O lobo e o dragao
O Batismo das Cinzas
A aldeia dos Hunos não era um aglomerado de casas de pedra e jardins delicados como as vilas do vale do Rio Amarelo. Era uma cicatriz de couro, madeira bruta e osso fincada no coração das estepes. As tendas circulares, as iurtas, espalhavam-se como sentinelas cinzentas sob o domínio da grande estrutura de Shan Yu, uma construção robusta feita de troncos negros e peles de animais que exalava o poder absoluto de seu dono.
Mulan habitava aquela casa há semanas. Ela se tornara uma presença silenciosa, quase uma sombra decorativa que se movia entre as peles de urso e as armas penduradas nas paredes. Shan Yu a observava com uma satisfação predatória. Ele a tinha em sua cama todas as noites, sentindo a resistência dela diminuir a cada toque, a cada incursão de sua vontade sobre o corpo dela. Mulan parecia ter aceitado o inevitável. Ela comia o que lhe era servido, vestia as túnicas de lã pesada que ele lhe dava e não tentava mais alcançar as adagas que ele deixava propositalmente à vista, como um teste.
Shan Yu acreditava ter domado a flor de aço. Ele pensava que o isolamento e a força bruta haviam finalmente quebrado o espírito da guerreira chinesa, transformando-a na companheira que um rei das estepes merecia.
Ele estava enganado.
Naquela madrugada, o ar estava excepcionalmente parado, o tipo de silêncio que precede um desastre. Shan Yu dormia o sono profundo dos conquistadores, um braço pesado jogado sobre o lugar onde Mulan deveria estar. O primeiro sinal de que algo estava errado não foi um som, mas um cheiro.
O odor acre de fumaça, madeira resinosa queimando e o estalo seco de palha seca sendo consumida.
Shan Yu abriu os olhos. Suas pupilas amarelas se dilataram instantaneamente. O lugar ao seu lado na cama de peles estava frio. Mulan não estava lá.
Ele se levantou de um salto, o torso nu brilhando sob a luz alaranjada que começava a filtrar pelas frestas da porta. Um clarão súbito iluminou o interior da casa, seguido pelo som de gritos distantes e o relinchar frenético de cavalos. Shan Yu rosnou, uma vibração gutural de fúria pura. Ele correu para a saída, chutando a porta pesada.
O cenário lá fora era um inferno de brasas.
Três das iurtas principais, onde os suprimentos de inverno e as flechas eram guardados, estavam envoltas em colunas de fogo que subiam aos céus como serpentes de luz. O vento da estepe, antes calmo, agora soprava as faíscas para o restante da aldeia. Homens corriam com baldes de couro, mulheres gritavam ordens e o caos se instalava onde antes reinava a disciplina militar.
Shan Yu olhou para o chão, logo na entrada de sua casa. Seus dois guardas de elite, homens que haviam sobrevivido a invasões de muralhas, estavam estirados na terra. Não estavam mortos, mas desacordados, com marcas precisas na base do crânio — o trabalho de alguém que conhecia os pontos de pressão do corpo humano.
— Mulan... — o nome dela saiu como uma maldição e um elogio.
Ele deu um passo à frente, pronto para caçá-la no meio das chamas, quando sentiu o toque frio e familiar de metal contra sua nuca. A ponta de uma lâmina pressionava exatamente o ponto entre suas vértebras, com uma firmeza que não permitia dúvidas. Era a sua própria espada, a cimitarra pesada que ele deixara no suporte da parede, agora nas mãos de quem ele menos esperava.
— Não se mova, lobo — a voz de Mulan soou atrás dele, fria como o gelo da montanha, mas carregada com um triunfo vibrante que ele não ouvia há muito tempo.
Shan Yu ficou imóvel. Ele sentia o calor do incêndio à sua frente e o frio do aço atrás de si. Ele olhou de soslaio, vendo a silhueta dela pelo canto do olho. Mulan estava parada com as pernas afastadas, uma postura de combate perfeita. Seus cabelos negros estavam soltos, balançando com o vento quente das chamas, e seu rosto estava manchado de fuligem, transformando-a em uma visão de destruição e beleza.
