o filho do capitão Man?
Sincronia de Choque e Novos Começos
A luz do sol de Swellview era diferente da de Metroburg. Enquanto na minha antiga cidade o céu parecia sempre filtrado por uma névoa de poluição industrial e segredos sombrios, aqui o sol batia direto no asfalto, fazendo as janelas da Escola Secundária de Swellview brilharem como se dessem as boas-vindas. Eu ajustei meus óculos quadrados e respirei fundo, sentindo o peso da mochila nas costas.
— Você está nervoso? — perguntou Anny, parando ao meu lado no portão da escola.
Ela estava deslumbrante. Schwoz tinha conseguido matricular nós dois com identidades impecáveis. Ela usava um jeans claro e uma blusa que destacava o tom acobreado do seu cabelo sob a luz da manhã. Para todos os efeitos, ela era apenas a "nova vizinha" que tinha se mudado recentemente.
— Um pouco — confessei, sentindo um pequeno estalo de estática na ponta dos dedos. — É a minha primeira vez em uma escola que não pertence a uma organização de vilões. Aqui as pessoas não tentam te derrubar no corredor usando armas laser.
Anny riu e segurou minha mão. O toque dela era o meu âncora.
— É, aqui elas só tentam te derrubar com fofocas e testes de álgebra. Acho que a gente consegue dar conta.
— Ei, novatos! — A voz de Henry ecoou vinda do estacionamento.
Ele vinha caminhando com Charlotte e Jasper. Henry parecia relaxado, mas eu sabia que ele estava sempre alerta, o instinto de Kid Danger nunca dormia totalmente.
— E aí, como foi a primeira noite na "pensão do Ray"? — perguntou Henry, piscando para mim.
— O Ray tentou fazer panquecas às seis da manhã — respondi, rindo. — Ele quase colocou fogo na cozinha porque se distraiu admirando o próprio reflexo na espátula.
— É, isso soa exatamente como o Ray — comentou Charlotte, revirando os olhos com carinho. — Mas e aí, estão prontos para o primeiro dia? Lembrem-se: nada de telecinésia para pegar livros no armário e, Nique, por favor, controle esses choques. A última coisa que precisamos é que o sistema elétrico da escola exploda no primeiro período.
— Eu estou tentando, Charlotte — eu disse, mostrando as mãos. — Schwoz me deu esses inibidores de pulso que parecem relógios digitais. Eles ajudam a filtrar o excesso de energia quando eu fico ansioso.
— Ótimo — disse Jasper, abraçando um balde de pipoca (sim, ele tinha levado um para a escola). — Porque hoje é dia de pizza na cantina, e se você eletrocutar o forno, eu não vou te perdoar.
Entramos na escola e o burburinho dos corredores me atingiu como uma onda. Era um caos organizado. Armários batendo, risadas, pessoas correndo para não perder o sinal. Era... normal. E o normal era tudo o que eu sempre quis.
As primeiras aulas passaram sem grandes incidentes. Henry e Charlotte ficavam de olho em nós, garantindo que não fizéssemos nada que chamasse atenção indesejada. No entanto, o verdadeiro desafio veio na aula de Ciências, logo após o intervalo.
O professor, um homem magro com cabelos que pareciam ter sofrido um choque permanente, estava explicando sobre circuitos elétricos e condutividade.
— Hoje, classe, vamos fazer um experimento simples com um gerador de Van de Graaff — anunciou o professor. — Quem gostaria de ser o voluntário para demonstrar como a eletricidade estática faz o cabelo subir?
Eu senti meu coração disparar. Meus pulsos começaram a formigar intensamente.
— Nique, relaxa — sussurrou Anny, que estava sentada na mesa ao lado.
— Eu estou tentando — respondi entre dentes. — Mas o gerador está emitindo uma frequência que está... chamando o meu poder.
A eletricidade dentro de mim não era apenas uma ferramenta; era como um músculo que queria se exercitar. E ver um gerador elétrico ali na frente era como colocar um prato de comida na frente de alguém que está faminto.
