O elfo apaixonado pela humana boba
O Segredo do Cofre de Prata e o Juramento Sob as Estrelas
A luz da manhã ainda não havia tocado as torres mais altas de Hogwarts quando [Nome] terminou de amarrar as botas de couro reforçado. O silêncio no seu quarto era absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico de sua própria respiração. Sobre a cama, o baú de prata que Dumbledore lhe confiara parecia pulsar com uma luz baça e metálica. Ele era pesado, extremamente pesado, mas para os braços de [Nome], era como carregar uma cesta de vime cheia de maçãs.
— A senhorita está pronta? — A voz de Dobby veio do canto da sala.
O elfo estava impecável. Além da meia esmeralda que [Nome] remendara com pontos invisíveis e muito carinho durante a madrugada, ele usava uma pequena mochila feita de retalhos e segurava um cajado de madeira que Alvo Dumbledore lhe emprestara para a jornada.
— Estou com medo, Dobby — confessou ela, a voz doce tremendo levemente. — E se eu falhar? E se as criaturas das sombras aparecerem de novo e eu não for rápida o suficiente?
Dobby aproximou-se e tocou a mão dela. O contraste entre a pele delicada do elfo e a mão robusta de [Nome] era um lembrete constante de quão diferentes, e ao mesmo tempo sintonizados, eles eram.
— Dobby estará com a senhorita. E Dobby sabe que a senhorita tem a força de dez cavalos e o coração de mil anjos. Nada vai nos parar.
Eles saíram pelos túneis subterrâneos que levavam para fora das propriedades da escola. Como o baú bloqueava a magia de aparatação e repelia vassouras, a única forma de chegar à estação de Hogsmeade, onde pegariam um transporte discreto para Londres, era a pé.
O caminho pela orla da Floresta Proibida era assustador. As árvores pareciam sussurrar segredos antigos, e o orvalho da manhã deixava o chão escorregadio. [Nome] carregava o baú sob o braço direito com uma facilidade que faria um batedor de Quadribol chorar de inveja, enquanto a mão esquerda permanecia livre para o caso de algum perigo surgir.
— Dobby — disse ela, quebrando o silêncio para afastar a ansiedade —, por que o Diretor disse que este baú repele magia? O que há de tão perigoso nele?
— Dobby ouviu dizer — sussurrou o elfo, olhando cautelosamente para os arbustos — que dentro dele está o Cálice de Prata de Helga Hufflepuff. Não o verdadeiro, mas um protótipo que ela usou para testar feitiços de abundância. Ele atrai tudo o que tem fome... especialmente fome de poder.
De repente, um estalo de galho seco ecoou à direita deles. [Nome] parou instantaneamente. Seus sentidos, aguçados por anos de isolamento onde a audição era sua melhor companhia, detectaram uma presença pesada.
— Atrás de mim, Dobby — ordenou ela, a timidez desaparecendo para dar lugar ao instinto protetor.
Das sombras da floresta, não surgiu um trasgo, mas algo muito mais refinado e perigoso. Três centauros, com seus arcos em punho e expressões severas, bloquearam o caminho. O líder, um centauro de pelagem negra chamado Bane, olhou para o baú com desprezo.
— Humanos e elfos carregando o que não lhes pertence — disse Bane, a voz profunda como um trovão distante. — As estrelas disseram que o brilho da prata passaria por aqui, mas não disseram que seria carregado por uma fêmea sem magia.
[Nome] sentiu a velha ferida do preconceito arder, mas ela não baixou a cabeça.
— Eu não sou uma bruxa, é verdade — disse ela, dando um passo à frente. — Mas este brilho pertence à Hogwarts, e eu prometi ao Diretor que o levaria em segurança. Por favor, deixem-nos passar.
— O que uma criatura tão desajeitada faria se decidíssemos tomar este fardo? — perguntou outro centauro, testando a corda do arco.
Dobby deu um passo à frente, o peito estufado sob a meia de girassóis.
— A senhorita [Nome] é amiga dos elfos! E quem mexe com os amigos de Dobby, mexe com Dobby!
Bane riu, um som seco.
— Um elfo livre e uma aborto. Uma dupla curiosa. Mostre-nos sua força, fêmea, ou volte para as cozinhas de onde veio.
