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O elfo apaixonado pela humana boba

O Mistério das Relíquias de Prata e o Despertar de um Sentimento

O sol da manhã seguinte filtrava-se pelas janelas das cozinhas de Hogwarts, mas a atmosfera não era a habitual. Geralmente, o ambiente era preenchido pelo tinir rítmico de talheres e pelo aroma reconfortante de mingau de aveia, mas hoje, um murmúrio ansioso corria entre os pequenos trabalhadores. [Nome] estava debruçada sobre uma das grandes bancadas de carvalho, esfregando um caldeirão de latão com uma energia que faria um veterano da limpeza suar, mas seus pensamentos estavam longe dali.

— A senhorita está tentando fazer um buraco no fundo do metal? — A voz aguda de Dobby a trouxe de volta à realidade.

Ela parou o movimento circular e olhou para o elfo. Dobby estava usando a meia esmeralda que ela lhe dera na noite anterior — apenas uma, pois a outra ainda estava em processo de criação —, e seus olhos verdes brilhavam com uma preocupação genuína.

— Oh, Dobby! Eu estava distraída — confessou ela, limpando o suor da testa com as costas da mão. — Eu não consigo parar de pensar naquele *Erkling* na despensa. E no que o Professor Dumbledore disse sobre o baú.

Dobby subiu em um banquinho próximo para ficar mais perto do nível dela.

— Dobby também está inquieto, senhorita [Nome]. Hogwarts é o lugar mais seguro do mundo, mas coisas estranhas estão acontecendo. Kreacher diz que sentiu um cheiro de magia das trevas perto da Sala Precisa ontem à noite.

[Nome] estremeceu. Ela era uma mulher de trinta e quatro anos, com a força física de um gigante, mas seu coração era feito de vidro fino. A ansiedade severa que a acompanhava desde a infância, quando era ridicularizada por ser um aborto, agora sussurrava em seus ouvidos que ela era a causa de toda aquela desordem.

— Talvez essas coisas estejam acontecendo porque eu estou aqui — sussurrou ela, baixando o olhar. — Eu não sou bruxa, Dobby. Talvez eu tenha trazido algum tipo de... de má sorte.

Dobby deu um pulo do banquinho, a indignação fazendo suas orelhas vibrarem.

— Nunca diga isso, senhorita [Nome]! — exclamou ele, batendo o pé no chão de pedra. — A senhorita é a melhor coisa que aconteceu às cozinhas desde que Dobby se tornou um elfo livre! A senhorita trata todos como iguais. A senhorita canta para as plantas e elas crescem mais rápido! A senhorita salvou Dobby do trasgo!

O elfo aproximou-se e, com uma coragem que o surpreendeu, segurou a mão grande de [Nome]. Seus dedos pequenos encontraram os dela, que estavam ásperos pelo sabão e pelo trabalho.

— Se o mal está vindo, é porque ele tem inveja da luz da senhorita — disse ele com uma solenidade que a deixou sem fôlego.

[Nome] sentiu um calor estranho no peito. Ela era "boba" para questões românticas; nunca fora cortejada, nunca recebera um olhar que não fosse de pena ou de escárnio. Para ela, a devoção de Dobby era a amizade mais pura que já conhecera, mas havia algo na intensidade daqueles olhos verdes que a fazia sentir-se... especial.

— Obrigada, Dobby — disse ela, dando um sorriso doce que iluminou o rosto cansado. — Você sempre sabe o que dizer.

A paz do momento foi quebrada pela entrada abrupta de Winky. A elfa estava com o avental torto e parecia ter chorado durante horas.

— Eles estão vindo! — soluçou Winky, limpando o nariz na manga. — Os inspetores do Ministério! Eles ouviram sobre o trasgo e querem revistar as cozinhas! Dizem que os elfos não podem ser confiáveis se deixam monstros entrarem!

Um pânico coletivo se espalhou. Os elfos domésticos de Hogwarts, orgulhosos de seu serviço invisível e impecável, começaram a correr de um lado para o outro.

— Inspetores? — [Nome] sentiu o estômago dar um nó. — Mas eles vão me ver aqui. Eles vão fazer perguntas.

