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O elfo apaixonado pela humana boba

O Silêncio da Febre e a Dança das Sombras

Os meses que se seguiram à entrega do baú de prata em Gringotes foram, sem dúvida, os mais felizes da vida de [Nome]. Hogwarts não era mais apenas uma escola de magia onde ela trabalhava como faxineira; era o seu lar. Ela havia aprendido a navegar pelas escadarias que mudavam de lugar sem tropeçar, fizera amizade com os centauros da orla da Floresta Proibida — que agora a chamavam de "Irmã da Terra" devido à sua força e respeito pela natureza — e até mesmo o ranzinza Filch parecia tolerar sua presença, desde que ela não usasse muita água nos corredores do segundo andar.

No entanto, a mudança de estação trouxe um inverno rigoroso. A neve cobria os campos de Hogwarts como um lençol de lã branca, e o vento uivava pelas frestas das janelas de pedra. [Nome] acordou naquela terça-feira sentindo como se um trasgo estivesse sentado sobre seu peito. Sua cabeça latejava em um ritmo doloroso e sua garganta parecia ter sido arranhada por um Hipogrifo.

— Só um resfriado — sussurrou ela para as paredes vazias de seu quarto, sua voz saindo rouca e quase irreconhecível. — Eu não posso parar agora. Hoje é dia de limpar os caldeirões do Professor Snape.

Ela tentou se levantar, mas o mundo girou violentamente. Sua força de dez cavalos parecia ter se evaporado, deixando apenas uma carcaça trêmula e febril. Com um esforço hercúleo, ela conseguiu se vestir, mas suas mãos, geralmente tão precisas em seus artesanatos, mal conseguiam abotoar o avental. Ela ignorou a náusea e a dor, movida por aquele medo profundo de ser considerada inútil que ainda habitava os recessos de sua mente.

Ao entrar nas cozinhas, o calor das fornalhas, que geralmente a confortava, pareceu um ataque direto. O cheiro de bacon e café a fez vacilar.

— Bom dia, senhorita [Nome]! — exclamou Dobby, surgindo com um estalo alegre. Ele usava agora um par completo de meias esmeralda com girassóis, as orelhas balançando de excitação. — Dobby preparou o chá de hortelã que a senhorita gosta e...

Dobby parou abruptamente. Seus olhos verdes, enormes e expressivos, focaram no rosto de [Nome]. Ela estava pálida, com exceção de duas manchas vermelhas febris nas maçãs do rosto, e seus olhos estavam vítreos.

— A senhorita está bem? — perguntou o elfo, sua voz baixando de tom, carregada de uma preocupação imediata. — A senhorita parece... murcha. Como uma flor que ficou tempo demais fora do vaso.

— Estou ótima, Dobby — mentiu ela, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. — Só não dormi bem. O vento fez muito barulho nas janelas.

Ela pegou um balde de água e um esfregão. O peso, que normalmente não significava nada para ela, pareceu pesar uma tonelada. Ela começou a caminhar em direção às masmorras, mas cada passo era uma batalha contra a gravidade.

— Senhorita [Nome], espere! — Dobby tentou segurá-la pela mão, mas ela continuou, movida por uma teimosia cega e ansiosa.

Nas masmorras, o ar era frio e úmido. [Nome] começou a esfregar as mesas de pedra da sala de Poções. O Professor Snape estava em um canto, corrigindo pergaminhos com sua habitual expressão de tédio maligno. Ele ergueu os olhos por um momento, observando a auxiliar de limpeza.

— Você está fazendo mais barulho do que o necessário, [Nome] — sibilou Snape, sua voz ecoando nas paredes frias. — E está esfregando o mesmo lugar há dez minutos. Se o seu objetivo é cavar um buraco na pedra, sugiro que peça ferramentas adequadas ao Hagrid.

— Sinto muito, Professor — respondeu ela, a voz falhando. — Eu vou... eu vou terminar logo.

— Você está doente — afirmou Snape, levantando-se. Ele caminhou até ela com passos silenciosos. — Sua respiração está curta e sua temperatura está afetando o ambiente ao seu redor. Vá para a ala hospitalar antes que você desmaie sobre um dos meus ingredientes raros e estrague meses de trabalho.

— Eu não estou doente — insistiu ela, a teimosia e a timidez criando uma mistura perigosa. — Eu só preciso trabalhar. Eu não quero decepcionar o Diretor.