Um dos centauros disparou uma flecha, não para matar, mas para assustar, visando o chão entre os pés de [Nome]. Antes que a flecha tocasse o solo, [Nome] agiu. Com uma velocidade que desafiava seu tamanho, ela soltou o baú por um milésimo de segundo, pegou a flecha no ar com dois dedos e a partiu como se fosse um palito de dente.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os centauros, que respeitavam a força física acima de quase tudo, baixaram os arcos.
— Marte está brilhante hoje — murmurou Bane, observando os pedaços da flecha na mão de [Nome]. — Você tem a força da terra em seus tendões, humana. Passe. Mas saiba que o que você carrega atrai sombras que não se curvam à força física.
Eles desapareceram na floresta tão rápido quanto surgiram. [Nome] soltou um suspiro longo, sentindo as pernas tremerem.
— Eu odeio fazer isso — confessou ela a Dobby. — Eu morro de medo de machucar alguém de verdade.
— A senhorita foi magnífica! — exclamou Dobby, seus olhos brilhando de adoração. — Os centauros nunca deixam ninguém passar sem um desafio. A senhorita é uma lenda!
— Eu só quero uma torta de abóbora e um livro de romance, Dobby — riu ela, embora o riso fosse nervoso.
Eles continuaram a jornada até Londres. Ao chegarem ao Caldeirão Furado, usaram capas pesadas para esconder o baú e a aparência de Dobby. O mundo bruxo era um lugar hostil para quem era "diferente", e [Nome] sabia disso melhor do que ninguém. Ela caminhava com a cabeça baixa, tentando não esbarrar em ninguém, sentindo-se como uma intrusa entre as varinhas e as vestes coloridas do Beco Diagonal.
— Estamos quase lá — sussurrou Dobby enquanto se aproximavam do imponente edifício branco de Gringotes.
No entanto, antes que pudessem subir os degraus de mármore, uma figura encapuzada barrou o caminho. O ar ao redor deles ficou gélido, e o cheiro de mofo e metal retornou com força total.
— Entregue o baú — disse uma voz sibilante, saindo debaixo do capuz. — Ele não pertence a Dumbledore. Ele pertence ao mestre que tudo vê.
Dessa vez, não era uma criatura da floresta. Era um bruxo das trevas, e ele não estava sozinho. Outros três surgiram das sombras das lojas vizinhas.
— Dobby, agora! — gritou [Nome].
Dobby estalou os dedos, criando uma barreira de luz ofuscante.
— Corra para dentro, senhorita! — gritou o elfo. — Dobby segura eles!
— Eu não vou te deixar! — retrucou ela.
[Nome] viu um dos bruxos levantar a varinha para lançar uma maldição em Dobby. Sem pensar, ela usou o baú de prata como um escudo. O feitiço ricocheteou no metal e atingiu uma vitrine próxima, estilhaçando-a. Aproveitando a distração, [Nome] avançou. Ela não usou punhos; ela usou sua massa corporal. Como um aríete humano, ela investiu contra o bruxo mais próximo, arremessando-o contra uma parede com tanta força que o homem desmaiou instantaneamente.
Os outros bruxos hesitaram. Eles estavam acostumados a duelos de varinhas, não a uma mulher que parecia ignorar as leis da física.
— Pegue o elfo! — gritou um deles.
Um feitiço de cordas mágicas envolveu as pernas de Dobby, derrubando-o.
— DOBBY! — o grito de [Nome] ecoou por todo o Beco Diagonal.
A fúria protetora que ela sentira na cozinha voltou dez vezes mais forte. Ela largou o baú no chão — o impacto fez o calçamento de pedra rachar — e correu na direção de Dobby. Um bruxo tentou lançar um *Expelliarmus*, mas como ela não tinha varinha, o feitiço apenas ricocheteou em seu peito, causando-lhe apenas um leve formigamento.
Ela agarrou o bruxo pelas vestes e o levantou do chão com uma única mão.
— Solte... o meu... amigo — disse ela, sua voz divina agora transformada em um rosnado baixo e perigoso.
O bruxo, aterrorizado, desfez o feitiço das cordas. [Nome] o soltou, deixando-o cair como um saco de batatas, e pegou Dobby no colo, protegendo-o com seu corpo robusto.
— Vamos embora daqui! — exclamou ela, pegando o baú com a outra mão e correndo para dentro de Gringotes.
Os duendes do banco, sempre eficientes e pouco impressionáveis, olharam para a cena com curiosidade. Após apresentarem a carta selada de Dumbledore, eles foram conduzidos rapidamente para os carrinhos que levavam aos cofres profundos.