— Dobby não vai deixar que eles incomodem a senhorita — prometeu o elfo, mas seus próprios dedos tremiam.

Minutos depois, a porta da cozinha se abriu com um estrondo. Dois bruxos vestidos com vestes cinzas e austeras entraram, seguidos pelo Professor Snape, que parecia mais irritado do que o habitual.

— Como eu disse, Diretores de Departamento — sibilou Snape, sua voz cortante como uma navalha —, o incidente foi contido. Não há necessidade de assustar os... servos.

— O regulamento é claro, Severo — disse o inspetor mais alto, um homem de nariz adunco chamado Sr. Goyle. — Qualquer brecha na segurança de Hogwarts deve ser investigada. E quem é esta?

Ele parou diante de [Nome]. Seus olhos percorreram a estatura robusta dela e o avental manchado de sabão.

— Esta é [Nome] — respondeu Snape, com um tom de indiferença estudada. — A nova auxiliar de limpeza. Uma contratação... caridosa do Diretor Dumbledore.

— Uma aborto? — O Sr. Goyle soltou uma risada seca e desagradável. — Dumbledore realmente está transformando este castelo em um asilo para os desprovidos de talento. O que uma criatura dessas poderia fazer contra um trasgo?

[Nome] sentiu o sangue fugir de seu rosto. A timidez a paralisou, e ela sentiu o desejo avassalador de se tornar invisível. Ela baixou a cabeça, as mãos escondidas sob o avental, enquanto as lágrimas começavam a arder em seus olhos.

— Ela fez mais do que o senhor faria, Sr. Goyle — a voz de Dobby ecoou pela cozinha, aguda e desafiadora.

O inspetor olhou para baixo, vendo o pequeno elfo com a meia esmeralda e o peito estufado.

— O que disse, elfo?

— Dobby disse que a senhorita [Nome] é corajosa! — gritou Dobby, ignorando o olhar de advertência de Snape. — Ela protegeu Dobby! Ela é forte e gentil, e o senhor não tem o direito de falar assim dela!

— Um elfo insolente — murmurou Goyle, levantando a varinha de forma ameaçadora. — Talvez precise de uma lição de boas maneiras.

O medo de [Nome] desapareceu no momento em que viu a varinha apontada para Dobby. A ansiedade foi substituída por aquela força brutal que ela tanto temia, mas que agora era sua única arma. Ela deu um passo à frente, colocando-se entre o bruxo e o elfo.

— Por favor, senhor — disse ela, sua voz melodiosa agora carregada de uma vibração que fez os copos de metal sobre as mesas tremerem levemente. — Não toque nele. Ele só está me defendendo.

Goyle olhou para ela, irritado.

— Saia do caminho, mulher. Ou será acusada de obstrução de justiça mágica.

[Nome] não se moveu. Sua força física de dez cavalos parecia pulsar em suas veias. Ela estendeu a mão e, com uma delicadeza que mascarava o poder real, tocou o braço do bruxo que segurava a varinha.

— Eu não quero machucar ninguém — disse ela, olhando-o nos olhos com uma compaixão profunda que o desarmou por um segundo. — Mas eu não vou deixar o senhor ferir meu amigo.

A pressão da mão de [Nome] no braço de Goyle foi apenas um aviso, mas o bruxo sentiu como se seu osso estivesse prestes a ser esmagado por uma prensa hidráulica. Ele empalideceu e baixou a varinha.

— Chega disso — interveio Snape, seus olhos negros brilhando com algo que parecia quase... aprovação. — Sr. Goyle, se terminamos o teatro, sugiro que voltemos ao Grande Salão. O Diretor os aguarda.

Os inspetores saíram apressadamente, resmungando sobre "falta de controle" e "aberações". Quando a porta se fechou, o silêncio na cozinha era absoluto. [Nome] soltou o ar que nem sabia que estava prendendo e caiu sentada em um banco de madeira, o rosto escondido nas mãos.

— Eu estraguei tudo — soluçou ela. — Dumbledore vai me mandar embora. Eu ameacei um bruxo do Ministério.

— A senhorita foi incrível! — exclamou Misty, a elfa das sobremesas, aproximando-se com um pequeno biscoito de gengibre. — Ninguém nunca enfrentou um bruxo assim por nós!