Snape soltou um suspiro de impaciência e, antes que pudesse dizer mais nada, [Nome] sentiu os joelhos cederem. O balde caiu com um estrondo metálico, derramando água ensaboada por todo o chão. Ela teria batido o rosto na pedra se Snape não tivesse agido com uma rapidez inesperada, segurando-a pelos ombros.

— Pelas barbas de Merlin, mulher! — exclamou o mestre das poções, forçado a usar sua força para sustentar o peso daquela mulher tão robusta. — Dobby!

Com um estalo, o elfo apareceu, seus olhos arregalados de terror ao ver [Nome] semi-consciente nos braços de Snape.

— O que aconteceu? Dobby avisou! Dobby disse que a senhorita estava murcha!

— Leve-a para o quarto dela — ordenou Snape, sua voz agora desprovida de sarcasmo, carregada de uma urgência clínica. — Eu vou buscar uma Poção Revigorante e avisar Madame Pomfrey. Ela está com uma febre que poderia derreter gelo.

Dobby não esperou. Com um toque suave no braço de [Nome], ele a aparatou diretamente para o pequeno quarto dela. Ele a deitou na cama com uma delicadeza infinita, cobrindo-a com as mantas de lã que ela mesma havia tricotado.

— Senhorita [Nome], por que a senhorita não contou para Dobby? — murmurou o elfo, seus dedos pequenos tocando a testa ardente dela. — Dobby cuidaria de tudo. Dobby morreria de tristeza se algo acontecesse com a senhorita.

[Nome] abriu os olhos minimamente, a visão embaçada.

— Eu não queria ser um peso, Dobby... — sussurrou ela, uma lágrima solitária escorrendo pelo canto do olho. — Se eu não trabalhar, eu sou apenas uma... uma aberração sem magia que ocupa espaço.

— A senhorita nunca é um peso! — exclamou Dobby, a voz embargada. — A senhorita é a magia de Dobby!

A porta do quarto se abriu e Madame Pomfrey entrou, seguida por Dumbledore e Snape. A enfermeira de Hogwarts não perdeu tempo, começando a entoar feitiços de diagnóstico.

— É uma gripe de inverno bruxa, agravada por exaustão extrema — diagnosticou Madame Pomfrey, balançando a cabeça. — Como ela conseguiu andar até as masmorras nesse estado é um mistério. Ela deveria estar de cama há pelo menos dois dias.

Dumbledore aproximou-se, seu olhar azul cheio de uma compaixão paternal.

— Minha querida [Nome], por que tanto esforço? — perguntou ele suavemente. — Ninguém aqui espera que você seja invulnerável. Sua dedicação é admirável, mas sua saúde é mais preciosa do que qualquer caldeirão limpo.

— Eu tinha medo... — confessou ela, a febre diminuindo as suas defesas emocionais. — Medo de que, se eu parasse, vocês percebessem que não precisam de mim.

— Tolice — sibilou Snape, embora seu tom não fosse cruel. — Quem mais teria a força para mover os armários de carvalho da sala de aula sem precisar de um feitiço de levitação que sempre acaba derrubando os frascos? Beba isto.

Ele entregou a ela um frasco com um líquido fumegante de cor azulada. [Nome] bebeu, sentindo o calor da poção se espalhar, combatendo o frio que sentia nos ossos.

Nos dias que se seguiram, o quarto de [Nome] se tornou o centro de uma peregrinação silenciosa. Hagrid trouxe uma cesta de ovos de galinhas gigantes e um buquê de flores silvestres que ele jurou terem propriedades curativas. Neville Longbottom, o aluno da Grifinória que ela ajudara a encontrar o sapo Trevo várias vezes, trouxe uma planta rara que purificava o ar.

Mas foi Dobby quem nunca saiu do seu lado. O elfo se recusava a voltar para as cozinhas, alegando que sua "missão mais importante" era garantir que a senhorita [Nome] não saísse da cama antes da hora.

— Dobby trouxe sopa de cebola e torradas com mel — disse ele em uma tarde cinzenta, enquanto ela já se sentia um pouco melhor.

— Dobby, você não precisa fazer tudo isso — disse ela, sentando-se na cama. — Você deve estar exausto. Quem está cuidando das sobremesas do jantar?

— Misty e Binky estão cuidando — respondeu Dobby, ajeitando as cobertas dela. — Mas nada é mais importante do que ver a senhorita sorrir de novo. Dobby ficou com muito medo. Dobby pensou que as estrelas da senhorita tinham se apagado.