A descida foi vertiginosa. O vento batia no rosto de [Nome], ajudando a esfriar sua pele quente de adrenalina. Dobby estava sentado ao lado dela, segurando sua mão com força.
— A senhorita é a pessoa mais incrível que já existiu — sussurrou o elfo, olhando para ela com uma devoção que não podia mais ser confundida com simples gratidão. — Ninguém nunca lutou por Dobby assim. Nem mesmo Harry Potter.
[Nome] sentiu o coração acelerar, mas não por causa do carrinho.
— Você é meu amigo, Dobby. Eu faria qualquer coisa por você.
— A senhorita faria? — perguntou ele, a voz pequena e cheia de esperança.
— Sim — respondeu ela, sorrindo docemente enquanto entravam nas profundezas das cavernas.
Eles finalmente chegaram ao cofre de segurança máxima. O baú foi entregue aos duendes, que o trancaram atrás de uma porta de ouro maciço protegida por dragões. A missão estava cumprida.
Na viagem de volta para Hogwarts, o sol já estava se pondo, tingindo o horizonte de tons purpúreos. Eles estavam sentados no último vagão do Expresso de Hogwarts, que estava quase vazio. [Nome] estava exausta, seu apetite voraz começando a dar sinais de vida.
— Dobby — disse ela, encostando a cabeça na janela — eu estava pensando... sobre o que você disse. Sobre eu ser uma guerreira. Eu não me sinto assim. Eu me sinto apenas... eu. Uma mulher que gosta de artesanato e que morre de vergonha de falar em público.
Dobby sentou-se mais perto dela. O vagão estava na penumbra, iluminado apenas pelo brilho das primeiras estrelas.
— A senhorita é o que a senhorita escolhe ser — disse o elfo. — E hoje a senhorita escolheu ser a protetora de Dobby. A senhorita escolheu ser forte para que Dobby pudesse ser livre.
Ele hesitou por um momento, as orelhas balançando nervosamente.
— Senhorita [Nome]... Dobby sabe que é apenas um elfo. E Dobby sabe que a senhorita é uma humana linda e poderosa. Mas Dobby... Dobby sente que seu coração bate no mesmo ritmo que o da senhorita.
[Nome] olhou para ele, surpresa. Ela era "boba" para sentimentos românticos, mas a sinceridade na voz de Dobby era como uma melodia que ela conhecia bem. Ela sentiu uma onda de carinho tão profunda que seus olhos se encheram de lágrimas.
— Dobby — sussurrou ela — meu coração também bate por você. Eu nunca me senti tão aceita, tão... eu mesma, como quando estou com você.
Dobby aproximou-se e, com uma delicadeza infinita, tocou o rosto dela.
— Dobby ama a senhorita [Nome]. Não como um servo ama um mestre, mas como um elfo livre ama a mulher que deu a ele girassóis e coragem.
[Nome] inclinou-se e beijou o topo da cabeça de Dobby, entre suas orelhas de morcego.
— Eu também te amo, Dobby. Do meu jeito meio bobo e desajeitado, mas eu amo.
Eles ficaram ali, de mãos dadas, enquanto o trem cortava a paisagem escocesa. A jornada fora perigosa, e as sombras ainda rondavam o castelo, mas para [Nome], o mundo finalmente parecia fazer sentido. Ela não era uma "aborto inútil". Ela era a guardiã de um elfo livre, a dona de uma força divina e a detentora de um amor que desafiava todas as leis do mundo bruxo.
Ao longe, as luzes de Hogwarts começaram a brilhar. O castelo os esperava com mais mistérios, mais limpezas e mais perigos. Mas agora, [Nome] sabia que não importava o tamanho do trasgo ou a escuridão da magia, ela teria Dobby ao seu lado. E juntos, eles eram a magia mais poderosa que aquelas pedras milenares já haviam presenciado.
— Dobby? — chamou ela, enquanto se preparavam para desembarcar.
— Sim, senhorita [Nome]?
— Quando chegarmos, você me ensina a dançar de novo? Mas desta vez, sem as luzes flutuantes. Só nós dois e o som do vento.
Dobby sorriu, o sorriso mais brilhante que ela já vira.
— Dobby dançaria com a senhorita até o fim dos tempos.
E assim, sob o manto de estrelas que Bane tanto admirava, a faxineira de Hogwarts e o elfo livre caminharam de volta para casa, prontos para enfrentar qualquer sombra, desde que pudessem fazer isso de mãos dadas.