Dobby aproximou-se devagar. Ele estava radiante. Para ele, ver [Nome] defendê-lo daquela forma fora o ato mais heróico que já presenciara, superando até as histórias que ouvia sobre Harry Potter.

— A senhorita não estragou nada — disse Dobby, subindo no banco ao lado dela. — A senhorita mostrou que a força não vem apenas da varinha. Vem do coração.

[Nome] olhou para ele, as lágrimas ainda molhando suas bochechas.

— Mas Dobby, eu sou tão boba... eu nem percebo as coisas. Eu só ajo por instinto. Eu morro de medo de tudo.

— O medo é o que faz a coragem ser importante — respondeu o elfo, limpando uma lágrima do rosto dela com o polegar. — E a senhorita é a pessoa mais corajosa que Dobby já conheceu.

Naquela noite, o clima de tensão não diminuiu. Dumbledore chamara [Nome] ao seu escritório. Ela caminhou pelos corredores de pedra com o coração na boca, esperando o pior. Mas, para sua surpresa, o Diretor a recebeu com um prato de gotas de limão e um sorriso caloroso.

— [Nome], minha querida — disse Dumbledore, seus olhos azuis brilhando por trás dos óculos de meia-lua. — Soube que você teve um encontro interessante com o Sr. Goyle.

— Sinto muito, Diretor! — começou ela, as palavras atropelando-se. — Eu não queria ser agressiva, eu só... ele ia machucar o Dobby e eu não consegui ficar parada...

— Não se desculpe por proteger aqueles que não podem se defender — interrompeu ele suavemente. — Na verdade, eu gostaria de pedir sua ajuda.

[Nome] piscou, confusa.

— Minha ajuda? Mas eu sou só a faxineira.

— Você é muito mais do que isso — disse o Diretor, levantando-se e caminhando até uma prateleira onde o baú de prata recuperado do trasgo repousava. — Este baú contém relíquias que foram enfeitiçadas para repelir qualquer tipo de magia de varinha. Se um bruxo tentar abri-lo, ele explode. Mas um ser sem magia... ou um ser com uma magia diferente, como os elfos... poderia abri-lo com segurança.

Ele olhou para ela com uma seriedade profunda.

— Há algo dentro deste baú que pertenceu aos fundadores de Hogwarts. Algo que atrai criaturas das sombras. Eu preciso que você, junto com Dobby, leve este baú até o cofre mais profundo de Gringotes. A força física de um elfo é limitada para carregar tal peso por longas distâncias, e a magia de aparatação está bloqueada para este objeto.

— O senhor confia em mim para isso? — perguntou ela, a voz trêmula de emoção.

— Eu confio no seu coração, [Nome]. E sei que Dobby não deixaria nada lhe acontecer.

A missão começaria na manhã seguinte. [Nome] voltou para a cozinha, sentindo-se como se estivesse vivendo um de seus livros de romance e aventura. Ela encontrou Dobby polindo a outra meia — que ela terminara às pressas antes da reunião.

— Vamos em uma aventura, Dobby — disse ela, sentando-se ao lado dele.

— Dobby ouviu o Diretor — respondeu o elfo, seus olhos brilhando de excitação. — Dobby vai preparar mochilas com muitas tortas e suco de abóbora! E Dobby vai levar seus feitiços de proteção mais fortes!

Eles passaram o restante da noite planejando. [Nome] sentia-se útil, sentia-se parte de algo grande. Ela começou a cantarolar enquanto ajudava Dobby a embalar os mantimentos, uma canção sobre estrelas que guiam viajantes perdidos.

— A senhorita tem uma voz divina — murmurou Dobby, parando o que estava fazendo apenas para ouvi-la. — Dobby acha que a senhorita poderia encantar até um dragão.

— Oh, pare com isso, Dobby! — Ela corou, escondendo o rosto atrás de um pano de prato. — Eu só canto para as plantas.

— As plantas têm muita sorte, então — disse ele com uma ternura que a fez parar de rir por um segundo.

