O melhor amigo do meu vizinho
O Veneno em Taça de Cristal e o Deboche como Escudo
O celular de Any Gabrielly vibrou sobre a bancada da "Cup & Soul" em um momento de calmaria. Ao ver o nome no visor — Sra. Jeon —, um calafrio percorreu sua espinha, mas ela não recuou. Desde o desastroso jantar na mansão, o silêncio da família de Jungkook havia sido absoluto, e Any sabia que aquele hiato não duraria para sempre. Ao atender, a voz da sogra soou surpreendentemente doce, quase melosa, convidando-a para um almoço em um restaurante renomado em Gangnam.
— Quero deixar as diferenças de lado, Any. Afinal, você carrega meu neto — dissera a mulher.
Any, que não tinha um pingo de ingenuidade no sangue brasileiro, aceitou. Ela sabia que era uma emboscada, mas como dizia para Shivani: "Se querem me dar o palco, eu vou fazer o show".
Quando Any entrou no restaurante "L'Étoile", o ar condicionado gelado e o cheiro de perfume caro a receberam. Ela usava um vestido de malha canelada verde-oliva que abraçava suas curvas e destacava a barriga que começava a apontar com orgulho. Seus cachos estavam soltos e selvagens, uma afronta direta ao minimalismo rígido do local.
Ao ser conduzida à mesa reservada, Any não encontrou apenas a Sra. Jeon. Sentadas como se estivessem em um tribunal de moda, estavam a Sra. Park e sua filha, Min-jee.
— Ora, se não é a estrela do momento — disse a Sra. Park, ajustando os óculos escuros sobre a cabeça, sem sequer se levantar.
— Boa tarde para vocês também — Any respondeu, puxando a cadeira com uma elegância natural que parecia irritar Min-jee. — Achei que seria um almoço em família, Sra. Jeon. Não sabia que o fã-clube do Jungkook também tinha sido convidado.
Min-jee apertou os lábios, os olhos brilhando com um desprezo mal disfarçado.
— Somos amigas da família, Any. Estamos aqui para dar suporte à Sra. Jeon em um momento tão... delicado — disse a jovem coreana, enfatizando a última palavra.
— Delicado? — Any soltou uma risada curta enquanto abria o cardápio. — Engraçado, eu chamo de "milagre da vida". Mas entendo que, para quem vive de aparências, a vida real pareça um pouco pesada demais.
O almoço foi uma sucessão de ataques velados. A Sra. Jeon falava sobre a linhagem dos Jeon como se estivesse descrevendo cavalos de raça, enquanto a Sra. Park fazia comentários ácidos sobre "estrangeiras que não entendem o protocolo".
— Você sabe, Any — começou a Sra. Jeon, cortando seu filé com precisão cirúrgica —, o futuro do Jungkook na engenharia exige uma esposa que saiba transitar entre embaixadas e jantares de gala. Uma pessoa que... fale a nossa língua, em todos os sentidos.
— Eu falo coreano, Sra. Jeon. E falo português, inglês e um pouco de espanhol — rebateu Any, bebendo um gole de suco. — Acho que comunicação não será o problema. Talvez o problema seja o que vocês têm a dizer, que geralmente não é muito interessante.
— O que ela quer dizer — interrompeu Min-jee, inclinando-se para frente — é que você é um obstáculo. Jungkook sente pena de você. Ele é um homem de honra, por isso não te deixou. Mas quanto tempo você acha que a "pena" sustenta um relacionamento?
Any pousou o copo lentamente. Ela olhou para Min-jee com um sorriso que não chegava aos olhos, um sorriso que Jungkook chamava de "o perigo brasileiro".
— Pena? — Any inclinou a cabeça. — Engraçado você dizer isso. Na noite passada, enquanto ele massageava meus pés e beijava minha barriga, ele não parecia estar sentindo pena. Ele parecia estar... bem ocupado sendo grato por eu ter entrado na vida dele e tirado ele desse mar de tédio que vocês chamam de sociedade.