[Nome] olhou para o pequeno elfo. O carinho que ela sentia por ele transbordou, e ela estendeu a mão, convidando-o para se sentar ao seu lado na cama. Dobby hesitou por um segundo antes de subir e sentar-se, suas orelhas balançando timidamente.

— Sabe, Dobby... — começou ela, sua voz agora mais firme. — Quando eu estava doente, eu tive sonhos. Eu sonhei que estava perdida na neve, e que não conseguia carregar nada. Eu me sentia pequena e inútil. Mas então, uma luz verde esmeralda aparecia e me puxava de volta. Era você.

Dobby olhou para as próprias meias e depois para ela, seus olhos brilhando com uma intensidade que a fez perder o fôlego por um momento.

— Dobby sempre buscará a senhorita — prometeu ele. — Não importa se a neve for alta ou se a magia for escura. Dobby é um elfo livre, e Dobby escolheu ser o protetor da senhorita [Nome].

[Nome] sentiu o coração acelerar. Ela era "boba", como costumava dizer, lenta para perceber segundas intenções, mas a forma como Dobby a olhava era impossível de ignorar. Não era apenas lealdade; era um amor devoto, um sentimento que transcendia as barreiras de espécie e de magia.

— Eu também quero te proteger, Dobby — disse ela, acariciando a cabeça dele entre as orelhas. — Eu acho que... eu nunca tive ninguém que se importasse tanto comigo sem esperar nada em troca. No mundo dos bruxos, eu sempre fui a "metade de algo". Mas com você, eu me sinto inteira.

Dobby inclinou a cabeça para o toque dela, fechando os olhos de prazer.

— A senhorita é inteira, poderosa e divina — murmurou o elfo. — Dobby ama tudo na senhorita. Até o jeito que a senhorita come dez tortas quando está com fome.

[Nome] soltou uma risada melodiosa, a primeira em dias, e o som pareceu iluminar o quarto escuro.

— Oh, Dobby! Você não deveria mencionar meu apetite voraz em momentos românticos!

— Mas Dobby ama o apetite da senhorita! — insistiu ele, abrindo os olhos e sorrindo. — Significa que a senhorita tem muita vida dentro de si.

Naquela noite, a febre finalmente cedeu por completo. [Nome] sentia-se fraca, mas em paz. Ela percebeu que não precisava provar seu valor através do trabalho exaustivo; seu valor estava nos laços que criara. Ela olhou para a mesa de cabeceira, cheia de presentes de alunos e professores, e depois para Dobby, que havia adormecido sentado no banquinho, segurando a ponta de sua manta.

Ela se levantou silenciosamente, sua força começando a retornar, e pegou o elfo no colo com a mesma delicadeza que usava para cuidar das plantas. Ela o deitou na poltrona macia do canto do quarto, cobrindo-o com um xale de lã.

— Obrigada por me amar, Dobby — sussurrou ela, beijando o topo da cabeça dele.

Na manhã seguinte, [Nome] estava de volta às cozinhas, mas desta vez, ela não carregava o peso do mundo nos ombros. Ela trabalhava com um ritmo calmo, parando para conversar com Winky e para dar um pedaço de pão aos ratos de campo que viviam perto da despensa.

Quando Dobby apareceu, pronto para repreendê-la por ter saído da cama, ela apenas sorriu e entregou a ele uma pequena caixa de madeira que havia entalhado durante sua convalescença.

— O que é isso, senhorita [Nome]? — perguntou ele, abrindo a caixa com as mãos trêmulas.

Dentro, havia um pequeno pingente de madeira em formato de girassol, com uma pequena esmeralda incrustada no centro — um presente que ela conseguira com a ajuda de Hagrid, que encontrara a pedra na floresta.

— É para você se lembrar de que você é a minha luz, Dobby — disse ela, corando intensamente.

Dobby não disse nada. Ele apenas pulou nos braços dela, abraçando seu pescoço com toda a força que seu pequeno corpo permitia. [Nome] o segurou, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente poderosa. Não pela força de seus braços, mas pela força do amor que a unia àquele elfo extraordinário.

Hogwarts continuava a ser um lugar de mistérios e perigos, mas para a faxineira e o elfo livre, o maior mistério de todos — o coração humano e élfico — havia sido finalmente desvendado. E enquanto eles dançavam uma valsa silenciosa na cozinha, entre o aroma de canela e a promessa de um novo dia, o mundo bruxo parecia um pouco menos frio e muito mais mágico.