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O dono do morro

Lágrimas e Tempestades

O sol da manhã entrava pelas frestas da cortina de seda do quarto de Kaelton, pintando listras douradas sobre o lençol de fios egípcios. O ar-condicionado mantinha a temperatura agradável, mas o clima dentro da cama era de puro gelo. Kael acordou sentindo falta do calor habitual de Luanara grudado em seu peito. Geralmente, ela era como um chicletinho, enrolando as pernas nas dele e escondendo o rosto em seu pescoço.

Dessa vez, porém, Lua estava encolhida na ponta oposta da cama king-size, de costas para ele, envolta no edredom como se estivesse se protegendo de um ataque. Kael esticou o braço, ainda meio sonolento, a pele bronzeada contrastando com o lençol claro.

— Vem cá, docinho... — sussurrou ele, a voz rouca de quem acabou de despertar. — Tá fugindo de mim por quê?

Ele tentou puxá-la pela cintura, mas Lua reagiu imediatamente, dando um solavanco e se afastando ainda mais, quase caindo da cama.

— Não encosta em mim, Kaelton Matheus! — A voz dela saiu embargada, mas carregada de uma fúria que ele não entendeu.

Kael sentou-se na cama num pulo, o cabelo platinado todo bagunçado e os olhos verdes arregalados. Quando ela usava o nome dele todo, o papo era sério.

— Que porra é essa, Luanara? — Ele franziu a testa, o instinto marrento aflorando. — Acordou com o ovo virado? O que foi que eu fiz?

Lua se virou, sentando-se também. Os olhos negros, geralmente brilhantes e doces, estavam vermelhos e inchados de choro. O rosto de boneca estava vermelho, e ela o encarava com um bico de raiva que, em qualquer outra situação, ele acharia adorável, mas agora só o deixava confuso.

— Você é um cafajeste! — Ela exclamou, pegando um dos travesseiros e jogando com força no peito dele. — Um mentiroso, safado, sem vergonha!

Kael segurou o travesseiro no ar, a paciência já começando a esgotar. Ele era estressado por natureza, e ser xingado logo cedo sem motivo aparente era o combustível perfeito para sua rabugice.

— Tá maluca, garota? — Ele rosnou, jogando o travesseiro no chão. — Tu tá me xingando do nada! Eu passei a noite toda aqui, grudado em tu, te cuidando depois do baile. Que bicho te mordeu?

— Eu vi, Kael! — Lua gritou, e as primeiras lágrimas de verdade começaram a rolar pelas bochechas branquinhas. — Eu vi você com aquela loira do camarote! Aquela que ficou te olhando a noite toda! Vocês estavam rindo, e você disse que ia me deixar porque ela era "mais mulher" que eu!

Kael ficou estático por alguns segundos, processando a informação. Ele buscou na memória qualquer interação com outra mulher na noite anterior, mas a única coisa que lembrava era de ter ficado na bota de Lua o tempo todo por causa do ciúme.

— Loira? Que loira, Luanara? — Ele passou a mão pelo rosto, frustrado. — Eu não falei com loira nenhuma, porra! Eu só tive olhos pra tu e pro teu vestido que tava me deixando maluco. Tu sonhou com isso, foi?

— Não foi um sonho! Parecia real! — Ela soluçou, escondendo o rosto nas mãos e começando a chorar desesperadamente, aquele choro sofrido que fazia o coração de Kael apertar. — Você beijava ela... e dizia que eu era só uma criança... que você tava cansado de me cuidar...

Kael suspirou fundo, a raiva evaporando instantaneamente ao ver o estado dela. Ele conhecia sua "tempestade". Lua era sensível, e o fato de os pais serem ausentes criava nela uma insegurança que às vezes transbordava em sonhos vívidos e pesadelos cruéis. Ele se aproximou devagar, sentando-se mais perto, mas ela recuou de novo.

— Escuta aqui, vida — disse ele, baixando o tom de voz, tentando ser o porto seguro que ela precisava. — Olha pra mim. Olha nos meus olhos.

Lua levantou o rosto devagar, soluçando, os olhos negros inundados.

— Tu acha mesmo, do fundo do teu coração, que eu trocaria meu mochi por qualquer loira de baile? — Ele esticou a mão e, dessa vez, ela deixou que ele acariciasse sua bochecha. — Tu sabe que eu sou louco por ti, Luanara. Eu sou obcecado por cada centímetro desse teu corpo, por cada mania tua. Tu é a minha vida, porra.

— Mas... mas no sonho você era tão frio... — ela murmurou, a voz falhando.