Aos pés dela, jazia uma tocha de resina, agora apagada, que ela usara para semear o caos em seu território.
— Você incendiou minha aldeia — disse Shan Yu. Não havia medo em sua voz, apenas uma intensidade sombria.
— Você tentou destruir meu país — respondeu Mulan, dando um passo à frente, forçando-o a se inclinar levemente enquanto mantinha a espada em posição. — Agora estamos quites, Shan Yu. Você me levou para a sua cama acreditando que eu era uma prisioneira. Eu entrei nela para garantir que você dormisse o suficiente para eu queimar tudo o que você construiu.
Shan Yu sentiu um formigamento que não era provocado pelo perigo, mas por um desejo selvagem e incontrolável. Ele olhou para as chamas devorando seus estoques e depois para a mulher que o ameaçava. Ela estava magnífica. O fogo refletia em seus olhos escuros, e a audácia de seu plano — o fato de ela ter fingido submissão por semanas apenas para desferir aquele golpe — o atingiu como um tônico potente.
Ele estava com raiva, sim. Sua autoridade fora desafiada, seu povo estava em perigo e seus recursos estavam virando cinzas. Mas, acima de tudo, ele estava possuído por uma luxúria que quase o cegava. Ver Mulan ali, armada com sua própria espada, dominando o cenário de destruição que ela mesma criara, era a coisa mais sexy que ele já vira em toda a sua vida de conquistas.
— Você acha que isso me derrota? — perguntou Shan Yu, sua voz descendo para um tom rouco e perigoso. — Você apenas me deu um motivo para ser mais cruel.
— A crueldade é o seu único idioma — disse Mulan, um sorriso de canto aparecendo em seus lábios. — Eu apenas aprendi a falá-lo. Olhe para o seu povo, Shan Yu. Eles estão correndo como ratos. Onde está o grande conquistador agora?
Shan Yu moveu-se com uma rapidez que Mulan não previu. Ele não tentou fugir da lâmina; ele girou o corpo, deixando que o fio da espada fizesse um corte superficial em seu ombro, apenas para encurtar a distância entre eles. Antes que ela pudesse golpear novamente, ele agarrou o pulso dela com a mão esquerda e a desarmou com um golpe de mestre, jogando a cimitarra na terra.
Com a outra mão, ele a agarrou pela nuca, puxando-a para perto até que seus narizes se tocassem.
— Você é uma criatura magnífica e terrível — rosnou ele, o hálito quente misturando-se ao cheiro de fumaça. — Você queima o meu mundo e espera que eu te mate? Não... eu vou te devorar.
Mulan não recuou. Ela cravou as unhas no peito nu dele, sentindo os músculos retesados sob a pele.
— Então devore — desafiou ela, sua respiração acelerada. — Mas saiba que eu sou o fogo que vai te consumir por dentro.
Shan Yu não esperou mais. Ele a beijou com uma ferocidade que era pura violência e desejo. Era um beijo que carregava o gosto da fuligem e da rebelião. Mulan retribuiu com a mesma intensidade, mordendo o lábio inferior dele até sentir o gosto metálico do sangue. Eles eram dois animais lutando em meio aos escombros de um império.
Ao redor deles, a aldeia continuava a queimar, mas naquele pequeno espaço entre a casa de Shan Yu e o caos, o tempo parecia ter parado. Ele a levantou do chão, as pernas dela enlaçando sua cintura com uma urgência que nenhum dos dois tentava esconder.
— Você tentou me destruir — murmurou ele contra a pele do pescoço dela, enquanto a carregava de volta para dentro da casa, ignorando o incêndio lá fora. — Mas você apenas provou que é a única mulher capaz de governar ao meu lado.
— Eu não governo ao lado de ninguém — sibilou Mulan, enquanto ele a jogava sobre a mesa de madeira bruta, derrubando mapas e taças de vinho. — Eu sou o seu castigo.
— Então me castigue — respondeu Shan Yu, rasgando a túnica dela com um movimento brusco, expondo a pele pálida à luz das chamas que entravam pela porta aberta.
