O melhor amigo do meu vizinho
O Jantar das Máscaras Caídas
A sala de jantar da mansão dos Jeon exalava uma opulência fria que fazia Any Gabrielly se sentir como uma peça de decoração fora de lugar. O lustre de cristal acima da mesa retangular de mogno parecia pesar toneladas, e o som dos talheres de prata batendo discretamente na porcelana chinesa era o único ruído que preenchia o ambiente, além da música clássica baixa que tocava ao fundo.
Any ajeitou o vestido de seda azul-marinho, sentindo o tecido apertar levemente em sua cintura. Ela estava nervosa, e não era apenas pelos enjoos matinais que insistiam em aparecer à noite. Ao seu lado, Jungkook parecia uma estátua de gelo. Ele estava impecável em um terno preto, mas a mandíbula travada e a forma como ele apertava o guardanapo de pano denunciavam que ele estava a um passo de explodir.
Do outro lado da mesa, os pais de Any, que haviam voado do Brasil às pressas, mantinham expressões de um apoio forçado. Dona Laura olhava para a filha com olhos marejados, uma mistura de decepção e amor incondicional, enquanto o pai de Any, Sr. Roberto, encarava o Sr. Jeon com uma desconfiança que atravessava o oceano.
— É uma situação... inesperada — começou o Sr. Jeon, a voz polida e desprovida de qualquer emoção calorosa. — Nós tínhamos planos muito específicos para o futuro do Jungkook, especialmente agora que ele está avançando na engenharia. Uma responsabilidade dessas nesta idade...
— Com todo o respeito, Sr. Jeon — interrompeu o Sr. Roberto, a voz firme apesar do desconforto —, minha filha também tinha planos. Ela é uma das melhores alunas da universidade dela. Se estamos aqui, é para apoiar os dois, não para lamentar o que "Poderia ter sido".
— Claro, claro — interveio a Sra. Jeon, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Mas precisamos ser práticos. Jungkook sempre foi muito próximo da família Park. Inclusive, convidamos os Park e a filha deles, Min-jee, para se juntarem a nós esta noite. Eles devem chegar a qualquer momento.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Jungkook largou o garfo com um estalo metálico que fez todos sobressaltarem.
— Vocês fizeram o quê? — perguntou Jungkook, a voz baixa e perigosa. — Eu disse que este jantar era para as nossas famílias se conhecerem e discutirmos o futuro do meu filho. O que os Park têm a ver com isso?
— Eles são nossos sócios e amigos de longa data, querido — respondeu a mãe dele, suavemente. — Min-jee acabou de voltar de Paris. Achamos que seria bom você ter perspectivas... diferentes.
— Perspectivas? — Any finalmente falou, a voz tremendo levemente de indignação. — A senhora está sugerindo que, enquanto eu carrego o filho do Jungkook, ele deveria estar considerando outras "opções"?
Antes que a Sra. Jeon pudesse responder, a campainha tocou. Momentos depois, os Park entraram na sala de jantar. Min-jee era a definição da perfeição coreana: pele de porcelana, cabelos negros impecáveis e um vestido de grife que custava mais do que o carro de Any. Ela sorriu para Jungkook como se Any fosse invisível.
— Jungkook-ah! Quanto tempo — disse Min-jee, aproximando-se para um cumprimento formal que carregava uma intimidade desnecessária.
Taehyung e Shivani, que estavam sentados na ponta da mesa como "mediadores" convidados por Any, trocaram olhares de pânico. Taehyung limpou a garganta, tentando desesperadamente aliviar a tensão.
— Ah, Min-jee! Que surpresa maravilhosa — mentiu Taehyung, levantando-se com seu carisma forçado ao máximo. — Você chegou bem na hora da... da entrada! Shivani, você não acha que a salada está incrível?
— Sim, maravilhosa — murmurou Shivani, tocando o braço de Any por baixo da mesa em um gesto de solidariedade. — Any, você quer um pouco de água? Você parece pálida.