— Que tal o nosso aluno novo? — sugeriu o professor, apontando para mim. — Nique, não é? Venha até aqui, rapaz. Não morde, eu prometo.
Henry, que estava no fundo da sala, arregalou os olhos e fez um sinal de "não" com a cabeça, mas já era tarde. Se eu recusasse de forma estranha, chamaria ainda mais atenção. Eu me levantei, sentindo o suor frio na nuca.
— Vai lá, Nique — disse um garoto alto na primeira fila, rindo. — Mostra pra gente se esse cabelo branco é de verdade ou se já levou um choque antes.
Caminhei até a frente da sala. O gerador de Van de Graaff era uma esfera metálica grande montada sobre uma coluna. O professor ligou o aparelho, e o som do motor começou a zumbir.
— Coloque as mãos na esfera, Nique — instruiu o professor.
Assim que meus dedos tocaram o metal frio, eu senti uma conexão instantânea. Não era a estática do aparelho que estava agindo; era a minha própria energia que estava sendo drenada para dentro da máquina. A esfera começou a brilhar com uma intensidade azulada que não era normal.
— Puxa, esse gerador nunca foi tão potente — comentou o professor, ajustando os óculos, fascinado.
Meu cabelo branco e cacheado começou a se levantar, ficando em pé como se eu fosse um personagem de desenho animado. Mas o problema era o painel de luzes da sala, que começou a piscar violentamente.
— Nique... — Charlotte murmurou, preocupada, já pegando o celular para mandar uma mensagem de emergência para o Ray ou o Schwoz.
Eu fechei os olhos, concentrando-me em tudo o que Schwoz tinha me ensinado na noite anterior na Caverna Man. "Imagine que a energia é como água", ele dissera. "Você não é o balde, você é a torneira. Você decide o quanto sai".
— Controle... — sussurrei para mim mesmo.
Eu visualizei a energia voltando para o meu núcleo, descendo pelos meus braços e se estabilizando nos inibidores de pulso. A luz azulada da esfera diminuiu para um brilho normal e as luzes da sala pararam de piscar. O professor bateu palmas, impressionado.
— Fantástico! Veja como a carga se distribuiu! Você deve ter uma condutividade natural excelente, rapaz. Pode se sentar.
Voltei para o meu lugar, trêmulo. Anny soltou um suspiro de alívio tão alto que a garota da frente se virou para olhar.
— Essa foi por pouco — sussurrou Henry quando a aula acabou e saímos para o corredor. — Por um segundo, achei que você ia transformar o professor em um churrasco humano.
— Eu senti a energia dele daqui — comentou Anny, guardando o material. — Se você não tivesse se controlado, eu teria que teletransportar a sala inteira para o ginásio para disfarçar a explosão.
— Desculpem, pessoal — eu disse, limpando o suor da testa. — É mais difícil do que parece. Em Metroburg, eu era incentivado a explodir coisas. Aqui, eu tenho que fingir que sou uma pilha descarregada.
— Você vai conseguir — disse Charlotte, encorajadora. — É apenas o primeiro dia. O Ray também teve que aprender a fingir que sentia dor quando batia o dedinho na quina dos móveis para não desconfiarem que ele é indestrutível.
Fomos para o refeitório, e o clima estava mais leve. Estávamos sentados em uma mesa redonda, o grupo completo: eu, Anny, Henry, Charlotte e Jasper. Parecia uma cena de um filme de adolescentes, algo que eu só via através das telas quando morava com os Campbell.
— Então, Nique — começou Jasper, com a boca cheia de pizza —, o que você achou das garotas de Swellview? Além da Anny, claro, senão ela me joga pela janela com a mente.
Anny riu e deu um gole no seu suco.
— Elas parecem legais, Jasper. Mas acho que o Nique está mais interessado em não incendiar a escola do que em fazer novas amizades agora.
— Na verdade — eu disse, olhando ao redor —, eu estou interessado em como tudo aqui é... calmo. Ninguém está planejando dominar o mundo durante o almoço. É refrescante.