— Pois o sonho mentiu pra caralho pra ti — Kael a puxou com firmeza para o seu colo. Lua resistiu por dois segundos antes de se entregar, enterrando o rosto no pescoço dele e molhando sua pele com as lágrimas. — Eu nunca vou te deixar, tá ouvindo? Ninguém chega aos teus pés. Tu é a dona dessa porra toda aqui, ó — ele apontou para o próprio peito.

Eles ficaram assim por um tempo, Kael balançando-a levemente e fazendo carinho em seus cabelos longos. O silêncio do quarto só era quebrado pelos soluços dela que iam diminuindo aos poucos. Ragnar, no canto do quarto, soltou um bocejo alto, como se estivesse entediado com o drama matinal.

Enquanto isso, no corredor, o barulho de passos pesados anunciou a chegada de Guilherme. O coronel bateu na porta duas vezes antes de entrar sem esperar resposta. Ele estava pronto para o dia, vestindo uma calça tática e uma camiseta preta que marcava seus braços musculosos.

— Que gritaria é essa aqui? — Guilherme perguntou, parando na porta e observando a cena. — Kaelton, tu fez alguma merda com a menina?

Kael revirou os olhos, mas sem soltar Lua.

— Fiz nada, pai. Ela teve um pesadelo comigo e acordou querendo meu fígado.

Guilherme soltou uma risada curta, encostando-se no batente da porta. O olhar dele suavizou ao ver Lua tão miudinha nos braços do filho.

— Esses Allegretti não dão sossego nem dormindo, né, Lua? — O mais velho comentou. — Deixa de bobeira, pequena. Esse moleque aí é um rabugento, mas é louco por tu. Se ele fizesse metade do que tu sonhou, eu mesmo cobrava ele.

Lua deu um sorriso triste por entre as lágrimas, olhando para o sogro.

— Obrigada, tio Gui.

— Agora limpa esse rosto e desce. Letícia fez aquele café da manhã que tu gosta. E vê se acalma esse teu namorado, que ele tá com uma cara de quem não dormiu nada — Guilherme deu um nó na cabeça de Kael ao passar por ele e saiu do quarto.

Kael voltou sua atenção para Lua, limpando o rastro das lágrimas com o polegar.

— Viu só? Até o coroa tá do teu lado. Agora para de chorar, que tu fica com o nariz todo vermelhinho e eu fico com vontade de te morder.

— Desculpa, amor... — Lua disse, fazendo um biquinho de arrependimento. — É que foi tão real. Eu fiquei com muito medo de te perder.

— Tu não me perde nem se quiser, docinho — Kael a beijou com vontade, um beijo lento que selava a paz entre os dois. — Agora, pra eu te perdoar de verdade por ter me chamado de cafajeste logo cedo... tu vai ter que me dar um dengo especial.

Lua riu, o som que Kael mais amava no mundo. Ela o abraçou pelo pescoço, sentindo a segurança dos braços dele.

— O que você quer, meu ursinho?

— Quero que tu desça, coma bem, e depois a gente vai ficar aqui trancado o dia todo. Só eu e tu. Sem loira, sem sonho ruim, só a gente.

Eles desceram para a cozinha gourmet, onde o cheiro de café fresco e pão na chapa dominava o ambiente. Letícia estava sentada à mesa, lendo algo no tablet enquanto amamentava Stella. A bebê, com seus olhos verdes bem abertos e as bochechas gorduchas, era a imagem viva da mistura dos Allegretti.

Bernardo e Merllya já estavam lá, devorando uma pilha de panquecas. Bê estava com o braço em volta do pescoço de Mell, sussurrando algo que a fazia rir.

— Bom dia, família — Kael anunciou, puxando a cadeira para Lua.

— Bom dia, meu amor — Letícia sorriu para Lua, percebendo os olhos inchados da nora. — O que houve, querida? Kael te deu trabalho?

— Um pesadelo, tia — Lua respondeu, sentando-se e aceitando uma xícara de suco que Letícia lhe serviu.

— Ah, esses sonhos... — Letícia olhou para Guilherme, que estava em pé perto da bancada tomando café puro. — Eu também tinha uns desses com o pai de vocês quando a gente começou. O medo de perder esse rabugento me deixava doida.

— Mas o meu bem nunca me deu motivo, coração — Guilherme rebateu, dando um beijo no topo da cabeça da esposa e depois um estalo na testa da pequena Stella, que soltou um resmungo fofo.

— É, Bê, fica esperto — Mell brincou, dando uma cotovelada no namorado. — Se eu sonhar que tu tá de gracinha com as meninas da faculdade, tu dorme no canil com o Ragnar.