Any apenas assentiu, sentindo o estômago revirar. A humilhação de ser tratada como um "incômodo" no jantar que deveria ser sobre a sua nova família era quase insuportável.
— Então — disse o Sr. Park, sentando-se e ignorando completamente os pais de Any —, ouvi dizer que houve um pequeno... deslize. Coisas de jovens, imagino. Mas o Jungkook é inteligente, saberá priorizar o que é importante para o legado da família.
— Um deslize? — Jungkook repetiu a palavra, e agora ele estava de pé. — O "deslize" de que você fala é o meu filho. E a mulher sentada ao meu lado é a mãe dele.
— Jungkook, sente-se — ordenou o Sr. Jeon, a voz engrossando. — Não cause uma cena na frente dos nossos convidados.
— Convidados que eu não chamei! — rebateu Jungkook. Ele olhou para Min-jee, que parecia subitamente desconfortável. — Min-jee, você é uma ótima pessoa, mas eu não tenho interesse nenhum em qualquer plano que meus pais tenham traçado para nós. Eu amo a Any. E eu vou cuidar dessa criança com tudo o que eu tenho.
Dona Laura, a mãe de Any, levantou-se também, a coragem brasileira sobrepondo-se à intimidação daquela mansão.
— Sabe, eu vim para cá preocupada com a minha filha — disse ela, olhando diretamente para a Sra. Jeon. — No Brasil, nós valorizamos a família, mas valorizamos a verdade acima de tudo. Se vocês acham que podem comprar o futuro do seu filho e descartar a Any como se ela fosse um erro de percurso, vocês não conhecem a filha que eu criei. Ela é forte, ela é talentosa e ela não precisa da aprovação de quem não respeita a vida que está por vir.
— Mãe... — Any sussurrou, sentindo uma onda de gratidão.
— Vamos embora, Any — disse o Sr. Roberto, levantando-se e colocando a mão no ombro da filha. — Não precisamos ficar aqui para sermos insultados por pessoas que colocam negócios acima de sangue.
— Esperem — pediu Shivani, levantando-se também, sua voz doce mas firme ecoando na sala. — Sr. e Sra. Jeon, eu sou intercambista aqui e aprendi muito sobre a cultura coreana e o respeito. Mas o respeito deve ser mútuo. O que está acontecendo aqui não é digno de nenhuma das duas famílias. Any e Jungkook estão tentando fazer a coisa certa. Por que tornar isso mais difícil?
Taehyung, vendo que a situação estava fugindo do controle, colocou-se entre Jungkook e o Sr. Jeon.
— Tio, por favor — disse Taehyung, usando o termo familiar para tentar acalmar o Sr. Jeon. — O Jungkook nunca esteve tão decidido sobre algo na vida dele. Vocês sempre reclamaram que ele era fechado, que não se importava com nada. Olhem para ele agora! Ele está protegendo o que é dele. Isso não é o que um homem Jeon deveria fazer?
O Sr. Jeon permaneceu em silêncio por um longo tempo, observando o filho. A tensão era tão densa que parecia que o ar poderia entrar em combustão.
— Eu não vou permitir que esse jantar continue assim — disse Jungkook, pegando a mão de Any e ajudando-a a se levantar. — Any, pegue suas coisas. Sr. e Sra. Gabrielly, peço desculpas pela falta de educação da minha família. Eu vou levá-los para um lugar onde possamos realmente conversar.
— Jungkook, se você sair por aquela porta... — começou a Sra. Jeon, a voz carregada de ameaça.
— Eu vou estar fazendo exatamente o que vocês me ensinaram — interrompeu Jungkook, olhando para a mãe com uma frieza que a fez recuar. — Sendo independente. Só que, ao contrário de vocês, eu vou ter alguém que me ama de verdade ao meu lado, não alguém escolhido por um contrato social.
Any sentiu uma força renovada ao ouvir as palavras de Jungkook. Ela olhou para Min-jee, que desviava o olhar, envergonhada, e depois para os sogros, que pareciam subitamente pequenos em sua própria mansão.
— Vamos, Shiv — chamou Any, mantendo a cabeça erguida. — Tae, você vem?
