulo que daria segurança ao seu coração. Ele a chamava de "sua", mas nunca de "namorada". Ele agia como se fossem um casal, mas diante do mundo, e até mesmo em conversas casuais, eles ainda eram apenas... Clark e Chloe. Melhores amigos com benefícios intergalácticos.
— É uma frase bonita, Clark — disse ela, afastando-se o suficiente para olhá-lo nos olhos. — Mas "minha" é um adjetivo possessivo, não um status de relacionamento.
O sorriso de Clark vacilou por um milésimo de segundo, mas a arrogância gentil logo voltou ao seu rosto.
— Precisamos de nomes, Chloe? Achei que fôssemos além disso. O que temos é real. Eu não olho para mais ninguém. Eu não quero estar com mais ninguém.
— Eu sei disso — admitiu ela, sentindo-se subitamente cansada da ginástica mental. — Mas às vezes eu sinto que estamos vivendo em uma bolha de sabão. É linda, é brilhante, mas pode estourar a qualquer momento porque não tem uma base sólida.
Clark suspirou, soltando-a levemente, mas mantendo uma mão em sua coxa, como se temesse que ela fosse fugir.
— Eu só não quero estragar o que temos com pressões externas ou expectativas sociais. Smallville já é complicada o suficiente sem termos que dar satisfações para a cidade inteira sobre o que acontece neste celeiro.
Chloe sentiu uma pontada de dor no peito. "Estragar". "Dar satisfações". Para ele, um rótulo era um fardo; para ela, era a confirmação de que ele não estava apenas esperando o próximo eclipse para que seus sentimentos por Lana voltassem ou para que ele percebesse que Chloe era apenas uma fase de transição.
— Entendi — disse ela, levantando-se e começando a recolher seus pertences. — O anonimato é o melhor amigo da conveniência.
— Chloe, não foi isso que eu quis dizer — Clark levantou-se em um movimento fluido, bloqueando o caminho dela para a escada. Ele parecia enorme naquela luz, forte e inabalável. — Você está sendo intrometida com os seus próprios sentimentos de novo. Analisando demais.
— É o que eu faço, Clark! Eu sou jornalista! Eu procuro a verdade por trás das aparências — exclamou ela, a voz subindo uma oitava. — E a verdade é que, enquanto não houver um compromisso real, eu sou apenas a sua "melhor amiga" que dorme com você. E isso me deixa com a sensação constante de que sou temporária. Como um artigo de capa que vai ser substituído na edição de amanhã.
Clark franziu a testa, a mandíbula travada. Ele não gostava de ser questionado, especialmente quando a lógica de Chloe era tão afiada quanto uma lâmina de bisturi.
— Você nunca será temporária para mim. Como pode pensar isso depois de tudo o que passamos? Depois de... — ele gesticulou para o sofá — ...de ontem à noite?
— Porque ontem à noite foi maravilhoso, Clark. Foi sexy, foi intenso, foi carinhoso. Mas hoje de manhã, quando descermos aquelas escadas, você vai ser o Clark Kent, o filho dos fazendeiros, e eu vou ser a Chloe Sullivan, a garota do jornal. E vamos agir como se nada tivesse mudado.
— E o que você quer que mude? — perguntou ele, a arrogância dando lugar a uma frustração genuína. — Você quer que eu grite do topo do moinho que estamos juntos? Quer que eu use um anel?
— Eu quero saber se você tem medo de me chamar de namorada porque sabe que, no fundo, ainda está guardando o lugar para outra pessoa — a frase saiu antes que ela pudesse filtrá-la. O nome de Lana não foi pronunciado, mas pairou entre eles como um fantasma radioativo.
O silêncio que se seguiu foi gélido. Clark deu um passo atrás, os olhos azuis escurecendo.
— Isso não tem nada a ver com a Lana, Chloe. Isso é sobre nós. Sobre o fato de que eu finalmente encontrei alguém que me entende, e você está tentando colocar isso em uma caixa com um laço só para se sentir segura.
— Talvez eu precise de segurança, Clark! — rebateu ela, sentindo as lágrimas arderem. — Eu não sou indestrutível como você. Eu não tenho pele de aço. Meu coração é feito de carne e osso, e ele dói quando eu sinto que estou sendo usada como um porto seguro até a tempestade passar.
Clark aproximou-se novamente, mas desta vez não havia desejo em seus movimentos, apenas uma seriedade protetora e quase arrogante em sua certeza. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele.
— Escute bem — disse ele, a voz baixa e absoluta. — Eu escolhi você. Eu estou aqui com você. Eu disse que você é minha e eu sou seu. Se isso não é o suficiente para você agora, então talvez o problema não seja a falta de um rótulo, mas a sua falta de fé em mim.
Chloe sentiu um arrepio. Ele era tão assertivo, tão forte em sua convicção, que por um momento ela quase acreditou que estava sendo irracional. Quase.
— Fé é para religiões, Clark. Eu prefiro fatos. E o fato é que você evita o assunto como se fosse kryptonita verde.
Ele a soltou, soltando um suspiro de derrota.
— Eu não vou brigar com você por causa de semântica, Chloe. Eu tenho muito o que fazer na fazenda e você tem o jornal. Vamos apenas... dar um tempo para as coisas se assentarem.
"Dar um tempo". "Assentarem". Mais palavras de código para "vamos ignorar o problema até que ele desapareça". Chloe sentiu uma frieza se instalar em seu estômago. Ela pegou sua bolsa e caminhou em direção à escada.
— Você tem razão, Clark. O General Lee também achou que o tempo estava do lado dele. Ele estava errado.
Ela desceu as escadas sem olhar para trás, deixando Clark parado no centro de seu sótão, uma figura poderosa e solitária cercada por uma força que ele ainda não sabia como usar para curar o coração da mulher que amava.