— Tá doida, gatinha? — Bernardo riu, puxando-a para um beijo rápido. — Eu não sou o Kael pra aguentar drama logo cedo, não. Eu resolvo logo na base do amor.

— Cala a boca, Bernardo — Kael resmungou, mas estava sorrindo. O clima pesado da manhã tinha se dissipado.

Após o café, o dia seguiu tranquilo na mansão. Guilherme saiu para resolver pendências no escritório — um bunker de luxo com paredes blindadas e um arsenal que deixaria qualquer exército com inveja — enquanto os jovens se espalharam pela área da piscina.

Theodoro, o filhote de Golden, corria atrás de uma bola de tênis, sendo observado de longe pelo olhar superior de Ragnar. Kael e Lua estavam deitados em uma espreguiçadeira dupla, sob a sombra de um ombrelone. Ela estava deitada sobre o peito dele, ouvindo a música que saía de uma pequena caixa de som.

— Tá melhor, vida? — Kael perguntou, passando a mão pelas costas nuas dela, já que ela usava apenas a parte de baixo do biquíni e uma camisa dele aberta.

— Tô, amor. Desculpa por ter sido boba.

— Tu não é boba. Tu é minha. E eu gosto que tu tenha ciúme, só não precisa chorar daquele jeito, tá ligado? Acaba comigo te ver assim.

Lua se levantou um pouco, apoiando o queixo nas mãos sobre o peito dele.

— Kael... você promete que, se um dia você se cansar de mim, você vai me falar? Em vez de só me trair como no sonho?

Kael fechou os olhos por um segundo, sentindo uma pontada de irritação, mas logo relaxou. Ele sabia que precisava ser paciente. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar bem no fundo dos seus olhos verdes.

— Escuta bem, Luanara Serena. Eu nunca, em hipótese nenhuma, vou me cansar de ti. Tu é o meu equilíbrio, porra. Sem tu, eu sou só um moleque estressado querendo brigar com o mundo. Tu é o que me faz querer ser um homem melhor, igual ao meu pai. Eu te amo pra caralho, entendeu?

Lua sorriu, e dessa vez o brilho nos olhos dela era de pura felicidade.

— Entendi, meu ursinho.

— Ótimo. Agora chega de papo triste. Vamos entrar na água que o sol tá de rachar.

Eles mergulharam, brincando e se beijando na água morna da piscina infinita. Do outro lado, Bernardo e Mell faziam uma competição de quem nadava mais rápido, enquanto Letícia observava tudo da varanda, com Stella descansando em seu colo.

A vida dos Allegretti era assim: intensa, às vezes barulhenta e cheia de marra, mas fundamentada em uma lealdade inabalável. Kael podia ser o terror de muitos no asfalto e no morro, mas ali, com Lua nos braços, ele era apenas um jovem completamente rendido.

No fim da tarde, quando o céu do Rio começou a ganhar tons de laranja e roxo, Kael levou Lua de volta para o quarto. Ele a prensou contra a porta assim que entraram, as mãos descendo possessivamente para a curva do seu quadril.

— Agora — ele sussurrou, a voz carregada de uma intenção óbvia — eu vou te mostrar exatamente o quanto eu sou "cansado" de ti.

— É? E como você vai fazer isso? — Lua provocou, passando as unhas leves pelos braços malhados dele.

— Vou te foder até tu esquecer como se fala, docinho. Vou marcar cada pedaço dessa tua pele branca pra tu nunca mais ter dúvida de quem é o teu dono.

Ele a pegou no colo, as pernas de Lua envolvendo a cintura dele automaticamente. O caminho até a cama foi curto, mas a urgência era grande. Kael a despiu com uma fome renovada, admirando o corpo de pera que o deixava louco. Ele se posicionou entre as pernas dela, os olhos verdes fixos nos dela.

— Tu é minha, Lua. No sonho, na vida real, em qualquer lugar. Só minha.

— Só sua, Kael... — ela gemeu, entregando-se ao toque bruto e carinhoso dele.

Naquela noite, não houve pesadelos. Apenas o som da respiração pesada, o calor dos corpos suados e a certeza de que, na mansão dos Allegretti, o amor era a única lei que ninguém ousava quebrar. Kael dormiu abraçado à sua tempestade, protegendo-a de qualquer monstro que ousasse tentar invadir seus sonhos novamente. O Rio de Janeiro continuava lá fora, com seu caos e sua beleza, mas dentro daquele quarto, o mundo era perfeito.