Nesse momento, o meu celular vibrou no bolso. Era um alerta prioritário da Caverna Man. Henry e Charlotte também receberam a notificação simultaneamente.
— Problemas? — perguntei, baixando a voz.
Henry olhou para o relógio de pulso, que tinha um monitor holográfico oculto.
— O Toddler está tentando roubar o estoque de fraldas gigantes do armazém central — sussurrou Henry, revirando os olhos. — Sério, esse cara não desiste.
— O Ray quer a gente lá agora — disse Charlotte, levantando-se. — Jasper, você fica e dá cobertura. Se alguém perguntar, fomos...
— ... para o ensaio da banda! — completou Jasper, orgulhoso. — Eu já sei o esquema, Charlotte.
Henry olhou para mim e para Anny.
— Vocês querem vir? O Ray disse que vocês estão em fase de treinamento, mas acho que uma "excursão" de campo não faria mal.
— Com certeza! — eu e Anny dissemos ao mesmo tempo.
Saímos discretamente pelos fundos da escola, onde Schwoz já nos esperava com a caminhonete camuflada. Em poucos minutos, estávamos descendo pelo tubo para a Caverna Man.
Ray estava lá, já com o uniforme de Capitão Man, conferindo o seu escudo indestrutível.
— E aí, como foi a escola? — perguntou ele, animado. — Alguém te deu problemas? Quer que eu vá lá e mostre quem manda?
— Não, pai! — eu ri. — Foi tudo bem. Eu quase explodi um gerador de Van de Graaff, mas consegui me segurar.
— Esse é o meu garoto! — Ray deu um tapinha forte no meu ombro. — Agora, ouçam. O Toddler é um idiota, mas ele tem uns capangas novos que estão usando umas armas de cola. Nique, você fica na retaguarda com a Anny. Se as coisas ficarem pegajosas, você usa o seu choque para derreter a cola. Mas lembrem-se: máscaras sempre!
Schwoz nos entregou nossos novos dispositivos. Eu recebi uma máscara tecnológica que cobria a parte superior do meu rosto, combinando com um traje tático cinza escuro e azul que Schwoz tinha projetado para aguentar minhas descargas elétricas. Anny recebeu um traje semelhante, em tons de roxo e preto, com luvas que ajudavam a focar sua telecinésia.
— Prontos? — perguntou Kid Danger, soprando uma bola de chiclete.
— Prontos — respondi, sentindo a adrenalina correr.
Subimos pelos tubos. O armazém central de Swellview estava um caos. O Toddler, aquele vilão bizarro com cara de bebê gigante, estava gritando ordens para seus capangas enquanto tentavam carregar caixas imensas para um caminhão.
— Capitão Man! Kid Danger! — gritou o Toddler, fazendo birra. — Vocês sempre estragam a minha diversão! E quem são esses novos amiguinhos? O Capitão Man agora está fazendo babá?
— Na verdade, Toddler — disse Ray, avançando com um sorriso confiante —, esses são os nossos novos estagiários. E eles não gostam muito de vilões que usam fraldas.
A luta começou. Henry e Ray foram direto para o combate corpo a corpo. Eu e Anny ficamos estrategicamente posicionados nas vigas superiores.
— Ali, Nique! — apontou Anny. — Dois capangas estão tentando cercar o Henry por trás com os canhões de cola.
— Deixa comigo.
Eu me concentrei. Desta vez, eu não precisava me segurar. Eu apontei meus dedos para os canhões metálicos e deixei a energia fluir. Não foi uma explosão, mas um arco elétrico preciso. O choque atingiu os dispositivos, fazendo-os superaquecer e travar instantaneamente.
— O quê? Minhas armas de cola! — gritou um dos capangas.
Anny usou sua telecinésia para erguer os dois homens do chão e os girar no ar até que ficassem tontos o suficiente para caírem sobre uma pilha de almofadas velhas.
— Bom trabalho, Anny! — eu gritei.