A Sra. Park engasgou com o vinho, e o rosto de Min-jee ficou vermelho.
— Você é vulgar — sibilou a Sra. Park.
— Eu sou real — corrigiu Any. — Vulgar é convidar alguém para almoçar e tentar destruir a família dela entre a entrada e o prato principal.
Após o almoço, que Any fez questão de apreciar até a última garfada de sobremesa, a Sra. Jeon anunciou que iriam ao shopping.
— Meu neto precisa de roupas de qualidade — disse a sogra. — Não quero que ele use... seja lá o que você compra naquelas lojinhas de Hongdae.
O passeio no shopping de luxo foi ainda pior. As três mulheres entravam nas boutiques de bebê, apontando para peças de seda e algodão egípcio que custavam o preço de um aluguel.
— Este conjunto ficaria lindo no bebê — disse Min-jee, segurando um macacãozinho azul pálido. — É uma pena que o pai vá estar tão ocupado viajando comigo para as conferências da empresa no ano que vem que mal vai ver a criança usando isso.
Any se aproximou, tirando o macacão das mãos de Min-jee e devolvendo-o ao cabide.
— O Jungkook não vai a conferência nenhuma com você, querida. Ele já me disse que vai tirar licença para me ajudar com as fraldas. Ele está ansioso para ver se o bebê vai ter os meus cachos ou os olhos dele. Sabe como é... ele é meio obcecado por mim. É até cansativo às vezes.
A Sra. Jeon parou no meio do corredor da loja, virando-se para Any com uma expressão gélida.
— Any, seja razoável. Nós podemos resolver isso. Uma quantia generosa, uma vida confortável no Brasil... você pode ter tudo o que quiser, desde que deixe o Jungkook seguir o destino dele. Sem amarras. Sem esse "erro".
Any sentiu o sangue ferver, mas não perdeu a compostura. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da sogra.
— Um erro? — Any tocou a própria barriga. — O seu neto é um erro? Sabe o que eu acho? Eu acho que vocês estão morrendo de medo. Medo porque, pela primeira vez, o Jungkook não está seguindo o roteiro de vocês. E ele não está fazendo isso porque eu o obriguei. Ele está fazendo isso porque ele descobriu que a vida fora dessa bolha de cristal é muito mais colorida.
— Você vai acabar com a carreira dele! — gritou a Sra. Park, atraindo olhares de outros clientes.
— A carreira dele vai muito bem, obrigada — debochou Any. — Ele acabou de tatuar uma fênix enorme nas costas de um idol famoso e ganhou mais em uma tarde do que vocês gastaram nesse almoço amargo. Ele tem talento nas mãos, não precisa do sobrenome de vocês para brilhar.
Min-jee tentou uma última cartada, aproximando-se de Any enquanto as mães se afastavam para fingir interesse em um berço.
— Você acha que ele te ama? — sussurrou Min-jee. — Ele gosta do novo. Do exótico. Mas quando o bebê chorar a noite toda e você estiver gasta e cansada, ele vai lembrar de como a vida comigo seria fácil.
Any soltou uma gargalhada que ecoou pela loja de luxo.
— "Exótico"? Que palavra brega, Min-jee. E sobre ele me amar... bom, eu não preciso "achar". Eu vejo nos olhos dele toda vez que ele acorda e a primeira coisa que faz é procurar minha mão. — Any sorriu maliciosamente, aproximando-se do ouvido da rival. — E se você está tão preocupada com o cansaço dele, deveria saber que ele tem muita energia. Muita mesmo. Às vezes eu que tenho que pedir para ele ir com calma. Mas você nunca saberia disso, não é? O Jungkook sempre te tratou como um móvel de escritório: útil, mas sem graça.
Min-jee recuou, chocada com a audácia. Any se virou para a Sra. Jeon, que observava a cena de longe.