— Com certeza — respondeu Taehyung, pegando um pãozinho da mesa antes de sair. — Eu perdi o apetite para comida chique e ganhei fome de tteokbokki de rua.
O grupo saiu da mansão sob o olhar atônito dos Jeon e dos Park. Quando as portas duplas de madeira maciça se fecharam atrás deles, o ar fresco da noite de Seul pareceu o melhor perfume do mundo.
Jungkook caminhou até o carro dele, mas parou antes de abrir a porta, puxando Any para um abraço apertado. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, respirando fundo.
— Me desculpa — sussurrou ele, a voz rouca. — Eu não fazia ideia de que eles chegariam a esse ponto.
— Está tudo bem, Kook — Any disse, afastando-se para olhar nos olhos dele. — Agora nós sabemos exatamente com o que estamos lidando. E você me defendeu. Meus pais viram isso.
O Sr. Roberto aproximou-se, pigarreando. Ele olhou para Jungkook por um longo tempo, avaliando o jovem coreano que tinha acabado de desafiar toda a sua linhagem pela sua filha.
— Você tem coragem, rapaz — disse o pai de Any, estendendo a mão. — No Brasil, nós dizemos que homem que é homem assume suas responsabilidades. Você fez mais do que isso hoje. Você assumiu o seu lado.
Jungkook apertou a mão do sogro com firmeza.
— Eu não vou falhar com ela, Sr. Roberto. Nem com o meu filho.
— Bem — disse Dona Laura, limpando as lágrimas e sorrindo para Shivani e Taehyung —, agora que o drama acabou, eu realmente preciso comer algo que não tenha gosto de "dinheiro e amargura". Taehyung, onde é esse lugar de comida de rua que você mencionou?
— É para já, sogrona! Digo... Dona Laura! — Taehyung brincou, fazendo todos rirem, quebrando finalmente o gelo da noite.
Eles se dividiram nos carros. Any foi com Jungkook, e o silêncio entre eles agora era confortável, preenchido apenas pelo som do motor e pela sensação de vitória.
— Você está bem mesmo? — perguntou Jungkook, tirando a mão do câmbio para segurar a de Any.
— Para ser sincera? — Any sorriu, olhando para as luzes da cidade passando pela janela. — Eu nunca me senti tão segura. Eu sabia que você era intenso, Jeon Jungkook, mas ver você enfrentando o seu mundo por nós... foi a coisa mais linda que já vi.
— Eu faria de novo — ele afirmou, beijando os nós dos dedos dela. — Mil vezes se fosse preciso.
Eles terminaram a noite em uma barraca de rua movimentada em Hongdae, cercados por estudantes barulhentos e o aroma de comida apimentada. Ali, sentados em bancos de plástico vermelho, com os pais de Any rindo das histórias de Taehyung e Shivani traduzindo as piadas, a família parecia real.
Não havia talheres de prata ou lustres de cristal, mas havia verdade. Any olhou para Jungkook, que estava ocupado tentando ensinar o Sr. Roberto a usar os hashis corretamente, e sentiu o bebê chutar pela primeira vez. Foi um toque leve, como o bater de asas de uma borboleta, mas foi o suficiente para fazê-la sorrir.
— Ele chutou — sussurrou ela, pegando a mão de Jungkook e colocando sobre sua barriga.
Os olhos de Jungkook se arregalaram. Ele parou tudo o que estava fazendo, concentrando-se no toque. Quando sentiu o pequeno movimento sob a palma de sua mão, sua expressão séria desmoronou em um sorriso de pura maravilha.
— Oi, carinha — sussurrou Jungkook, ignorando todos ao redor. — O papai está aqui. E ninguém vai encostar em você ou na sua mãe.
Any encostou a cabeça no ombro dele, sentindo-se finalmente em casa. O jantar com os Jeon fora um desastre planejado, mas o resultado fora uma união que nenhuma tradição ou contrato poderia destruir. Eles eram Any e Jungkook, e contra o mundo deles, ninguém tinha chance.