De repente, o Toddler puxou um controle remoto de dentro do seu macacão.
— Se eu não posso ter as fraldas, ninguém vai ter o armazém! — Ele apertou um botão, e uma série de pequenas cargas explosivas presas às colunas de sustentação começou a apitar.
— Ray, as colunas! — alertou Henry.
— Schwoz, quanto tempo temos? — perguntou Ray pelo rádio.
— Dez segundos! — a voz de Schwoz soou desesperada. — Vocês precisam sair daí!
Ray olhou para cima, para onde eu e Anny estávamos. Ele não podia proteger a todos e desativar as bombas ao mesmo tempo.
— Anny, agora! — eu comandei.
Ela entendeu imediatamente. Anny fechou os olhos e estendeu as mãos. Eu senti a vibração do poder dela. Ela não estava apenas movendo objetos; ela estava tentando envolver as bombas em um campo de contenção telecinético.
— Nique, me ajuda! — pediu ela, o esforço visível em seu rosto. — Eu preciso de mais energia para estabilizar o campo!
Eu pulei da viga, aterrissando ao lado dela. Segurei suas mãos, deixando minha eletricidade fluir para dentro dela, não como um ataque, mas como uma bateria. Nossos poderes se misturaram — um brilho azul e roxo envolveu o armazém. No último segundo, as bombas explodiram, mas o som foi abafado e a força da explosão foi contida dentro de pequenas esferas de vácuo criadas pela telecinésia reforçada de Anny.
O armazém estremeceu, mas permaneceu de pé.
Ray correu até nós assim que a fumaça baixou. Ele parecia ter visto um fantasma, mas logo o susto foi substituído por um orgulho imenso.
— Vocês... vocês fizeram isso — disse Ray, olhando para as colunas intactas. — Aquilo foi uma combinação de poderes de nível elite.
— A gente faz uma boa dupla, não faz? — perguntei, ofegante, olhando para Anny.
— A melhor — respondeu ela, sorrindo, apesar do cansaço.
Henry se aproximou, prendendo o Toddler com algemas de alta segurança.
— É, acho que o treinamento de vocês está indo bem mais rápido do que o esperado.
Voltamos para a Caverna Man como heróis silenciosos. O dia tinha sido longo: escola, geradores de Van de Graaff, vilões bebês e explosões contidas.
Mais tarde, já de volta às nossas roupas normais, estávamos todos sentados no sofá da caverna comendo comida chinesa. Piper, a irmã do Henry, tinha passado por lá para gritar com o Henry sobre algo sem importância, mas até os gritos dela pareciam parte de uma sinfonia de normalidade que eu estava aprendendo a amar.
Ray se sentou ao meu lado, entregando-me um biscoito da sorte.
— Sabe, Nique — disse ele, num tom mais sério —, eu estava com medo de que a escola fosse demais para você. Que esconder quem você é fosse um fardo pesado.
— É difícil, pai — admiti. — Mas ter a Anny, o Henry e os outros... faz valer a pena. Eu prefiro esconder meus poderes e ter amigos de verdade do que ser um "príncipe dos vilões" em Metroburg e não ter ninguém.
Ray sorriu e abriu o seu próprio biscoito da sorte.
— O meu diz: "Você encontrará um grande tesouro onde menos espera" — leu ele. — Acho que o biscoito está atrasado. Eu já encontrei o meu tesouro catorze anos depois.
Eu abri o meu biscoito. O papelzinho dizia: "A verdadeira força vem da conexão com os outros".
Eu olhei para Anny, que estava rindo de algo que o Jasper disse, e depois para o meu pai, o herói indestrutível que tinha um coração tão grande quanto sua autoconfiança.
A vida em Swellview não ia ser fácil. Eu ainda teria que enfrentar aulas de matemática, o medo de ser descoberto e vilões malucos. Mas, pela primeira vez na vida, eu não estava apenas sobrevivendo. Eu estava vivendo. E com o meu pai ao meu lado e meu choque sob controle, eu sabia que o futuro era brilhante. Literalmente.