O ato sexual que se seguiu foi desprovido de qualquer suavidade. Foi uma extensão da batalha que vinham travando desde as montanhas de neve. Shan Yu a tomou com uma força que exigia submissão, mas Mulan respondia a cada movimento com uma agressividade que o desafiava a ir mais longe. Ela era o fogo que ele tentava apagar, e ele era a tempestade que tentava sufocá-la.
Cada estocada, cada arranhão nas costas dele, cada grito abafado de Mulan era um eco do incêndio que rugia lá fora. Eles se consumiam com a mesma fome que as chamas devoravam as tendas. Naquele momento, não havia China, não havia Hunos, não havia dever ou honra. Havia apenas a carne, o calor e a percepção de que ambos eram feitos da mesma matéria selvagem.
Shan Yu segurou as mãos de Mulan acima da cabeça dela, prendendo-as contra a madeira. Ele olhou nos olhos dela, vendo a chama da vitória ainda acesa, apesar de estar sob seu comando físico.
— Você incendiou o meu território — disse ele, ofegante, o suor brilhando em seu corpo. — Mas agora, eu vou incendiar o seu sangue.
— Você já fez isso — admitiu Mulan, um sorriso selvagem e dolorido cruzando seu rosto. — Por que você acha que eu ainda estou aqui? Eu poderia ter fugido na escuridão, Shan Yu. Mas eu queria ver o seu rosto quando percebesse que eu sou a sua ruína.
Shan Yu soltou um rugido que se misturou ao som de uma estrutura desabando lá fora. Ele se entregou ao clímax com uma violência que o deixou trêmulo, desabando sobre ela, sua testa encostada na dela. O silêncio voltou à casa, embora o mundo exterior ainda estivesse em chamas.
Lentamente, Shan Yu se afastou, olhando para a mulher à sua frente. Mulan estava desgrenhada, nua e vitoriosa em sua própria derrota. Ele estendeu a mão e limpou uma mancha de cinza da bochecha dela.
— A aldeia pode ser reconstruída — disse ele, sua voz agora calma, mas cheia de uma promessa sombria. — Mas o que você fez hoje... isso nunca será esquecido. Meus homens verão as cicatrizes deste fogo e saberão que sua rainha é mais perigosa que qualquer exército inimigo.
Mulan sentou-se na mesa, ajustando o que restava de suas roupas. Ela olhou para a porta, onde a fumaça começava a se dissipar sob o céu do amanhecer.
— Eu não sou sua rainha — disse ela, embora não houvesse mais o mesmo veneno de antes.
— Ainda não — respondeu Shan Yu, pegando sua cimitarra do chão e entregando-a a ela, cabo primeiro. — Mas você vai ser. Porque, depois de hoje, ninguém mais neste mundo ousará te tocar, exceto eu. E ninguém mais ousará me desafiar, porque sabem que eu tenho o dragão ao meu lado.
Mulan pegou a espada, sentindo o peso do metal. Ela olhou para Shan Yu, para o homem que ela tentara matar e que agora a olhava com uma devoção distorcida e brutal. Ela sabia que a guerra estava longe de terminar, e que sua alma talvez nunca mais encontrasse o caminho de volta para a paz dos jardins de magnólias.
Mas, enquanto ela observava as cinzas de sua própria rebelião, Mulan percebeu que, nas estepes, sob o comando do lobo, ela havia encontrado uma liberdade que a China jamais permitiria: a liberdade de ser tão destrutiva quanto o destino exigisse.
— Então que comecem as reconstruções — disse ela, levantando-se e caminhando em direção às chamas que ainda restavam. — Mas lembre-se, Shan Yu... se você me der as costas novamente, eu não queimarei apenas a sua aldeia. Eu queimarei o mundo inteiro.
Shan Yu sorriu, seguindo-a para fora, para o meio de seu povo que aguardava ordens. Ele sabia que tinha ao seu lado não uma prisioneira, mas uma força da natureza. E juntos, eles seriam o incêndio que o mundo jamais seria capaz de apagar.