Houve um momento de silêncio denso entre eles. [Nome] olhou para o pequeno elfo e, pela primeira vez, notou a profundidade do carinho em seu olhar. Ela era ingênua, sim, mas não era cega. Havia algo na forma como Dobby a tratava que ia além da gratidão por ser libertado ou da lealdade profissional. Era uma adoração silenciosa, um amor que não precisava de palavras mágicas para ser sentido.

Mas, antes que ela pudesse processar aquele pensamento, um ruído estranho veio da despensa. Um som de vidro se quebrando, seguido por um rosnado baixo.

— O *Erkling*! — exclamou [Nome], levantando-se de um salto.

Dobby estalou os dedos, e uma luz forte emanou de sua mão. Eles correram para a despensa, mas o que encontraram não foi a pequena criatura das sombras.

No centro da sala, cercado por potes de especiarias quebrados, estava um Trasgo da Floresta, mas este era diferente do anterior. Ele era maior, com a pele coberta por runas brilhantes de cor violeta. E em sua mão, ele segurava uma das meias de Dobby, que caíra no chão durante a correria.

O trasgo rosnou e rasgou a meia de lã esmeralda ao meio.

O grito que saiu da garganta de [Nome] não foi de medo. Foi de pura fúria protetora. Aquela meia representava seu carinho, suas horas de trabalho, seu presente para o ser que mais a respeitava no mundo.

— Você... — ela começou, sua voz descendo para um tom perigosamente baixo. — ... rasgou... o presente... dele.

A criatura avançou, mas [Nome] não recuou. Ela não esperou o trasgo atacar. Ela correu em direção a ele com a velocidade de um cavalo de corrida. Quando o trasgo tentou golpeá-la com seu porrete de madeira maciça, ela simplesmente segurou a arma no ar. O som da madeira estalando sob a pressão dos dedos de [Nome] ecoou pela cozinha.

Com um puxão violento, ela arrancou o porrete da mão da criatura e o quebrou ao meio como se fosse um graveto de fósforo. O trasgo, confuso pela demonstração de força, tentou rugir, mas [Nome] segurou-o pelos ombros.

— Nunca mais — disse ela, seus olhos transbordando uma intensidade que fez até Dobby recuar um passo — toque nas coisas dos meus amigos.

Ela deu uma cabeçada no peito do trasgo — um movimento que teria quebrado o crânio de um humano, mas que apenas atordoou a criatura de pele grossa — e então, usando toda a sua força, ela o empurrou contra a parede de pedra. O impacto foi tão forte que a parede rachou, e o trasgo caiu inconsciente, as runas violetas em sua pele desaparecendo.

[Nome] ficou ali, ofegante, seus cabelos desgrenhados e as mãos tremendo, não de medo, mas de adrenalina. Ela olhou para os restos da meia no chão e sentiu as lágrimas caírem.

— Eu sinto muito, Dobby — soluçou ela, caindo de joelhos. — Eu vou fazer outra, eu juro.

Dobby aproximou-se devagar. Ele não olhou para a meia rasgada. Ele olhou para [Nome]. Ele viu a mulher que, apesar de toda a sua timidez e ansiedade, se transformara em uma força da natureza para defendê-lo.

Ele caminhou até ela e, em vez de pegar os restos da meia, ele envolveu o pescoço dela com seus braços pequenos, abraçando-a com toda a sua alma.

— A meia não importa, senhorita [Nome] — sussurrou ele no ouvido dela. — O que importa é que a senhorita é o meu milagre.

[Nome] retribuiu o abraço, sentindo o coração de Dobby batendo rápido contra o seu. Ela ainda não entendia completamente os sentimentos que estavam florescendo, mas sabia que, ao lado daquele elfo, ela não era uma aberração. Ela era uma protetora. Ela era amada.

E enquanto as luzes da cozinha diminuíam, a promessa de uma jornada perigosa até Gringotes pairava no ar. Mas [Nome] não tinha mais medo. Pois ela sabia que, por Dobby, ela seria capaz de mover o próprio castelo de Hogwarts se fosse necessário.

A aventura estava apenas começando, e o amor, em toda a sua complexidade e diferença de espécies, estava bordando um novo caminho nos corações daqueles dois seres singulares.