O restante do dia no colégio foi uma tortura de normalidade. Eles se cruzaram nos corredores, trocaram sorrisos protocolares e Clark até a ajudou a carregar uma pilha de pastas até o escritório do *Tocha*. Para qualquer um que visse, eles eram os mesmos de sempre. Melhores amigos. Inseparáveis.
Mas, dentro do escritório, o clima era de eletricidade estática. Chloe enterrou-se no trabalho, escrevendo um artigo sobre o desvio de verbas da prefeitura com uma ferocidade que assustaria Lex Luthor. Clark sentou-se na mesa à frente, fingindo ler um livro, mas seus olhos estavam constantemente nela.
— Chloe — ele disse finalmente, quebrando o silêncio tenso.
— Ocupada, Clark. A corrupção não tira sesta.
— Pare com isso — ele levantou-se e caminhou até a mesa dela, sentando-se na beirada, invadindo seu espaço como sempre fazia. — Eu não gosto quando você se esconde atrás desse monitor.
— Eu não estou me escondendo. Estou trabalhando. Algo que você deveria estar fazendo, considerando que o Sr. Kent espera que você termine de pintar o celeiro antes do jantar.
Clark estendeu a mão e fechou a tampa do laptop dela. O barulho foi seco e definitivo.
— O celeiro pode esperar. Nós não terminamos aquela conversa.
— Achei que você tivesse dito que não queria brigar por semântica — disse ela, cruzando os braços e encarando-o com todo o sarcasmo que conseguia reunir.
— Eu não quero brigar. Eu quero que você entenda que eu estou tentando, Chloe. Pela primeira vez na minha vida, eu não estou tentando ser o que os outros esperam de mim. Eu não estou tentando ser o herói perfeito da Lana ou o filho perfeito dos meus pais. Eu estou apenas tentando ser eu mesmo com você.
— E quem é "você mesmo", Clark? — perguntou ela, a voz suavizando apesar de sua resistência. — Porque o "você mesmo" que eu conheço não tem medo de nada. Mas parece apavorado com a ideia de dizer ao mundo que ama a Chloe Sullivan.
Clark hesitou. A vulnerabilidade cruzou seu rosto por um breve instante, antes de ser substituída pela máscara de força.
— Talvez eu tenha medo de que, se dermos um nome a isso, o mundo encontre uma forma de nos tirar um do outro. O Lex, os outros... todos eles procuram um ponto fraco. E você, Chloe... você é o meu ponto mais fraco.
— Não, Clark — disse ela, levantando-se para ficar frente a frente com ele. — Eu não sou seu ponto fraco. Eu sou sua força. Mas eu só posso ser sua força se eu souber onde piso. Eu não posso ser o seu segredo guardado em um celeiro. Eu mereço mais do que isso.
Clark olhou para ela, e pela primeira vez, a arrogância desapareceu completamente. Ele viu a dor nos olhos dela, a incerteza que ele mesmo havia plantado com seu silêncio. Ele percebeu que, ao tentar proteger o que tinham da "realidade", ele estava destruindo a própria essência do que Chloe precisava: a verdade.
— Você tem razão — admitiu ele, a voz baixa. — Eu fui um idiota. De novo.
— É um hábito recorrente, Kent. Você deveria trabalhar nisso.
Ele sorriu, um sorriso genuíno, e puxou-a para um abraço apertado. Chloe encostou o rosto em seu peito, sentindo a batida firme de seu coração.
— Eu não sei como fazer isso do jeito certo, Chloe. Eu não sei como ser um "namorado" normal quando nada na minha vida é normal. Mas eu sei que não quero que você se sinta temporária. Nunca.
— Então diga — sussurrou ela contra a camisa dele. — Diga as palavras. Não para o mundo, não para o Lex. Diga para mim. Sem "minha", sem possessivos. Apenas o que somos.
Clark afastou-se um pouco, segurando o rosto dela com uma delicadeza que sempre a surpreendia vindo de alguém tão forte.
— Chloe Sullivan... você quer ser a minha namorada? Oficialmente? Com rótulos, discussões sobre quem paga o café e tudo o que vem junto?
Chloe sentiu um peso imenso sair de seus ombros. Ela soltou uma risada curta, meio chorosa.
— Você demorou uma eternidade para perguntar isso, Clark Kent. Eu estava prestes a aceitar um convite de um estagiário de Metrópolis só para ver se você usava sua super-velocidade para me impedir.
— Eu teria usado — disse ele, a centelha de ciúme e arrogância voltando aos seus olhos. — E eu teria destruído o café dele.
— Eu sei que teria — ela sorriu, puxando-o para um beijo. — E sim, eu quero. Mas se você me chamar de "melhor amiga" na frente do Pete amanhã, eu juro que conto para todo mundo sobre o seu pijama de foguetes que você usava aos dez anos.
Clark riu, um som de puro alívio, e a beijou novamente, desta vez com uma ternura que selava o compromisso que as palavras finalmente haviam estabelecido.
— Fechado, Sullivan. Mas só para constar... o pijama tinha naves espaciais, não foguetes. Há uma diferença técnica.
— Claro que há, Kent. Claro que há.
Enquanto a luz do entardecer caía sobre o escritório do *Tocha*, Chloe finalmente sentiu que o chão sob seus pés era sólido. Não havia mais abismos entre eles, apenas o caminho que escolheram trilhar juntos. Clark ainda era assertivo, sexy e, às vezes, irritantemente arrogante, mas agora ele era dela de uma forma que nenhum segredo ou antiga paixão poderia mudar. Eles eram Clark e Chloe. Namorados. E, pela primeira vez, a manchete da vida dela era exatamente o que ela queria ler.