— Sra. Jeon, obrigada pelo almoço e pelo passeio. Mas eu não preciso das suas roupas de seda para o meu filho. Ele vai ter algo muito mais valioso: pais que se amam e que não tentam comprar as pessoas. Ah, e se quiserem mandar mais cheques ou propostas de viagem, mandem para o meu e-mail. Eu adoro ler para o Jungkook antes de dormir, a gente dá ótimas risadas juntos.
Any caminhou em direção à saída do shopping com a cabeça erguida. Ela sentia as pernas tremerem um pouco pela adrenalina, mas a sensação de vitória era inebriante. Ao chegar na calçada, viu o carro preto familiar estacionado.
Jungkook estava encostado na porta, usando óculos escuros e uma expressão de tédio que se iluminou instantaneamente ao vê-la. Ele não deveria estar ali, mas Any sabia que Taehyung provavelmente tinha "vazado" o local do almoço.
— Como foi o covil das leoas? — perguntou ele, abrindo a porta para ela.
Any entrou no carro, jogando a bolsa no banco de trás e respirando o perfume amadeirado dele que preenchia o veículo.
— Digamos que elas tentaram me morder, mas eu tenho dentes mais afiados — Any sorriu, puxando-o pela gola da jaqueta para um beijo rápido e intenso. — Sua mãe tentou me comprar de novo. E a Min-jee... coitada, ela realmente acha que tem uma chance.
Jungkook suspirou, ligando o motor. Ele parecia irritado com a família, mas havia um orgulho óbvio na forma como olhava para Any.
— Eu sinto muito por elas, Any. Eu avisei que não queria que você fosse.
— Eu precisava ir, Kook. Precisava mostrar que a "brasileira barulhenta" não se assusta com porcelana fina. — Ela acariciou o braço tatuado dele. — Elas odeiam o fato de que você me prefere. Elas odeiam que a gente seja real.
— Eu não prefiro você, Any — disse ele, parando no sinal vermelho e olhando-a nos olhos com aquela intensidade que sempre a desarmava. — Eu preciso de você. É diferente. Elas podem tentar o que quiserem, mas o meu mundo agora gira em torno desse carro, desse apartamento e de vocês dois.
Any sorriu, encostando a cabeça no banco.
— Sabe o que eu disse para a Min-jee? — perguntou ela, com um brilho travesso nos olhos.
— O quê? — Jungkook perguntou, já temendo a resposta, conhecendo o deboche da namorada.
— Eu disse que você era muito... enérgico. E que ela nunca saberia o que é isso porque você a via como um móvel de escritório.
Jungkook soltou uma risada alta, a primeira do dia.
— Any Gabrielly, você é impossível!
— Eu sou autêntica, Jeon Jungkook. E se elas quiserem jogar sujo, eu jogo com a verdade. E a verdade é que você está louco por mim.
— Estou — admitiu ele, acelerando o carro pelas ruas de Seul. — Completamente louco.
Enquanto o carro se afastava do distrito de luxo, Any olhou pelo retrovisor e viu as três mulheres saindo do shopping, parecendo pequenas e amargas sob o sol da tarde. Elas tinham o dinheiro, os nomes e as joias, mas Any tinha o coração do homem que elas tanto queriam controlar. E, mais do que isso, ela tinha a si mesma — inteira, sem filtros e mais forte do que qualquer uma delas jamais seria.
— Vamos passar no drive-thru e comprar o maior hambúrguer que existir? — pediu Any. — Falar com gente rica me dá uma fome de gente normal.
— Seu desejo é uma ordem, minha rainha do deboche — respondeu Jungkook, mudando a rota.
A vida em Seul não seria fácil. As armadilhas da família Jeon continuariam, as críticas da sociedade seriam constantes, mas enquanto estivessem naquele carro, rindo da audácia um do outro e planejando um futuro que pertencia apenas a eles, Any sabia que nada poderia derrubá-los. O veneno delas tinha sido servido em taças de cristal, mas Any tinha o antídoto: um amor que não podia ser comprado e uma língua afiada que não pedia desculpas por existir.